Notas iniciais
Sim, se você viu a classificação, ela é comédia, ficção científica e etc. Só que isso ainda não coube nesse capítulo. Enfim, críticas serão bem aceitas.

1

Em toda sua vida, apenas duas vezes Andria Arendall pôs seus pés em uma igreja e, depois da segunda, soube que para lá não deveria voltar nunca mais. Olhou para a cruz com angústia ao ficar de joelhos em frente à construção.

-O instrumento de tortura cai bem como símbolo de seu maldito Deus. — Proferiu ela, desconfiando que essas suas palavras seriam as suas últimas.

Enquanto forçavam sua cabeça em direção à guilhotina, Andria pensava em sua vida até aquele instante. “Bruxa, bruxa!” gritavam as pessoas ensandecidas pelo festival de sangue que chegava ao seu ápice. Suor escorria pela testa da mulher, pingavam em suas pernas que vacilavam enquanto todo seu corpo tremia. Quem a tivesse visto pela primeira vez naquele dia, não diria que a moça de olhos agonizantes e cabelos desgrenhados foi um dia comparada a uma lótus em seu segundo desabrochar.

Nem ela lembrava quem tinha dito isso.

De algum lugar da multidão, uma pedra voou na direção da mulher fragilizada, ferindo-a na testa. E foi a partir desse momento que o povo abandonou o que lhes restava de humanidade: eram bestas sanguinárias, atirando pedras, rindo, seguindo irracionalmente a vontade da horda. As crianças riam com a nova brincadeira e a multidão vibrava a cada espirro de sangue da mulher.

Com olhos em chamas, Andria olhou intensamente uma imagem que não estava lá. Estava cansada e em alguns alguns segundos estaria morta mas não sentia remorso. Uma única lágrima escorreu pelo seu rosto. Ninguém haveria de ver, ou aceitar, o choro de uma bruxa.

Quando finalmente sua cabeça foi ajustada na guilhotina e seu destino por fim selado, ouviu no meio do coro chamarem-na de monstra e, nesse momento, veio-lhe o que sempre deveria ter sido as suas últimas palavras:

-Eu não morro hoje pelo monstro que eu sei que sou! Morro pelos monstros que vocês não percebem ser. — E deu um pequeno sorriso, sabendo de pelo menos uma pessoa que ficaria orgulhosa com a frase se pudesse ouvi-la agora.

Ao seu lado, o executor se preparava.

2

-Um herege? É... mais ou menos uma troca? — Falou Andria com um olhar confuso e doce, olhar que muitos supunham ser proveniente de algum tipo de bruxaria.

-Digamos que sim. Você foi poupada de sua execução, por uma misericórdia temporária que veio a tempo de manter sua cabeça grudada a seu pescoço. Pude muito bem perceber que você quer viver. Por mim, — Dizia o padre, pausadamente – eu não ligo muito. Bruxas temos todas as semanas. O outro que perseguimos contudo... Bem, tem que servir de exemplo para que não hajam mais dele.

-E quem é ele? — Disse alisando na palma da mão os compridos cabelos negros e cacheados.

-Antes, permita que eu dê um aviso. Eu – Nós aqui conhecemos. Conhecemos vocês, bruxas. Sabemos que são traiçoeiras, e eu acho, pelo menos, que se eu fosse um ser de alma vendida, como você é, eu faria o seguinte. Eu pegaria todas as informações necessárias e de repente, eu sumiria.

-Eu nã- ...

-Afinal, quem poderia dizer que não estaria procurando o herege, sem nunca encontrar? Ou que não morri tentando? — E olhando para o rosto de espanto da mulher com satisfação, virou-se de frente para a grande cruz no altar, dando de costas para sua ouvinte – Tentador, não é? Também foi para muita de suas colegas bruxas. Não, você não é a primeira. Mas, de algum modo, depois que encontramos uma bruxa uma vez, reencontramos depois. Quantas vezes quisermos.

A isso, Andria nada disse. Sabia que era verdade. Sempre calmo e composto, o magro padre prosseguiu:

-O nome do homem nos é desconhecido. Algumas pessoas o chamam de Lilium, ou Lili, pois em todos os lugares que ficou escondido por muito tempo, um campo de lírios floresceu. Isso é tudo. Caso tenha sucesso, talvez Deus possa ter piedade até de um ser repugnante como você.

