Legado de Sangue
2 "Essa palhaçada nem começou e já estou arrependida..."
Notas iniciais
Anna, sua maldita Barbie gótica,
Qual é o seu problema?! Primeiro, que ideia é essa de enfiar vinte mil dólares na minha bolsa?! Para onde acha que vou com isso tudo, passear na Disney?! Já pensou no que eu vou fazer se for parada pela polícia? Caso não tenha percebido, não é todo mundo que tem essa sua cara de pau para se livrar de uma situação assim. Se bem que... Acho que já entendi. Esse dinheiro é para suborno, certo?
Segundo, por que diabos me mandou para uma boca de fumo versão californiana? Falando sério, se eu quisesse ver adolescentes estúpidos usando drogas, teria ficado em casa assistindo Skins. Mas acredito que consegui captar o seu ponto sobre o Baco; certas coisas são melhores quando permanecem do jeito que estão, e em terra de fé em deuses, os sanguessugas não tem vez.
Mudando de assunto, adorei San Diego. Parece ser grande o bastante para eu passar despercebida, e eu com certeza vou aderir a sua dica do surf. As ondas do mar são espetaculares, e só por contemplar essa visão, a viagem até aqui já valeu a pena, mesmo considerando um certo desencontro com um estúpido desagradável no aeroporto. Obrigada. De verdade.
Não sei por que me pediu para escrever. Acabei de reler essa porcaria e parece o diário de uma garotinha de dez anos. Só que trato é trato, então aproveite.
Irritadamente,
L.
O avião aterrissou com um solavanco mínimo na pista, manobrando suavemente para um hangar privativo na lateral. Só percebi que me segurava ao banco a ponto dos tendões ficarem brancos quando o piloto desligou o motor e tirou os fones de ouvido, arqueando a sobrancelha para mim como faria com um mendigo. O homem não me dirigira a palavra durante os quinze minutos de voo e eu não tinha certeza se deveria ficar grata por isso, dado que o taxista que me levou até Port Angeles tagarelou sozinho por uma hora inteirinha.
Puxei os fones e entreguei a ele calada, deduzindo que a melhor forma de parecer educada seria dar o fora dali o mais rápido possível, antes que ele arranjasse uma vassoura para me enxotar. Eu sabia que não estava lá muito apresentável e isso me preocupava um pouco; na breve olhadela que dei no interior da mochila na hora de pagar o taxista, reparei que lá dentro tinha um montante muito maior do que eu inicialmente calculara, tanto que eu já estava com uma tendência inconsciente de me agarrar a ela igual a um colete salva-vidas. E não era preciso ser muito inteligente para intuir que a equação “índia de casaco velho e botas enlameadas mais bolsa cheia de dinheiro” ia dar um resultado negativo caso eu fosse enquadrada pelos policiais.
E deus me livre ter que recorrer ao Charlie para me livrar de um pepino assim. Ficar no xadrez era preferível a correr o risco de ser delatada para a minha mãe.
Chamei um taxi assim que coloquei os pés na rua, e por mais que faltasse quase um dia inteiro para o próximo voo, pedi ao motorista que me levasse direto para o Seattle-Tacoma International Airport. Para o inferno Anna e seus caprichos de menina rica com banhos de loja; eu e minha “cara de caipira” podíamos e iríamos nos virar muito bem sem aquela droga. Nos aeroportos, era comum ter um ou outro mochileiro perdido, desistindo da aventura e voltando para casa do jeito mais fácil, por essa razão eu supus que não seria um problema me misturar. Desci do carro diante de uma calçada movimentada e fingi não ver aos olhares atravessados de desprezo que recebi, porque sendo nativa-americana na nação mais racista do mundo, eu já estava acostumada com isso desde sempre.
A construção era gigantesca, cheia de treliças e envidraçada, de uma arquitetura moderna. No começo, senti-me um tanto intimidada, já que eu nunca estive em um lugar parecido e a cidade mais distante que cheguei a visitar em forma humana fora Olympia, cidade onde perdi minha virgindade, muito obrigada, Sam, por essas lembranças inúteis. Mas então alcancei a extensa praça de alimentação e relaxei no ato; tinha turistas de todos os lugares do mundo nas filas dos cafés e pontilhando as mesas, alguns até de bermuda apesar da temperatura amena. Meu estômago roncou alto quando senti o cheiro atrativo de bacon e ovos fritos, só ali me tocando que eu não havia ingerido nada o dia todo, porém decidi comer apenas depois que passasse em uma livraria. Se ia enfrentar várias horas de espera achatando a coluna contra uma cadeira desconfortável, pelo menos que fosse com uma boa distração.
