Legado Infiel
4 O Anúncio da Escuridão
Apesar do céu escuro como a morte as luzes dos estabelecimentos trazem uma lembrança da Terra para aquele local, lojas com luzes mágicas brilhando com pessoas entrando e saindo a todo momento. O centro comercial de Tenebrae se assemelha bastante com uma grande praça movimentada, o chão é constituído de pequenas pedras hexagonais que se encaixam criando um chão quase perfeitamente liso, no meio do centro uma estátua de ouro se movia lentamente ao passo de que os transeuntes jogavam algumas moedas diferentes ao seu redor. Ao mínimo toque das moedas no chão ao seu redor o grande dragão de ouro se movimenta, ora abanando suas asas, ora cuspindo um fogo dourado translucido.
As criaturas se moviam rapidamente e comumente se acertavam, porém, a gritaria não permite que nem as desculpas sejam ouvidas. Calmamente Alisson e Adriano tentam absorver o máximo de informação possível. Ambos ainda não haviam tido conexão com a cultura de Vyrtin e nesse momento foi como se ela os acertasse no rosto com um soco. Todavia, os minutos de excitação foram quebrados com a movimentação incomum de um grupo de criaturas.
No canto posterior, quase próximo do cais um grupo de elfos se emproam. As outras pessoas não ousavam se aproximar, todos eles com peles claras e com um tom bem claro de verde, as orelhas pontudas e orbes verdes se moviam ao redor de uma única pessoa. Seus cabelos loiros e claros despontavam em meio ao caos de luzes mágicas. No centro do grupo um elfo imponente alisava seu cabelo, ele é o maior de todos ali e suas vestes se diferiam. Todo o grupo veste tecidos alaranjados ou púrpuros, porém ele empodera-se com uma armadura prateada cobrindo quase toda sua pele, apesar de feita de metal a armadura parece extremamente leve. Ela é trançada por todo o corpo do elfo, como se fossem ramos de uma árvore que o abraçam ternamente.
O corpo de Pho há suas curvas extremamente acentuadas. Seus traços são finos e belos, como uma pintura das mais lindas luas. Os orbes avermelhados encontram-se com as de Alisson. Ele estira seu palmo como se o rosto de Al estivesse ao seu alcance, toca o ar como se acariciasse sua pele. O corpo inteiro de Alisson se arrepia e o garoto morde seu lábio inferior sem entender o que está acontecendo. O elfo no meio de seu grupo e metros longe de Al, por algum motivo fazem o sentir atraído.
— Al? – Adriano toca o ombro de Alisson que dá um pequeno grito abafado com suas mãos, o garoto não consegue desviar seu olhar de Pho que agora sorria como se estivesse brincando com o garoto. Adriano não consegue entender e procurando no meio da multidão finalmente encontra o alvo do olhar de Alisson.
— Você o conhece, Al? O que está acontecendo? – Adriano com força segura em ambos os ombros de Alisson o forçando a virar seu corpo. Al olha para Adriano sem entender o que ele queria. A armadura de Pho encrustada com pequenos cristais se movimentam tão bem com ele como se fossem grudadas a sua pele, o grupo de elfos abriu caminho para o General-Rei se mover.
— Alisson? – A voz melodiosa e doce de Pho ecoa dentro da cabeça de Al, aquele som adentra o corpo de Alisson como se fosse uma das melhores melodias que o garoto já havia ouvido em sua vida. Pho caminha calmamente em direção da dupla, todas as criaturas abrem caminho para seu movimento, apesar disso não há ansiedade nos movimentos do elfo. Ele se move lentamente com um sorriso em seu rosto, circulando seus lábios com os dedos.
Adriano se preocupa com a situação e não espera resposta de Al, tencionando seus músculos move Al para o meio da multidão no sentido oposto de Pho sem preocupação, nem tempo para delicadezas.
— Era só o que me faltava agora. – O garoto não entende direito a situação, porém corre em meio as vielas entre as lojas a procura de um lugar para poderem se esconder, após algumas ruas de distância Alisson firma seus pés no chão impedindo-se de ser levado à vontade de Adriano.
— O que é isso Adriano? Calma, não precisa me machucar. – Al cerra seu cenho, arrumando seu cabelo loiro e cessando o movimento que Ad o guiava.
— Você ficou lá todo apaixonado olhando praquele elfo alto. Achei melhor sairmos de lá. Me agradeça, fazendo favor. – Adriano complementa respirando mais fundo e verificando se há alguém atrás dele, porém aparentemente eles despistaram o grupo de elfos. Na ruela que estão somente há uma senhora sentada em uma poltrona tricotando calmamente olhando para o horizonte.
