Legado Demoníaco
7 [Mundo Humano] - Talismã de Tsualé
Quadra do Colégio Axel, 2018
Cali já tinha ido cinco vezes com Thomas para a quadra acompanhá-lo durante seus treinos, mas não conseguia se acostumar com a imagem dele suado, cansado e estranhamente mais forte do que na primeira vez que se encontraram. Ela chegou a admitir que talvez as roupas que ele usava na ocasião tenham influenciado no seu mau julgamento sobre o condicionamento dele, mas ela o vira por dias seguidos depois disso.
Simplesmente não sabia porque essa percepção ficava mais forte agora. Ele tinha músculos que se sobressaiam quando suava e colava a roupa a si.
Braços, pernas, tronco, panturrilha. E quem sabe mais.
Suspirou baixinho consigo naquele dia, tentando parecer menos afetada do que estava, até mesmo porque havia sentado mais próxima dos jogadores do que das últimas vezes, por insistência do castanho que reclamava de ter que subir escadas depois de correr por tanto tempo.
Então dividindo o espaço mais baixo com algumas poucas outras alunas, ainda que o mais distante possível dos assentos delas, Cali tentou pensar em morte, sangue e no rio de lava que morria de medo de chegar perto lá no submundo. Mas nada que ela focalizava tirava a atenção dela de Thomas.
Ela tinha que conseguir que o garoto fosse salvar o inferno consigo, não ficar atraída por ele. Cali o espiou mais uma vez. Definitivamente ficar atraída não iria ajudar em nada, sabia como o desejo podia nublar diversas coisas, tivera que lidar com muito disso na Corte.
No geral ela conseguia com facilidade separar esse tipo de sensação corporal quando estavam juntos com os outros meninos ou quando tinha que prestar atenção na segurança dele, contra demônios na espreita, mas ali na segurança da quadra com nada além de suor e calor a separando do dever não havia nada que ela pudesse fazer.
Ainda tinha instintos afinal.
O apito soou e Thomas veio automaticamente até ela, se enxugando com uma toalha pequena e uma garrafa de água suando de tão gelada. Parou na frente dela, sorridente, e Cali achou o sorriso dele muito bonito.
Cala a boca, resmungou para si mesma.
— Acabei de descobrir que vamos jogar contra outro colégio no festival do próximo mês.
A morena saltou, animada, chamando a atenção de algumas pessoas e fazendo o próprio Thomas rir.
— Sério? Uma disputa?
Ele assentiu se animando ainda mais. Gostava muito de competições, ainda mais quando tinha chances reais de ganhar.
— Sim! E faz tanto tempo que não jogamos contra ninguém que sinto que fiquei enferrujado.
Inconscientemente Cali empurrou de leve um dos ombros dele, duvidando. A sensação elétrica voltou e passou como um raio entre eles.
— Que nada, vem treinando muito bem, não vou elogiar você.
— Não estou pedindo elogio – ele lhe lançou uma careta, sentando ao lado dela, tentando ignorar a sensação.
Cali, por outro lado, apesar de fingir não perceber finalmente entendeu. A origem daquela sensação não era a alma de Thomas querendo tragar a dela. Talvez fosse a dela querendo ser tragada por ele.
Controle-se.
A morena sentou de volta.
— Aliás, estou pensando em ficar um pouco mais depois do treino, pra reforçar algumas jogadas. Então pode ir embora se quiser.
Ela realmente devia ir embora.
— Não, vou ficar.
O castanho olhou para ela e a mesma sorriu, piscando.
— Gosto de ver você jogando.
Thomas corou e se sentiu quente num misto muito estranho de vergonha e prazer. Tomando longos goles de água para disfarçar ele tentou falar sobre qualquer outra coisa e acabou puxando seus amigos para a conversa, comentando algumas histórias que passaram juntos fugindo e gazeando as aulas.
Vez ou outra, quando o assunto amenizava, ele se remexia se aproximando um pouco mais de Cali, fingindo olhar para algo do outro lado, ou para alguém acima deles na arquibancada. O cheiro dela de baunilha lhe enchia o olfato quase que automaticamente e Thomas afundava nele.
