Legacy | Bucky Barnes ︎
18 XVIII
Apartamento de Bucky Barnes,
Edifício Cornélia,
Brooklyn, NYC,
2024
COMO ERA DE COSTUME, Bucky acordou no chão frio da sala, com nada além de um calção e a fina manta da cama.
Não porque estava com calor nem nada do tipo, a verdade era que não conseguia dormir naquela cama de casal, um pouco curta para ele, mas ainda assim confortável — bem mais que o chão duro da sala, pelo menos — que ficava na suíte no fim do corredor.
Não se sentia bem com aqueles travesseiros de penas de ganso, tampouco com o conforto dos lençóis e do colchão de molas. Parecia terrivelmente errado. Então abriu os olhos, deixando aquilo de lado. Cedo demais para melancolia, pensou, espreguiçando os braços. Só que quando virou o corpo, o sargento encontrou outro par de olhos tão azuis quanto os dele, encarando-o. O maldito gato da noite anterior, que miou e sacudiu as orelhas, ainda mirando Bucky.
Era um verdadeiro milagre o felino ter ficado tão quieto dentro de sua jaqueta enquanto pilotava a moto pelas ruas do Brooklyn com Serena a tiracolo, ronronando como se o colo do sargento fosse a coisa mais confortável do mundo, mas, não era como se ele estivesse com o gato por livre e espontânea vontade.
A coisinha estava pronta para ficar com ele. Mas assim que abriu a porta do apartamento, o felino residente, tomado por uma fúria animalesca, rosnara para o pobre filhote com tanto afinco que Bucky achou perigoso demais deixar os dois juntos no mesmo ambiente. E era apenas por esse motivo, concluiu, que a pequena bolinha de pelos brancos estava ali, tomando o apartamento como se fosse o dono do espaço.
— O que você quer? — Disse Bucky, se sentindo meio idiota por conversar com um gato. Um gato, pelo amor de Deus.
Se bem que ele tinha lutado ao lado de um guaxinim e uma árvore falantes, meses antes. Um gato não seria nenhuma novidade na vida dele. Mas, sorte ou não, o felino apenas miou outra vez. Um miado agudo e urgente. Talvez estivesse com fome. Bucky, ao menos estava. Então se levantou e foi para a cozinha.
O gato o seguiu, curioso.
Bucky, que não comia nada desde a noite anterior, pegou a primeira coisa que viu pela frente; uma embalagem de lasanha à bolonhesa congelada e enfiou no micro-ondas, pouco se importando que mal passasse das sete da manhã. O felino inclinou a cabeça como sedissesse "ei, e quanto a mim?" para o sargento.
Ele torceu o nariz. O que gatos comiam mesmo? Imediatamente pensou em leite e atum — um ou dois ratinhos, quem sabe? — mas não tinha nenhuma dessas coisas por perto e não estava com a menor vontade de fazer compras. Não em plena manhã.
— Espero que goste de lasanha, parceiro — ele anunciou ao ouvir o micro-ondas apitar.
O filhote miou. Talvez por conta do cheiro de queijo derretido e molho de tomate industrializado que inundava a cozinha. Um momento depois, estava enroscado nas pernas de Bucky, fazendo aquele ronronar estranhamente fofo de gato. Interesseiro, pensou. O sargento pegou a embalagem fumegante com a mão esquerda e marchou para a sala.
Não demorou mais que dois minutos até que ele decidisse dividir o jantar — café da manhã, na verdade — com o gato. E como não dividiria? O pobrezinho era magricela e o encarava como se não comesse nada a anos. Os dois se refastelaram com a comida pronta como se fosse um grande banquete. No entanto, mal conseguiram chegar na metade da lasanha quando Bucky ouviu um ruído estranho vindo dos canos. As orelhas do gato se agitaram, como se também tivesse notado a movimentação.
O prédio era tão velho quanto Bucky, assim como aqueles canos enferrujados, era bem provável que não fosse nada demais. Se bem que durante os últimos meses, ele não ouvira nenhum ruído estranho como aquele. Talvez informasse aquilo para o síndico mais tarde.
Um momento depois, houve um estrondo particularmente alto, seguido por um grito. Bucky olhou para a lasanha depois para o gato, que eriçou os pelos. Suspirou.
Comeria depois.
✧❄✧
Serena estava um trapo naquela manhã. A cabeça doía. O corpo doía. Fazer qualquer movimento era um martírio.