E dizendo isso, o padre se retirou calmamente para os aposentos de trás. A suposta bruxa tinha parado de alisar seus longos cachos negros e agora só os segurava. Hesitando ainda, foi em direção a porta até sentir o mormaço como se deslizando pela sua pele muito clara e muito suja. Precisava de um banho, um pente, uma mala e um milagre. Por ora, contudo, teve apenas seu banho. Olhou para a marca feita em seu punho esquerdo com ferro de marcar gado, algo que tinha o aspecto de um sol cortado. “Bruxa.” Sussurrou melancolicamente. Nem o próprio gado sofria tamanha humilhação como a que lhe poderia ser reservada.

Bruxa era o termo que se usava naquela época para qualquer mulher que tivesse um comportamento “subversivo”, condenável pela igreja. A maior parte delas, simplesmente mulheres comuns que não se conformavam com sua condição de propriedade e tinham comportamentos reclusos ou rebeldes demais para serem bem vistos pela sociedade implantada. Mas não era esse o motivo mais forte que fazia a filha do casal Arendall, tradicional família de escrivães, uma indesejável.

Estava pronta para partir durante a noite, deixando em suas casa somente um sentimento perdido de segurança e diversas memórias ruins. E todos seus pertences que não levaria atirou no rio e assistiu enquanto todos, sem exceção, afundavam no rio, céleres a abandonarem-na. O único que por um tempo manteve-se na superfície, veio para lhe dar um amargo adeus: Um espelho que refletiu a imagem de seu rosto, jovem, belo, de olhos tristes e maculado apenas por uma cicatriz ao lado de boca. Toda sua imagem parecia agora lhe dizer inexplicávelmente “Bruxa!” de forma condenável. Depois disso o espelho também se foi. Sentiu-se desamparada embora seu reflexo não tivesse lhe revelado nada que já não soubesse – Pois ela, Andria Arendall, era de fato uma das poucas bruxas que ainda haviam no mundo. Mesmo assim, guardou uma mágoa daquele espelho sem jamais conseguir a determinação para quebrá-lo.

3

Lírios não eram as flores mais comuns daquela região mas também não eram raras. E as notícias que se podia conseguir sobre o homem dos lírios eram escassas, contraditórias ou imprecisas. Em uma das últimas cidades em que ele esteve – pois isso se via pela pouca idade dos lírios – uma senhora forneceu mais informações para Andria do que, até a presente data, suas buscas tinham revelado:

-Três pessoas aqui na cidade apareceram com uma doença estranha. Esse moço chegou aqui e nos deu alguns remédios e tudo mais. Serviu pra o meu marido e tudo. — Falou a mulher com satisfação – Os outros dois deviam estar mais doente, porque morreram tudo.

-E ele se foi... faz muito tempo? — Perguntou singelamente a bruxa como se questionasse sobre o destino de um amante.

-Não, não. Tem uns meses isso, mas não faz ano não. Uma vizinha disse que ele tinha um nomezinho, que o povo dava. Acho que Lili – que nem é nome de homem, sabe?

-Ah. Obrigada.

-Eu soube que, tem um senhor que mora ali nos arredores que tem um sobrinho que conhece uma pessoa que diz que acha que sabe onde ele tá. Mas moça, – Falou a mulher em tom grave e fatalista – deixa eu te dizer. Eu até fico feliz que ele ajudou meu marido e tudo. Só tenho a impressão que ele não é uma boa pessoa. Ele não me pareceu cristão.

Mais uma vez a bruxa agradeceu e se retirou, do jeito mais cristão que sabia. Com as informações que conseguiu, chegou a uma pequena vila esquecida, Oniriath. Notou primeiro o estranho perfume que parecia mais real que a própria cidade, um cheiro suave e adocicado, de algo que ela não sabia a que atribuir. Estar ali causava nela a sensação que se tem quando se lê um livro e se pensa que aquela história foi escrita exatamente para você. O clima era frio, pesado, ameaçador e o mero viso da vila passava uma sensação de mistério a ser desvendado.

E ao lado da cidade ali estava. Mirrados ainda, pequenos brotos de lírio lutavam para florescer em terreno infértil. Lírios brancos. Lírios respingados de sangue. E seguindo pela trilha de lírios, uma pequena casa podia ser vista ao longe, ilhada no meio de um abismo colossal. E quanto mais Andria olhava para o abismo, mais percebia que esse era o tipo de monstruosidade que nenhum encantamento que conhecia poderia enfrentar.