•••
— Você é rápido e tem força no saque, acho que seria bom em lutas.
Thomas lançou a bola na cesta pela vigésima vez e voltou o olhar para a garota deitada no chão do outro lado da quadra, quase embaixo da segunda cesta. Ela olhava para o teto meditativa e cansada depois de correr com ele tentando roubar a bola por alguns bons minutos.
— Vai me recrutar para o seu exército infernal?
Cali virou a cabeça de lado e sorriu.
— Sabe que sim.
Ele retribuiu o sorriso, correndo para pegar a bola. Enquanto isso a morena sentou.
— Pensando bem, acho que você deveria saber o básico de artes marciais.
Girando o globo alaranjado na mão Thomas ergueu a sobrancelha para ela voltando do outro lado para perto da jovem. A camisa fina estava amarrotada e o tênis ecoava no piso de madeira.
— Quer me ensinar como matar demônios maus?
— Não existe essa distinção no inferno – ela levantou com dificuldade – todos são o que são. Não tem bom ou mau. Mas sim, você deveria aprender a lutar contra demônios.
— Não sei se quero, posso acabar indo para o inferno – ele brincou, parando a alguns passos.
— Engraçadinho – a morena se alongou – você sabe se defender?
— Consigo entrar numa luta e machucar mais do que sair machucado, se quer saber – retrucou citando uma briga que tivera no fundamental.
Cali quis rir.
— É um bom começo, mas não o suficiente. Quando eu estiver com você tudo vai ficar bem, mas e quando não?
— Não quero uma guarda-costas – resmungou parando de mexer a bola em mãos.
— Então se esquive disso.
Só houve tempo para Thomas piscar antes que Cali estivesse na sua frente, com o corpo colado ao seu e uma mão empurrando seu abdômen, simulando uma lâmina. O sorriso dela, tão perto, o deixou zonzo. Tanto quanto a rapidez do seu movimento.
— Como...
— Você é bom com basquete, Thomas – o som dos quiques da bola se afastando, derrubada no ataque, ecoaram no espaço – eu sou boa em lutar.
Lentamente ela se afastou mostrando a mão que supostamente haveria uma espada ou faca.
— E você estaria morto.
— Não é justo, não estava preparado.
Cali balançou a cabeça de um lado para o outro com um sorriso que o castanho achou indecifrável, ainda brandindo a espada imaginária.
— O adversário nunca vai deixar você se preparar.
Dando de ombros ela lançou longe a lâmina fictícia em suas mãos, estralando os dedos. Os cabelos presos porém rebeldes balançaram.
— Mas venha. Eu vou lhe dar a vantagem de atacar primeiro.
Sorriu de lado e o chamou com a mão, erguendo as sobrancelhas num desafio. Afetado o suficiente Thomas se preparou e remexeu os ombros, tirou suor da testa e apoiou os pés no chão.
Quando ele correu na direção de Cali, ela sumiu da sua visão. Rápido ele a encontrou do outro lado e investiu novamente. A dupla ficou alguns longos minutos nessa dança de ataque e esquiva, com Thomas ofegante e a morena sorrindo, vitoriosa, enquanto com muita habilidade e leveza o evitava às vezes no último minuto, só para mostrar que podia, às vezes antes dele se aproximar.
O treino rápido acabou quando o castanho grunhiu e correu como louco na direção dela, se jogando. Cali podia se esquivar e até pensou em fazê-lo, mas deixou que o garoto caísse sobre ela, ganhando vantagem. Ele arfou, cansado e ainda mais suado do que antes, acima dela, com as mãos logo atrás a protegendo da queda, e os olhos da jovem percorreram o rosto dele rapidamente, percebendo, tarde demais, que agora todo seu corpo eletrizava com o toque dele.
