Legado Demoníaco
4 [Mundo Humano] - Amiga demoníaca
Notas iniciais
Madame Boulevard, 2018
Cali resmungou pela terceira vez seguida enquanto amarrava os cabelos no banheiro apertado e prendia-o na tela. O espelho pequeno estava embaçado, descascando na ponta e o cheiro de produtos de limpeza fazia o nariz da morena arder. Ela saiu ofegante do cubículo, entrando no quarto um pouco maior, porém abafado.
Encarou o relógio pequeno na cômoda velha e xingou mais uma vez, catando o avental pendurado no gancho próximo a cama baixa. Havia perdido a hora para acompanhar Thomas a escola e agora só teria a chance de novo na próxima semana, com longos três dias entre eles, começando por aquele.
Saindo porta a fora para a parte traseira da lanchonete Cali cumprimentou o cozinheiro e os ajudantes na cozinha adjacente, que sorriram para ela, dando bom dia e já adiantando alguns pedidos prontos. Chegando no salão do lugar ela já começou a distribuir os pratos e copos, dando bom dia aos clientes fiéis e perguntando aos novos quais os seus pedidos.
Desde que chegara naquela cidade, depois de rodar boa parte do mundo em busca do filho de Tchort, Cali conseguiu uma vaga naquela lanchonete por acaso. A dona era uma velha baixinha e meio ranzinza, mas que era boa e aceitou que Cali dormisse num quartinho nos fundos do lugar.
Todo dia de manhã ela ia falar com Thomas, tentar convencê-lo ou simplesmente contar histórias nostálgicas sobre o palácio, o inferno e o submundo. Naqueles minutos Cali se lembrava do porquê estava fazendo aquela loucura de tentar convencer um cético sobre sua importância e a luta que precisavam enfrentar para reestabelecer a ordem infernal. Tinha muita coisa em jogo e Thomas era o único que podia ajudar.
Ele só não queria.
Cali suspirou com esse pensamento, passando entre as mesas e entregando o cardápio e um prato recém pedido.
Não só isso, ela sabia que ele ainda não acreditava nela. Fosse pelas piadas que soltava ou pelos argumentos que sempre buscava para rebatê-la, a deixando irritada. Mas não desistiria tão fácil se ele achava que podia espantá-la.
Agora sorrindo consigo ela voltou ao balcão. A expressão dele no primeiro dia em que começou a acompanhá-lo foi impagável. Cali podia estar desesperada para salvar o submundo, mas em algum momento entre os meses que passou procurando por Thomas e as semanas que usou tentando convencê-lo, a urgência amenizou.
Talvez porque Tchort a havia pedido para cuidar dele, mantê-lo seguro e a salvo. O colar e o punhal já estavam com ele, pensou, agora só precisava mantê-lo seguro até Thomas aceitar lutar. Ali ela daria sua vida por ele se isso significasse ajudar Tchort.
E para isso Cali o levaria até a exaustão com sua insistência se fosse preciso.
Driblando uma bengala a morena voltou-se para o casal de idosos frequentes e sorrindo lhes entregou o cardápio. Era estranho estar trabalhando num estabelecimento humano depois de tanto tempo treinando e tratando de política no inferno. Quase como se fosse um sopro de calmaria. Ela lidava com demônios todos os dias, alguns humanos às vezes mal humorados não eram nada.
E no final ela só precisava ficar ali até sua volta, ainda que acreditasse estar perdendo tempo mais rapidamente do que gostaria.
•••
— Clara disse isso e saiu correndo! – Lucas riu ajudando o amigo a pular o muro de concreto mais afastado dos prédios – Aquela menina é impossível!
Ryan, já do outro lado, numa área encoberta por árvores e a traseira de uma loja, colocou a mochila nas costas, tentando desamassar a farda azulada agora amarrotada e cheia de folhas. Os cabelos castanhos, num topete meio amassado, estavam também preenchidos de fiapos esverdeados.
— Agatha vai pedir a cabeça dela na próxima aula – comentou, também rindo – ela nunca deixa isso passar. Da última vez foi Thomas quem se encrencou.
O garoto estalou com a língua dando impulso.
— Nem me lembre – o castanho fez uma careta pulando do muro para o chão – precisei fazer trabalho atrás de trabalho pra recuperar minha nota em Literatura.
