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Havia alguém encarregado de resolver a situação, uma pessoa que a filha ainda tolerava ouvir. Enrico sabia que não seria fácil; a pessoa praticamente não estava mais na cidade e deixara apenas um número antigo para receber informações da menina, que ele até se esquecia de atualizar.

Helena trabalhava para o pai de Enrico, Dr. Gustavo. Embora tivesse um diploma de direito, ele exigia ser tratado com grande respeito e formalidade, apesar de sua ligação com a máfia. Gustavo e a mãe de Enrico, Dora, conhecida como Isadora, frequentaram a mesma universidade, embora não estudassem o mesmo curso. As famílias Caruso e Giordano se conheciam desde então, mas no início os dois não se viam com frequência. Gustavo optou por estudar Direito para se tornar advogado, enquanto Dora escolheu Belas Artes. Ocasionalmente, se encontravam, cientes das conexões mafiosas de suas famílias. Tornaram-se mais próximos durante o quinto período de Gustavo, enquanto Dora ainda estava no início de seu curso. A relação deles, que rapidamente evoluiu para um casamento, não foi resultado de pressão familiar; os pais de Dora esperavam que ela concluísse seus estudos e decidisse seu futuro. Não viam o casamento como uma forma de aumentar riqueza ou status, apenas aceitavam a vontade da filha.

A mãe de Dora não aceitou bem o casal; para ela, Gustavo era responsável pelo abandono da universidade por parte da filha e pelos preparativos do casamento. No entanto, não se podia negar que Gustavo herdara os olhos azuis-gelo da família, além dos olhos caídos, idênticos aos de Enrico. Seu penteado castanho, em estilo slickback, completava a beleza do rapaz.

Apesar de ter pedido Dora em casamento apenas três meses após se conhecerem, Gustavo só se casou depois de terminar o curso. Ele começou a andar por Monte dos Reis com uma postura soberba, exigindo que o chamassem de Dr. Nunca trabalhou como advogado, embora tivesse o sonho de se tornar um algum dia. Era muito versado em fraude financeira, e alguns achavam que seu curso de Direito era uma forma de obter informações sobre penalidades criminais e métodos de cometer fraudes de forma mais segura. Era um homem que procurava entender detalhadamente suas ações e os riscos envolvidos, sempre criando um plano de contingência para o caso de ser descoberto.

A família Caruso não dependia do dinheiro da máfia; eles possuíam um forte comércio de cosméticos em Monte dos Reis, sob a propriedade da mãe de Gustavo, que era farmacêutica e natural da cidade, pouco envolvida nos assuntos da máfia. A PrimaDonna Cosmética era uma grande marca de cosméticos com quinze lojas ativas espalhadas por Monte dos Reis.

Da parte dos Giordano, os negócios também eram significativos. Além das duas joalherias e do shopping central da cidade, a família possuía outros dois shoppings em diferentes cidades. Eles estavam envolvidos tanto em atividades legais quanto ilícitas.

Gustavo tentou investir na carreira de sua esposa, que fazia pinturas clássicas a óleo, e chegou a moldurar algumas obras para a mansão. Pensou também em organizar uma exposição para promover o trabalho dela, mas ela recusou. Esse foi um dos motivos das discussões no início do casamento. Com o tempo, no entanto, as coisas se resolveram e, anos depois, o primeiro filho nasceu idêntico a Gustavo, embora não se tornasse tão próximo dele à medida que crescia.

Helena soube da história das duas famílias através de Dora. Após a traição de Gustavo, que o levou a sair de Monte dos Reis, Enrico contratou a empregada do pai para cuidar de sua mãe, enferma de diabetes. Isadora contava tudo para Helena, incluindo as inseguranças sobre o trabalho secreto de Gustavo na máfia. Esses boatos incomodavam Dora, mas, apesar de não confirmados, ela tinha a certeza de que o filho estava envolvido na venda e negociações de mulheres. Dora sempre incentivava Gustavo a procurar uma esposa e formar uma família, tentando afastar a má reputação dele. No entanto, ela mal imaginava que Enrico não tinha planos de se tornar um homem dedicado ao lar e à família.

De acordo com o desejo da senhora, Helena sabia que Dora se alegraria ao saber da neta. Ela ajudou Enrico a cuidar da menina. Quando a mãe faleceu e, posteriormente, Vincenzo também morreu, Enrico levou consigo para Pormadre alguns empregados da família da mãe. Entre eles estava Helena, que fora empregada por Enrico em reconhecimento ao cuidado que prestou a Dora. Ela foi contratada exclusivamente para cuidar da menina, desempenhando o papel de mãe e não realizando tarefas domésticas. Helena cuidou da menina até os treze anos, quando teve que deixar o trabalho devido a uma mudança para longe da cidade.