Como era de se esperar, ninguém me deu qualquer atenção quando atravessei as portas de vidro e fui à caça da seção de romances; as atendentes continuaram cercando os clientes mais bem vestidos, e as que não conseguiram fingir que não estavam me vendo, tipo a loira sem sal lixando as unhas detrás do balcão, ignoraram totalmente a minha existência. Corri com o indicador pela prateleira de clássicos, considerando reler alguma coisa de Jane Austen como a refém enrustida de romances que eu sempre fui, mas mudei de ideia logo que vi uma coletânea da Agatha Christie nos destaques da loja. Eu adorava um bom mistério.
Estava indo em direção ao caixa quando vi um menino sentado sozinho em uma das poltronas espalhadas entre as seções, o cenho tenso de concentração no livro de capa dura que ocupava metade do seu colo. Pareceria uma cena normal, se não fosse o fato de não ter nenhum adulto por perto, o livro em questão ser o denso romance histórico Guerra e Paz e o garotinho claramente não ser mais velho do que seis anos.
Parei a uma distância segura dele, apontando o livro:
— Isso não parece estar nada divertido.
Ainda que estivéssemos a quase dois metros um do outro, o menino deu um pulo na cadeira que era como se eu tivesse gritado rente ao seu pescoço. Ele encarou os lados, confuso, porém relaxou os ombros depois de me analisar, a postura dando a entender que a aparência de maltrapilha me tornava inofensiva. Apertei a boca, estranhando a atitude. O usual seria o contrário.
— Meu pai costuma dizer que um cavalheiro não dedica tempo a coisas que não vão acrescentar em nada na sua educação – respondeu devagar até terminar com uma careta, cuidadosamente escolhendo as palavras apesar do sotaque carregado ser bem controlado.
Se ele já estava ostentando uma careta no rosto, eu nem queria imaginar a cara que eu estava fazendo. É verdade, o garoto tinha ares de bem nascido e de bem educado; usava camisa branca impecável, calça com suspensórios, sapatos engraxados, além de arquear os ombros da forma como ensinam as crianças ricas a fazer desde o engatinhar. Só que até para um pivete de internatos, aquilo já era exagero.
— É mesmo? – retruquei, cética. – E o que esse livro está acrescentando na sua educação agora?
— Está me fazendo perceber que eu não tenho talento nenhum para guerras e... – Ele franziu o nariz, desgostoso. – ...tramas políticas.
Ri baixinho.
— E isso lá é ruim? – Meus olhos se prenderem à figura familiar de um livro em capa vermelha no alto de uma pilha e eu me adiantei para pegá-lo, entregando-o ao garoto. – Aqui. Por que não lê isso?
Seu olhar desdenhoso alternou entre o livro e eu, altivo.
— Já li contos de fadas. No maternal.
— Não esses – objetei, fazendo uso do mesmo tom superior com que ele falou. – Você se engana se pensa que as versões originais dos contos de fadas eram para crianças. Essas histórias eram contadas nas rodas de conversas adultas e serviam para dar lições de moral e advertir uns aos outros. – Igual as lendas quileutes, pensei sozinha. – Diga isso ao seu pai quando estiver lendo.
— O que Alice no país das maravilhas poderia me ensinar? – Ele estudou o livro na altura do nariz com desconfiança.
Dei de ombros.
— Muito provavelmente “Não use drogas”.
O menino considerou a resposta pouco adequada a uma criança e sorriu, mas sorriu de verdade, até com os olhos, e somente então eu reparei o quanto ele era adorável. Os olhos eram os mais azuis que já vi na vida; celestes, claros, como um céu limpo de primavera. A pele era naturalmente bronzeada e o rostinho era formado por ângulos marcados, apesar das bochechas cheias típicas da infância. O cabelo castanho era farto, um tanto dourado, e caía em incontroláveis cachos sobre a testa. Se eu fosse escultora e precisasse de inspiração para fazer um anjinho, certamente recrutaria aquele garoto.
