O castelo de Astúria, que antes ecoava com as risadas e provocações de Siena, tornou-se o cenário de um jogo de sombras unilateral. O aviso de Arthur no estábulo não fora apenas uma explosão de raiva; era uma nova diretriz de conduta. Para ele, Siena agora era invisível.

​Nos dias que se seguiram, Siena tentou, de todas as formas, quebrar o gelo. Não com vinho ou ousadia, mas com uma tentativa genuína — e quase desesperada — de redenção.

​A Biblioteca e o Silêncio

​Arthur estava sentado em uma das mesas da biblioteca, cercado por mapas de logística. Siena entrou silenciosamente, trazendo uma pequena bandeja com chá e os biscoitos de mel que ele tanto gostava na infância.

​— Arthur, eu pensei que você pudesse estar com fome... — ela começou, colocando a bandeja com cuidado na borda da mesa.

​Arthur nem sequer ergueu os olhos do mapa. Sua pena continuou a traçar rotas com uma precisão cirúrgica. Ele simplesmente moveu o mapa para longe da bandeja, como se estivesse evitando um obstáculo incômodo, e continuou seu trabalho em silêncio absoluto. Siena esperou por cinco minutos, o coração batendo na garganta, mas o único som no recinto era o arranhar do metal contra o papel. Ela saiu, deixando o chá esfriar sozinho.

​O Jantar e a Humilhação Pública

​A situação atingiu o ápice durante o jantar com toda a família reunida. O clima era leve, com Richard contando histórias de suas caçadas, até que Siena decidiu arriscar uma reaproximação na frente de todos, esperando que a presença dos pais o forçasse a ser cordial.

​— Arthur — disse ela, a voz clara, embora um pouco trêmula. — Eu li sobre as novas táticas defensivas que você sugeriu ao meu pai. São brilhantes. Gostaria de saber mais sobre como você pretende organizar a cavalaria leve.

​A mesa silenciou. Caelum e Catarina olharam para o sobrinho, esperando a resposta. Julian sorriu, achando que a trégua finalmente chegaria.

​Arthur levou a taça de água aos lábios, bebeu um gole lento e, então, voltou-se para Gaspar, ignorando completamente a pergunta de Siena.

​— General Gaspar — disse Arthur, a voz firme e impessoal — o senhor acredita que o suprimento de grãos para as guarnições do Leste será suficiente para o inverno, ou devemos reforçar as rotas de comércio agora?

​O choque percorreu a mesa. Siena sentiu o sangue fugir do rosto. Ser ignorada em particular era uma coisa; ser apagada da existência na frente dos Reis e de seus próprios pais era uma ferida profunda em seu orgulho.

​— Arthur... — murmurou Aria, tocando o braço do filho. — Siena falou com você.

​Arthur finalmente olhou na direção de Siena, mas seus olhos eram vazios, como se estivesse olhando através dela para a parede de pedra atrás.

​— Perdoe-me, mãe — respondeu ele, seco. — Eu estava focado em assuntos de real importância para a segurança de Astúria. Assuntos que exigem maturidade e atenção.

​Siena apertou os talheres com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos. O deboche de Richard teria sido um alívio comparado àquela indiferença glacial.

​— Com licença — Siena disse, levantando-se abruptamente.

​Ela não correu, mas sua saída foi rápida. Catarina fez menção de segui-la, mas Caelum colocou a mão sobre a da esposa, balançando a cabeça negativamente. O Rei olhou para Arthur, que já havia voltado a conversar com Gaspar como se nada tivesse acontecido.

​— Você está sendo duro demais, Arthur — comentou Caelum, o tom de voz subindo um oitavo.

​— O mundo lá fora é mais duro que o silêncio, Majestade — rebateu Arthur, sem demonstrar um pingo de remorso. — Algumas pessoas só aprendem o valor da presença quando descobrem o peso da ausência.

​Naquela noite, Siena não bebeu. Ela sentou-se na janela de seu quarto, olhando para o pátio escuro, entendendo que a "Loba" não fora apenas repreendida; ela fora banida do mundo do "Falcão". E o silêncio de Arthur estava doendo muito mais do que qualquer grito que ela já tivesse ouvido.