Thomas só teve tempo de sorrir antes que a morena enrolasse as pernas entre as suas e os girasse no tablado, ficando por cima. Prendendo as pernas dele com as suas e as mãos dele cada uma de um lado da cabeça, Cali o imobilizou. Pela primeira vez, ele notou, a garota estava ofegante, apesar de não ter qualquer gota de suor.
— Te peguei.
Cali disse e sorriu, tomando fôlego. O garoto preso abaixo dela fez uma careta, mas observou com atenção os traços únicos do rosto dela, desde os olhos grandes, o nariz arrebitado, um pequeno sinal ao lado dele e sua boca cheia. Ele piscou se sentindo agitado.
— Sorte.
Cali sorriu mais abertamente o soltando. Nesse movimento a atenção de Thomas, que até então tinha ido toda para a boca da garota, caiu sobre um cordão negro despontando do seu uniforme. Ela sentou em cima dele e quando sentiu calor lhe subir o corpo, deslizou para o lado.
Sem desvios Cali, sem desvios.
— O que é isso no seu pescoço?
A pergunta do castanho a fez tocar automaticamente no pescoço. No mesmo momento em que ela puxou o colar de dentro da camisa do uniforme Thomas sentou e olhou surpreso para o que parecia ser o outro pedaço da pedra alaranjada que ela lhe dera.
— É igual a que você me deu.
Cali sorriu.
— É porque é a mesma pedra – deslizou o dedo pela parte quebrada – dividida em duas.
O castanho a olhou com curiosidade.
— Essa é uma das pedras que os humanos usam para repelir demônios. É um dos talismãs de Tsualé, uma bruxa de décimo grau, que dizem ter se arrependido de se unir aos demônios e encantou algumas pedras para proteger sua família. São pouquíssimas que existem e eu recebi um desses de Tchort. Nos torna intocáveis e indetectáveis, apesar de que quando repartido diminua o poder.
Cali soltou o colar e voltou o olhar para Thomas que parecia prestar bastante atenção. Ela sabia que o garoto gostava de ouvir as histórias que ela contava, apesar de não querer aceitá-las. Pensar nisso a fez sorrir.
Mais lentamente do que gostaria Thomas puxou um cordão do seu pescoço, que saltou para fora mostrando o lado oposto da pedra da morena. Ela olhou surpresa para o talismã e em seguida para o garoto, aumentando o sorriso.
— Você está usando? Pensei que achasse que demônios fossem mentira.
Thomas estalou a língua fingindo desinteresse, apesar da fala dela ter lhe esclarecido muita coisa.
— Por que ela se arrependeu?
Cali o fitou confusa.
— Por que a bruxa se arrependeu? O inferno não é um lugar justo?
A morena suspirou guardando seu colar. Ter ficado feliz por vê-lo usando, apesar de nunca ter considerado isso antes, não excluía o ceticismo dele que sempre voltava. E era um saco.
— O inferno sob o governo de Tchort, é. Os outros não foram e não tenho ideia do que possa ter feito ela se arrepender – ela lançou um olhar firme contra os castanhos do garoto – pode ter sido qualquer coisa. Não tem santos no inferno.
O castanho a encarou mais alguns segundos e suspirou, se esforçando para levantar. Em seguida estendeu a mão para ajudá-la.
— Quero revanche.
Cali riu aceitando sua mão e deixando a eletricidade suave que vinha dele percorrer cada poro do seu braço. De pé, estralou dedos e pescoço, com um sorrisinho de desafio que fez Thomas imediatamente retribuir.
— Venha quando estiver pronto – zombou.
Thomas novamente investiu e eles voltaram com os movimentos de ataque e esquiva. Dessa vez, entretanto, enquanto o garoto buscava brechas pra acertá-la Cali lhe dizia dicas, formas de se aproximar, demonstrava movimentos e técnicas para despistar a atenção do inimigo para o verdadeiro ataque.
O castanho seguiu alguns, tropeçou noutras vezes, por pouco não tocou na morena em um dos avanços e se surpreendeu não só com a agilidade mas com a elasticidade dela. Cali parecia conseguir se movimentar com elegância até mesmo quando passava deslizando apressada debaixo das suas pernas – e ele ficou se perguntando como alguém faria isso numa batalha sangrenta.