— Mas você é bom nessa matéria, pior se fosse física.
— Thomas também é bom nessa – resmungou Lucas.
Eles se entreolharam e fizeram careta enquanto o amigo aterrissava ao lado. Lucas tirou mato seco dos cabelos negros e espiou, fazendo uso da sua altura, para ver se alguém os havia visto. No campo gramado e com árvores aos montes, não havia sequer um pé de pessoa.
— Barra limpa.
Ryan comemorou puxando os amigos pelas mochilas.
— Vamos para mais um lanche clandestino, meninos!
Rindo Thomas acompanhou os amigos, dando uma espiada rápida na ponte a alguns metros, pensando se encontraria os cabelos negros e os olhos azuis com que estivera tão acostumado.
Pelo menos se ela viesse teria sido de manhã, pensou se justificando, caso Cali sempre viesse a tarde, nos desencontraríamos nesses momentos.
Balançando a cabeça para espantar o pensamento e as justificativas que já se formavam em sua cabeça sobre estar gazeando aula e ter deixado ela esperando – quando nem mesmo Cali o via nas tardes – Thomas se apressou, ultrapassando os amigos.
Eles entraram em algumas ruas laterais e seguiram para o centro da cidade. A tarde já começava a mostrar sinais, com alguns postes acendendo e faixadas de lojas piscando em neon. Nas sextas-feiras o trio às vezes pulava o muro e ia comer alguma coisa no centro da cidade perto da noite, fugindo do período integral daquele dia.
Enquanto discutiam sobre onde comeriam eles desembocaram na rua principal, onde bares, lanchonetes e lojas saltavam aos montes. Alguns ônibus iluminados já corriam de um lado para o outro, assim como carros paravam nos semáforos, com o movimento de pessoas atravessando, tranquilamente, a faixa gasta de pedestres.
O trio acompanhou-os até o outro lado da rua e encarou a famosa lanchonete de Madame Boulevard. Era uma senhora velha e bastante conhecida na cidade, com comida boa e recomendada. Piscando para os amigos sobre o ombro Lucas entrou e o sininho da porta soou no ambiente mal iluminado.
O trio se entreolhou, curioso, pois desde a última vez que tinham ido as lâmpadas estavam boas. Sanando as dúvidas, do outro lado, apoiada numa cadeira e num banco, quase num malabarismo, uma das garçonetes trocava algumas lâmpadas laterais.
— Estou com fome – resmungou Ryan, ignorando a garçonete e a falta de luz indo para uma das poucas mesas disponíveis do lado iluminado.
— Hoje acordei com vontade de comer três hambúrgueres – Lucas lambeu os lábios, pondo a bolsa na cadeira ao lado.
Thomas encarou mais alguns segundos o malabarismo antes de sentar do lado de Ryan, pondo a mochila aos seus pés. O lugar tinha as paredes preenchidas de um papel de parede em formato de pequenos tijolos vermelhos empilhados, com mesas e cadeiras metálicas e grandes cartazes nas paredes com promoções e combos vendidos.
O cheiro no ar era de batata frita e milkshake de morango e se acomodando o grupo chamou a atenção de outra garçonete, baixinha e robusta, que rapidamente se aproximou, sorrindo e dispensando cardápios entre eles.
— O que vão pedir?
Enquanto Ryan encarava a garota com uma expressão bastante conhecida de acho que vou pedir o número dela e Lucas esquadrilhava o cardápio mordendo a ponta do dedo, Thomas viu a cadeira embaixo da garçonete acrobática escorregar.
Foi muito rápido e ele levantou rapidamente, assustado, prestes a gritar, quando com muita leveza e delicadeza a jovem girou, dando algo parecido com o mortal, direto para cair com cuidado no chão ao lado da cadeira e do banco caído. O som dela foi quase nulo, no chão revestido, e apenas Thomas testemunhou o acontecido com atenção suficiente para perceber que por pouco a garota não tinha se machucado.
Mas que tinha se salvado com muita habilidade.
Os amigos de Thomas o olharam surpresos e assustados com o levantamento abrupto e seguiram os olhos do mesmo até a jovem, que bufava levantando a cadeira e limpando o vestido avermelhado junto com o avental. A tela enrolada no coque de seu cabelo volumoso caiu assim que ela ajeitou o assento e os fios negros desceram em cascatas até suas coxas, lentamente se enrolando em seu braço.
