— Seu futuro é sombrio..., mas não perca as esperanças. Um dia... um dia, as coisas vão melhorar. Um dia...

✧❄✧

BUCKY ENCARAVA A LISTA DE NOMES gravados naquele caderno como se a coisa toda estivesse prestes a explodir bem na sua cara.

No chão do banheiro, Alpine estava toda esparramada em cima dos fios de cabelo castanho recém-cortados — o cabelo dele — com a barriguinha branca e peluda voltada para cima enquanto ronronava; o que teria achado adorável, digno de fotos até, se não estivesse à beira da loucura.

Ele tinha sonhado com a agente IV outra vez.

A maldita memória da noite em questão insistia em arranhar a superfície de seu cérebro.

O estampido do pescoço dela quebrando, o corpo esguio caindo; o sangue jorrando em suas mãos... tudo vívido e real demais para suportar. E no instante em que acordou na sala, sozinho, com o coração disparado, o sargento se viu refletido na televisão desligada da sala e... encontrou o soldado. De novo.

O Soldado Invernal estava bem ali na sua frente, encarando-o como se zombasse dele; como se, silenciosamente, o lembrasse de que nunca se livraria daquela parte detestável de sua vida. Pouco importava se tinha prendido uma congressista corrupta na noite anterior ou estivesse frequentando assiduamente a terapia de Raynor. O sangue continuava ali, escorrendo por entre os dedos.

Os pecados de sua vida passada estariam arraigados nele até o último suspiro.

Bucky então se levantou e tentou fugir, mas o soldado o perseguia por todos os cantos enquanto perambulava feito um cão raivoso no apartamento.

Nos vidros das janelas, no micro-ondas, nos copos da bancada... aonde quer que fosse, o soldado ia junto — e o encarava, sisudo, de um que jeito que estava levando Bucky à loucura.

Até o ponto em que o sargento se irritou e socou o velho espelho do corredor, partindo-o em mil pedacinhos. Mas o maldito Soldado Invernal continuava ali, refletido nos cacos. Perscrutando.

Foi quando se deu conta de que o soldado era ele. Bucky.

Claro que era ele. Sempre seria ele.

Enquanto respirasse, sempre o veria o reflexo dele no espelho. Os olhos. A pele. O cabelo. O maldito cabelo. Comprido. Sem corte, cobrindo o rosto como se fosse uma assombração.

Aquilo acabaria naquele momento.

Começou devagar. Ele foi até a cozinha e sacou uma de suas adagas que ficavam escondidas no fundo gaveta do armário e marchou até o banheiro, encarando o próprio reflexo no espelho manchado da pia.

O soldado estava ali.

Bucky então respirou fundo e tirou uma mecha grossa da parte da frente com um corte rápido e certeiro. O soldado continuava parado, encarando e desafiando-o a continuar. Bucky quis gritar, mas continuou.

Cortou outra mecha. Depois outra. E outra. Até que o cabelo ficasse todo picotado e desnivelado; o corte, até então na altura dos ombros, mal passava da nuca. Feito isso, pegou uma navalha e tirou até o último fio da barba espessa, que àquela altura já cobria boa parte do rosto e pescoço, sem nem se dar ao trabalho de usar o creme para barbear.

Quando terminou, trêmulo, ofegante e cheio de machucados no rosto, imediatamente se arrependeu. Não porque se importava com a aparência ou qualquer merda do tipo, mas porque parecia um lunático encarando o espelho, todo descabelado e com o rosto sangrando enquanto Alpine o analisava com sua curiosidade felina.

Então, sentiu o caderno de capa vermelha, que tinha pegado na estante da sala momentos antes, pesar no bolso. Bucky o puxou, abriu na página onde jazia a lista de nomes e a encarou por pelo menos quinze minutos. Imóvel. Sequer piscava. Nomes e mais nomes naquelas intermináveis páginas zombando de sua cara. Havia um, no entanto, que sobressaia.

Seus olhos cravaram em "Igor Vronsky". Havia um risco escarlate gigantesco por cima do garrancho — exatamente como havia feito com todos os outros ex-membros da Hidra que havia detido desde que começara com a coisa toda. Mas o fato de Vronsky ter morrido antes que pudesse levá-lo à justiça não era o motivo pelo qual encarava o caderno daquela forma lânguida.

Bucky sabia que a agente IV era a pessoa que o Soldado Invernal havia matado sob ordens de Vronsky em 2005. Mas apesar do cientista não ser mais um problema, sabia que aquela história ainda estava longe de terminar. A forma como morrera... o que tinha acontecido naquela noite nas docas...