Embora tivesse saído de Pormadre, Helena deixou um número para Enrico entrar em contato quando precisasse e para lhe dar notícias da garota. No entanto, Enrico nunca telefonou, e com o passar do tempo, o número deixou de estar ativo. Ele tentou discar o número novamente para ter certeza, mas a mesma mensagem informou que o número estava fora de serviço. Enrico levou a mão ao rosto, frustrado.

Não havia mais nada a fazer. Enrico contou os dígitos do número novamente para verificar se estavam corretos, ainda ponderando se havia alguma solução alternativa que pudesse tentar.

31

Natália era neta de Tommaso e passou a maior parte da infância na Argentina. Aos oito anos, sua mãe a levou para a Itália, onde Natália ganhou a cidadania italiana. Embora Rose, sua mãe, tenha trazido a menina para o país, não era muito presente e negligenciava a filha, focada em luxos e uma vida social repleta de festas e viagens, como sempre fizera antes de se casar pela primeira vez. A avó, Margarita, assumiu a responsabilidade de cuidar de Natália por bastante tempo. Quando Rose se casou novamente e partiu para Washington com o novo marido, tentou convencer a filha a ir com ela, dizendo que o marido também insistia para que Natália fosse. No entanto, Natália optou por permanecer com a avó.

Natália havia visto o padrasto poucas vezes; ele parecia um homem comportado e tranquilo em qualquer situação, bastante diferente do pai, um homem simples conhecido pelos amigos como Guille e pela filha como Pato. Ele programava os finais de semana para passeios de barco pelos rios e imitava o grasnar dos patos para Natália, que lhe deu o apelido espontaneamente. Rose nunca participava; não se adaptava à vida simples do marido e sempre destacava que ele tinha uma beleza que não se adequava a um meio tão modesto.

A menina estava ciente de todas as discussões e chegou a presenciar algumas delas. Ficava com medo da raiva que eles demonstravam nos olhos e decidia apenas escutar. Guille nunca cedia às exigências da esposa; rebatia com voz alta e descontrole.

Apesar de a mãe não suportar a simplicidade, Natália apreciava o que o pai fazia. Ela via as esculturas e as decorações esculpidas de perto e muitas vezes o acompanhava para avaliar o resultado de sua arte. Rose não concordava, achando que a filha acabaria com a mesma mentalidade medíocre do pai, sem ambição e sem mudança de vida. Tratou logo de afastar a garota do pai e da pobreza. Em compensação, a filha ficou mais próxima da avó.

Margarita era saudável, apesar de conviver com pressão alta e usar um stent cardíaco. Controlava o excesso de peso depois que começaram a aparecer gorduras na barriga. Tommaso gostava do corpo da mulher como era, mas não concordou com a decisão dela de melhorar a saúde. Eventualmente, desenvolveu esclerose severa enquanto Margarita ainda estava viva e ficou confinado a uma cadeira de rodas, enquanto a avó precisou permanecer na cama por ordens médicas. A cirurgia bariátrica para Margarita precisou ser adiada devido à sua internação, já que o excesso de peso dificultava sua locomoção. Davide fez uma pausa nas viagens para acompanhar a mãe no hospital. Rose contou com a ajuda do marido e fez algumas leves insistências para que a filha deixasse o país. Alguém cuidaria dos pais para que a filha não precisasse perder tempo. Rose afirmava que quem tinha dinheiro tinha tudo e encontraria uma solução.

A garota ficou profundamente chateada com a mãe pela falta de respeito, mas a responsabilidade de Natália aumentou consideravelmente com a internação da avó e o tio acompanhando-a no hospital. Toda a gestão da mansão ficou a cargo dela, incluindo os cuidados com o avô, o que não era uma tarefa fácil.

Natália se sobressaiu diante das dificuldades e não reconsiderou o convite da mãe. Davide mantinha a sobrinha informada sobre o hospital, a última notícia sendo que Margarita precisou de oxigenação antes de falecer. Davide decidiu pela cremação da mãe e organizou o velório com as cinzas em uma urna. Rose não compareceu ao velório, alegando que o marido estava muito ocupado, mas Natália desconfiava, pois ele tinha sua própria clínica e não recebia muitas consultas. Restando apenas o pai com a doença severa, Rose ofereceu ao marido a possibilidade de acompanhamento e tratamento em Washington. Davide estava avaliando a possibilidade de transferência do pai até aquele momento.

A garota dirigiu-se para os fundos da mansão, usando a palma da mão para proteger os olhos do sol enquanto percorria o gramado. Enquanto vagava pelo pátio, ouviu um sinal vindo de trás da mansão. Natália tinha o costume de receber correspondências escondidas e já sabia que o tio desconfiava das cartas de Luca. O rapaz planejava passar as férias na casa dos primos com a intenção de deixar uma carta para ser entregue na Mansão Monastero. Luca enviava um rapaz que costumava lançar as correspondências por cima do muro de jardim vertical que cercava a mansão.

