Legacy | Bucky Barnes ︎
60 LX
LEVOU UM MINUTO INTEIRO até que a compreensão das palavras que saíram da boca de Serena o atingisse.
Meu homem.
Meu homem.
Meu homem.
Ele era o homem daquela mulher incrivelmente poderosa e que o encarava com ternura, como se Bucky fosse seu bem mais precioso. Ficou paralisado por alguns instantes, o peito inflando com algo que não soube identificar. Amor. Compaixão. Alívio. Não importava. Naquele instante, poderia facilmente ter morrido daquilo. Dela. Então como se não bastasse, Serena sorriu e, puta merda, era a coisa mais selvagem e linda que já tinha visto em toda a vida.
Sorriu de volta. Ela estava uma bagunça, uma bela bagunça. Mesmo que o rosto estivesse sujo de poeira e lama, os cabelos desarrumados, roupas rasgadas e ensanguentadas sua coisinha continuava sendo a criatura mais extraordinária da face da terra.
Quando Serena avançou um passo, porém, Bucky percebeu. As lágrimas. E agiu. Em menos de um segundo, disparou até ela e a abraçou como se estivesse prestes a se partir. Sentiu o corpo pequeno tremendo e soluçando enquanto o apertava de volta.
— Acabou, Bucky. Acabou. Ele... ele... acabou...
Serena repetia aquelas palavras enquanto se apoiava no peito dele, se desfazendo em lágrimas. Tentando acalmá-la, o sargento segurou seu queixo com a mão direita e olhou diretamente em seus olhos marejados.
— Está ferida?
Ela fez que não com a cabeça e fungou. Mais lágrimas escorreram de seus olhos.
— Eu... eu... não consegui... — disse Serena, tentando enxugar o rosto — eu não podia... não ia mudar nada, Bucky.
— Shhh... não precisa se explicar — disse o sargento, ao passo em que afagava o cabelo dela. — O que você fez, Serena... É o certo.
Apesar de tudo, mesmo com todo aquele sangue derramado e todos os motivos do mundo para acabar com a vida de Nikolai Orlov, Serena escolheu poupá-lo. Não tinha que ter feito aquilo, não havia motivos para mantê-lo respirando.
O senador era um demônio. Precisava ser parado.
Bucky, ciente disso, estava pronto para dar um fim em Orlov com as próprias mãos. Para ele, a prisão seria muito pouco em vista de tudo que tinha feito com a mulher que amava e, mesmo sabendo que o senador passaria o resto de seus dias preso, mesmo sabendo que aquele homem jamais seria capaz de feri-la de novo, o sargento ainda sentia os dedos tremendo de vontade de enfiar uma de suas adagas no peito do desgraçado, mas... depois de Serena ter passado pelo que passou, depois de ter sido forçada a assistir a morte da avó...
Não, a escolha tinha que ser dela. Apenas dela.
Jamais a teria condenado caso tivesse escolhido acabar com a vida de seu algoz e assassino de Isabel Valente com as próprias mãos.
Repudiava a ideia de vê-la sujando as mãos por alguém tão odioso quanto aquele homem, mas se fosse de seu desejo, Bucky a teria apoiado. A teria protegido. Fugiria mundo afora com ela, se necessário. Se Serena, de fato, tivesse escolhido enfiar uma estaca no peito de Orlov, não seria ele a pessoa que a impediria.
Aquela não era ela, no entanto. Crueldade. Vingança. Ódio. Não havia nada daquilo dentro de seu coração.
Mas Serena Valente não permitiu que o Senador Orlov continuasse vivo por compaixão ou bondade. Não, ela queria que ele pagasse por seus crimes em vida. Queria justiça pela avó, por Erika Jones e todos que foram prejudicados por causa dele. E, mais que isso, ela queria fazer as coisas do jeito certo, queria garantir que o legado de Isabel Valente fosse respeitado.
Bucky sorriu. Serena era uma boa pessoa. E justa.
Era exatamente por aquele motivo que a amava tanto.
— Você tinha razão, Serena. Sangue por sangue não resolve nada — ele finalmente admitiu, olhando em seus olhos. — Matá-lo não apagaria meu passado. Não me faria ser alguém melhor e...