Os olhos de Thomas se arregalaram.
Não acredito.
— Uau – a voz de Ryan tirou o castanho do torpor, fazendo-o olhar dos amigos para a garota a sua frente, num típico uniforme de garçonete: vestido e avental.
Vê-la usando outras roupas o surpreendeu. Até então só a havia visto com as roupas de couro escuras, o que lhe dava um ar surreal. Ali ela parecia mais... normal.
E extremamente bonita.
Espero que isso não seja um fetiche, murmurou em pensamento ainda olhando como o conjunto o lembrava de cosplays de empregada. Apesar da roupa não ter babados nem ser tão curta.
Cali olhou desconfiada para o grupo estranho na lateral da lanchonete, desejando não ter sido vista caindo. A proprietária teria que ouvir muito dela depois do trabalho por obrigá-la a trocar as lâmpadas com a ajuda apenas de bancos e cadeiras. No inferno seu corpo demoníaco era forte e alto, ali Cali era menor e mais fraca.
Estranhamente seu corpo humano ainda era adolescente.
Quando seus olhos alcançaram o grupo a imagem de Thomas de pé a olhando a fez piscar, aturdida, e quase que automaticamente ela sorriu de lado. O que o filho do rei estava fazendo ali? De soslaio o viu acompanhado e deduziu o óbvio: saindo com amigos.
Que coincidência, quis rir.
— Acho que é o número dela que vou pedir – Ryan pensou alto, remexendo na bolsa sem tirar os olhos da garota.
Thomas franziu o cenho para ele e em seguida ouviu a garçonete que já os atendia bufar, revirando os olhos.
— Ela é muito bonita.
Desta vez, ao ouvir Lucas, Thomas finalmente se mexeu, sentando de novo. O que Cali estava fazendo ali? Trabalhando? Ela não parecia ter mais do que sua idade, ela não deveria estar numa escola?
Thomas percebeu, um pouco tarde, que nunca pensou sobre quem era de fato Cali. A garota que o seguia dia após dia tentando convencê-lo a invadir o inferno no meio de um golpe de estado para salvar seu pai infernal. Mas vê-la ali, trabalhando, o fez repensar sobre tudo. Quem era Cali?
— Todos sempre dizem isso – retrucou a garçonete que os atendia, guardando o bloco de notas – quando decidirem o que pedir, é só chamar.
Havia um quê de raiva naquelas palavras ele notou. Talvez todos os clientes ficassem deslumbrados com Cali como Lucas estava nesse exato momento ou desistissem de pedir seu número, como Ryan fazia, se preparando para paquerar a garota infernal.
O castanho assentiu solidário para a garçonete que saia.
— Thomas Diaz.
A morena parou ao lado da mesa deles, com os cabelos ainda soltos e uma lâmpada média enrolada na sua tela em mãos. Sorria aparentemente animada, o que fez animação também preencher o sorriso que ele lhe retribuiu.
Em algum grau parecia que eram próximos.
Eles eram?
— Cali.
Lucas olhou de um para o outro, curioso, enquanto Ryan estendeu papel e caneta para a jovem, que só então deu atenção a dupla. Ela também sorriu para eles e Thomas se sentiu um pouco enciumado.
— Por favor, senhorita, você poderia me dar o prazer do seu número de telefone?
Cali piscou uma, duas, três vezes confusa. Então olhou do papel para o garoto e negou com a cabeça.
— Não tenho telefone, desculpe.
Ryan fez uma careta pela desculpa dela, mas recolheu o papel e a caneta. Thomas se perguntou então, com toda a história dela voltando a cabeça, se existiam celulares no inferno.
— O que faz aqui?
Cali olhou para o garoto com um sorrisinho de lado. Não achou que fosse encontrá-lo fora da rota que sempre fazia para o colégio, mas que pergunta era aquela? Não dava para ver pela sua roupa? Quis rir.
— Trabalho aqui, Thomas Diaz.
— Só Thomas, me chame de Thomas.
Ela sentiu algo a aquecer por dentro.
— E você sabe que essa não foi a pergunta.
Ryan e Lucas trocaram olhares, mas ficaram calados.