— Você já está com ciúmes? Nem sabia que tínhamos alguma coisa. – Alisson brinca, enquanto tenta arrumar sua camiseta que havia sido empurrada e puxada inúmeras vezes por Ad enquanto corriam.
— Não... Não disse isso! – Apesar de não se importar com isso, Adriano fica confuso e acaba corando com a situação. – Só estava tentando te proteger, não sabemos quem eram aqueles. Achei que éramos uma dupla, talvez esteja na hora de nos separar. – Termina Adriano com um tom mais ríspido do que o normal.
— Aquele era Pho, General-Rei de Vyrtin, acho eu ele é um Deus. Não me pergunte como sei isso, quando tentei lembrar o que aconteceu a única coisa que surge em minha cabeça é esse nome: Pho. – Alisson responde ignorando o que Adriano havia falado sobre se separar. Ele se aproxima de Ad e o envolve seu corpo em um abraço. – Obrigado, Ad. –
Adriano permanece rígido, porém não foge do abraço de Alisson. Ad está irritado, porém acha cativante o toque da pele de Al. O rosto de Alisson encosta em seu, Al cola sua bochecha na de Ad respirando fundo e sentindo o cheiro de ambos juntos. Aquele momento poderia durar uma eternidade, porém eles estão em uma luta pela sobrevivência, aquilo não poderia acontecer. Alisson se afasta segurando na mão de Ad e o puxando em direção da idosa que aparentava humana e permanecia sentada em um movimento rítmico.
— Senhora, pode nos dizer onde podemos passar a noite? – Alisson molda um sorriso e junta seus dedos ao de Adriano em um gesto gentil.
— Noite? Aqui sempre é noite. — A mulher ri com desdém do que Al falou e continua. — Acho que na Morte seja o único local onde poderão descansar bem. – A mulher dá mais uma risada histérica com sua própria fala.
— Morte? – Adriano pergunta se colocando à frente de Al como se pudesse o proteger da idosa. Alisson permanece sem entender e a mulher ri mais uma vez sem nem se dar o trabalho de responder o garoto. Ela levanta uma das agulhas de tricô, nesse momento ambos conseguem perceber que não eram agulhas de tricô como na Terra, eram na verdade dois ossos e a linha fios de cabelo. A idosa aponta para o fim da ruela e algo que antes não estava ali surge. Uma grande porta dupla com um letreiro com flores encrustadas em pedra que brilhavam como neons, porém sem energia alguma. O letreiro brilha em um tom arroxeado escrito “A Morte”.
Ainda na floresta, Loki e Helmut seguem Elora, a fada. A Floresta Flutuante finalmente mostra o motivo pelo seu nome, com o adentrar profundo da noite a floresta se torna extremamente escura e Helm insiste em pararem, pois não conseguia ver nem mesmo um palmo à sua frente. Elora, por outro lado não gosta muito da ideia.
— Não precisamos parar, em poucos instantes isso melhora e aposto que seu amigo consegue ver perfeitamente. – A voz estridente da fada ecoa por entre as árvores, o silêncio da noite parece se quebrar somente por eles, nem mesmo as muitas criaturas que vivem ali ousavam fazer barulho.
E conforme Elora termina de falar, da terra pequenas frutas ovais começam a surgir e flutuar alguns centímetros do chão, elas brilham em tom alaranjado. O chão quase que por completo da floresta começa a brilhar com as luzes flutuantes. Com o primeiro passo de Loki, após o surgimento das luzes do chão raízes começam a surgir e prender seu pé o imobilizando.
— Oh não! Os filhos-da-terra não fizeram o sacrifício! – A fada se contorce e começa a se arrepender de ter se juntado àquele grupo infeliz que em poucos instantes estaria morto.
— Como assim, que sacrifício? – Helmut grita ao tentar correr em direção de Loki, todavia seus movimentos também são cessados pelas raízes que se soltam da terra e o prendem. Loki permanece atônito tentando entender tudo que passava consigo mesmo e ao seu redor.
— Até logo e obrigado, filhos-da-terra. Não ganharei uma recompensa por suas vidas, mas garanto que ganharei por suas mortes! – Elora grunhe ao bater suas asas e subir além das copas das árvores, sumindo em meio à escuridão.
Loki e Helmut estão mais do que confusos, Helm não desiste e tenta com todas as suas forças se soltar, porém as raízes começam a subir por sua perna o apertando cada vez mais, ele sente o fluxo de sangue em suas pernas ser interrompido e se irrita por Loki nem mesmo tentar, o garoto está parado olhando para o nada.