De súbito, percebi que eu também sorria. Algo na expressão dele me despertou um estranho senso de identificação, um sentimento indefinido que imediatamente tornava confortável estar na sua presença. E, ao que tudo indicava, ele sentiu a mesma coisa, porque colocou Guerra e Paz de lado na poltrona com o livro de contos de fadas em cima e ficou de pé para me estender uma mão, a outra posicionada de modo polido nas costas, feito um lorde.
— Meu nome é Arturo.
— Muito prazer, Arturo – cumprimentei e apertei a mão dele, em vez de fazer um comentário debochado para a conduta antiquada como em geral faria. – Meu nome é...
— Artie! – um grito vindo da entrada me calou e fez com que Arturo se afastasse rapidamente. – O que está fazendo?!
Pisquei, atônita. O homem que marchava na nossa direção cuspindo fogo pelas ventas parecia um modelo de capa de revista. Era uma versão mais velha de Arturo, óbvio; tinhas os mesmos olhos azuis elétricos, as mesmas linhas distintas do rosto e o mesmo bronzeado natural. As únicas diferenças de fato eram a barba rala despontando e o cabelo raspado de modo severo, mas a curvatura dos fios sugeria que, se ele os deixasse crescer, seriam a mesma massa nervosa de cachos castanhos-dourados do filho.
Sim, aquele sem dúvidas era o pai de Arturo, embora não estivesse tão bem vestido para um homem abastado que fazia o filho ainda menino ler Guerra e Paz. Os jeans surrados e a jaqueta marrom não estavam muito diferentes do meu aspecto de pobretona, mas bastou ser mirada de cima a baixo para eu saber que ele era alguém acostumado a tratar os outros com superioridade. Acredito que tenha sido isso, além da periculosidade no olhar, o que me deixou sem qualquer reação inicial, porque não consegui encontrar a minha voz quando ele puxou o garoto para longe de mim e o segurou pelos ombros.
— Papá! Perdóname! Yo...— Arturo começou com o lábio inferior tremendo.
— Quantas vezes tenho que dizer para não se deixar aproximar e nem conversar com estranhos?!— Eu estava tão estupefata pela situação que demorei mais tempo que o normal para me dar conta que o cara estava ladrando em espanhol. – Nunca se sabe a espécie de pessoa perigosa que pode estar ao seu lado...
— Ei, gilipollas— cortei-o, recobrando o mínimo de presença de espírito, porque se eu estivesse inteira ali, teria chamado ele de coisa muito pior –, meça suas palavras, eu consigo entender o que você diz, está bem? – Um dos meus poucos orgulhos na vida era ter sido uma aluna exemplar em espanhol no ensino médio. – E não estávamos fazendo nada demais, eu apenas fiz a indicação de um livro para o rapazinho. – Dei um sorriso tranquilizador a Arturo.
O homem ergueu o queixo para olhar no fundo dos meus olhos, e eu o senti adentrar tão profundamente que um arrepio de incômodo me subiu a espinha, obrigando-me a recuar um passo quando os instintos de loba protestaram ante ao ar de desafio. Não entendi se foi por eu ter colhões para enfrentá-lo ou se foi por eu ter demonstrado proficiência na sua língua, mas o cara se encheu de um ódio e de um pavor tão grande que pude ver as veias pulsando sua testa. De narinas infladas e depressa demais para que eu tivesse a oportunidade de detê-lo, o imbecil puxou o filho até a saída e sumiu de vista.
Ok, concluí, apertando a boca para guardar um palavrão. Ele acabou de completar o bingo dos três B’s: bonito, babaca e bizarro.
E eu achando que isso era exclusividade dos sanguessugas.
Possivelmente tendo visto o ocorrido e achando enfim que era bom momento para vir me atender, a lourinha entojada contornou o balcão e veio até mim com um jeitinho afetado que teria me dado nos nervos se eu não estivesse ainda tão abalada.
— Posso ajudá-la, senhorita? – perguntou, forçosamente cordial.
Olhei para a saída e depois para o livro de contos de fadas, apanhando-o também.
