Legado de Sangue e Ouro livro 3
25 Explosão
O salão, que horas antes transbordava uma alegria cautelosa, tornou-se subitamente frio. Caelum entrou com o peso de mil anos sobre os ombros. Ele não se sentou; parou no centro do tapete real e, com a voz desprovida de qualquer emoção, relatou cada palavra, cada ameaça e o ultimato implacável do Cardeal Roma.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Siena sentiu as mãos gelarem, mas seus olhos foram direto para Arthur.
No momento em que o Rei pronunciou a frase "o reino estará acabado", algo se rompeu dentro de Arthur. O homem que, minutos antes, sorria e trocava olhares cúmplices com Siena, desapareceu. Em seu lugar, o Capitão de Mármore retornou com uma força violenta.
Arthur se empertigou, a mandíbula tão travada que os músculos do rosto saltaram. Seus olhos, antes quentes, tornaram-se duas fendas de aço frio. Ele deu um soco estrondoso na mesa lateral, fazendo as taças de cristal saltarem e uma delas se estilhaçar no chão.
— Acabado? — a voz de Arthur saiu como um rosnado baixo, vibrando com um estresse que ele não tentava mais esconder. — Eles falam de "leis naturais" enquanto vendem indulgências nas províncias? Roma ousa ameaçar a estabilidade do trono por causa de um dogma que eles dobram quando lhes convém?
— Arthur, acalme-se... — tentou intervir Julian, mas o filho se virou para ele com uma fúria contida que fez o Duque recuar um passo.
— Me acalmar, pai? — Arthur começou a andar de um lado para o outro, os passos pesados ecoando como marchas militares. — Eu passei anos sangrando nas fronteiras para que aquele homem pudesse dormir em lençóis de seda e incenso. Eu protegi a fé deles com a minha espada, e agora eles usam essa mesma fé para me tratar como um leproso? Para tratar a Siena como uma maldição para o reino?
Ele parou diante de Caelum, a respiração pesada, o estresse emanando de cada poro de sua pele. O "mármore" de sua expressão era agora uma máscara de guerra.
— O que ele quer, Majestade? Quer que nos curvemos? Quer que eu assista Siena ser entregue a um príncipe estrangeiro qualquer para satisfazer a sede de poder do Clero? — Arthur apontou para a porta, a voz subindo de tom. — Se Roma quer uma guerra de almas, que assim seja. Mas eu não vou permitir que um homem que nunca empunhou uma arma decida quem eu tenho o direito de amar ou proteger!
Siena aproximou-se, tentando tocar o braço dele. — Arthur, por favor, olhe para mim...
Ele se afastou do toque, não por rejeição a ela, mas porque a raiva o consumia de tal forma que ele parecia incapaz de sentir qualquer suavidade. Ele estava em modo de combate.
— Não, Siena. Agora não — ele disse, a voz ríspida, os olhos fixos no nada. — Se o reino vai acabar por causa de uma união de sangue e honra, então o reino já está podre por dentro. Eu não vou ser o peão de um cardeal.
Arthur pegou sua capa que estava sobre uma cadeira e a jogou sobre os ombros com um movimento brusco.
— Vou para o quartel — anunciou ele, sem olhar para trás. — Preciso de homens que entendam de lealdade, não de padres que entendam de política. Se Roma quer nos derrubar, que venha tentar. Mas ele terá que passar por cima do Capitão de Mármore primeiro.
Ele saiu do salão como uma tempestade negra, deixando para trás uma família atônita e uma Siena que, pela primeira vez, teve medo não da Igreja, mas da escuridão que a ameaça de separação despertara no homem que ela amava. O Falcão não estava mais voando; ele estava mergulhando para o ataque.
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