Legado de Sangue
1 "Querida Anna..."
Notas iniciais
Fechei meus olhos e me concentrei no arrebentar melódico das ondas abaixo de mim. Suspirei... Depois acabei praguejando um ou dois palavrões. Eu costumava amar aquele som; o mar, o vento assobiando no alto do penhasco, a natureza seguindo seu curso. Era uma música ancestral, simples, que poucos tinham a habilidade de apreciar e que no geral até me fazia algum sentido, mas naquele dia era só mais uma cacofonia irritante. Não estava servindo para abafar meus pensamentos. Pelo contrário; parecia deixá-los cada vez mais estridentes.
Talvez esteja na hora de procurar alguém perfeito para o que você é agora, dissera ela. Longe de La Push. Não me leve a mal, mas não sobrou muitos caminhos para você aqui.
Reprimi o impulso de maldizê-la, embora na hora eu a tenha mandado ir se ferrar. Anna era a minha melhor amiga, sem dúvida a melhor e mais leal que eu poderia querer, mas não havia como negar que a demônia tinha um talento único para cutucar as feridas certas com palavras incisivas e no momento oportuno. Se ela tivesse dito isso em qualquer outro dia, talvez eu até teria encarado como um conselho delicado...
Mas era dia de festa no lar dos Uley. Estavam comemorando a gravidez de Emily.
De verdade, eu estava relativamente conformada com a vidinha de merda que eu levava em La Push. Minha mãe nem tão adorável assim, Sue Clearwater, dava sinais de enfim ter superado o luto nos braços de Charlie Swan, o amigo de longa data da família; meu abobalhado irmão mais novo, Seth, acabou encontrando sua alma gêmea como qualquer escravo inevitável do imprinting ao olhar nos olhos de Anna Masen, a nova integrante do clã de sanguessugas Cullen; e todas as desavenças entre os quileutes e a trupe de vampiros fedorentos de Forks pareciam ter encerrado, ainda o adicional de ter restado para mim o posto de Segunda no comando na matilha de Jacob Black, o líder chorão porém justo.
Eu estaria não feliz, mas satisfeita... se não me sentisse tão presa, tão parada no tempo enquanto todos à minha volta tocavam com suas vidas, mesmo que fosse na base da magia forçada do imprinting. Aquela gravidez era simplesmente a gota d’água. Perder o amor de Sam para a minha própria prima já havia sido doloroso, mas assisti-los tendo um filho juntos... Formando uma família que talvez eu jamais pudesse vir a ter...
Respirei fundo e tranquei o maxilar, deixando-o erguido. Era uma de minhas muitas manobras para segurar o choro, e eu me recusava a derramar mais uma mísera lágrima por culpa de Sam. Era muito mais fácil ter raiva. Não dele, até porque eu nunca conseguia, por mais que tentasse, mas de Anna, porque foi a maldita vampira quem plantou aquelas bombas na minha cabeça.
Você ainda vai achar a sua metade também...
Alguém perfeito para o que você é agora.
Para o que você é.
Quase como se estivesse reagindo à voz ecoando na minha cabeça, passos se aproximaram de mim pela retaguarda silenciosamente, cautelosos apesar de um tanto desajustados. Eu não precisava me virar para saber que se tratava de Seth; ainda que o vento ali no penhasco soprasse na direção contrária e me impedisse de sentir seu cheiro, ele era o único corajoso ou maluco o bastante para interromper os meus minutos de solidão contemplativa.
— Não devia estar na festa? – resmunguei, pouco me importando com o azedume no tom. Ser amargurada já era o meu estado de espírito natural; a imagem infame que eu havia cavado entre as matilhas.
Ouvi-o expirar de impaciência:
— Você também foi convidada, Leah.
Virei-me para fuzilá-lo com os olhos. Não faria diferença se o convite chegasse por escrito, que uma carruagem viesse me buscar ou que eu fosse recebida por um tapete vermelho com querubins tocando trombetas pelo traseiro. Eu não daria as caras naquela festa de jeito nenhum.
— Mamãe mandou você vir aqui, não foi? – conjecturei com um bufar sarcástico. – De qualquer forma, eu não ligo. Se não der meia volta e cair fora com as próprias pernas, vou atirá-lo daqui a pontapés, e imagino que não queira amassar a roupa. – Seth passara a ser um poço de vaidade desde que conhecera a namorada, e era bom usar isso a meu favor para importuná-lo.
— Meu deus, você está um saco. E não, não foi a mamãe que me pediu para vir. – A ênfase deu a entender que a nossa mãe não tinha o dedo enfiado naquela história, mas que alguém tinha. E pelo ar ansioso na expressão dele, eu já até sabia quem era.
— Anda, desembucha, cachorrinho. O que a sua mestra de adestramento pediu para você fazer?
Deixou-me apreensiva Seth não ter se incomodado com o meu deboche para cima do seu relacionamento, que era até bem equilibrado se comparado aos padrões ridículos de casais imprinted.