Depois daquela noite e todo o incidente com Vronsky, Bucky havia buscado em antigos registros da Hidra — e nas próprias memórias fragmentadas — por qualquer coisa que pudesse se relacionar com a pesquisa dele.

Não havia nada, no entanto. Nada que mencionasse a palavra inumano ou um laboratório escondido no meio do mar negro. Como aquilo era possível? Como conseguiram enterrar uma coisa daquelas?

Inumano. Uma pessoa com um tipo de DNA diferente das pessoas normais... aquilo estava muito além de sua alçada. Nem se tentasse muito, conseguiria entender como a coisa toda de genética e mutações funcionavam.

Por esse motivo, e contrariando seus instintos, Bucky recorreu a quem tinha o mínimo de conhecimento do assunto. E, para sua completa frustração, tinha sido uma enorme perda de tempo.

Mutações que se ativam por meio de cristais alienígenas, repetira Bruce Banner pela quarta vez, como se aquilo fosse algo completamente inacreditável, nunca ouvi nada assim, James. Mas, se conseguir alguma amostra de DNA, ficarei feliz em ajudá-lo.

Dito isso, o doutor passou os minutos seguintes da ligação tagarelando alguma coisa sobre a estrutura e composição do DNA humano como se estivesse em uma palestra e, francamente, Bucky estava sem paciência alguma para aquela merda.

Logo após o fracasso com Banner, tinha cogitado mandar um e-mail para o guaxinim e seu grupo de esquisitos. Bem ou mal, eram os únicos seres alienígenas em todo universo com quem Bucky tinha um relacionamento amigável o bastante para pedir informações sobre o tal do cristal terrígeno, uma rocha — igualmente — alienígena. E ele tinha escrito o e-mail.

Antes de enviar, no entanto, descartou a ideia.

Nem sabia se conseguiria retorno — ou quanto tempo levaria — e, considerando o último encontro que tiveram, era bem provável que aquele maldito guaxinim acumulador pedisse seu braço em troca. Literalmente. Não, tinha que conseguir informações na terra. Com seres humanos, se possível.

Bucky então se lembrou de Sharon Carter, sobrinha de Peggy Carter.

Sharon era uma ex-agente da S.H.I.E.L.D, e o ajudara — Steve, na verdade, mas isso era apenas um detalhe — ainda como fugitivo, anos antes.

Através dela, Bucky concluiu que seria a forma mais rápida — e confiável — de reunir informações sobre as atividades da S.H.I.E.L.D naquela época e, quem sabe, descobrir a identidade da agente IV. Talvez houvesse algum relatório perdido em algum lugar. Tinha que ter.

Infelizmente para Bucky, Sharon Carter estava desaparecida desde antes do estalo. Sequer sabia se ela ainda estava viva.

Outra opção era Helmut Zemo, que conhecia a estrutura da Hidra como a palma da mão e odiava aprimorados mais que tudo na vida. Se havia alguém no mundo que poderia saber alguma coisa sobre um plano fracassado da Hidra envolvendo mutações genéticas, era ele.

Só que, porra, Zemo era dissimulado e perigoso demais. Não gostaria de lidar com aquele desgraçado e não estava tão desesperado assim. Ele suspirou. Não havia opções. Estava sozinho.

Não, aquilo não era completamente verdade, pensou. Ainda havia Sam.

E embora Bucky detestasse admitir, a rede de contatos do Falcão era extensa. A ajuda dele seria muito bem-vinda.

Sam Wilson com aquela personalidade extrovertida deveria ter amizade com mais da metade das forças especiais dos Estados Unidos; talvez conhecesse alguém com acesso as informações que precisava. Sabia também que, se pedisse, o ajudaria de bom-grado. Ainda assim, torceu o nariz.

Depois da sucessão de cagadas de Sam, depois de tudo que acontecera no museu e o escudo ter acabado em um maldito cofre em Washington por culpa dele, Bucky preferia cortar a própria perna a olhar na cara do Falcão outra vez.

E, francamente, nem queria pensar muito a respeito do escudo e o fim que dariam a ele. Seria demais para seu cérebro. Que merda. Estava andando em círculos.

Frustrado, o sargento encarou a outra parte do caderno. Aquela era a folha reservada as pessoas que ele tinha prejudicado e tentava desesperadamente se redimir. Uma lista gigantesca. Tão grande quanto — maior até — a lista anterior.

