Legado
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Essa one-shot é formada de devaneios em forma de personagem, sem a intenção de ditar uma forma correta de enxergar seu tema.
Tenham uma boa leitura ^^
Karen cruzou as pernas e tomou o último gole de seu terceiro Martini.
O ambiente à meia-luz do pub era agradável a seus olhos cansados de claridade, o calor humano cultuava cada metro quadrado, o blues suave tocando junto aos cochichos lhe aconchegava os ouvidos e um homem no bar olhava para ela de forma convidativa de tempos em tempos enquanto fingia não notar, aquela poderia ser uma noite muito relaxante e divertida.
Isso se Isabella não fosse tão melodramática.
— E depois ele ainda me disse para relaxar, como se a culpa de tudo fosse minha e não dele, o Surfista Hippie. — Sua amiga esbravejou com aquele tom agudo que sempre estava presente em sua voz quando irritada, algo insuportável se fosse permitido um adendo.
Encarou-a por alguns segundos para que não desconfiasse de sua falta de interesse em seu namoro fracassado, brincou com a taça pensando em pedir outra bebida, se fosse realmente ouvir o que ela dizia precisaria de ao menos mais duas.
Por que não desligou o celular ou ignorou a mensagem?
Poderia estar em casa assistindo um filme qualquer, ponderou voltando a olhar o moreno alto no bar.
— Eu odeio amarelo, eu não uso amarelo e eu nunca vou usar, muito menos para ir em um luau idiota. — A loira tomou do próprio drink, desgostosa, seus olhos rolaram sem que notasse, quase como um reflexo.
Era tão comum aquela garota usar a palavra eu.
— E o Lucas ainda quis sair como superior! — Os olhos cor de amêndoa estavam fervendo de raiva, perdidos, mesmo que olhasse diretamente para a morena. — Desculpe, mas nós dois somos de mundos diferentes, melhor pararmos enquanto temos boas lembranças, Meu Sol. — A imitação do tom sempre morno e relaxado tirou um curto sorriso de seus lábios, esse pequeno momento de descontração a fez repensar o que faria a partir do momento atual.
Conferiu o relógio em seu pulso: meia-noite; seria necessário mais uma hora para se livrar de Isabella antes de dar atenção ao seu flerte, eles conversariam, beberiam alguma coisa e se tudo desse certo estariam em um motel em trinta minutos, depois disso teria que ir para casa um pouco antes do galo cantar para encarar seu novo pessoal às oito na da manhã.
Suspirou, ele era tão bonito.
— De que adianta ter uma amiga se ela não escuta? — O comentário mordaz fez com que a fitasse novamente, à expressão desconfiada e cheia de cobrança deu-lhe uma noção de como deveria responder.
— Você está torrando o meu saco, sendo que eu nem tenho isso. — Em qualquer dia a amiga teria respondido à altura, provavelmente de forma nada inocente, mas o que viu foi o muro de raiva ser quebrado, dando lugar a tristeza.
— Desculpa. — Sussurrou de forma manhosa, como um pedido de carinho e colo, sua sobrancelha arqueou de forma involuntária.
Só bêbada Isabella poderia achar que falar daquela forma amoleceria seu coração.
Irritante.
Nem parecia que o ser magrelo a sua frente tinha vinte e sete anos.
— Não, não desculpo, justamente porque você é uma dedo-podre e isso vai voltar a acontecer. — Seu tom sério e um tanto quanto monótono tirou toda a manha do rosto da outra, a feição se tornou aborrecida, vendo que não houve resultado ela suspirou derrotada.
— Será que uma vez na vida você poderia ser doce e amável com a sua melhor amiga? — Indagou antes de tomar o último gole do drink azul.
— Você não é minha melhor amiga, nunca fiz um concurso para eleger esse tipo de coisa. — Foi a vez dela rolar os olhos, a morena não se importou. — Tem uns três caras aqui que poderiam muito bem satisfazer a sua dor de cotovelo.