Que decisão de merda, ter ido ao Shark's, concluiu ela. Não deveria ter saído de casa; não deveria ter bebido; não deveria ter ido atrás do maldito gato e muito menos apagar daquele jeito na rua, sabe Deus como.
Ela se arrastou da cama, praguejando.
O final da noite passada era um borrão de memórias fragmentadas em seu cérebro. Mal se lembrava de como havia chegado em casa, embora lembrasse vagamente de ter se encontrado com Bucky — por algum motivo que nem se importou em perguntar — no meio da rua em algum momento e, de algum jeito, ter feito a façanha de chegar em casa incólume e de cair na cama eventualmente.
Serena também acordara com uma ressaca terrível. Tão terrível que mal conseguia caminhar pelo apartamento enquanto James a encarava com aquele olhar acusatório de gato. Então ela pensou que seria uma boa ideia tomar banho. Seu segundo erro.
Quando entrou no banheiro, meio trôpega, usou a ducha mais forte e gelada que conseguira e, depois de vinte minutos esfregando o corpo com seu sabonete líquido de ameixa favorito e os cabelos com seus cremes favoritos — a memória do cheiro da noite anterior vívida até demais para se ignorar — finalmente começou a se sentir como um ser humano outra vez.
E conforme a água fria escorria por seu corpo junto a espuma e a sujeira, Serena começou a se questionar o que diabos tinha acontecido na noite anterior, forçando as memórias.
O começo estava bem claro.
Íris, o bar e a discussão. Se lembrara também de ter ido até aquele beco, atrás de um gato de rua maltrapilho — por Deus, qual era seu problema?— e depois... o que acontecera depois? Ela forçou e forçou, mas não conseguira nada senão piorar a enxaqueca. Até que...
Tome cuidado com olhos penetrantes.
As palavras ecoaram na cabeça dela, como uma promessa velada que não compreendia. De onde veio aquilo? De quem era aquela voz? E que merda aquilo significava? A dor de cabeça piorou ainda mais. Tanto que pensou que desmaiaria bem ali, no box do banheiro.
Era como se uma estaca de madeira estivesse cravada em seu cérebro e, a cada movimento, a dor reverberasse por seus ossos.
E, de repente, Serena sentiu a visão embaçar.
Uma forte vertigem a atingiu feito um soco e, por muito pouco, não caiu. Suas pernas pareciam feitas de gelatina, de tão fracas. Para o inferno com o trabalho, pensou ela.
Arranjaria uma boa desculpa, mas precisava se deitar um pouco. Correu os dedos pelo registro do chuveiro para fechá-lo, só a porcaria estava emperrada.
— Droga de chuveiro velho — murmurou, forçando-o para a esquerda.
Já estava ruim há meses, mas o síndico dissera que levaria mais algumas semanas até que trocassem aquele registro enferrujado. Ela então forçou mais. E mais. Só que com um último puxão, a manivela do registro soltou da parede, fazendo com que a água parasse de jorrar pelo chuveiro; apenas para escorrer diretamente do buraco recém-aberto na parede.
No mesmo instante, Serena tentou colocar o registro de volta no lugar, sem sucesso. Murmurou um palavrão, mais essa.
Respire fundo, Serena. Não se estresse.
Teria de ir até o fim do corredor, onde a válvula manual de água do andar todo ficava, que maravilha. Só que antes que pudesse sair do box, o cano da parede fez um barulho estranho e o fluxo de água enfraqueceu. Não fazia ideia do que aquilo significava. Talvez os canos não estivessem com pressão o suficiente para abastecer o andar — não seria a primeira vez — mas quando a pressão da água falhava, o chuveiro não tremia daquele jeito, como se fosse o pino de uma panela de pressão.
Ela correu os dedos pela parede e respirou fundo.
Quando a cidade ficava em silêncio — o que era bastante difícil, mas não impossível — Serena podia ouvir o gorgolejar da água, enquanto fluía pelos canos do prédio, andar a andar, como se tivesse vida própria. Naquele momento, contudo, a água estava silenciosa demais. Quase como se algo estivesse impedindo sua passagem.
Ela não teve tempo para elaborar mais teorias sobre o que poderia ter acontecido com aqueles canos já que, um instante depois do buraco do registo, a água voltou a jorrar como se a corrente fosse enfim libertada. E, em poucos segundos, transformara o banheiro em uma pequena catarata. A força da água era, sem dúvidas, bastante semelhante.