— E o que você faz aqui?
Ele ergueu a sobrancelha.
— Viemos comer.
Lançando um olhar condescendente para ele, Cali sorriu.
— Você sabe que essa não foi a pergunta.
Eles se encaram por alguns segundos até a jovem tirar um bloco de notas do avental.
— Então, já que vieram comer, o que vão pedir?
Lucas voltou a olhar para o cardápio, enumerando os hambúrgueres que queria enquanto Thomas ainda a encarava incerto. Ryan, por outro lado, se apoiou na mesa observando os movimentos dela, um tanto quanto derretido demais.
— De onde vocês se conhecem?
A pergunta do moreno fez Thomas olhar para a jovem curioso. Como ela explicaria conhecê-lo? Eu invadi o quarto dele e fico pedindo para ele salvar o inferno, seria algo engraçado de ouvir.
Entretanto Cali sorriu, lançando um olhar para ele no processo, enigmático, e piscou para Ryan.
— Segredo.
O amigo de Thomas riu, um pouco maravilhado demais com a garota, e pediu umas três porções do cardápio. Na vez de Thomas ele tentou evitar a estranheza que sentiu ao não ouvi-la dissertar sobre o inferno como sempre fazia com ele. Por que ele?
Ao final, enquanto Cali ainda anotava o pedido, ele percebeu que realmente não a conhecia. Nunca conheceu.
A jovem era uma incógnita.
— Cadê aquela garota insistente?
Os olhos azulados o fitaram meio confusos.
— Estou no meio do trabalho, Thomas.
Como se aquela frase respondesse tudo Cali sorriu, acenou para eles e levou os pedidos para o balcão. Ali ela parecia uma garota normal: trabalhava, sorria, interagia com as pessoas nas outras mesas. Por que insistia em dizer que vinha do inferno? E por que, sob a ótica dela, o inferno parecia um lugar justo e não tão horrível?
Afastando os olhos dela Thomas resmungou alguma coisa, notando em seguida os olhares dos amigos sobre ele.
— De onde você conhece aquela garota?
— Qual o colégio dela? Acho que preciso visitar – murmurou Ryan, sonhador.
O castanho pegou o cardápio e o girou entre os dedos, dando a resposta mais sincera que encontrou.
— Eu não sei.
Os amigos dele olharam um para o outro e em seguida o encheram de perguntas, que a cada resposta faziam Thomas perceber o quanto não conhecia a morena. Talvez ele tivesse ficado imerso demais na fantasia para se dar conta disso.
Mas ele queria conhecê-la?
Essa pergunta o acompanhou durante todo o lanche, vendo-a ir de um lado para o outro, driblando mesas e servindo batatas fritas. Comendo o seu último hambúrguer, ouvindo um monólogo de Ryan sobre o que os alunos do terceiro ano andavam aprontando no depósito, Thomas presenciou algo curioso.
Não que estivesse seguindo propositalmente Cali andar pela lanchonete, não, claro que não, era que quando ela surgia parecia exigir ser olhada. E ele sabia que era ela mesmo de costas e com a tela horrível cobrindo os cabelos negros, como uma sensação de reconhecimento no fundo da cabeça que o inquietava.
Thomas viu quando uma velhinha pediu para trocar seu pedido de última hora e o suspiro de Cali, viu quando ela quase derrubou um copo inteiro de suco o salvando de última hora sorrindo consigo e quando discutiu baixinho com um dos clientes sobre moscas e caldos. Não precisou de muito para ele notar que ela era novata.
Mas o que ele tinha a ver com isso?
Nada, soou seus pensamentos e ele devorou o último pedaço concordando com alguma coisa que Lucas tinha dito. Ele não queria problema e Cali era aparentemente um prato cheio deles.
•••
Catando moedas e cédulas o grupo juntou o valor dos lanches. Jogaram no par ou ímpar para ver quem ia pagar no caixa e, derrotado, Thomas se levantou. Ele olhou ao redor no caminho até lá, buscando inconscientemente por Cali, mas não a encontrou. Sua sobrancelha se franziu com essa percepção.
Parado na fila atrás de cinco pessoas Thomas suspirou, ainda procurando a cabeleira negra presa pela tela ridícula, quando ouviu a voz de sua dona. Estava na lateral da lanchonete, numa das portas que davam para a rua, falando baixinho e com raiva.