Por um momento, ficou sem palavras.
— Bucky?
Ele chegou mais perto e beijou a testa dela suavemente. Então, continuou falando:
— Estou cansado disso — de ser assombrado pelo Soldado Invernal. De todo ódio e dor que aquela maldita parte dele trazia à tona. — Desse ciclo vicioso de sangue e amargura.
Nunca poderia desfazer as atrocidades que o Soldado Invernal tinha cometido, era verdade. Mas o que aconteceria dali para frente cabia a ele decidir. E, naquele momento, Bucky decidira que faria diferente, que seria diferente. Não sabia como, mas encontraria uma forma de se redimir. Algo que não envolvesse mais sangue e vingança e listas estúpidas.
— Obrigada... por me fazer enxergar isso — completou. E suspirou. Era uma sensação boa. Leve.
Ficaram em silêncio por alguns momentos. Respirando e tendo a certeza de que aquilo era real, que o pior tinha passado.
— Estou tão cansada... — Serena murmurou depois de um tempo, o olhar de quem tinha o peso do mundo pairando sobre as costas. — Quero ir para casa. Mas tem tanta coisa para resolver... pessoas para conversar e... Isabel... ela...
Serena piscou. Lágrimas ainda escorriam de seus olhos.
— Amanhã — Bucky declarou. — Por ora descanse um pouco, coisinha.
Então sua mão deslizou para as costas dela. Serena, por sua vez, repousou o rosto no peito dele. Ela continuava chorando, baixinho, permitindo que a dor do luto e da perda a consumisse. A respiração, no entanto, foi ficando mais calma. Tenra.
Estava exaurida, percebeu. Física e mentalmente.
— Não posso — teimou.— Eu preciso... ficar... acordada.
Bucky a segurou pela cintura e a carregou. Ao longe, paramédicos se aproximavam.
— Eu estou aqui, querida. É seguro.
Serena ergueu o rosto e sorriu. Apesar da dor, Bucky viu o amor e afeto em seus olhos. Bucky esticou os lábios e permitiu que Serena visse em seu semblante o quanto a venerava, o quanto a amava.
— Eu posso andar — ela sussurrou, os olhos pesando.
— Eu sei — ele respondeu, encostando a testa na dela. — Só... me deixa cuidar de você um pouquinho, pode ser?
Ela aquiesceu e deu um selinho nele.
— Cinco minutinhos — murmurou, limpando o rosto. — Talvez um pouco mais...
— Leve o tempo que precisar — ele respondeu, quando ela apoiou a cabeça em seu ombro.
Bucky continuou acariciando o cabelo de Serena até que adormecesse em seus braços, vencida pela exaustão.
✧❄✧
Não demorou mais de quinze minutos até que todo o complexo do centro poliesportivo fosse cercado pela polícia de Nova Iorque e por agentes do FBI, que levaram o Senador Orlov sob custódia antes que o cerco da mídia se fechasse no quarteirão.
— Obrigado pelo tempo, senhor Wilson — disse um dos agentes quando terminou de recolher seu depoimento. — Meu filho é um grande fã, a propósito.
Sam acenou educadamente com a cabeça e foi andando em direção a cena do crime. Paramédicos conversavam com Bucky enquanto mediam os sinais vitais de uma Serena Valente desacordada no colo dele.
Ele abriu um sorriso sincero. Ela ficaria bem, sabia disso. A garota era casca grossa e tinha o coração no lugar certo. Bucky era um desgraçado sortudo.
Isabel Valente por outro lado...
Seu olhar se voltou para o outro canto do salão.
Logo após a confirmação do óbito, a perícia havia sido acionada e a área toda isolada por motivos de segurança. Naquele momento, legistas tiravam fotos, faziam medições, coletavam amostras de sangue e faziam todo o procedimento padrão de investigação de homicídios.
Sam, no entanto, se recusava a encarar aquilo por muito tempo.
Ainda custava em acreditar no que tinha acabado de acontecer, que aquela mulher realmente estava... morta. A agente IV, literalmente, dera a vida para salvar a neta e para que Orlov fosse preso. Tinha preparado o terreno, reunido provas e fechado o cerco ao redor do senador por anos.
