Legado
2 Reflexo de alguém que fui
Notas iniciais
Roxanne abriu os olhos sentindo uma onda forte de dor invadir todo seu corpo, sua cabeça latejava de tal modo que poderia explodir a qualquer momento, o que a fez soltar um gemido doloroso, enquanto se acostumava com a claridade do ambiente em que estava.
Não foi surpresa perceber que aquele não era seu quarto, ela já estava acostumada com aquele tipo de situação. Ao seu lado estava deitado um homem muito bonito, e pelo chão do quarto era possível ver suas peças de roupa espalhadas sem o menor cuidado. Seja lá o que tenha acontecido na noite anterior, aparentemente eles tinham se divertido bastante.
Ela se esforçou para lembrar o nome do garoto que dormia ao seu lado, “Daniel?” “Gabriel?” “Miguel” “alguma coisa terminada com el?”. Bufou frustrada ao desistir da breve tentativa de recordar de qualquer coisa que tenha feito nas últimas 24 horas.
Tomando cuidado para não emitir nenhum ruído Roxanne levantou-se da cama e tratou logo de se vestir, estava muito frio para ficar nua as seis horas da manhã principalmente quando seu corpo inteiro doía e a ressaca não tinha previsão para ir embora tão cedo. Uma das maiores habilidades da garota era a de acordar cedo mesmo quando passava a noite bebendo em botecos de esquina e se agarrando com algum cara que não faz ideia de quem seja.
Mesmo de ressaca Roxy não aparentou a mínima dificuldade em aparatar de onde estava para o seu pequeno apartamento com uma perfeição invejável. As habilidades da garota com feitiços sempre foram impressionantes, fato que Rose joga em sua cara sempre que a encontra “Olha o seu potencial Roxanne! Você pode ter uma vida melhor que essa...você merece uma vida melhor”
A essa altura todos os sermões de sua família e amigos já estavam decorados em sua mente. Eles pensam o que? que é fácil sair dessa vida? Que é só acordar um dia e do nada parar de beber? Francamente, se algum deles soubessem o quanto ela deseja poder viver sem depender do álcool circulando em sua corrente sanguínea.
Afastando esses pensamentos dolorosos de sua mente, a garota se despiu e entrou debaixo da água quente de seu chuveiro na esperança de que ela pudesse levar toda a dor de seu corpo embora com a sujeira.
Quando terminou o banho se sentia um pouco melhor. Parou em frente ao espelho de seu quarto e analisou seu reflexo por alguns minutos. Ela era bonita, isso ninguém poderia negar, seus cabelos pretos eram cortados de modo que batessem em seu queixo, sua pele negra como a de sua mãe era delicada e bem cuidada, seus traços eram tão delicados que faziam com que ela tivesse a aparência de uma garota de 18 anos e não de uma mulher de 23.
Quando mais nova ela se olhava no espelho e conseguia enxergar um futuro, podia ver tudo aquilo que sua família dizia que ela era, bonita, talentosa e cheia de vida. Houve uma época que em que o amor existia, que os sorrisos eram verdadeiros e as palavras eram gentis.
Hoje a vida é escura e tem um gosto amargo e forte de todas as bebidas que ela ingere diariamente. Quando se olha no espelho atualmente, tudo o que vê é uma casca vazia, um corpo sem vida a alma que habitava ele a deixou a muito tempo.
A primeira vez que experimentou uma bebida alcoólica foi o aniversário de 16 anos de sua prima Molly, na época ela e seus primos só queriam se divertir, eram ingênuos pensavam que eram imortais, que os problemas da vida jamais os alcançaria, como ela estava enganada. Depois daquele dia ela começou a beber com suas amigas escondido costumavam usar as passagens secretas de Hogwarts para saírem e se divertirem em bares.
Quando ela completou 17 anos seus pais ameaçaram levá-la para uma clínica de recuperação caso ela não parasse de beber. Coincidentemente nessa mesma época ela se apaixonou por um garoto de sua turma, Oliver Wood. Assim como ela ele pertencia a Grifinória, eles viveram uma linda história de amor e durante esse período ela se manteve sóbria.
Era libertador saber que não precisava beber para poder se divertir, Oliver ensinou isso para ela, durante esse período a Roxanne que todos enxergavam voltou a existir, linda, cheia de vida, engraçada e única.