Davide não desconfiou imediatamente. Apesar de a parede verde ser bastante alta, os vândalos ainda jogavam lixo nos jardins. A mansão estava localizada em uma rua com poucos moradores ricos, sendo a única residência luxuosa da área. Alguns passantes apreciavam a imponência da casa, enquanto outros se arriscavam a vandalizar, apesar das câmeras bem posicionadas na entrada. O rapaz que entregava as cartas costumava deixá-las perto da entrada, onde eram claramente visíveis para as câmeras. No entanto, ele começou a entregar as correspondências pelos fundos da mansão, o que fez Davide desconfiar ainda mais da sobrinha, que parecia ter horários marcados para sair ao jardim e para ir para os fundos da mansão.

Indagando discretamente alguns funcionários, Davide descobriu através do jardineiro que ele já havia notado Natália passeando perto da parede verde, tanto na entrada quanto nos fundos da mansão. Parecia que a garota escondia algo nas roupas, e ocasionalmente, quando ia ao jardim, levava um livro consigo, provavelmente para camuflar o bilhete.

Natália nunca recebeu proibições do tio quanto a manter contato com Luca, mas sabia que sua mãe, controladora e abertamente contra o relacionamento do filho com a moça, faria com que Davide recusasse facilmente. Por isso, os dois mantinham o contato de forma discreta. Eles se conheceram há três meses, logo após o falecimento de Margarita, durante o velório na Mansão Monastero. Rosalba, uma amiga antiga de Margarita, compareceu ao velório acompanhada de Eliane e de seu filho Luca, já que Pasini não pôde ir. A pedido insistente de Pasini, Fiorella ficou encarregada de cuidar de Pedrina. Na época, as irmãs estavam separadas, e Caius estava apaixonado por uma amante da Cidade dos Tiras.

Luca não conseguia parar de pensar em Natália, mesmo depois que sua mãe descobriu, através da filha, que o irmão tinha se interessado pela neta dos Bellini. A menina era fofoqueira, um hábito que havia aprendido com a mãe. A única pessoa de quem não revelava segredos, mesmo sob chantagem, era sua própria tia. Ela falava até quando o pai mentia sobre seu destino, dizendo que iria a um lugar enquanto ia para outro.

Com a proibição da mãe, Luca fez o possível para manter o contato. Sempre foi um garoto esperto e pensativo. Encontrou uma solução ao aproveitar as visitas à casa dos primos, que eram parentes por parte da avó, já que Pasini não tinha irmãos conhecidos em Monte dos Reis e nem no contexto do adultério do pai. Luca era habilidoso na escrita e variava bastante nos poemas e cartas que enviava. Embora houvesse muitos elogios, o que se tornou especial para Natália foi o apelido ‘Canelinha’. Sua aparência contribuía para esse carinho: Natália lembrava muito o pai, com o dourado mel dos olhos, mas, em vez dos cachos escuros de Guille, tinha cabelos ondulados de um tom castanho-dourado, herança da mãe. A única diferença marcante era a boca pequena, que sabia sorrir de um jeito que Luca jamais esquecia. Ele nunca se intimidava em abrir seu coração nas cartas, mencionando até mesmo o sogro argentino e destacando que sua fluência em espanhol não era coincidência.

A moça ouviu um assobio vindo dos jardins e notou movimento na entrada da mansão. Apertou a carta contra o peito, preocupada com o retorno antecipado do tio.

32

A bagunça foi notada pelo mordomo ao entrar no escritório. Algumas pastas estavam fora da estante, e a escrivaninha estava cheia de folhas e documentos que normalmente eram guardados na sala de estudo. Enrico dispensou a ajuda do mordomo, mas garantiu que daria conta de organizar o local. Ele estava procurando documentos da filha, incluindo registros, certidão, documentos da escola e do hospital, na esperança de encontrar alguma informação sobre Helena. Ela havia acompanhado a infância da menina, sempre colocando seu próprio nome antes do de Enrico em qualquer registro.

Enrico não estava convencido de que houvesse apenas um número de telefone para Helena. Revirou todas as pastas e gavetas que pôde, mas não encontrou nada. Foi somente ao folhear a pasta com os documentos mais antigos da menina que finalmente encontrou um número, registrado no cartão de vacinação.