Sozinha, aquela mulher fizera toda uma tramoia e manipulou todos ao seu redor para participar do plano como se fossem peças de xadrez.
Isso o levava a outros pontos: onde a agente IV terminava e Isabel Valente começava? O que era verdade e o que era mentira? O que havia dito a respeito dele e o escudo...
Sam sopesou cada parte da conversa que tiveram horas atrás. Queria acreditar, mas...
Símbolos podem ser ressignificados.
Ergueu o rosto. Ela havia errado em vários aspectos, era verdade. Mas, apesar de todas as falhas, Isabel era corajosa. Leal e idealista como poucos. Mais que isso, era uma pessoa disposta a qualquer coisa para proteger aqueles que amava. Não uma agente perfeita, mas uma boa pessoa. Para Sam, aquilo bastava.
E esperava que, onde quer que estivesse, encontrasse descanso.
— Noite difícil, Wilson?
Sam virou o rosto e encontrou uma mulher de sobretudo vermelho e luvas de couro. O rosto era fino, nariz aquilino e uma mecha roxa se destacava dos cabelos escuros, impecavelmente presos em um coque. Uma agente do FBI, provavelmente.
— Café? — ofereceu, estalando a língua — tenho a impressão de que vai precisar.
Era verdade. Olhando ao redor, reparou que apesar de todo aquele gelo invocado por Serena Valente ter desaparecido, a maior parte do saguão estava alagado. Destruído. Desmoronando.
Haja papelada, pensou.
— Estou bem — disse o Falcão, no entanto — já expliquei a seu colega o que aconteceu, mas se precisar de mais alguma coisa...
Sam deixou o resto no ar. Não estava nem um pouco a fim de continuar ali, mas já um deles teria de prestar esclarecimentos para as autoridades, que fosse ele.
A mulher, contudo, repuxou os lábios finos e desviou o olhar para a turba de paramédicos que ladeava Bucky e Serena, as luzes do teto ainda crepitando.
— Não estou interessada em seu depoimento, Wilson.
Ele levantou uma sobrancelha.
— O que quer, então?
Uma golada no café.
— Ver com meus próprios olhos — respondeu ela, como se fosse óbvio. — Senador Orlov, um agente da Hidra, capaz de cometer tantas... atrocidades? Pode imaginar quão chocados ficamos com a notícia?
Sam a analisou por alguns instantes e franziu o rosto.
— Qual é o seu setor mesmo, agente?
Ela ficou em silêncio enquanto mais agentes passavam por trás deles, se espalhando pelo saguão feito baratas tontas. Cada canto daquele prédio seria vistoriado, analisado e, eventualmente, interditado. Qualquer resquício das atividades de Orlov seria coletado como evidência. Mais agentes chegariam em breve para ajudar. Seria uma longa noite.
— Você. Não pode entrar aqui — gritou uma voz masculina logo atrás deles. O agente de antes, provavelmente. — A área está isolada. Ei, moça, está me ouvindo?
A mulher voltou a olhar para Sam.
— É a minha deixa — disse ela, tocando no ombro dele — até mais, Wilson — os saltos chapinaram enquanto se afastava, chamando a atenção de um dos detetives.
Sam abriu a boca, mas ela já tinha engatado em uma conversa com um dos detetives. Em vez disso, voltou sua atenção para a dupla de mulher que começara uma discussão acalorada com o pobre agente. Íris Miller e Amanda Ortega. Como haviam conseguido contornar o cerco era um mistério para ele.
— Ela está comigo, amigo — interveio, sinalizando para que as duas fossem até ele.
— Sam, o que aconteceu? — exasperou Íris. — Onde está...
O Falcão então apontou para Bucky e viu a expressão das duas se transformar. Alívio. Curiosidade. Admiração. Medo.
— Ela está bem — disse Sam. — Apenas um pouco cansada.
Lágrimas de alívio escorreram pelos olhos de Íris enquanto Amanda agradecia aos céus em uma prece silenciosa.