Ele encarou os nomes um a um, se demorando no final dela.

AGENTE IV

Agente IV, escrito em letras garrafais com um risco marcando-o por baixo, para enfatizar a prioridade.

Não havia absolutamente nada que pudesse ser feito por ela, sabia disso.

Bucky não sabia o nome, de onde tinha vindo, muito menos se tinha algum familiar buscando por respostas. A única coisa que poderia oferecer para que a mulher tivesse um descanso minimamente adequado, seria dar um fim àquela história com Vronsky de uma vez por todas.

E era o que pretendia fazer.

Obviamente, aquilo incluía o último adendo, ainda fresco com a tinta da caneta, escrito como se fosse uma nota de rodapé.

*Menina Inumana

Quem era ela? Estava viva? Morta? Com quantos anos a menina estaria àquela altura?

Bucky fez um rápido cálculo mental e, considerando que a coisa toda havia acontecido em meados de 2005, a menina — que nem era mais uma menina — deveria estar com vinte e tantos anos. Talvez trinta. Era difícil saber.

O que Bucky sabia, no entanto, era que a Hidra não tinha conseguido recuperá-la. Sabe Deus quais atrocidades teriam cometido se o tivessem feito.

Mas... será que cabia a ele revirar aquela história depois de tanto tempo? Talvez a menina tivesse seguido com a própria vida. Talvez não quisesse ser encontrada e a intervenção de Bucky piorasse tudo.

Prostrado, o sargento fechou o caderno e o guardou no bolso outra vez.

Em suas pernas, Alpine — com as costas cheias de cabelo — começou a se esfregar, como se o cumprimentasse. Bucky então acariciou a parte de trás das orelhas dela, olhou para o lado oposto da sala onde jaziam potes de ração e água, ajustados em uma altura confortável para gatos — cortesia de Serena — e respirou fundo.

Precisava de ar fresco ou sua cabeça explodiria.

Sem pensar muito, Bucky calçou os sapatos, pegou suas luvas de couro e vestiu um moletom amarelo surrado — apesar de estarem bem no meio do verão — e foi andando até a porta. Algumas voltas pelo Brooklyn fariam sua mente se acalmar um pouco. Era o que esperava, pelo menos.

Do lado de fora do apartamento, o caos controlado da cidade irrompia junto ao sol que surgia no horizonte. Ao longe ouvia as buzinas de carros e o barulho das rodas de metrô riscando os trilhos de aço. Pessoas passavam por ele como formigas em direção ao formigueiro. Mas nada daquilo o afetava. Seu peito pesava uma tonelada. Não conseguiria descansar enquanto não resolvesse aquela história com a agente IV; não teria paz enquanto não riscasse todos os nomes daquela lista.

Devia isso aquelas pessoas. A si mesmo.

Você está livre, a voz de Raynor voltou a mente dele pela milésima vez, como um disco arranhado. Mas como, pensou ele, como poderia ser livre enquanto todas aquela gente tinha sofrido por conta das ações do Soldado Invernal?

Como poderia apoiar a cabeça em uma cama enquanto todo aquele sangue ainda o assombrava; enquanto sabia que uma criança tinha sofrido tanto por causa da Hidra; enquanto tinha plena noção de que tinha matado alguém como a agente IV?

Ele torceu o nariz. Aquela mulher, a agente, estava lutando para derrubar a Hidra. Resgatara uma criança de um laboratório no meio do nada e impedira que os experimentos de Vronsky fossem adiante. Sozinha.

E ninguém, ninguém, sabia disso. Era a porra de uma heroína que tinha sido apagada da história.

Por. Culpa. Dele.

Bucky continuou andando.

Subiu alguns quarteirões. Passou em frente ao calçadão Promenade e por algumas galerias de arte, mas não parou. Foi andando e andando, sem uma direção em específico. Até que ele viu. Serena. E estava parada de costas para ele em uma calçada, encarando uma parede de concreto queimado que ele logo percebeu se tratar do centro poliesportivo recém-instalado no bairro.

Naquela manhã, ela usava roupas de academia. Uma bermuda, um tênis azul e uma camiseta tão grande que cobria quase toda a bermuda. Seus cabelos estavam presos por um rabo de cavalo improvisado que deixava algumas mechas escapando.

Bucky então se aproximou. Devagar, como se não quisesse chamar a atenção dela e notou que havia algo de errado. O coração estava batendo mais rápido que o normal. Em passos largos, ousou chegar mais perto. Contudo, quando estava a um passo de tocar em seus ombros, a coisinha deu um passo para trás e bateu nele.