Mais curioso do que deveria o castanho foi atraído para lá, espiando vergonhosamente Cali e uma velha no beco lateral à lanchonete. Estava escuro, mas uma única luz iluminava a dupla parada ao lado da porta externa para a cozinha, acompanhadas exclusivamente de latas de lixo, sacolas e caixotes de madeira. A mulher estava com os braços cruzados e Cali se explicava, xingando algum homem de ser inconveniente.
Aparentemente, este homem tentou tocar nela, e a reação da morena foi enfiar as unhas no braço dele. Thomas fez uma careta ao imaginar a dor, mas deu razão a Cali. Se tivesse visto alguém fazendo isso com ela...
Uma raiva ínfima se formou dentro do garoto.
— Você sabe que sou uma guerreira – argumentou a morena, mexendo as mãos numa explicação – não vou deixar...
— Cali, você é uma guerreira no inferno – interveio a velha, com um olhar severo para ela – aqui você é minha garçonete. O que acontece no meu estabelecimento é preciso vir a mim, não ser resolvido a força. É claro que não vou deixar este homem sair impune, mas usar violência desse jeito não vai dar certo, estamos conversadas?
Cali grunhiu, exasperada.
— Tchort teria...
— Tchort está preso nas masmorras do inferno depois de um golpe de estado – a mulher cruzou os braços – não parece uma situação muito boa, não é?
Cali fechou a cara e a velha riu, se aproximando e tocando nos ombros dela.
— Você é muito jovem, Cali. Enquanto estiver comigo vai estar tudo bem desde que não faça bobagem.
Apertando suavemente e soltando-a a mulher abriu um pequeno sorriso.
— Fique aqui fora e descanse um pouco, Ana e Laura vão te cobrir lá dentro.
Cali não respondeu e sem resposta a velha voltou pela porta da cozinha, deixando Thomas ao mesmo tempo surpreso e irritado. A garota estava certa em relação ao homem, aquilo era assédio, não podia ser tolerado.
E junto a essa indignação vinha uma certeza muito grande: a velha acreditava em Cali. Talvez pela primeira vez ele a viu reagir a alguma coisa. Com ele a morena parecia quase uma fantasia, distante e intocável, mas irredutível em sua missão.
Ali, não. Parada no beco Cali grunhiu e socou a parede diversas vezes, irritada, resmungando algo que de onde estava Thomas não conseguia entender. Ela estava com raiva. Ela parecia muito humana. Esse pensamento aqueceu-o.
Thomas deu um passo para fora e Cali virou imediatamente na sua direção, arregalando os olhos ao vê-lo. Deixando o garoto curioso com a percepção de que não fizera ruído algum para chegar a chamar a atenção dela.
— Thomas Di... – ela engoliu o sobrenome, lembrando do que ele disseram na mesa – o que faz aqui?
Ele sorriu de lado.
— Você sabe que essa não é a pergunta.
Ao ouvi-lo Cali esboçou o primeiro sorriso dos últimos minutos e suspirou, caindo sentada sobre um dos caixote vazio. O movimento deu ao garoto a liberdade para sair completamente da porta e seguir até ela.
— Você está certa, você sabe.
Parado na frente da morena ele recebeu seu olhar.
— Sobre machucar o cara.
Cali sorriu.
— Pena que algumas pessoas não concordam com você.
Thomas assentiu e depois de alguns segundos sentou ao lado dela.
— Se quiser pode me dizer da próxima vez, eu mesmo soco a cara dele.
As palavras saíram antes que o garoto as processasse. Ele estava se disponibilizando para ajudá-la? A resposta de Cali foi uma risada baixa.
— Eu agradeço, mas sei me proteger.
— Se os seus colegas demônios tivessem visto você e aquele copo de suco duvidariam muito disso.
Ela o olhou de lado, entre a surpresa e a incredulidade. Depois de tantos dias ele aceitou a realidade do submundo? Ou era só mais uma piadinha? Cali não sabia se queria saber, estava cansada.
— Não tenho colegas demônios.
Thomas a olhou curioso.
— A maioria ou quer me matar ou quer me comer, literalmente.
Ela suspirou pesadamente encarando o chão. Dante rindo voltava a seus pensamentos.
