SERENA FORJARA SEU CAMPO de batalha com muito cuidado, tinha de admitir. Naquele instante, ela jazia estacada em cima de uma pilastra de gelo, atenta a cada passo de Bucky como uma verdadeira predadora. Uma aura pesada e fria a cercava, congelando tudo ao seu redor.

Sob os pés dele, havia uma fina camada de neve. Neve. Torceu o nariz. Estavam em julho, pelo amor de Deus.

O lado de fora do centro poliesportivo estava igualmente caótico. Os hidrantes da rua haviam estourado e jorravam em direção no saguão, em direção a ela. Circulando e respondendo aos seus comandos.

Serena mantinha os olhos fechados enquanto movia os dedos, o cabelo ondulando ao redor dos ombros. Partículas de água serpenteavam ao seu redor. Como se a gravidade tivesse deixado de agir ali. O pior, no entanto, eram as pilastras de gelo e as estalactites afiadas que a cercavam, de forma que era quase impossível para Bucky alcançá-la. Quer dizer, até poderia tentar se aproximar, mas era bem provável que acabasse empalado no processo.

A bem da verdade, aquilo não o preocupava. Não tinha medo de morrer. A morte era uma velha conhecida que o espreitava há tempos; quando chegasse o momento, Bucky a acolheria sem pensar duas vezes. Mas, morrer daquele jeito, pelas mãos de Serena... não, não poderia permitir. Aquilo a dilaceraria de dentro para fora, destruiria seu espírito. Tinha ciência daquilo.

Assim como Orlov, que vociferava para que acabasse com aquilo de uma vez, os olhos de cobra fincados nela. O estômago se revirou. Aquele desgraçado estava escondido perto das pilastras, igualmente fora de alcance, como o covarde que era.

Bucky então olhou para baixo. A jaqueta estava em frangalhos, o braço e peito cheios de cortes oriundos dos repetidos ataques dela, fragmentos de gelo tão afiados quanto navalhas. Não desistiria, porém. Serena dependia dele. Lutaria por ela até o fim.

Bucky esquadrinhou saguão, mapeando as melhores formas de se aproximar sorrateiramente e como poderia usar o terreno a seu favor. Soltou um palavrão. Havia poucas vantagens. Quase nenhuma, a bem da verdade. E muitas armadilhas. Um passo em falso e estaria em maus lençóis.

— Serena — gritou.

Lentamente, os olhos dela abriram, o castanho caloroso completamente suprimido por um tom de azul-índigo tão empedernido quanto a aura que a rodeava. Ele virou o rosto. Não conseguia olhar dentro daqueles olhos vazios, era como encarar um reflexo distorcido de seu passado, do Soldado Invernal. Arfou. Covarde. Era um maldito covarde.

Aquela sensação de não ter controle do próprio corpo, estar vivo e morto ao mesmo tempo, as ordens queimando feito ácido nas veias... ele era capaz de compreender exatamente o inferno que Serena estava vivendo. Precisava agir, precisava salvá-la. Mas quando tentou avançar, notou que seu corpo havia estacado no lugar, as feridas internas em processo de cicatrização rasgando novamente. Os dedos tremiam.

Bucky fechou os olhos e respirou fundo.

Uma. Duas. Três vezes.

— Serena — insistiu pelo que parecia a milésima vez — por favor. Por favor...

Nada. Ela não esboçou reação alguma.

— Você tem que parar com isso — disse.

Em vão.

Era como se estivesse falando com as paredes. Em vez disso, Serena o encarou com aqueles olhos sem vida, fez um movimento sutil com os dedos e se preparou para atacá-lo de novo.

Então, impulsionada pela pilastra, ela se postou na direção dele.

Parte da água que a cercava se estendeu em um semicírculo atrás de Bucky, formando uma parede de gelo que quase batia no teto. Grunhiu. Nem precisou olhar, sabia que era o mesmo escudo de antes; forte feito aço. Não o quebraria com facilidade. A frente, havia apenas Serena e a água que circundava.

Estava encurralado.

Respirou fundo outra vez, fumaça saindo pela boca.

A temperatura ali deveria estar beirando o negativo, mas aquilo não parecia incomodá-la enquanto se aproximava com a velocidade de uma bala. Então, reunindo uma considerável quantidade de água, Serena conjurou algo que se assemelhava a um chicote e o deixou cantar.

O primeiro açoite passou raspando pelo rosto de Bucky, que conseguiu escapar no último segundo; a água zunindo em seus ouvidos.

No segundo, ele usou o braço esquerdo para se defender. O chicote o agarrou. Firme. Bucky se aproveitou da oportunidade e tentou puxar Serena para si, mas a água passou direto por entre seus dedos. Ao que parecia, ela era a única capaz de tornar aquilo tangível.