— Eu olhei, não fazem o meu tipo. — A loira voltou a atenção a bolsa em busca da carteira, Karen chamou um garçom para pedir a conta. — Além do mais, eu terminei com o Lucas ontem, sair com outro hoje me tornaria uma vadia. — Demorou alguns segundos para entender a fala da outra, encarou-a abismada antes de gargalhar, sendo acompanhada por ela.
— Prefiro você assim, desse jeito eu posso ir para casa fazer alguma coisa relevante, não ficar escutando essa sua ladainha.
— Tipo assistir Breaking Bad pela quinta vez? Francamente, Karen! Você é preguiçosa demais. — O atendente apareceu com a máquina de cartão e a conta, nem mesmo fez menção de pegar a própria carteira, aquela era a fez de Isabella.
— Não sou preguiçosa, apenas tenho intolerância a muito barulho. — Levantou-se já colocando o blazer negro, até então disposto na cadeira, nos ombros e pescou o celular da bolsa, deu uma lida rápida nas notificações simplesmente para fitar algo que chamasse sua atenção. — Eu queria ver Game of Thrones, estou uma temporada atrasada.
— Então não faz diferença, ela não vai ser extinta da humanidade. — Viu a loira passar indo até a saída, seguiu-a ainda de olho no aparelho, havia acabado de encontrar algo interessante em sua busca por nada especificado.
Irritantemente aborrecedor e um tanto dolorido.
Por que as pessoas não conseguiam identificar um não?
— A Samira me disse que abriu uma boate nova aqui perto, quero ir lá conferir. — A sentença teve êxito em puxa-la novamente para a realidade, Isabella havia parado de andar e estava olhando para a rua, provavelmente buscando um táxi, isso a fez ficar em dúvida se sorria pela audácia ou apenas suspirava.
— Ok, então nos vemos outro dia. — O rosnado de indignação arrancou-lhe um sorriso, esse maior que o anterior, ela começou a bater o pé contra a calçada, mas ainda olhando com afinco para a rua enquanto a outra guardava o aparelho, sua atenção havia acabado de receber um estímulo satisfatório.
— Que saco! Eu sei que você não tem sentimentos, mas eu estou precisando de um pouco de empatia, pelo menos finja.
— Está me acusando de não ter empatia pelo próximo? — Indagou, realmente chocada. — Olha quem fala, a pessoa que terminou um namoro só porque não quis usar uma roupa. — Os olhos amendoados encararam os seus de forma irritada.
Droga! Praguejou mentalmente, ela vai começar a dar gritinhos de novo.
— Nem isso pelo namoradinho você conseguiu, e eu estou aqui ouvindo suas reclamações no meu ouvido. — Viu os lábios dela se crisparem, obviamente sem resposta para sua fala.
Sua amiga lhe deu as costas e simplesmente começou a caminhar, cogitou a possibilidade de deixá-la, talvez assim aquele ser egoísta pudesse aprender um pouco de boas maneiras, mas no fim a atitude teve como resposta apenas um rolar de seus olhos e um suspiro antes de segui-la.
Como sempre acontecia quando aquela idiota queria matar o segundo tempo na faculdade.
Vislumbrou dois cães vira-latas latindo para um gato no muro na calçada oposta, os passos de ambas ecoavam enquanto tentava reconhecer outro ser humano, a rua estava tranquila demais para o horário, em São Paulo tamanha paz só era possível em condomínios, e ainda assim não eram todos, talvez em algum bairro com uma população mais pacata.
Karen deveria se lembrar de que São Carlos não era São Paulo, e que estavam em uma quinta-feira à noite. O silvo da brisa suave foi bem recebido por ela, mas a loira não pareceu se agradar muito com a oferta, já que pôde vê-la abraçar o próprio corpo.
Isabella era tão inconsequente e irresponsável.
Tirou o blazer dos ombros e sem hesitar jogou-o nela, forma dois segundos até que o sibilo de raiva entrasse pelos seus ouvidos.