Com ambos arfando depois de praticamente uma hora de corridas Thomas ergueu as mãos em rendição.
— Eu desisto – ele parou, se apoiando nos joelhos como faria após um jogo – preciso descansar.
Mesmo que tão ofegante quanto ele Cali sorriu vitoriosa também parando.
— Você está ficando melhor – admitiu respirando fundo em seguida.
— Aprendo rápido – o garoto sorriu de lado limpando o suor da testa com a palma da mão.
Cali o observou com um olhar menos crítico quanto a ser filho do rei demônio e tinha que admitir que Thomas estava indo muito melhor que muitos dos soldados que ela já havia treinado. Treinado pesado. Com o garoto ela só tinha que dizer o que ele precisava fazer que rapidamente o seu estilo se adaptava. Thomas quase conseguiu alcançá-la umas duas vezes durante aquele tempo o que até a surpreendeu. Era um bom aluno.
— Devo começar com as aulas mais intensas...
Antes que ela terminasse a frase os braços do garoto passaram por ela a envolvendo num abraço apertado. Cali ficou estática e se calou, surpresa, sentindo todo o corpo aquecer junto ao corpo quente e suado dele. Ainda estava ofegante, mas ficou ainda mais com o cheiro de suor misturado a um aroma cítrico que ele exalava.
Ele a apertou contra si e sorriu com o rosto apoiado no ombro da morena. Por alguns segundos não focando em nada além da vitória.
— Te peguei.
Cali ficou alguns segundos processando as palavras antes de rir ao perceber que ele não a estava abraçando e sim capturando. Uma parte da animação foi embora, mas ela ficou orgulhosa, tentando nublar a leve decepção enquanto todas as terminações nervosas do seu corpo pareciam pulsar.
Se acalme, droga.
— Bom garoto.
Thomas afrouxou o aperto se afastando o suficiente para ver o rosto de Cali e pela primeira vez em todos aqueles dias a viu corada. Ela não parecia perceber, sorrindo satisfeita pela captura, e ele se deixou aproveitar um pouquinho mais do toque na pele dela. Quente.
Eles se entreolharam e lentamente Thomas se pôs mais distante.
— Foi um bom movimento, erro meu.
Sorrindo convencido o castanho rebateu seu olhar. E depois de alguns segundos de olhá-lo com orgulho e alguma coisa a mais, Cali ficou séria.
— Por mais que esteja evoluindo, tome cuidado. Use o colar e a lâmina. Demônios são traiçoeiros e espertos, sabem que não podem morrer no mundo humano. Mas o punhal que lhe dei é capaz disso. Se for atacado, use.
Thomas ia retrucar como sempre fazia, mas seu corpo inteiro reagiu a determinação de Cali, como se pronto para fazê-lo se fosse possível. Suavizando a expressão em seu rosto o castanho sussurrou, mais impulsivo impossível:
— Eu irei.
•••
Lucas estava pulando e Ryan ria histérico enquanto Cali gargalhava da visão da dupla ao lado de sua banca, mostrando o resultado das provas. Thomas estava apoiado na cadeira, com a morena de pé bem ao seu lado, olhando para todos e se juntando a risada dela.
— Um sete, Cali! Um sete!
Ela riu mais um pouco de Ryan até sentir-se ser abraçada por Lucas que pulou e rodou com ela ao longo do corredor das bancas, fazendo-a gargalhar ainda mais. A sala toda estava um caos tão grande que ninguém se importou com o pequeno show, também acostumado com as maluquices do garoto.
— E eu fiquei com nove! Nove em Literatura nunca foi tão real!
Ele beijou as bochechas e a testa dela, agradecendo por ser o anjo que os uniu nos dias de reforço na biblioteca durante a semana anterior. A morena só conseguia rir, ainda envolvida pelos braços do garoto.