— Hã... Sim. Vou levar esses dois livros aqui. Dinheiro vivo.
Paguei com uma nota de cem pratas porque era só o que tinha dentro da mochila e, sem nem esperar pelo troco, peguei a sacola já traçando a minha rota atrás dos dois. Alcancei as portas de vidro a tempo de vê-los dobrando a curva que conduzia justamente para a praça de alimentação; acelerei os passos e não fiquei nada surpresa, embora tenha ficado mais furiosa, quando ele notou que estava sendo seguido e se virou bruscamente, escondendo Arturo da forma protetora na sua retaguarda como se eu fosse um animal selvagem pronto para o ataque, o que não era assim tão distante da verdade.
Apontei o indicador na cara do filho da mãe, quase encostando no nariz.
— Faça um favor ao mundo e vá se tratar, seu esnobe cretino doido de pedra. – Tirei o livro da sacola e estiquei-o ao menino, forçando-me a parar de fuzilar o pai dele com o olhar para dar uma última piscadela cúmplice. – E isto é para você, Arturo. Faça boa viagem... para onde quer que esteja indo.
Dei as costas e me afastei antes que fizesse alguma coisa estúpida, como socar o riquinho nas fuças em um local cheio de seguranças, sentando-me em uma das mesas vazias do outro lado da praça, próximo das janelas de vidro. Não sei como nem o porquê, mas eu podia sentir o olhar de ambos queimando na minha nuca enquanto eu tirava e apoiava a mochila sobre as pernas, mesmo com uma multidão nos separando. Recusei-me a levantar os olhos para eles um segundo que fosse, entretanto. Saquei a coletânea de Agatha Christie da sacola e dei início à leitura, sentindo-me tão consumida por pura raiva que perdi até a fome.
Meu pai costumava dizer que mulheres de gênio difícil como eu e a minha mãe se alimentavam de ódio. Passei a acreditar piamente nisso depois que me tornei uma loba, pois no auge da irritação eu era capaz de ficar longos períodos de vigia sem mover um único músculo, então não foi novidade eu ter levantado dali apenas muitas horas mais tarde, quando iniciaram as chamadas do voo para San Diego. À essa altura eu já tinha até terminado duas das histórias da coletânea, por isso decidi dormir durante a viagem, fato que foi facilitado pelo conforto da minha poltrona, já que acostumada a não dar pontos sem nó Anna reservou um lugar na primeira classe.
Acordei toda torta e um tanto dolorida quando o avião estava se preparando para o pouso. O sol estava a pino o céu, o calor era de fritar ovos no asfalto e eu já suava feito um porco antes de descer as escadas. Na área de desembarque, descartei discretamente a jaqueta velha na primeira lixeira que havia no caminho, ficando um pouco insegura quando todos os passageiros começaram a se dispersar, porque eu não tinha a menor ideia de para onde iria a partir dali. Anna havia me dito para encontrar seu amigo Baco... Só que eu não sabia absolutamente nada sobre o cidadão e muito menos como ele era.
Foi quando conjecturei telefonar para Anna e pedir informações que me dei conta de uma figura diminuta atrás da fita de demarcação na área de desembarque, acenando freneticamente para chamar a minha atenção. Ele era baixo e roliço, com cabelo loiro raspado, olhos azuis aguados e uma expressão infantil no rosto de bochechas caídas, apesar de claramente ter mais de trinta anos. Como se ainda não bastasse, usava uma camisa com estampa de coqueiros, bermuda cáqui e chinelos de dedo, compondo uma imagem esparramada que tornava mais difícil levá-lo a sério. Soube no ato que era o cara certo, porque além da aparência incomum de um humano que seria doido o suficiente para fazer amizade com alguém como a Anna, ele também balançava um cartaz enorme com as letras “L.C.” destacadas em negrito. Reprimi uma risada à medida que me adiantava até ele.
— Olá... Senhorita L.C.? – cumprimentou ansioso e hesitante.
— Eu mesma... Baco, certo?
Ele assentiu e, por um instante, tive a sensação de que ele me bateria continência.
— Anna pediu que eu viesse buscá-la no aeroporto. Acompanhe-me, por favor. – Baco fez um gesto eloquente para que nos dirigíssemos até a saída, sendo que só voltou a falar comigo quando estávamos a alguns metros de uma limusine branca estacionada em área privativa, que ele próprio me abriu a porta. – Como devo chamá-la?