— Acha que eu sou mula de carga?
— E guia turística também. — A raiva deu lugar a dúvida instantaneamente no rosto dela, mas esperou até que a peça negra fosse vestida antes de continuar, ficava um pouco folgado e não era um casaco, mas era muito melhor que apenas um vestido colorido, colorido demais, se a Karen fosse permitido opinar. — Onde é que você está indo?
— Eu quero sentar, meus pés estão me matando. — Sua amiga não lhe deu tempo para contrapor, apenas voltou a caminhar e só então a morena se deu conta da praça arborizada que estava próxima, mas isso não sanou todas as suas dúvidas.
Estávamos sentadas, pensou tentando achar alguma lógica, em um local sem vento e confortável com gente nos servindo.
— Você é muito esquisita. — O que mais poderia dizer?
A loira sentou-se em um banco abaixo de uma árvore, o local era bem iluminado, pode constatar com uma olhada rápida, haviam lanternas com luzes amareladas instaladas nos galhos ao redor, a sinfonia dos grilos e o farfalhar das folhas eram tão aconchegantes quanto os murmúrios do pud, embora que de maneira diferente. Se pôs a tirar o salto, seguiu-a pensando em quanto tempo ainda teria que perder, o dia seguinte seria seu primeiro na filial!
Aquele surfista imbecil!
Não poderia ter esperado para terminar com ela no sábado?
Sentou-se ao lado da outra em silêncio, e o que pareceu apenas um momento se prolongou por outros mais, seus olhos examinaram a praça de maneira minuciosa e contraditoriamente distraída, a pequena parte do céu que conseguia ver em meio as folhagens estava limpo e ajudava a iluminar o local, o cheiro de grama recém aparada a agradou e relaxou como sempre o fizera.
Viu um casal sentado há alguns metros, unidos em um abraço caloroso, mesmo observando tudo aquilo, sua mente estava longe de se focar no ambiente, pensativa, dessa vez de forma séria, se realmente deveria ir embora e deixá-la curtir a noite em algum buraco cheio de gente, suor, álcool e música ruim.
— Acha que eu não sei escolher homem? — Não teria estranhado a pergunta se ela tivesse vindo e um tom sarcástico, mas a fala baixa e completamente neutra a pegou de surpresa.
— Explique isso melhor. — O modo imperativo com que a frase deixou sua boca fez com que a loira suspirasse, porém os olhos continuaram presos ao caminho de cimento, pareciam levemente perdidos.
— Os meus namoros nunca dão certo. — O sorriso divertido pelo tom manhoso não durou a quantidade de tempo normal para as reclamações recorrentes de Isabella, foi tão longo quanto um fraco suspiro. — E eu não consigo entender o porquê. O que eu faço de errado para sempre acabar em dois meses? Para onde vai a magia?
Mordeu o lábio inferior e levou a mão a boca, tentando fazer com que seu divertimento não aparecesse: não deu certo.
— Ei! Do que é que você está rindo!? — Mesmo se incomodando com a volta do agudo a voz da amiga, esse detalhe não foi o suficiente para fazê-la deixar de se divertir.
— Isso é tão ridículo. — Ver a feição angelical se contorcer em cólera só deixava tudo mais engraçado. — Você adora pagar de fotógrafa moderninha. — A própria fala foi a responsável por obliterar qualquer riso de sua voz, os olhos escuros continuaram a varrer por alguns instantes a confusão em que a outra havia mergulhado, todavia logo pegaram o céu para refugiar a primeira onda de raiva verídica que tivera com ela aquela noite. — Age como uma mulher do século XXI, mas tem o sonho de uma de 1930.
— E o que tem de errado em querer uma família? — Obviamente ela havia se ofendido com a fala, causando um suspiro a outra.
Talvez fosse pedir demais de uma mulher que só lia revistas de moda interpretar uma frase levemente mais profunda.