Parado onde estava Thomas não gostou do que viu. Não gostou nem um pouco, na verdade. Que intimidade era aquela com Cali? E como ela podia deixar que ele a beijasse repetidas vezes? Mesmo que fosse na bochecha.
— E então, como vamos comemorar?
Ryan comentou puxando Lucas pelo braço de volta a reunião na banca da garota que foi arrastada por ele e parou novamente ao lado de Thomas, os quatro um de frente pro outro. Tranquilamente Cali aprumou uma mecha do seu cabelo que havia bagunçado com o ânimo do amigo.
Reaja, resmungou Thomas internamente.
Mas era besteira. Cali podia fazer e deixar de fazer o que quisesse. Não era assunto dele.
Thomas entortou um pouco a boca com esse pensamento.
— Podíamos comer um balde de frango frito na Madame Boulevard, é novo no cardápio e ainda não provei. Então, o que acham? Bebidas por minha conta!
Lucas sorriu concordando para ela e ambos olharam para Ryan, que fingiu pensar mas também aceitou. Por fim todos focaram em Thomas que deu de ombros tentando afastar os pensamentos irritantes.
— Por que não? Todos tiraram nota boa, vamos comemorar!
Com um gritinho geral o quarteto bateu as mãos no alto, com Cali virando para Thomas contando sobre uma das questões da prova, Lucas olhando para ela com um sorriso e Ryan observando tudo, sentando ruidosamente na cadeira vazia.
•••
— Então depois de cair em cima do meu primo a gente rolou por uns dois metros antes de parar todos cheios de neve – Ryan riu – aquelas férias na montanha de esqui foram incríveis.
Cali o acompanhou com um sorriso, mordendo uma coxa lambuzada de molho, com Thomas ao seu lado rindo de se acabar. O grupo estava numa das mesas mais próximas do balcão dessa vez, divididos em duplas, uma de frente para a outra.
— Eu lembro que você voltou de muleta pra escola nessa época, mas podia andar normalmente.
O garoto logo a frente passou com um gesto de narcisismo a mão no topete, esticando a camisa floral. O irreverente óculos de sol que ele usara para uma ida a lanchonete jazia apoiado na mesa, já que naquela tarde o sol não estava nem um pouco forte. Ainda mais dentro de um estabelecimento.
— Algumas garotas adoraram cuidar de mim, posso dizer com convicção.
Lucas balançou a cabeça, sorrindo, catando no segundo balde deles mais um pedaço de frango, quase esbarrando no seu refrigerante de laranja pela segunda vez. Desastrado, já havia sujado a camisa branca que usava com molho.
— E você, Cali? Nenhuma história legal para contar?
Os ouvidos de Thomas se aguçaram, curiosos, e Lucas se recostou a cadeira não muito convencido de que a garota contaria alguma coisa, já que sempre os respondia com segredo. Ryan por outro lado, autor da pergunta, a fitou esperançoso.
Cali olhou para todos antes de falar, pensando e procurando algo legal que tivesse feito e não envolvesse o inferno, lutas, bestas demoníacas ou passeios entre os círculos para checagem.
— Não fiz nada tão radical quanto isso – ela soltou uma risadinha – mas eu dançava balé.
Thomas olhou-a surpreso, virando o corpo completamente para ela. Era a primeira vez que ouvia dela algo que não fosse aventuras no submundo.
— E fiz uma apresentação incrível no maior teatro da minha cidade, que tinha sido inaugurado a pouco tempo. Foi fantástico.
Falar sobre isso era uma mistura de tristeza e êxtase para Cali. Foi o ápice da sua vida, o melhor momento que viveu, o que desejou, seu maior sonho virando realidade. Mas também foi a maior armadilha da sua vida. Ela sorriu.
O castanho olhou atentamente para a garota enquanto os amigos elogiavam. Cali parecia feliz e nostálgica, rindo e dizendo aos meninos que não sabia se conseguia dançar balé tão bem quanto antes depois da sugestão de Lucas de ver uma apresentação.