As árvores da floresta começam a se chacoalhar e o chão a tremer, algo grande e forte se move em alta velocidade em direção da dupla que infelizmente não conseguem correr. Os tremores no chão se aumentam cada vez mais e até algumas árvores se soltam do chão chocando-se umas com as outras. Helm se sente acuado, sem chance de defesa ou alternativas, se retraindo e permanecendo assustadoramente quieto.
— O que temos de sacrifício hoje, Jeb? — O movimento para, assim como os tremores. Uma figura curvilínea e nua caminha entre as árvores próximas da dupla, sua voz é profunda e nada feminina. Sua pele é negra e as madeixas caem sobre seu rosto em formas de grandes dreds, junto ao seu cabelo uma grande serpente alaranjada se aninha sibilando sons inaudíveis. No braço da figura musgo e pequeninas plantas residem como se brotassem de dentro de sua pele. A dupla não consegue distinguir o que ela é ou sua raça, apesar de aparentar humana ela definitivamente não é isto.
— Oh! Dois filhos-da-terra, qual serão os seus sabores? – A mulher caminha em direção de Loki, tocando a pele de seu rosto como se o analisasse por completo. Fenrir se incomoda com o toque da criatura acertando seu palmo tentando afastar-se, porém em vão. A cobra no cabelo da mulher mostra suas presas para o garoto. — Curioso, não é mesmo, Jet? – Ela começa a acariciar a pele de Loki que aparenta se irritar mais do que nunca com aquilo. Ela toca seus ombros e começa a descer por seu corpo seguindo pelas costelas e ao toque na área Loki se recua, novamente em vão. — Nossa que delícia, isso eu não esperava. – Ela cessa o movimento nos seios de Loki, os aperta por cima do tecido circulando com as mãos em formato de concha envolvendo o par de seios pouco aparente.
— Para! – Fenrir tenciona todos os músculos de seu corpo, envolve seu dorso em seus braços e uma lágrima começa a escorrer por seu rosto. Surpreendentemente encontra forças dentro de si para gritar, com esse movimento uma onda sonora é produzida por seu corpo lançando a criatura metros de distância, apesar da força nem mesmo um dred se move, ela somente fora arrastada para longe. Helm por outro lado é jogado com força contra o chão. As raízes não mais os prendem, porém, a mulher não desistira facilmente.
— Me conte sua graça, que lhe concedo a minha. – Ela começa a se aproximar de Loki novamente, que chora silenciosamente. – Sou Onigeb, a personificação da natureza, a mãe da magia, a Deusa de Vyrtin. Me conte sua graça! – A voz de Onigeb engrossa e ecoa pela floresta que retumba como em aplausos pela graça da Deusa.
— Lo... Loki... Loki Fenrir. – Limpando as lágrimas que escorriam, Loki encontra forças dentro de si que ele nem mesmo sabia que possuía. – Loki Fenrir, estudante de Reykjavik, filho-da-terra, filho de Telma e Ragnar Fenrir, dono de Magnus, o cachorro. – Apesar de tudo o garoto balbucia as palavras com a mesma força que gritara anteriormente.
— Gostei de você, garoto. Meus Deacons serão apostados em você, Loki Fenrir. – Onigeb balbucia se aproximando do garoto. Helm está um pouco perdido com tudo aquilo, mas corre em direção de Loki o envolvendo em um abraço para lhe mostrar que não está sozinho. – Mas vamos então ao sacrifício. Esta floresta é um dos meus domínios e para usufruir de minhas lanternas flutuantes é necessário o sacrifício de uma criança. Onde está a de vocês? – A mulher termina cruzando seus braços procurando ao redor pela criança.
— Nós não temos uma criança, serve uma caneta? Acho que tenho uma em meu bolso – Singer balbucia, enquanto foca a cobra no cabelo de Onigeb que se contorcia apertando-se. Ele se preocupa em procurar a caneta que sabia que não existia somente para ver se conseguia enganar a Deusa.
— Não se preocupe com isto, Helm. Ela vai nos deixar passar. – Loki empurra Helm para longe de si, ele ainda estava o abraçando. Ele mira seus olhos verdes nos orbes negros da mulher. – Não é mesmo? – Ele termina.
— Não posso deixar que andem por meu domínio sem o sacrifício, porém posso lhes fazer um favor agora e no futuro os cobrarei por ele. – A mulher eleva seus braços e retira Jet de seu cabelo, ela estirão seu braço e a serpente alaranjada se estira em direção ao chão. – Por sinal, posso te livrar daquilo. – Onigeb complementa.
— Nos tire daqui, por favor. – Helm acrescenta se encolhendo, Loki ao o empurrar tocara em um dos arranhões causados por Elora com os espinhos.