Serena gritou. Desajeitada, praticamente saltou do box, se enfiou de qualquer jeito no roupão pendurado na parede e seguiu quase aos pulos até a porta.
Corredor, tinha de chegar até o corredor.
Quando tentou abri-la, no entanto, a maçaneta teve o mesmo destino do registro: suas mãos. Só poderia ser algum tipo de piada, pensou ela. Novamente, tentou colocar de volta no lugar, mas o metal velho entortara e já não encaixava mais no lugar. Serena quis bater com a testa na madeira. A maldita porta de carvalho era tão velha quanto o banheiro.
Teria uma séria conversa com o síndico mais tarde.
Por enquanto, porém, tinha de pensar em uma forma de sair do banheiro antes de morrer afogada pelo jato de água que inundava o cômodo.
Arrombar não era uma opção viável, a porta abria pelo lado de fora. Também não podia ligar para ninguém, já que o celular ficou perdido em algum canto da casa — péssimo dia para tomar banho sem ouvir música no spotify.
Merda, por que tinha fechado a droga da porta? Não dividia mais o apartamento, pelo amor de Deus.
Àquela altura a água já escorria por debaixo da porta e ela estava a um passo de se encolher e chorar no chão quando ouviu passos molhados vindos do outro lado da porta. Merda. O carpete recém trocado ficaria arruinado — não que aquilo importasse no momento.
Ela estava... presa, finalmente percebeu, presa em um espaço minúsculo.
Um arrepio correu-lhe pela espinha. As paredes do banheiro, de repente pareciam estar diminuindo. Arfou.
— Serena — era a voz de Bucky que tinha entrado no apartamento sabe Deus como — que merda aconteceu aqui? Tem água no corredor lá fora, sabia?
Ela se forçou a respirar profundamente. Mais cinco minutos e teria uma piscina no quarto.
O ar também diminuía a cada resfolegada.
— O cano do banheiro estourou — chiou, batendo na madeira, como se pudesse abri-la magicamente — e a porta está emperrada.
— Como isso aconteceu?
— E importa? — Serena respondeu, olhando para baixo — meu apartamento deve estar completamente alagado a essa altura.
Silêncio. Por alguns segundos tortuosos ele não disse absolutamente nada.
— Sargento? — ela choramingou, quando a ausência de resposta da parte dele começou a perturbá-la.
Ele levou um tempo, mas desta vez, respondeu:
— Já volto.
Serena sentiu um arrepio correndo a espinha. As paredes continuavam a diminuir. A água jorrava ainda mais, com a força de uma catarata.
— Ei, aonde você vai? Bucky!
Mas ele não disse nada. Ela apenas ouviu os passos pesados dele se afastando corredor afora.
O sargento estava mesmo indo embora? Que pergunta estúpida, claro que ele estava indo embora.
Talvez não quisesse se envolver quando o síndico notasse a bagunça que Serena havia feito no apartamento. Com certeza ele não deveria se envolver. De toda forma, ela o chamou de volta como se a própria vida dependesse daquilo.
E era bem provável que dependesse, já que mais ninguém morava naquele andar. Estava presa. Sozinha naquele maldito banheiro que diminuía a cada instante. Mais água escorria, mais forte... mais gelada... enquanto ela estava ali. Presa.
Presa em lugar pequeno e escuro, onde ficaria sozinha para sempre e... não, não permitiria aquilo. Não se afogaria naquilo.
Os dedos das mãos começaram a formigar. Estava a um passo de abrir passagem pela porta com as próprias unhas quando notou que a pressão da água na parede começou a decair gradativamente, até se extinguir por completo.
Serena sentiu os olhos lacrimejando de alívio.
— Não tem por que chorar, coisinha — ela ouviu a voz indolente dele, abafada pelas paredes — já desliguei o registro do andar.
Serena precisou morder a língua para não xingar o cretino.
— Acha que consegue abrir por fora? — ela murmurou, ao invés disso, se forçando a respirar fundo outra vez, mexendo os dedos.
Não estava sozinha. Não ficaria ali para sempre.
Ele disse alguma coisa que ela não foi capaz de entender e começou a trabalhar na porta, forçando a maçaneta arruinada, como se tentasse abrir sem a outra parte.