Considerei a pergunta enquanto me acomodava no estofado de couro.
— L.C. está ótimo. – Se meu nome havia sido reduzido a uma mera abreviação, devia ser por um bom motivo.
— Às ordens. – Ele se sentou defronte a mim logo que fechou a porta e fez um aceno para o motorista dar a partida, apertando um botão de uma divisória que nos isolou. Devia ter algum tipo de bloqueio acústico no veículo, porque até para a minha audição apurada a música que tocava no rádio se tornou praticamente indistinguível. – A senhorita me parece do tipo impaciente, se me permite a ousadia, então creio que é melhor eu ir direto ao ponto. – Ele tirou um pacote pardo debaixo do banco e me entregou com um ar profissional. – Aqui está a encomenda.
Esvaziei o conteúdo do pacote e analisei os documentos entre minhas mãos um a um. Não havia apenas o meu nome neles: tinha também outros dois, e sabe-se lá como todos estavam com a minha foto, a mesma da carteira de motorista. Lily Cortéz e Liara Chayton. Quando Anna se dispôs a me dar alternativas para recomeçar, não imaginei que ela pudesse ser tão literal.
— Ela escolheu os nomes, não foi? – Um sobrenome latino e o outro indígena. Típico. – Vaca.
Baco se sobressaltou por me ouvir xingá-la, os olhos se ampliando feito pratos.
— Nunca movo um dedo que não seja seguindo estritamente as orientações dela – explicou com cautela, tentando se recompor do choque. – Três identidades, três documentações e três contas bancárias diferentes, todas abastecidas com um bom valor monetário inteiramente à sua disposição através destes cartões. E pode ficar tranquila, todos se passariam por legítimos em qualquer crivo policial, por mais rigoroso que seja. Meu único conselho, na verdade, é que não os guarde juntos; se for pega, isso de fato geraria alguns problemas e alguns meses de cadeia até descobrirem quem você é de verdade. Se aceita uma sugestão, escolha uma das identidades agora e podemos guardar as outras duas em uma caixa postal de fácil acesso para possíveis imprevistos.
Não precisei pensar muito. Leah Clearwater havia ficado para trás, em La Push; ela realmente merecia ficar de molho por algum tempo. Mas eu também não ia assumir a identidade de Lily Cortéz. Nada contra sobre ser latina, mas aquele “Lily” era um deboche explícito com “Lee-Lee”. Fiz nota mental de desenhar um dedo do meio no rodapé da página quando fosse escrever para Anna naquela noite.
— Sendo assim, Sr. Baco Não-Sei-Das-Quantas, eu lhe apresento Liara Chayton. – Trocamos um aperto de mão bem-humorado; ele fez uma carranca de suspeita com a temperatura da minha pele, embora não tenha dito nada. – Há quanto tempo conhece aquela demônia ruiva? – indaguei, tentando não dar tanta bandeira de que estava sondando o grau de conhecimento que ele tinha acerca dos vampiros.
O que vi no olhar dele não foi nada do que eu esperava. Baco entendeu, é claro, as reais conotações do que eu estava na verdade questionando, se ele tinha qualquer noção da imortalidade da criatura de quem falávamos. A questão é que ele reagiu de uma forma completamente diversa; em vez de demonstrar um pingo de temeridade que fosse, Baco se endireitou no banco todo respeitoso, e quando falou, era nítida a reverência na sua voz.
— Nos conhecemos treze anos atrás. Ela fazia negócios com meu antigo patrão e salvou a minha pele quando armaram para me fazer de bode expiatório. – Ele alisou a camisa para disfarçar o tom carregado de emoção. – Tudo o que tenho e tudo o que sou, eu devo a ela. – Então fez uma pausa meditativa e, de súbito, era ele quem parecia estar me sondando. – Não é todo mundo que tem a sorte de conhecer pessoalmente o santo de suas devoções...