Era estranho vê-la assim. E era algo importante e profundo, ele sentia. Cali sabia dançar balé, quis rir, a guerreira infernal cercada de fogo tinha essa habilidade tão delicada. Quando ela começou? Como ela aprendeu se ficava no inferno? Thomas quis enchê-la com essas perguntas, mas se controlou.
Sorrindo para os meninos e pondo uma das mechas do cabelo atrás da orelha Cali parecia relaxada e confortável e ele não queria mudar isso. Tinha rido horrores com as histórias deles e comido praticamente metade do primeiro balde elogiando a culinária local, ou humana, como ele bem sabia que diria se não fossem os meninos.
Então Thomas sorriu, satisfeito por vê-la tão bem, se apoiando na mesa e entrando na conversa, comentando que a última vez teve uma apresentação de balé na cidade eles levaram suas namoradas e Lucas dormiu a apresentação inteira.
Cali riu muito enquanto Lucas tentava se explicar, querendo impressionar a morena dizendo gostar bastante dessa arte. Ryan puxou o assunto para cinema e o grupo começou a comentar sobre filmes famosos.
Thomas observou de esgueira a morena sorrir com mais uma história e bebeu um longo gole de seu refrigerante. Quando chegou na lanchonete com os amigos procurou automaticamente por Cali vestida de garçonete, fazendo acrobacias e trocando lâmpadas. Mas para sua surpresa não a encontrou em lugar algum.
Sentaram numa das mesas a esperando, Thomas o mais confuso do grupo já que era o único que sabia que ela morava ali além de trabalhar. Ela teria se esquecido? Ou perdera a hora do trabalho?
Remoendo mais explicações enquanto a dupla já chamava a garçonete auxiliar e pedia o cardápio ele se surpreendeu ao ver entrar no espaço, pela porta da cozinha, a morena com roupas normais. Normais não, comuns, porque apesar de diferentes do conjunto de couro e do uniforme obrigatório da escola, eram extremamente bonitas.
Era um vestido florido fino, mais curto do que ele a viu usar na lanchonete antes, com alças finas que mostravam com clareza o colo alvo, assim como delineava seu corpo. Os cabelos escuros se trançavam em sua cabeça numa tiara e escorriam soltos, fazendo o movimento que era bastante conhecido por ele, de se enrolar nela.
Cali sorriu quando os encontrou, um sorriso grande e vibrante, que acelerou as batidas do seu coração. Ela estava diferente e ao mesmo tempo igual, com os olhos azuis grandes e o sorriso branco. Thomas podia apostar que estava começando a ficar atraído demais por ela para ser normal.
Como se o ciúmes no dia anterior na escola fosse normal.
Logo atrás dela a dona do estabelecimento a deu um empurrãozinho antes de fechar a porta e a Cali exuberante que surgiu corou, deixando Thomas sorrindo internamente pelas expressões que era o único a vê-la fazer.
— No final foi ela quem pediu pra sair comigo – Ryan riu balançando a cabeça – aquela foi uma garota especial.
— E você Cali? Já namorou?
Como se o assunto tivesse sido extraído direto dos pensamentos de Thomas o castanho se remexeu, meio incomodado em saber tal informação, meio ansioso pela resposta. Mas a morena apenas abriu um sorriso triste e fez um movimento de mais ou menos com a mão.
— Faz muito tempo, não foi uma experiência boa.
Lucas se inclinou sobre a mesa tentando confortá-la com um sorriso enquanto Ryan murmurou alguma coisa sobre alguns homens serem idiotas.
— Ele te tratou mal?
Os olhos de Thomas focaram no rosto da garota, buscando alguma pista, mas como sempre ela era uma muralha. E tudo que ele conseguiu ver foi um quê de tristeza no sorriso dela antes de erguer as mãos e negar.
— É mais complexo que isso.
Lucas assentiu, lançando um olhar ao amigo do lado para encerrar o assunto. Por de baixo da mesa, o mais discretamente possível, Thomas envolveu uma das mãos de Cali na sua. Ela se assustou quando sentiu o garoto tocá-la, porque era sempre fácil saber que era ele pelo choque fraco que a percorria, mas nunca esperava por isso.