— Está quebrada por dentro — Bucky concluiu depois de um tempo — mesmo colocando as duas partes da maçaneta de volta, a porta não vai abrir.
Serena soltou um palavrão.
— E o que eu faço agora?
— Espero que goste de morar no banheiro — ele respondeu, o demônio.
Serena cuspiu o palavrão mais chulo que conseguiu pensar, mas Bucky riu. Riu dela, maldito fosse.
O babaca parecia estar se divertindo com a situação.
— Se afaste, coisinha — disse ele, ainda com o tom jocoso — vou forçar a porta daqui.
Serena deu um passo para trás, receosa.
— Está longe? — Ele perguntou.
Ela murmurou que sim, ainda sem entender como ele pretendia forçar aquela porta de carvalho. As trancas, embora velhas, eram bastante resistentes. Talvez fosse mais fácil pegar uma caixa de ferramentas com o síndico e soltar os parafusos, refletiu. Mas ela duvidava que ele conseguiria, considerando que...
Houve um estrondo e a porta cedeu.
Serena engoliu o grito de surpresa quando um braço de metal atravessou os cinco centímetros de carvalho envelhecido que os separavam.
Todo o sangue sumiu do rosto.
Bucky tinha acabado de estraçalhar a porta como se fosse feita de papel. Com. A. Porra. do. Braço.
— Coisinha — ele então puxou o braço e finalmente abriu a porta. Não que fosse necessário, ela poderia facilmente passar pelo buraco enorme deixado pelo sargento — você está bem?
Ela ciciou alguma coisa que poderia ou não ter sido um sim. O coração parecia prestes a saltar pela boca. As pernas tremiam. Ao menos, pensou, estava livre.
— Coisinha? — Repetiu ele, forçando o que sobrara da madeira.
— A porta... — Serena conseguiu chiar, de algum jeito.
— Não é mais um problema — disse ele, quase como se estivesse orgulhoso.
Ela apertou os olhos.
Um idiota, estava lidando com um idiota.
— Não é mesmo — respondeu ela, entredentes — você a transformou em lenha.
— De nada — ele devolveu e deu uma piscadela que a irritou ainda mais.
— Brutamontes — Serena censurou, saindo do banheiro como se estivesse em chamas.
Para o crédito dele, não passaria o dia presa, se é que poderia considerar aquilo como uma vitória. De qualquer maneira, se permitiu respirar de alívio.
Só que quando encostou os pés no corredor, sua cabeça voltou a martelar. Talvez só tivesse parado por conta de alguma dose de adrenalina liberada pelo corpo no meio daquela confusão.
Ela sentiu pontos pretos piscando em seus olhos.
— Tem certeza de que... — o rosto do sargento tremeluziu.
— Estou bem —Serena ofegou, embora estivesse a um passo de regurgitar a tequila e a cerveja da noite anterior.
Mesmo com dor e a tontura, apertou a faixa do roupão que mal lhe cobria as pernas e foi conferir o prejuízo que o cano do banheiro causara ao apartamento. Era ruim. Muito, muito ruim, pensou, torcendo o nariz.
Serena não sabia se ria ou chorava com o cenário caótico instaurado em seu apartamento. Água por todos os cantos; o carpete, como suspeitava, estava encharcado e não fazia ideia de quanto custaria para arrumar aquela bagunça.
Pelo menos nenhum móvel ou eletrônico parecia seriamente comprometido. Era uma merda, mas... poderia ter sido pior, concluiu, um pouco mais calma.
Então Serena se permitiu encarar Bucky pela primeira vez.
O sargento parecia realmente preocupado com ela, apesar do olhar displicente. Seus olhos azuis a encaravam como se ela fosse desmoronar a qualquer instante e ele estava... por Deus, Bucky estava seminu. E ele, não parecia dar a menor importância para aquilo.
Sendo completamente justa, ele usava um calção. Um maldito calção cinza, não que cobrisse muita coisa. Pelo contrário, apenas realçava o... Puta merda, aquilo era de verdade? Não parecia anatomicamente viável e...
Ela ergueu o rosto. Merda, não deveria encarar aquilo. Pensou se deveria comentar algo a respeito ou fazer alguma piada, mas não queria que ele pensasse que estava reparando naquela parte específica dele. Ainda que estivesse. E muito.