— As provas dos crimes de Orlov estão na internet — Íris anunciou ao virar para Sam outra vez. — Os experimentos com seres humanos, Vronsky, o desvio de verbas, a tentativa de assalto ao museu, o assassinato de Erika Jones... tudo que Isabel reuniu ao longo do tempo... para qualquer um que queira acessar. Um escândalo.
Ele sabia que não adiantaria muito questionar como a coisa tinha tomado aquelas proporções em tão pouco tempo. Em vez disso, perguntou:
— O que exatamente vocês fizeram?
— Antes de me fazer desmaiar, Isabel deixou um pen-drive na minha mão — ela mostrou o pequeno dispositivo com uma expressão altiva. — Foi quando entendi o que ela queria que fizéssemos — Íris tinha um sorriso quase diabólico na cara — depois usei todo meu conhecimento de algoritmos para fazer com que a notícia se espalhasse feito fogo. Está em primeiro lugar nos assuntos mais comentados nas redes sociais.
Sam quase riu. Parecia um déjá-vu.
— Além disso — Amanda continuou a explicação — mandamos o dossiê completo para um amigo meu da promotoria em Washington. Ele está com alguns congressistas e não me respondeu ainda, mas... é possível que estejam protocolando o pedido de impeachment contra Orlov agora mesmo.
Ele ergueu uma sobrancelha.
— Se minhas teorias estiverem corretas — prosseguiu a advogada — o senado irá formar a comissão pela manhã. Mas a julgar pela quantidade de evidências concludentes de seus crimes, estou segura em afirmar que não tem como o senador sair ileso disso.
Amanda sorriu e trocou um olhar conspiratório para Íris, que sorriu de volta.
— Então — prosseguiu Íris — com toda essa comoção, bastou uma denúncia anônima para trazer a polícia pra cá.
Sam assoviou.
— Já pensaram em entrar para o FBI?
Íris e Amanda se entreolharam e riram.
— Isabel é quem merece os louros — afirmou Íris, guardando o pen-drive no bolso. — O plano todo é coisa dela, embora... bem, teria sido mais fácil se ela não tivesse me deixado desacordada. O lance de entrar na mente dá uma enxaqueca danada.
Ele murchou, olhando de esguelha para trás. Isabel Valente não estava mais ali, a equipe de médicos legistas provavelmente tendo levado o corpo para autopsia enquanto estava distraído. Mas...
— E Isabel? — Íris questionou, jocosa. — Onde ela está? Ainda não decidi se quero matá-la ou pedir outro bolo de frutas.
Houve uma pausa. Sam não sabia ao certo como dar a notícia.
Lentamente, o semblante de Íris se transformou. Confusão. Choque. Medo outra vez.
— O que aconteceu? Por que está com essa cara?
Sam torceu os lábios.
— Eu lamento, Íris.
Íris empalideceu.
— Ela... se foi.
O corpo de Íris começou a tremer.
— Não, não, não. Isso não é verdade.
— O que houve? — Amanda inquiriu.
— Isabel partiu lutando. Salvou Serena. — Sam disse, optando por poupá-las dos pormenores. — E tenho certeza de que não foi a única. O sacrifício dela salvou mais vidas do que posso imaginar.
Íris cambaleou.
— Ela forjou a própria morte duas vezes, como pode ter certeza de que não é mentira?
Ele desviou o olhar.
— Desta vez é diferente.
— Como?
Silêncio sepulcral.
— Como? — Íris insistiu.
Amanda tocou no ombro da noiva, com pesar.
— Porque, amor — ciciou, a voz embargada — desta vez eles tem o corpo como prova. Não é, Sam?
Ele concordou.
— Serena...?
— Sabe — Sam respondeu — e vai precisar de vocês quando acordar.
Elas aquiesceram.
— Por hora — ele prosseguiu — é melhor que descansem também. Foi uma noite longa.
Mas, como se não tivessem ouvido nada que Sam dissera, tanto Íris quanto Amanda deram as costas e atravessaram a multidão de agentes do FBI, paramédicos e policiais a procura de Serena. Ele olhou ao redor. A mulher de antes sumira.
Então, seguiu Íris e Amanda.
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