— O que eu quero dizer, Cinderela... — Ela soltou um som de desdém com o apelido, quase deixou um sorriso escapar com o fato, mas ao invés disso voltou a encara-la, transbordando sarcasmo e aborrecimento. — É que não vai conseguir comer peixe gritando enquanto pesca. — O bico no rosto dela foi engraçado, mas não o suficiente para aliviar o clima. — Isso é uma crise antecipada dos trinta?
— Antecipada? Eu estou com vinte e sete! Sem namorado ou planos em andamento, meus óvulos vão ficar velhos. — Foi a vez de Karen soltar um suspiro.
— Se quer tanto ser mamãe, por que não congela eles por garantia, ou melhor ainda... — Aproximou o rosto do dela, perscrutando-a, Isabella piscou em um gesto espontâneo de dúvida. — Adote, sem qualquer tipo de dor e ainda tem a chance de livrar a sociedade de um possível assassino. — A loira empurrou-a pelo ombro, novamente emburrada.
— Dá para parar com isso? Eu estou falando sério.
— E eu não? — Enquanto ela cruzava tanto os braços quantos as pernas e virava o rosto para o outro lado, completamente irritada, Karen suspirava e massageava as têmporas. — Por que você quer isso afinal de contas?
Ela não respondeu, apenas respirou fundo e olhou para as poucas estrelas com um semblante pensativo.
— Eu... — A voz estava baixa e hesitante, os braços foram descruzados e as mãos repousaram no colo, era mais do que óbvia a postura desolada. — Eu nunca fiz nada relevante com a minha vida, me divirto bastante, viajo e trabalho no que sou boa, mas é só isso, pelo menos tendo um filho eu teria feito algo que faça a diferença, tipo um... — Karen sequer fez questão de conter seu riso dessa vez, Isabella apenas suspirou com cansaço. — Eu estou aqui me abrindo e falando dos meus sentimentos e você só consegue rir da minha cara.
Deixou que toda a graça tivesse liberdade antes de responder, todavia sem pretensão de indiretas ou deboches, era realmente porque havia achado a situação hilária, composto por um som suave e simples, sua risada amena era algo raro de ser ouvido até mesmo pela própria dona.
— Dessa vez não é de você.
— Dessa vez... — Resmungou contrariada, deixando um sorriso de real diversão em seus lábios, que coisa esquisita.
— É a situação, ela é tão ordinária, mas não sabia que você também fazia parte dela. — A surpresa que tomou o rosto de Isabella fez com que se apressasse a continuar. — Quer deixar algo nesse planeta ferrado antes de morrer, uma marca, para que as pessoas se lembrem de você. — Ela piscou rapidamente por três vezes seguidas com o contraste do tom de sua voz. — Não desaparecer por completo, alguém para cuidar do que foi seu e se lembrar da sua existência: quer um legado.
— É... — A surpresa continuava em suas feições, entretanto o motivo era outro, como Karen gostaria que o sorriso em seu rosto fosse presunçoso, mas aparentemente aquela noite sua prepotência tirara uma folga.
— Acho que pensar assim fazia sentido quando o nome da família era o que importava, lá na Idade Média, só que hoje não funciona desse modo.
— Como é que é? — Suprimiu o riso daquela vez.
— Você deveria ler um pouco mais ou talvez ter prestado atenção nas aulas de história. — A única ação da loira foi bufar, totalmente contrariada. — Está sendo estupida em pensar dessa forma...
— E você é uma filha da...
— Deixa eu terminar. — Cortou-a de maneira áspera antes de respirar fundo, tentado manter a calma. — O que eu quero dizer é que esse motivo é ruim e cruel para se ter uma criança, ela não é seu apêndice, é outra pessoa, é desumano trata-la dessa forma. — Pousou o indicador na boca para que ela fechasse a própria, demorou algum tempo, mas Isabelle se calou, rolou os olhos, mulher apressada! — Você só tem 27 anos, isso não é nem metade da expectativa de vida atual, é uma artista, quer ser lembrada? Pare de tirar fotos de modelos anoréxicas e passe a fotografar o que consegue prender a sua atenção. Você não é uma dona de casa, Isabella, eu sei disso, seria infeliz assim.