— Aguardem meu contato, filhos-da-terra. – A mulher sorri e um redemoinho de folhas surge ao redor da dupla e antes mesmo que pudessem respirar novamente são lançados sobre um chão de hexágonos próximo ao mar, Tenebrae. Eles se veem em um grande cais, embarcações de todos os tamanhos estão atracados àquele lugar e no céu, negro como o fim um par de zepelins voam no mesmo lugar.
Próximo ao leito do rio, King acaba por adormecer recostado em uma das árvores, acreditando que Davina não o abandonaria, muito menos o atacaria enquanto dorme. Davina apesar do sono que a envolve, batalha teimosamente contra ele se recusando a dormir. Se põe de pé e começa a vasculhar o chão ao redor da margem à procura de algo para fazer e a distrair do sono. Não poderia dormir, não ali, não agora. King está do outro lado do rio, e se ele estivesse fingindo dormir? Essas e muitas outras perguntas preenchem a cabeça de McKenzie.
Por algumas horas ela consegue permanecer forte e até elétrica, todavia aos poucos não possui mais energia algum e decide se sentar com os pés dentro do rio jogando pedras no mesmo. Sua mente e visão começam a pregar peças em si mesma, ela ouve uma música tocando e seu ritmo a envolve. É uma música rápida e animada que se não fosse naquele momento ela com toda a certeza se levantaria para dançar.
A música a embala em um sono, acaba por dormir sentada ali mesmo, porém é acordada com um grande susto. Não estava mais no meio da água e sim em pé e dançando. Ao seu lado um trio de mulheres com suas peles brancas como leite e cabelos negros como carvão, orelhas pontiagudas como elfos. Todas de mãos dadas, inclusive Davina, dançando em roda para a mesma música de anteriormente.
— Que? Quem são vocês? – Davina se solta do grupo de mulheres, porém ela é cercada pelo trio que dá as mãos e começam a dançar. Elas saltam e se contorcem como se não tivessem ossos. Elas agiam como uma só e gradativamente cantavam em uníssono à música.
— De Vyrtin, somos as primeiras. Das Luas, nunca esquecera. Nossa Deusa surge à beira, junte-se a mim em nossa bandeira. – As mulheres cantavam docemente e repetidamente os versos. McKenzie tentava compreender o que era aquilo e rapidamente deduziu que seria uma espécie de prece ou hino.
— Me deixe sair! – Ela empurrou uma das mulheres, porém a força em conjunto delas a impedia de sair do círculo, não por muito tempo. Mais do que irritada Davina começa a gritar. – Suas malditas, me deixe sair. Que raiva! – Somente então ela lembra de King dormia do outro lado do rio e relutante decide gritar por sua ajuda, porém nesse momento as elfas cessam seu movimento e a música deixando a garota sair.
Elas permanecem em uma fila lateral e começam a encarar o garoto do outro lado do rio, seu corpo parecia brilhar com a luz da lua que iluminava aquela noite. Davina não entende o motivo daquilo e as encara irritada ajeitando sua roupa e seu tênis que está saindo do pé. Todas olham na mesma direção. Na mesma direção. Em direção de King! McKenzie vira seu corpo assustada entendendo o que elas observam e ao lado de King outra elfa se aproxima com uma arma apontada para a cabeça do garoto.
Entretanto, aquela elfa é diferente do trio. Seu cabelo é azulado e extremamente comprido e balança ao seu movimento. Os olhos brilham em amarelo e em sua testa o desenho de uma lua minguante deitada brilha com o mesmo tom. Seu busto é recoberto com uma armadura dourada lembrando escamas e pelo resto de seu corpo a armadura muda de tom para esverdeado. Em sua cintura ela forma um grande formato de V envolvendo suas pernas como fitas terminando em seus pés que possuem o mesmo padrão do busto. Em sua mão ela carrega uma lâmina curva que se aproxima do pescoço de Lebron aos poucos.
A mulher emana um luar em seu movimento e seu cabelo flutua como se ela voasse ao andar. Seu semblante é sério e rígido nada daquilo fazia sentido. É estranho demais, a lâmina parece dançar ao se aproximar lentamente da cabeça do garoto que dorme pacificamente. Davina deduz rapidamente que deve haver alguma ligação aquilo tudo As Luas, é isso. Após analisa-la Davina sabia o que ela iria fazer. Matá-lo. McKenzie sem pensar direito se lança em direção de King atravessando o rio sem muita dificuldade. Se aproxima da mulher e segura seu braço antes que a lâmina pudesse fazer muitos estragos. Um filete de sangue começa a escorrer do pescoço de Lebron.
Fale com o autor