Aquele ali foi confortável. Ele apertou a mão dela, transmitindo segurança, e ela retribuiu o aperto. O castanho ficou feliz pela resposta dela e ambos ficaram assim por mais alguns minutos, disfarçadamente conversando com os garotos, antes de se afastarem.
— Ela morria de ciúmes de mim – admitiu Lucas – mas ao mesmo tempo parecia que ela não me dava bola. Acabamos brigando, foi horrível.
— As minhas sempre tinham ciúmes também, mas sou um homem fiel. Você devia ter deixado as coisas mais claras primeiro antes de começar a brigar.
O moreno quis rir, mas Thomas o fez antes. Cali, por outro lado, terminou mais uma coxa, mastigando no processo, pensando que talvez por ter estado tanto tempo no inferno havia se desprendido daquela convenção humana.
— O que acha, Cali? Como única garota aqui – Lucas a tirou dos pensamentos – errei ou não brigando com ela?
Cali ergueu a sobrancelha engolindo a comida.
— O que eu acho? Por que? Não sou ela.
— Mas você é uma garota, deve saber como ela pode ter se sentido – insistiu Ryan.
A morena encurralada deu de ombros.
— Não estou interessada em romance e mesmo que estivesse não tenho como saber o que se passava na cabeça dela. Não tenho vidência. Além do mais – remexeu o canudo dentro da lata de refrigerante – não vejo sentido nessa discussão de relacionamentos fechados. Penso que as pessoas devam fazer o que quiserem com quem quiserem quando tiverem vontade.
Ela bebeu o refrigerante tranquilamente, mas quando voltou o olhar para o trio os viu com expressões de surpresa e incredulidade. Nesse momento, Cali quase se engasgou.
— Falei algo errado?
— Não, só... é incomum. Uma garota falar isso, você sabe. Geralmente elas são as que mais me exigem exclusividade.
A morena deu de ombros.
— Exclusivamente é uma coisa humana.
— Algumas das minhas só me enrolavam – murmurou Lucas, chateado.
— Então namoro não tem sentido para você?
A pergunta de Thomas chamou a atenção de seus amigos, que até então eram os únicos da mesa a citar seus casos amorosos. Ryan olhou dele para Cali num piscar de olhos e Lucas permaneceu fixo no amigo, pensando o que estaria se passando na cabeça dele. Do grupo ele tinha sido o único com poucas namoradas e flertes, sempre displicente demais para parecer interessado nisso.
— Na verdade tem sim. De onde venho – ela olhou rapidamente para Thomas, afim de que tomasse nota de que queria dizer inferno— as pessoas não se privam de nada, mas não quer dizer que não tenham relacionamentos. Alguns se casam até, a questão é que não limitam relações com outras pessoas.
— Vários casamentos?
— Não, casamentos abertos.
Todos se entreolharam e depois voltaram a focar em Cali que sugou as últimas gotas do refrigerante na latinha, alheia.
— Você não sente ciúmes?
Novamente a pergunta de Thomas fez os amigos olharem-no curiosos e Cali assentiu, pondo a lata vazia na mesa e voltando-se para ele.
— Não, não sinto. Não mais.
O final da frase, quase um sussurro, foi ouvida apenas pelo castanho que fingiu não escutar. O silêncio que veio em seguida foi preenchido por Lucas e um teatral relato de seu último relacionamento fracassado, que fez a morena rir.
Ainda observando-a, mais atento do que queria, Thomas se perguntou o que tinha acontecido com Cali para que ela se tornasse o que era hoje. Não mais. Em algum momento ela sentiu ciúmes, em algum momento ela foi humana dentro da história dela, se apaixonou até, o castanho conseguia perceber.
Mas e aquela tristeza? A nostalgia que surgia quando ela falava sobre balé? Sua habilidade na dança? O não mais?
O que havia acontecido antes do inferno que tinha feito isso com ela?
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