Ela ficou quieta por alguns momentos em que não fizera questão de contar, por fim inflou as bochechas de ar e voltou a cruzar os braços, dirigindo seu olhar a uma árvore acima do casal de despudorados.
— E qual seria um bom motivo para ter um filho na sua concepção, mestra? — A pergunta saiu debochada e a última palavra como um palavrão, porém Karen relevou a infantilidade da amiga, ela era assim desde que se conheceram no colegial.
Nunca mudaria.
— Vendo pelo ponto de vista biológico a reprodução da espécie é o único móvito, mas olhando como alguém de humanas... — Pensou bem em suas palavras, para que não fossem entendidas como idealismo barato. — A manutenção e evolução da sociedade, isso se os pais quisessem um mundo melhor. — Deu de ombros, nem todo mundo se importava com outa coisa além da conta no banco.
— E vontade de ter um filho não? — Ela soltou um tsc, reprovando suas divagações.
Se recusando a dar atenção as criancices de Isabella e se pôs a fitar o casal, que agora andava de mãos dadas por ambas. Eles pareciam felizes, mas será que já haviam passado por dificuldades juntos? Quanto ainda duraria aquela relação? Será que virando a esquina a garota não ficaria com ciúmes por algum motivo idiota? Ou ele pelo vestido que ela trajava? Ou talvez ainda pelas sogras, será que eles tinham filhos de outros momentos? Ou teriam os próprios algum dia? Talvez aquela relação terminasse assim que eles saíssem de sua vista.
Ou talvez não.
— Eu sei que esse lance de maternidade não faz o seu estilo, mas você nunca pensou nisso?
— Já, acho que todo mundo pensa em algum momento. — Seus olhos se perderam na escuridão das arvores assim que o casal foi perdido por eles. — Mas foi pelo censo comum, eu tenho que pensar nisso justamente porque é o caminho normativo, mas querer, realmente querer ser mãe? Não.
Sua vontade não era uma opção, a sociedade não deveria escolher por ela.
— Eu posso pagar um enfermeiro para cuidar de mim quando precisar usar fraudas. — Arqueou a sobrancelha enquanto voltava seus olhos para ela, sua amiga continuava a fitar algo a sua frente sem expressão.
Um sorriso flertou com seus lábios.
— Ele vai ser obrigado a ouvir minhas histórias tórridas e colocar comida para os meus vinte e sete gatos. — A loira se levantou em um pulo, puxando as sandálias consigo.
Karen poderia ter dito que Isabella não era sua melhor amiga, mas definitivamente era a mais ácida e divertida.
Aproveitou a distração dela com o celular para pegar o próprio, olhando mais atentamente o se quiser conversar, junto ao endereço de um hotel.
Era impossível não ficar balançada, mesmo depois de meses, mas Karen já tinha sua própria perspectiva, sempre tivera, aquele tinha sido apenas um imprevisto, uma relação em que se deixara levar sem notar, mas a paixão durava catorze meses, — cientificamente falando, —chegar ao ápice de sua carreira não, aquilo era para vida toda, pelo que lutara com tanta dedicação, poderia finalmente dar finalmente dar a sua família uma devolutiva depois de cinco anos lhe apoiando em sua formação primaria, em seu intercambio e no mestrado, poder voltar para casa e dizer que tudo valera a pena era o mais importante.
Aquilo era seu legado.
— Chamei um táxi, vou dormir na sua cara hoje.
— Não vai não. — Sentenciou e assim que apagou a mensagem que jamais teria uma resposta a fuzilou com o olhar, suspirou ao notar o sorriso no rosto da outra. — Eu tenho que trabalhar amanhã, não vou ficar até as duas alisando você.