Serena tentou não olhar, tentou de verdade. Mas parecia que todos os cantos do apartamento mostravam o reflexo dele.
Seu braço enorme ou os músculos do abdome, tão bem-marcados que pareciam ter sido desenhados exclusivamente para ele — não conseguia lembrar se em outro momento de sua vida tinha visto um homem com tantos músculos — ou mesmo para as pernas torneadas. Por Deus, havia alguma parte naquele maldito corpo que não fosse tão irritantemente perfeita?
O sangue perdido retornou feito um foguete em seu rosto. Nas bochechas, especificamente. Mas ela não se permitiu demonstrar quão desconcertada estava quando murmurou:
— Obrigada.
E começou a andar para o quarto, onde vestiria o primeiro moletom surrado que encontrasse pela frente. Tinha de ligar para muitas pessoas, afinal.
Primeiro para o síndico, que provavelmente a esfolaria viva quando visse o estado do apartamento; depois para sua chefe, que também a esfolaria viva —mesmo que tivesse uma boa desculpa para a falta desta vez; e, por último, para o cara dos carpetes. Esse último não a esfolaria, mas levaria uma pequena fortuna dela com a manutenção de emergência, o que para Serena, era quase a mesma coisa.
Enquanto andava, contudo, esqueceu-se da água no corredor que o deixara escorregadio. Muito escorregadio. Ela mal deu dois passos antes de perder o equilíbrio. E tinha certeza de quebraria alguns ossos, se não fosse por...
— Te peguei — chiou Bucky, surgindo ao seu lado sabe Deus como.
Ela deu um gritinho de surpresa. Ele a pegara mesmo.
Os dedos que roçaram suas costas eram frios e firmes. Dedos de metal puro que, de alguma forma, a seguravam de forma displicente, como se não pesasse nada. A outra mão, por sua vez, estava espalmada sobre as coxas, impedindo que Serena se desfizesse. Sentiu o corpo estremecer. A mão de carne e osso do Sargento, com aqueles dedos calejados, contraproducente as expectativas, tocavam a pele dela de forma afável, quase íntima. O coração disparou. Batia forte e rápido, de uma forma completamente diferente de antes, mas que descreveria como o bater das asas de um beija-flor quando sentiu a respiração quente dele perto demais de seu rosto. Ela arfou. Aroma de cedro e loção pós-barba a consumiu.
E, merda, Bucky era grande.
Tão grande que poderia cobri-la sem esforço algum. Seus braços eram tão acolhedores, tão seguros. Serena não ousou se mexer enquanto ele murmurava alguma coisa que não conseguira entender. E como poderia? Estava concentrada demais no rosto dele para pensar ou fazer qualquer outra coisa.
Em seu maxilar perfeitamente demarcado; na linha do nariz; nas bochechas, onde aquelas malditas — e lindas— covinhas apareciam sempre que sorria.
Mas ele não estava sorrindo. Na verdade, Bucky parecia tenso.
— Ouviu o que eu acabei de falar? — disse ele, incisivo.
Serena piscou algumas vezes.
A realidade a chamava.
— Ah... sim?
Bucky revirou os olhos, captando a mentira descarada.
— Tem alguém chegando — repetiu ele. Serena não se incomodou em perguntar como diabos descobrira daquilo, não enquanto o sargento parecia tão concentrado, entreolhando para a sala — uma pessoa, pelo corredor. Acho que é o síndico.
Ela olhou para Bucky e depois para ela e não precisou de mais nada para entender o que ele queria dizer. Merda. Aquilo definitivamente passaria uma mensagem completamente equivocada ao homem.
A consciência do próprio estágio de nudez a fez corar de novo, o coração batendo tão forte que poderia facilmente escapar pela boca — de verdade desta vez. E como se o toque do sargento fosse feito de fogo em brasa, Serena deixou a proteção de seus braços e apontou com a cabeça para seu quarto; uma ordem tácita para que ele entrasse ali. Bucky — felizmente — não questionou.
E ela mal teve tempo de endireitar a postura quando ouviu, da porta:
— Valente, o corredor está cheio de água — a voz anasalada e irritada do síndico ecoou pelas paredes — quer explicar o que diabos aconteceu aqui?
Serena deu seu melhor sorriso quando atravessou o corredor, pronta para encarar a fúria do homem.
Seu coração, contudo, ainda batia descompassado.
Fale com o autor