— Aí — ele resmungou.

Na verdade, Bucky não sentira nada, mas para efeito dramático, achou que seria de bom tom anunciar sua presença. Ela então se virou na direção dele e torceu o nariz.

— Santo Deus, sargento — disse, a mão direita no peito. Em sua outra mão, havia um cartão preto — por que você sempre tem que aparecer do no nada? E... que merda aconteceu com a sua cara?

Ele levantou uma sobrancelha.

— Alguma razão específica que justifique sair por aí atropelando as pessoas que estão andando tranquilamente pela rua? — disse, ignorando a pergunta.

— Eu não atropelei você — respondeu ela, enervada — foi você quem trombou em mim.

Bucky ergueu um lábio para cima.

— Então por que está pisando no meu pé?

Como se tivesse acabado de se dar conta disso, Serena recuou um passo e murmurou um pedido de desculpas constrangido.

O coração continuava acelerado e seus dedos pequenos tremiam um pouco, embora tentasse disfarçar. Ele virou para a fachada outra vez e entendeu o que estava acontecendo.

O centro poliesportivo, é claro. Era aquele lugar que estava deixando-a nervosa daquele jeito.

Mas ele até que entendia.

Algo parecido acontecia com ele às vezes. Quando encarava a terapeuta por muito tempo. Ou Sam. Ou depois de um pesadelo com a agente IV. Ou... qualquer coisa. Foi preciso certa presença de espírito para conter o ímpeto de torcer o nariz.

— Eu me distraí — Serena murmurou, embora a resposta fosse meio ambígua — achei que seria legal mudar meu percurso de corrida e conhecer alguns lugares, para variar um pouco.

Ela olhou para o prédio de esguelha. Bucky não sabia ao certo como agir. Ou dizer.

Alguns dias haviam se passado desde o incidente no museu e tudo estava estranhamente silencioso. A mídia não tinha manifestado mais que uma nota de rodapé sobre o assunto e tudo parecia ter sido varrido para debaixo do tapete, o quer que Erika Jones tivesse feito para cobrir o assunto em panos quentes funcionara muito bem. Mas depois de tudo que Serena havia confessado a ele no metrô, era compreensível a reação cautelosa dela, embora achasse que a coisinha deveria ao menos voltar com o esporte.

Bucky até então não tinha assistido a nenhuma apresentação de Serena e não entendia direito o que ela fazia.

A bem da verdade, nunca tinha assistido a uma apresentação de ginástica artística na vida, mas não tinha dúvidas de que ela era talentosa e dedicada — os troféus da sala não negavam aquilo — além disso, não era estúpido.

Há muito tinha reparado em como expressão dela mudava completamente sempre que o assunto surgia. Os olhos castanhos ficavam ainda mais brilhantes. As bochechas, coradas. O sorriso, céus, era o mais belo do mundo. Ela amava aquilo. E estar diante de um lugar como aquele, sem poder fazer aquilo que amava...

— Você quer entrar? — ele perguntou, virando para ela de novo.

O corpo dela tensionou e seu olhar anuviou, como se estivesse revisitando uma memória terrível. Imediatamente se arrependeu de ter aberto a boca. Por que tudo que fazia era piorar as coisas?

— Um dia, quem sabe — ela sussurrou enquanto enfiava o cartão em um dos bolsos da bermuda — mas não hoje — e desviou o olhar.

Bucky achava difícil de acreditar que ela tampouco teria interesse de entrar ali posteriormente, mas não comentou nada a respeito. Não se intrometeria com traumas de outras pessoas, não enquanto mal sabia como lidar com os próprios demônios — e seu cabelo picotado era a prova disso.

Ao invés, tocou no ombro dela com uma delicadeza que, em geral, não tinha.

— E se eu mostrasse outros lugares a você? — Sugeriu o sargento, para o próprio espanto.

Serena, tão espantada quanto, inclinou a cabeça.

— Você?

— Algum problema com isso? — ele respondeu, embora aquilo tudo fosse uma parte dele ansiando por uma fuga momentânea — caso não saiba, eu cresci aqui. Conheço o bairro como a palma da minha mão.

— Achei que tivesse sido há uns duzentos anos atrás — debochou ela e deu um sorriso complacente.

Bucky não disse nada. Achou melhor assim. Ao invés, deu a mão esquerda para ela que aceitou sem hesitar.

— E para onde pretende me levar, sargento?

Ele ergueu um lábio para cima.

— Você já vai descobrir.