Infelizmente a vida não é feita só de momentos felizes, quando se formaram em Hogwarts Oliver decidiu seguir a carreira de auror enquanto Roxy se tornou escritora, eles continuaram juntos por três anos, foram os momentos mais felizes de sua vida, no entanto hoje em dia ela mal se recorda desses momentos, quando pensa nele tudo o que lhe vem na mente são as memórias daquele dia.
Oh que dia! Ela se lembra de ter sentido um mau pressentimento quando ele saiu de casa pela manhã, mas para o seu desespero suas teorias só se confirmaram ao anoitecer quando sua prima Dominique bateu em sua porta dizendo que Oliver havia sido morto em um duelo com alguns bruxos das trevas.
Dominique contou que ele tinha sido um herói, que salvou vários civis e que graças a ele os bruxos foram presos em Azkaban, mas naquele momento tudo o que ela conseguia pensar era em parar de sentir, qualquer coisa que anula-se toda aquela dor que preenchia lentamente seu peito fazendo-a sufocar.
Por isso ela voltou a beber, mas não como antes. Dessa vez era pior ela era maior de idade e podia comprar quantas bebidas quisesse apesar dos avisos constantes de sua família. Afinal de contas porque se preocupam tanto? Não é como se ela fosse a problemática da família, esse cargo já é muito bem ocupado por Lily Luna, Roxanne estava muito bem sozinha, ela saia durante a noite, voltava para casa ao amanhecer com uma ressaca daquelas e repetia a mesma rotina todos os dias.
Ela não precisava de uma babá, talvez precisasse de ajuda, mas todos sabem que Roxanne Weasley nunca admite que está com problemas, afinal de contas ela é auto suficiente sabe se cuidar, sempre soube, porque agora seria diferente?
Depois que sua dor de cabeça finalmente passou ela voltou sua atenção para a geladeira, onde tirou um vinho que ganhou de presente de uma amiga como não havia mais nada com teor alcoólico ela optou que aquela seria a melhor opção. Suspirando ela bebeu cada gota do líquido e sem que percebesse uma lágrima escorreu pela sua face.
Porque? Porque doía tanto? Porque ela fazia isso com si mesma? Nem a própria sabia responder, tudo o que sabia era que o único momento em que não pensava em Oliver era quando estava bêbada, a bebida era o único remédio para a dor interior que sentia todo santo dia.
Em cima de sua mesa havia alguns papéis e tinteiro, desde que voltará a beber ela nunca mais escreveu, mas naquele momento ela sentiu uma vontade imensa de escrever, por isso se sentou em sua mesa e rabiscou algumas palavras. Quando terminou as quatro linhas que conseguiu escreveu começou a chorar manchando o pequeno pedaço de papel com suas lágrimas pesadas.
Mamãe, me desculpe por eu não estar mais sóbria
E papai, por favor me perdoe pelas bebidas derramadas no chão
Não foi minha intenção
Peço desculpas a mim mesma
Era difícil se lembrar de quem ela era e da mulher forte que poderia ser. Roxanne era a melhor da classe, era sorridente amava pregar peças nas pessoas e poderia passar dias dentro da loja de seu pai apenas planejando pegadinhas para aprontar em Hogwarts.
Ela amava passar tempo com seus primos simplesmente falando coisas fúteis e sorrindo para a vida. Suas melhores amigas sempre foram Rose e Dominique, elas faziam com que Roxy tivesse sempre um equilíbrio perfeito. Uma era inteligente, focada e dedicada, a outra era intensa, maluca e relaxada. A garota chorava de rir das discussões das primas por discordarem sempre de opinões.
Ah e Fred! Seu irmão era sem dúvidas o melhor do mundo, quando ela tinha pesadelos a noite ele contava histórias para ela dormir, quando ficava triste ele a abraçava e dava um sapo de chocolate para ela. Eles eram tão incrivelmente parecidos no modo de agir que seu pai costumava dizer que se eles deveriam ter sido gêmeos. Infelizmente essa semelhança se estendeu até o trágico destino amoroso de ambos que acabou de forma bem parecida. A diferença era que Fred tinha uma linda menininha que precisava dele e Roxanne...bom ela só tinha o álcool.
E se ela admitisse que precisava de ajuda? Será que seria diferente? apesar de ser uma Grifinória será que ela teria coragem de engolir seu orgulho e admitir que estava no fundo do poço e tudo o que precisava era que alguém estendesse a mão para resgatá-la? A escolha é dela.
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