Retornou ao salão de estudo para confirmar se o número encontrado era o mesmo antigo de Helena. Por sorte, não era a mesma sequência. No entanto, teve problemas ao tentar telefonar, pois o número funcionava, mas ninguém atendia. Tentou mais duas vezes, sem sucesso. Sua intuição positiva parecia não funcionar nessas situações. Deixou o celular na escrivaninha e, ao se sentar na cadeira, colocou as mãos na cabeça. Num instante, o aparelho tocou, e ele teve pressa em verificar se era o retorno do número. Soltou um suspiro decepcionado ao ver que era uma ligação de Lorenzo.

— O que você quer agora?

— Preciso saber se tudo está certo.

Enrico se reclinou sobre a escrivaninha, ouvindo Lorenzo terminar de falar. Distraiu-se procurando rugas na testa que ainda nem tinha.

— Eu já prometi que ela vai depois do final de semana.

— Então, foi ela quem decidiu isso ou foi você? Tenho minhas dúvidas já que ela pareceu aceitar a ideia de sair da cidade sem problemas.

— Eu não entendo você. — Enrico ajustou a postura, deixando a voz mais firme. — Você queria que ela fosse para Monte dos Reis, e eu apenas segui a insistência.

— Preciso ter a certeza de que ela tem a noção de algumas coisas.

— Como assim? — Enrico perguntou, levantando uma sobrancelha em dúvida. — O que você quer dizer com ter a noção de algumas coisas?

— Achei que você tivesse conversado com ela sobre isso. — Lorenzo respondeu. — Tenho certeza de que você está receoso quanto ao impacto que isso pode ter na garota. Você sabe que o mundo aqui é diferente.

— Você não me disse nada disso — retrucou Enrico, claramente irritado. — Aliás, você não está me explicando nada direito, só quer que ela saia da cidade de qualquer jeito. E, para piorar, você nem me deixa falar diretamente com Caius sobre isso. Eu não posso mandar minha filha para Monte dos Reis sem saber o que ela realmente vai fazer lá.

— Então, você já está considerando desistir? Achei que tivesse mais convicção nisso.

— Não se trata de desistir. Trata-se de saber o que está acontecendo e de garantir que ela estará segura. Se você não me der respostas claras, como espera que eu confie nesse plano? — Percebendo os passos atrás da porta, Enrico abaixou a voz, quase sussurrando.

— Eu não estou escondendo nada que você precise saber agora. Aliás, ninguém disse que ela teria que ficar à frente da máfia, nem vai ser dessa forma que as coisas vão ser decididas. Estamos apenas garantindo que ela esteja em um lugar onde possa fazer a diferença, mas sem a pressão que você está imaginando.

— Então vocês poderiam fazer uma votação. Se querem tanto decidir o futuro dos Rosa Azul, façam isso de forma justa e deixem que todos opinem. Mas não venha me dizer que levar a herdeira é a opinião de todos, enquanto você está mandando bastante na cidade.

— Você precisa parar de questionar tudo. Eu também tenho responsabilidades para decidir qualquer coisa.

— Você está pedindo demais. Se você não quer que eu fale com Caius, é porque ele não sabe nem um pouco do que você está exigindo.

— Não vou perder mais tempo com você. Tiro a garota à força de você se ela não vier para Monte dos Reis.

— Se fosse naquele tempo, eu resolveria isso com você.

Pouco serviriam as ameaças de Lorenzo na época em que Enrico ainda não havia descoberto o arrependimento. Ele daria um fim no miserável, mas nunca precisou e nem precisaria fazer algo assim. Estava cansado de tantos problemas e mentiras que complicavam ainda mais a situação com a filha. Embora não fosse mais um Rosa Azul, sabia quem Lorenzo realmente era. Sua única preocupação era garantir que não fizessem mal à garota; Enrico era quem realmente merecia receber as ameaças por ter sido mentiroso e pecador. Sabia que a mentira era um pecado, mas sempre mentiu por falta de coragem, palavras e sinceridade.

Não havia mais ninguém para resolver a situação. Nem mesmo a santa que iluminou a lembrança de Helena trouxe conforto ao coração; nenhuma palavra de fé parecia animá-lo. O pecado tinha consequências, e Enrico precisava perder a filha de vez para aprender a lição. Depois da mãe, a garota era a única pessoa que ele tinha, mesmo que ela não demonstrasse consideração e não interpretasse o silêncio como amor.

A organização do escritório foi rápida. O sol estava se pondo quando Enrico decidiu procurar notícias da filha. Fez um rápido percurso pelo pátio, verificando se o mormaço no jardim tinha diminuído. Em seguida, ligou novamente para o número que ainda não atendia. Insistir mais seria apenas uma perda de tempo. Pedir perdão à filha ou enfrentar as ameaças de Lorenzo não mudaria seus erros. Parecia ser hora de finalmente desistir e aceitar que havia perdido a filha. Deveria ter se separado dela há muito tempo. Decidiu sair do salão quando começou a escurecer, deixando o celular para trás, ainda aceso com a chamada perdida.