— Sou humana, se lembra.
— Como você foi parar no meio disso tudo?
A pergunta foi um pensamento alto e sozinhos no beco a pergunta ecoou no ar por alguns segundos antes de Cali sorrir tristonha.
— Eu fui boba e achei que Deus quisesse me ajudar.
Os olhos azulados foram para os do garoto, que sentiu, no fundo do coração, a tristeza fria deles. Thomas quis pegar a mão de Cali na sua e aquecê-la, mas se reprimiu. Não devia querer se aproximar.
— Mas Deus não pode ajudar os que já estão perdidos.
A dupla ficou em silêncio por alguns minutos, cada um com seus pensamentos, enquanto se olhavam. Agora Thomas tinha muitas perguntas, mas o olhar dela o fazia vacilar. Era doloroso para ela e estranhamente o garoto não queria machucá-la. Apesar de se achar bastante insensível.
— E meu pai pode?
Sem qualquer hesitação a cabeça de Cali balançou em negação, deixando-o confuso. Ela havia defendido o tal demônio com garras e dentes a semana inteira.
— Ninguém pode – ela desviou o olhar – mas seu pai é justo. Ele é um bom governante, não merece o que aconteceu. Ele...
Me salvou, quis dizer. Mas não queria contar sua história para Thomas. Não quando já estava tão difícil convencê-lo de que era o filho do rei do inferno. Então se calou.
— É isso que você sempre deixa claro.
Cali sorriu de lado, ainda que sem força. Thomas encarou a parede de concreto a sua frente e respirou fundo, vendo uma mosca flutuar entre as latas de lixo.
— Por que não contou aos meninos sobre a história do inferno?
— Não é sábio que essa história se espalhe – ela o olhou de esgueira – e se está sendo tão difícil te fazer acreditar nisso, quem dirá humanos normais?
Essa era uma típica resposta dela.
— Como você veio parar aqui? Nessa lanchonete? – o garoto desviou o olhar do inseto para ela.
— Sorte, acho. Mariane me encontrou deitada numa praça e me ofereceu o emprego e um quarto. Não tive muita escolha – deu de ombros.
Thomas olhou incomodado para ela. Ele ainda sentia sinceridade, mas era inacreditável como Cali parecia não confiar nele, tudo isso para sustentar a fantasia idiota de inferno e reis. Bufando ele se levantou.
— Se não quer me dizer, tudo bem. Não precisa inventar coisas pra sustentar a sua... história.
Cali não se mexeu. Ela sabia, claro que sabia que Thomas não acreditava. E por que o faria? Não mostrou truques de mágica para provar, não trouxe maçãs infernais para que ele provasse ou o chifre de alguma besta demoníaca. Ela não tinha nada, ali, no mundo humano, ela estava sozinha.
Como sempre.
Mas ela já sabia disso, tentou se confortar com o pensamento.
Ao receber silêncio Thomas arriscou olhar para a morena, ainda com a cara fechada, esperando argumentos e tudo que a tornava tão irredutível no dia a dia no caminho que tomavam juntos. Mas tudo que encontrou foram olhos azuis baixos, encarando o chão sujo e de concreto.
Não havia desafio, não havia certeza. Naquele momento não havia nada.
Uma pedra caiu sobre o coração do garoto, culpando-o, mas antes que ele pudesse tentar fazer qualquer coisa a porta da cozinha abriu e o rosto da velha surgiu, com um óculos fino pairando no nariz enrugado.
— Precisamos de você.
Cali assentiu e levantou enquanto a mulher sumia porta a dentro, a deixando encostada. Encabulado Thomas olhou para ela, esperando alguma reação negativa, mas a morena sorriu sem força e, fazendo uma reverência rápida, finalmente o olhou nos olhos.
Tinha lágrimas nele.
— Até segunda, Thomas.
A garganta do garoto fechou e ele murmurou um até a vendo sumir pela porta da cozinha. Lentamente voltou a lanchonete, pagando o lanche e indo para a mesa. Seus amigos reclamaram da demora, mas tão logo saíram o assunto mudou e conversando sobre o que fariam no final de semana seguiram para casa.
E como Thomas não tinha nada para fazer, permaneceu calado, lembrando do rosto e dos olhos da estranha que agora mexia tanto com ele.
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