Cinco anos haviam se passado desde que os sinos da Catedral de Cristal tocaram para o casamento mais polêmico de Astúria. O reino não apenas sobreviveu, como floresceu sob a regência firme da Loba e o olhar estratégico do Falcão.

​O sol de outono dourava o jardim privativo, onde a família estava reunida para um banquete descontraído. Siena estava sentada em uma poltrona de vime, com um menino de três anos, Caelum II, dormindo pesadamente em seu colo, enquanto um bebê robusto de apenas dez meses, Arthurzinho, engatinhava freneticamente pelo tapete de grama, tentando caçar a barra da capa de Julian.

​— Ora, vejam só esse pequeno... ele tem o mesmo olhar obstinado do pai quando quer derrubar um oponente — riu Julian, desviando o pé para não ser "capturado" pelo bebê.

​Siena olhou para o Cardeal Roma, que estava presente como convidado de honra (e para garantir que a linhagem estava em ordem), e deu um sorriso travesso.

​— O senhor está vendo, Cardeal? — Siena disse, a voz vibrando com aquela antiga centelha de provocação. — Eu disse que cumpriria o acordo. O senhor pediu um herdeiro homem... eu lhe dei dois! Se eu continuar nesse ritmo, em dez anos terei um exército pessoal para proteger este castelo.

​O Cardeal Roma limpou a garganta, tentando manter a dignidade enquanto escondia um meio sorriso atrás da taça de vinho.

— A Igreja está... satisfeita com a sua eficiência, Majestade.

​Arthur, que estava de pé atrás de Siena com a mão pousada em seu ombro, soltou uma risada rara e sonora.

— Eficiência é a palavra de ordem nesta família, Cardeal. Mas confesso que a logística de cuidar de dois lobinhos é mais complexa do que qualquer campanha no Norte.

​O Segredo de Aria

​O clima era de absoluta paz, até que Aria, observando o carinho entre o filho e a nora, suspirou com uma expressão nostálgica que atraiu a atenção de todos.

​— É lindo ver vocês dois — disse Aria, sua voz suave carregada de uma sabedoria antiga. — Sabem, o destino de Astúria sempre foi tecido com fios muito parecidos. O que vocês viveram... não foi a primeira vez que o fogo tentou queimar as regras.

​Caelum travou com a taça de vinho a meio caminho da boca. Catarina e Julian trocaram um olhar cúmplice, mantendo o silêncio.

​— Do que você está falando, mãe? — perguntou Arthur, arqueando a sobrancelha.

​— Há muitos anos — começou Aria, olhando para o céu — eu e o seu tio Caelum também descobrimos que o mundo era pequeno demais para o que sentíamos. Nós nos amamos com a mesma urgência que vocês. Estávamos prontos para incendiar tudo.

​O choque foi geral. Siena quase acordou o pequeno Caelum no colo. Richard engasgou com o riso.

— O quê?! Caelum e Aria? O Rei severo e a Duquesa doce? — Richard exclamou. — Isso daria um livro de fofocas de três volumes!

​Aria sorriu para o Rei, que agora mantinha o olhar fixo no horizonte, um pouco corado.

— Mas então, Julian apareceu na minha vida com sua lealdade inabalável, e Catarina surgiu para Caelum com sua força de Rainha. Nós entendemos que o nosso amor juvenil precisava se transformar em algo maior: em amizade e aliança. Decidimos seguir em frente para que Astúria tivesse duas frentes de poder. Duas famílias fortes que, um dia, pudessem gerar o que nós dois não podíamos.

​Ela apontou para Arthur e Siena.

— Nós nos separamos para que vocês pudessem nascer. O amor que eu e Caelum tivemos foi a semente que permitiu que vocês dois, hoje, pudessem finalmente unir o que nós deixamos para trás.

​Siena olhou para a mãe, Catarina, e para o sogro, Julian.

— Vocês... vocês sabiam disso esse tempo todo?

​— Minha querida — disse Catarina, aproximando-se e beijando a testa da filha — uma Rainha sabe de tudo o que acontece em seu tabuleiro, especialmente sobre os corações que batem ao seu lado. Eu e Julian sempre soubemos. E sempre soubemos que vocês seriam o final feliz que a geração anterior não pôde ter.

​Arthur apertou a mão de Siena. O círculo estava completo. As dores do passado, os sacrifícios de seus pais e as batalhas que eles mesmos travaram contra o clero e o parlamento não foram em vão.

​— Bem — disse Arthur, quebrando o silêncio de surpresa com um brilho divertido nos olhos — acho que isso prova que a teimosia é mesmo hereditária.

​A família explodiu em risos. O bebê no chão finalmente alcançou o pé de Julian e soltou um grito de vitória, enquanto o sol se punha sobre uma Astúria que não era mais feita de mármore e gelo, mas de carne, osso e histórias de amor que desafiaram o tempo.

​A Loba e o Falcão haviam vencido. E em seus filhos, o reino teria para sempre o equilíbrio perfeito entre o fogo que aquece e o aço que protege.

​FIM

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