— Eu não quero voltar para casa e ficar sozinha, ok. — Pela segunda vez naquela noite, Isabella caminhou sem lhe dar chance de retórica, odiava aquela atitude, muito. — Eu nem vou reclamar de dormir no sofá e deixarei você em paz, não seja uma velha reclamona.
Seus olhos rolaram sem que notasse realmente, passou a segui-la, tentando achar um bom argumento para tirar a ideia de lhe dar dor de cabeça dos miolos da loira, o que na realidade não foi muito difícil.
— Isso não faz sentido, a única diferença entre o meu sofá e a sua cama é que ele é mais desconfortável, vai dormir sozinha de qualquer forma. — O sorriso de vitória mal nasceu e já foi extinguido de seu rosto quando ouviu um assovio da amiga, apressou o passo para estar ao lado dela, estava ficando com uma vontade enorme de lhe dar um belo de um tapa.
Ou quem sabe um soco.
— Está me convidando para dormir com você? Que amor de pessoa você é, Karen, eu aceito.
— Escute aqui, loira de farmácia...
— Eu pago o táxi, mesmo que essa não seja a nossa regra acho que por hoje vou deixar passar. — O único som que seus ouvidos capturaram eram os passos das duas e o barulho suave das folhas atritando umas contra as outras impulsionadas pelo vento.
— Você vai dormir no tapete. — A única resposta que teve foi uma risada divertida, o suspiro veio sem permissão.
Surfista maldito.
— Sabe, acho que você tem razão sobre congelar os meus óvulos. — Foi praticamente um pensamento alto, sua única resposta foi um som de desdém, ela sempre estava certa. — Ou sobre a adoção, talvez eu possa apadrinhar um guri.
— Cale a boca, Isabella. — Mesmo adorando ter seu ponto de vista sendo aclamado, perder uma batalha encobria essa satisfação.
Você é loira de farmácia, sua anta, pensou com a indignação nublando sua mente, como pode odiar amarelo?
— O que foi, Karen? Eu magoei você? — Sentiu os dedos dela beliscarem sua bochecha em forma de falsa amabilidade.
— Faça isso de novo e eu quebro o seu braço. — Afastou-se do toque com um tapa, a loira soltou um ai baixo e meloso, realmente não tinha sido o mais fraco de seus contatos agressivos com ela.
— Nossa, não precisa disso tudo, só estou brincado com você. — Mesmo que o tom soasse culpado e até com algum teor de ofensa, fez o possível para não parecer em dúvida, nem se quer a olhava, preferia fitar a rua, querendo que aquele carro amarelo chegasse logo. — Sua bruta, eu não faço parte do seu harém de pau-mandados.
— Eu paro se você calar a boca. — Isabella parou de andar quando chegaram a porta de um restaurante, estranhamente a loira ficou quieta, fitou-a da forma mais disfarça possível, ela olhava a rua como a própria fazia e segurava a bolsa a frente do corpo com ambas as mãos, será que batera forte demais?
— Pare de fazer charminho. — Ela não se mexeu. — Isabella. — Levou uma das mãos a ajustar o blazer sobre os ombros. — Eu vou pegar ele de volta e fazer você passar frio se continuar com essa frescura.
— Me manda calar a boca duas vezes e quando eu atendo o pedido nada gentil você fica irritada, pare de usar drogas. — O sorriso convencido dela a irritou, mais do que o normal.
— Você não vai dormir na minha cama comigo, nem fodendo. — Os faróis iluminado a noite a impediram de obter uma resposta, o que não era ruim, já que sua fala era uma sentença sem réplica. Apenas depois de alguns minutos dentro do veículo ela se manifestou, tão convencida e arrogante que era difícil de serem igualadas.
— Isso nós vamos ver.
Maldito surfista!
Notas finais
Caso tenha elogios, críticas, curiosidades ou algo a dizer: deixe um comentário XD
Xaaaaau o/
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