Legado Herético
2 Na escuridão, somente a escuridão
Notas iniciais
Senhora dos ventos, lendas falavam de Marit Cygndar como uma das bruxas mais destemidas e hábeis do mundo, caminhando sobre o ar, domando ventos, agarrando todos os sonhos (e quase todos os homens) em seu caminho. Muito diferente dela era Andria Arendall, uma mulher retraída, indisposta e altamente vulnerável a certas influências da gravidade. E mesmo se muito se esforçasse para aprender os lendários encantamentos de Cygndar, o vento não respondia mais a nenhum deles como fez nos dias antigos.
Conseguir abrigo em Oniriath foi muito simples e barato, visto que muitas das casas erguidas na cidade se encontravam vazias. Passou dois dias somente pensando em um meio de atravessar o grande abismo até se cansar e resolver explorar a cidade, indagando seus habitantes. Esse povo, por sinal, era bastante singular, com dois grandes aspectos em destaque: Sua descrença na igreja e seus costumes diversificados. Parecia um bom lugar para um perseguido da igreja se abrigar por um bom tempo, se ganhasse a simpatia daquele povo.
-Vocês já ouviram a lenda do dragão da igreja? — Contava um senhor de idade
Todos riram. Naquele lugar, aquelas lendas eram apenas lendas. Certamente, nem em bruxas deviam acreditar, ao menos não nas bruxas que a igreja sempre apontava. E durante todas essas conversas, Andria fingia interesse e ficava em silêncio. Alguns nem notaram que eles tinham um forasteiro na cidade até que reparavam na mulher de olhar exótico, cicatriz no rosto e roupas velhas esfarrapadas. Foi em uma noite, uma semana e meia depois da chegada dela que o assunto veio a tona:
-O homem das flores ali não vem na cidade faz um bom tempo. — Observou um homem bastante robusto.
Silêncio.
-Imagino que ele só venha mesmo quando precisa de mantimentos ou alguma coisa assim. Eu sei que ele parece meio estranho mas, fora aquele soldado, aquelas cabras de estimação, o garotinho na rua -- que ele jura ter sido um acidente -- e a esposa do ferreiro, ele não fez exatamente mal a ninguém. — E olhando a expressão de desaprovação das pessoas, tentou melhorar a situação – Mas comparado ao mal que a igreja trouxe a essa cidade, isso não é nada! E afinal, lembrem-se que ele já nos ajudou. — E vendo que seu discurso não convenceu muita gente, complementou — Bem, talvez ele nunca mais volte.
-Melhor mesmo. Mesmo com boas intenções, ele pode qualquer hora dessa mudar de idéia – Falou outro homem, de aspecto modesto. — Afinal um imortal não tem que ter medo de punição.
Logo a conversa mudou para outras trivialidades e lendas. A bruxa apenas devaneou pelo resto da conversa pensando em como atravessar um abismo daquelas proporções. Talvez alguém na cidade soubesse como sobrevoar a escuridão.
2
Acordou cedo, comprou um punhado de ervas e sal, se distanciou da cidade a procura de um eucalipto e voltou com um pedaço da casca já pela noite. Passou a noite fazendo uma poção e a madrugada descansando um pouco. Dormir pouco ajudava ela a não sonhar, algo que não precisava por enquanto. O sonho das bruxas não eram sonhos normais.
Na manhã seguinte, recitou algumas palavras para que a poção fizesse o efeito desejado e despejou todo o conteúdo do frasco nos olhos. A dor resultante foi o suficiente para tirar dela alguns gritos agudos enquanto esperava alívio. A sensação que tinha era que tinham deixado cair uma pequena brasa dentro de seus cílios. Estava preparada. Foi até o local do abismo e o encarou. Parecia ter um fundo, uma espécie de canyon coberto por uma fumaça negra que lhe dava o aspecto abismal. Ainda assim, parecia haver criaturas vivendo lá embaixo cuja identificação estava fora do escopo do encantamento. Antes de sair, curiosamente olhou para o campo de lírios e, embora a magia não pudesse identificar nada de estranho, ela sentia que algo estava fora do lugar.
3
-Um abismo? Uma ponte dessas levaria meses! — Falava o mestre de obras da pequena cidade – Você podia jogar uma corda de um lado a outro, mas sem alguém para amarrar...
Era esse o tipo de resposta desanimadora que Andria ouviu nos últimos quatro dias. Ao menos não foi outro “Não, mas fico abismado!” ou “Eu posso preencher o abismo em você. Todinho.”. Ela sabia o que acabaria tendo que fazer, mas a decisão era difícil e arriscada. Foi um dia em que nada tinha perguntado nada na cidade que um homem de idade chegou até ela:
-Saber daquilo eu ainda não sei, não sei mesmo. -Enquanto falava, sua voz ia ficando mais rouca e seus dedos dedilhavam mais lentamente ao lado de sua coxa -Mas eu mal sou letrado que nem muita gente daqui. Agora, tem um homem ali no mercado que sabe muito, sabe muito, ler e escrever e parece que lê bastante! Se alguém souber de alguma coisa, alguma coisa, é ele.
Se encontrou então com o rapaz, no mercado, onde o velho homem disse que ele estaria. O semblante do rapaz era algo que se sobressaia pela individualidade e até o modo de falar dele era bem peculiar, mais rebuscado.
-Eu... Licença. Me disseram que você pode saber como eu posso atravessar um abismo. — Disse a herdeira dos Arendall sem olhar para o rapaz, pois estava muito ocupada escolhendo um cachinho de seu cabelo para puxar.
-Esse abismo que você fala... ele é muito grande? — Respondeu-lhe o rapaz com um tom de voz neutro que não dizia absolutamente nada.
-Sim, sim. Mas não é bem um abismo. Eu enxerguei o fundo dele.
-Bem, então escute bem o que eu vou lhe dizer. – Suspirou forte e prosseguiu – Talvez você possa encontrar outro meio para atravessar esse abismo, mas eu lhe garanto que nenhum desses meios será satisfatório o bastante ou seguro o bastante. Você pode tentar erguer uma ponte, mas como saber que o abismo não a devorará? Meu conselho: Você deve enfrentar a descida e chegar até o fundo e se abrigar em uma caverna por uma noite. E daí para frente é só subir e nessa subida os desníveis do abismo deixarão espaço para que você sente e recupere suas forças. Você passará por sendas e por impias pedras, mas você chegará finalmente a superar o abismo.
Não que o conselho tivesse sido tão bom, embora uma dica ou outra fosse ser útil à jovem Arendall. Mas o homem que parecia ter estudado sobre algo parecido falou com tamanha propriedade que ela se convenceu que, embora talvez houvessem outros caminhos, ela não teria tempo para encontra-los. Preparou-se ainda naquele dia, arrumou alguns mantimentos em uma mochila, enrolou uma velha espada enferrujada em um pano velho e saiu da sua casa temporária para ir em direção às trevas.
No mercado, momentos depois que ela tinha saído, o homem foi alvo de alguns olhares feios de uma senhora que ouvia a conversa.
-Eu realmente espero – Falou o homem – que ela estivesse falando de um abismo no sentido metafórico. Porque descer um abismo de verdade escalando para atravessa-lo não é muito aconselhável, principalmente quando se tem jeitos bem melhores e mais simples de se fazer isso!
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