— Ela quer... – Ele vacilou, engolindo em seco. – Anna precisa falar com você. Quer que eu lhe convença a ir na festa.
Um silêncio anormal tomou conta do alto do penhasco. Até o próprio vento parecia ter se calado, ou talvez fosse apenas a fúria me tornando surda para o resto do mundo. Quando consegui encontrar a língua, foi a minha loba interior que veio à tona responder:
— O quê?— vociferei, os ombros já trêmulos nos espasmos da transformação.
Tendo aturado os meus acessos explosivos desde que usava fraldas, Seth nem se abalou; somente deu de ombros e espalmou as mãos no alto, claramente tirando o corpo fora.
— Não é para você entrar nem nada. Ela não deu muitos detalhes, mas é para você encontrá-la na margem da floresta do lado da casa da Emily. – E então fez uma careta. –Ainda falou que eu poderia usar as palavras “embalagem de fábrica” como moeda de troca, apesar de eu não entender para que diabos isso serviria.
Endireitei-me no ato. Eis uma coisa pela qual eu não esperava; as palavras tiveram sobre mim o efeito de um balde de água fria. Anna e eu nos tornamos amigas muito antes de Seth e ela se tornarem um casal, o que na minha humilde opinião fazia a nossa amizade ser mais importante, portanto tínhamos uma longa lista de piadas internas. Só que aquela piada em específico, além de ser recente, escondia um segredo bobo que Anna estava empenhada em manter na surdina.
Ela não usaria essa cartada se não fosse necessário, se não fosse algo urgente. Especialmente por intermédio de Seth.
— Certo... Talvez eu dê uma passada por lá – cedi, e tive o prazer de ver seu queixo cair de incredulidade. – Diga a Anna que vou assobiar quando estiver por perto. Ah, e quanto à moeda de troca, devolva as palavras “dois ou três meses”. – Ri por dentro, imaginando a reação dela. – É bom para ela entender que esse pedido está me custando caro e que eu vou cobrar o preço no lombo de alguém.
— Como se ela já não soubesse – escarneceu, comprimindo o cenho. – Não vai me explicar que código é esse, vai?
— Óbvio que não. – Abri um sorriso maquiavélico, instintivamente. – Mas você está aprendendo bem rápido, pirralho. Acredite quando digo que logo não vai precisar que ninguém explique, ou ensine, nada.
Ele fechou a cara e, de súbito, parecia ter dez anos de novo. Seth detestava ser alvo de chacota ou da condescendência de alguém, sobretudo quando não compreendia o motivo. E isso tendia a acontecer com frequência por ele ser o mais jovem da matilha de Jacob.
— Não está sendo muito coerente, Lee-Lee – provocou, usando o apelido odioso pelo qual Sam costumava me chamar. – Talvez esse lugar esteja afetando seus neurônios. Logo vai estar que nem a velha McAllister doida, dançando em volta de fogueiras e conversando com abutres.
Sorri mais largo, sem me perturbar. Se ele estava apelando para as armas antigas, significava que eu atingi em cheio o objetivo de irritá-lo. Passei por ele já em direção às árvores, mas não antes de dar dois tapinhas presunçosos no seu ombro.
— Guarde o que eu falei. Em dois ou três meses, você vai ligar os pontos.
Seth não me seguiu, deixando-me avançar sozinha na trilha que ziguezagueava entre os carvalhos, mas senti seus olhos nas minhas costas, ao longe, quando desviei a rota para a praia em vez de seguir direto para a casa de Emily. A praia talvez fosse o meu lugar favorito em toda a reserva; o cheiro salgado da maresia, a imensidão das águas cinzentas que se confundiam com o céu no horizonte, a melodia borbulhante das ondas, tudo se encaixava perfeitamente de modo a fazer os problemas parecerem insignificantes. Sempre quis aprender a surfar por conta da água, apesar de não ter tido oportunidade. Porém, eu já não passeava por ali como antes, pelo menos não à luz do dia; estava sempre lotada e, sendo La Push do tamanho de uma ervilha onde todo mundo conhecia todo mundo, os cochichos sobre a ranzinza Clearwater tendiam a ser frequentes.
O que explicava o meu ponto de escape ter se alterado para o alto do penhasco. Mesmo que a bruxa McAllister já tivesse batido as botas e que, por consequência, o local tivesse se tornado inofensivo, os mais supersticiosos continuavam a evitá-lo.
O inverno estava chegando ao fim. O clima gelado ainda persistia, entretanto não estava chovendo, então a praia estava apinhada de famílias inteiras aproveitando a tarde de domingo. Senti um mal-estar na boca do estômago ao vê-los brincando, correndo, rindo uns com os outros; na última vez que tive algo similar, eu julgava ser uma humana comum e meu pai ainda estava vivo. E por mais que agora, como loba quileute, eu tivesse uma família enorme, porque querendo ou não e para o bem ou para o mal, a matilha era exatamente isso: uma família imensa, intrometida e barulhenta, eu me sentia mais solitária e excluída do que nunca.