Meu queixo caiu. Ai, meu deus, o pobre coitado não sabia de nada. E ainda achava que a Anna era uma divindade. Controlei as minhas bochechas para não cair na gargalhada ali mesmo; ah, se ele soubesse que eu já presenciei a santa para quem ele ajoelhava dando uns amassos nada angelicais no meu irmão. Dado o ultraje quanto aos meus xingamentos, deduzi que rir naquela hora equivaleria a acender o fósforo na ponta de uma banana de dinamite.
— Para onde estamos indo? – mudei de assunto propositalmente, encarando a cidade através do vidro escuro da limusine. A cidade era perfeita; aberta, ensolarada e o mar parecia o bálsamo ideal para o calor dos infernos.
— Para a minha casa. – Baco se mostrou grato e aliviado com a manobra evasiva, por isso sorriu largo. – Sei que se sentiria melhor em um hotel, só que Anna me instruiu a levá-la às compras, logo espero que aceite minha oferta de hospitalidade por um ou dois dias. Garanto que serei o mais cavalheiro e discreto dos anfitriões, Srta. Chayton.
Congelei, pois não consegui ouvir uma única sílaba depois de uma palavra em específico:
— Compras? – repeti igual a uma idiota.
— Compras. – Como eu a alguns segundos antes, Baco pareceu se esforçar para não rir. – E quanto à isso, ela foi bem categórica. Disse que se você não concordar em ir por livre e espontânea vontade, devo ir às lojas de grifes e trazer tudo em tons pasteis. – Sua sobrancelha loura fez um arco de desafio. – Posso lhe mostrar a lista de itens, se não acredita. – Ele tirou um papel amassado do bolso da bermuda e a primeira coisa que li de relance foi “calcinhas com estampas de cupcake tamanho M”.
Eu quis morrer. Quis tirar aquele sorriso do rosto de Baco com estrangulamento. Quis pegar um avião de volta à Forks somente para dar uma bofetada na cara de Anna. Mas esqueci toda a minha indignação quando a limusine parou e virou à esquerda para subir em uma calçada. A mansão na qual adentrávamos tinha duzentos metros apenas de jardim da frente, repleta de roseiras em flor contornando caramanchões. Havia fontes dos dois lados da escadaria principal, com estátuas em estilo clássico retratando a beleza feminina. Talvez o fato mais importante é que a mansão branca de três andares estava transbordando de gente, todos em roupas de banho dançando ao som de uma música ensurdecedora. Quando estacionamos e Baco me estendeu a mão para que eu descesse, entrevi um grupo carregando uma placa de uma irmandade da San Diego University.
Por todos os meus ancestrais, aonde é que eu fui parar?
— Peço desculpas por isso – Baco expirou quando alcançamos o terceiro andar, sendo que no caminho até lá eu fui testemunha do uso de pelo menos três drogas ilícitas. Meu único consolo foi descobrir que a partir dali tudo era perímetro particular, e para ter certeza de que os baderneiros iam respeitar o espaço, havia seguranças uniformizados em ambos os lados do corredor. – Fui informado de última hora da sua vinda e essa festa estava marcada já tem um mês. Universitários são bons para os negócios, sabe como é.
Ah, sim. Que pecado seria atrapalhar seus negócios de traficante.
— Tenho direito a um banho antes de sairmos? – resmunguei ao mesmo tempo em que engolia meus pensamentos ácidos.
— Mas é claro. – Baco me abriu a porta de um quarto gigantesco voltado para o mar, decorado por móveis de madeira e roupas de cama amarelo-claro. Em cima do lençol havia um jeans limpo e uma camiseta branca mais ou menos do meu tamanho, junto com um bloco de papeis de carta e canetas coloridas. – Vou deixar que se instale com calma e pedir que lhe sirvam alguma coisa. Tem preferência por algo específico?
Larguei a mochila de qualquer jeito na escrivaninha.
— Comida.
— Está certo. – Ele riu. – Venho buscá-la em uma hora. – Quando fechou a porta ao sair, todas as batidas da música ruim se cessaram. Isolamento acústico nas paredes. Realmente, o homem pensou em cada detalhe. Era só não começar a me tratar como divindade também e teríamos uma ótima convivência.
Sentei na cama com os ombros caídos e olhei em torno. Sozinha. Longe de casa. Renascendo como uma pessoa nova. Eu tinha que fazer esse tempo afastada de La Push valer a pena. Era questão de honra.
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