Acabei desistindo da caminhada pela praia. Permitir que esses pensamentos despertassem só me deixava mais seca por dentro. E eu já estava farta da pessoa negativa que me tornei.
Decidida a parar de enrolar e acabar com a tal conversa com Anna logo de uma vez, peguei um caminho alternativo para a casa de Emily, um que me desse acesso ao terreno pela floresta na lateral e que me poupasse o trabalho de ter que olhar nas fuças de qualquer um deles. Era um desvio extenso, mas eu gostava de caminhar; ajudava a colocar a mente em ordem. Quando me encontrava próxima o suficiente para ser ouvida, usei os dedos mindinhos para criar um assobio agudo, recostando-me no tronco de um carvalho em seguida.
Não levou nem um minuto para Anna surgir no meu plano de visão, usando um vestido cor grafite e botas altas como apenas os forasteiros ousariam usar em La Push. Ao contrário de seu irmão Edward e os demais Cullen, ela tinha uma beleza confortável, cativante, que eu duvidava que fosse resultado somente da hibridez ou dos outros dons que ela absorvera com o passar dos anos. Fosse o que fosse, tornava Anna mais perigosa do que qualquer vampiro que já conheci.
Os olhos verdes dela pareciam viajar a quilômetros de distância, mas se focaram totalmente nos meus quando ela me jogou uma mochila preta, que eu apanhei por reflexo.
Siga as instruções, orientou, lançando mão do seu poder de comunicação mental.
Sobressaltei-me, incrédula. Era uma mochila de acampamento. Por que raios ela me daria uma mochila de acampamento se eu não estava de partida... ou será que estava? Não demorei para captar o objetivo do gesto. Congelei no lugar e sorri com malícia para disfarçar que meus olhos estavam se enchendo de lágrimas emocionadas. Ninguém fizera algo tão legal por mim desde que Jacob não me expulsou da matilha.
Está me mandando embora?, zombei, outra das técnicas para driblar o choro. Tudo por que não quer que Seth saiba do seu segredinho?
Por um breve segundo, imaginei ter visto o sorriso que ela deu desenvolver presas. Posso pensar em meios mais criativos que isso, Leah.
E era verdade. Anna não estava me oferecendo uma saída motivada por interesses próprios, a garota se importava de fato comigo. Parei para pensar, não na minha decisão, até porque ela já estava tomada, mas sim no impacto que ela causaria nos que ficassem. Devo me despedir?
Ela considerou a pergunta. Penso que não. Eles podem fazer você mudar de ideia. Mas a escolha é sua.
Muito deliberadamente, adiantei-me para abraçá-la, deixando impresso na força que usei tudo o que eu queria dizer e não consegui porque a voz e as palavras me fugiram, tamanha foi a onda de emoções que me engolfou. Mas ela sabia. Anna sempre sabia. Ninguém no mundo poderia me compreender melhor do que ela.
Eu tinha sorte por ter uma amiga assim.
— Cuide deles por mim – pedi, tão baixo que nem a audição apurada da matilha seria capaz de detectar.
— Vou sentir sua falta. Vá e não olhe para trás.
Fiz que sim, dando-lhe as costas e sumindo floresta adentro. Puxei o zíper da mochila, ignorando os rolos de dinheiro e as passagens de avião, encentrando-me somente na carta dobrada de qualquer jeito por cima.
Preste atenção, Leah,
Primeiro, não surte. Você é a droga da minha cunhada agora, então pense que terá a eternidade inteira para me devolver. Segundo, estou cansada de vê-la sofrer e sei que encontrará seu destino longe daqui, apenas estou dando uma ajudinha.
Aqui encontrará:
Passagens de avião (tenho sempre algumas guardadas para imprevistos)
Sua documentação (sim, invadi sua casa e as peguei)
Dinheiro vivo e trocado nas moedas mais comuns (USE)
Telefone para emergências
Há um avião de pequeno porte lhe esperando em Port Angeles. Pegue um taxi até lá. Quando chegar em Seattle, pelo amor de Deus, tome um banho de loja e tire essa cara de caipira. Compre roupas, porque você está sem bagagem e não vou permitir que leve nada de La Push – não quero que se agarre a lembranças. Você terá em torno de dezoito horas para fazer isso antes do próximo voo, que a levará para sua primeira escala real: San Diego. Lá você encontrará Baco, um velho amigo meu, que lhe ajudará com a questão do passaporte e lhe dará um cartão de crédito no seu nome. NÃO SEJA TEIMOSA E ACEITE, você vai precisar. Ah, e não diga nada a ele. Baco já sabe o suficiente sobre essa vida. A partir deste ponto, você decide para onde vai (mas, como sugestão pessoal, deveria aprender a surfar aí).
Não quero saber se você tem o cacete do telefone, escreva. Escreva sempre, porque quero saber como se sente, e através das visões poderei ler suas cartas. Mas as quero todas quando você voltar, portanto trate de guardá-las bem.
Seja feliz.
Com saudade,
Anna.
PS: Cuide-se. Você está para descobrir que no mundo há coisas muito piores do que eu e você.
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