A água, avançou, correndo e se enroscando pelo braço de vibranium como se fosse o tentáculo de um polvo. Tentou se soltar, só que quanto mais forçava, mais preso o braço ficava. Bucky então deu um passo para trás e notou que o chão ao redor dele vertia água e... ah, merda.

Um instante depois, exatamente como fizera com aquele mercenário no museu, Serena o ergueu.

O tempo correu mais devagar por alguns segundos. Era como se estivesse flutuando, a água o deixando a deriva no ar.

Ele xingou. Não havia onde se apoiar e, caso encostasse naquela água, ficaria mais preso ainda. Para piorar a situação, o braço de vibranium estava totalmente descarregado — outro pulso de energia não era uma opção.

Sem dizer nenhuma palavra, Serena deu um passo para frente, o olhar cravejado nele.

Os dedos da mão direita dela fizeram uma série de movimentos estranhos, arqueando e esticando, como se estivesse puxando fios invisíveis. Aquele tique outra vez, percebeu. O polegar girara sutil, enquanto o indicador puxava, o médio então cedeu e a água ao seu redor reagiu.

Bucky olhou aquilo.

Os movimentos... a reação da água... não era um tique. Serena sempre fazia aquilo quando usava os poderes.

Uma ideia então lhe ocorreu, uma teoria que precisava testar. Era um pouco arriscado, mas... que outra escolha tinha?

Inclinou o corpo para trás, depois para frente, depois para trás outra vez e fez um movimento com os dedos, desativando as engrenagens do braço de vibranium que, imediatamente, se desconectou do tronco.

Estava livre.

Aproveitou o impulso e se lançou direto em cima de Serena, que não foi capaz de fazer nada quando o corpo enorme dele assomou sobre o dela. Bucky não hesitou: segurou os dois braços finos acima da cabeça, usando apenas o braço direito, aproveitou o peso do próprio corpo para prender o tronco e as pernas dela, imobilizando-a completamente.

O estrépito do braço de vibranium misturado ao som da água batendo no chão chegou aos ouvidos um instante depois. Sorriu.

Ele tinha razão.

Serena precisava mover os dedos para conseguir usar os poderes. Ou parte deles, atestou, já que as construções de gelo e o ar congelante se mantinham imperturbados. Sentiu uma brisa fria ao redor dele, como se o cumprimentasse. Respirou fundo.

Inspirou. Expirou.

Então, se forçou a encarar o vácuo índigo nos olhos dela e...

Bucky — Serena sussurrou, como uma prece.

Havia uma lágrima perdida no canto de seus olhos.

— Serena — ele sussurrou de volta no ouvido dela — pode me ouvir?

Ela acenou com a cabeça. Devagar, como se fizesse um esforço monumental para controlar o pescoço.

— Eu consigo ouvir tudo, sargento.

Bucky a encarou. Serena estava consciente. Ou o mais perto disso quanto possível.

— Consegue controlar? — ele disparou — acha que consegue se livrar da influência dele?

Por um momento, Serena nada disse.

Seu rosto estava contraído, como se estivesse em um conflito interno. Arfando, a respiração acelerada. Ela estava lutando contra aquilo, atestou, lutando contra o quer que Orlov tivesse feito para manipulá-la.

— Acabe com isso — cuspiu depois um tempo — agora.

Não foi preciso dizer mais nada. Todo o ar fugiu dos pulmões. Serena queria que ele... não, ela não podia pedir àquilo a ele. Não precisava acabar daquela forma.

— É... é uma droga, Bucky — ela emendou, arfando — e enquanto estiver dentro de mim... Orlov tem o controle.

Ele pestanejou.

Droga. Uma droga que controlava não a mente, mas o corpo. Já tinha ouvido sussurros a respeito. Pesquisas com o cérebro humano feitas em um instituto em Ohio. Mas... era apenas uma teoria, um projeto da Hidra. A ideia era controlar os gânglios basais, a parte responsável pela cognição. Uma forma que dispensaria palavras de ativação e os choques.

Bucky forçou as memórias.

Cientistas da Hidra chegaram a fazer testes de algumas daquelas substâncias no Soldado Invernal, mas nunca havia funcionado. O corpo sempre dava um jeito de absorver e eliminar as toxinas. Além disso, o projeto havia sido descontinuado há décadas — algo sobre roubo de dados e espiões Russos.

Então como...

Serena arfou e tentou mover os dedos, mas Bucky a impediu, entrelaçando os dedos aos dela. Ela tinha razão, percebeu. Orlov tinha o controle de cada músculo de seu corpo, mas a mente permanecia intacta. O que, a bem da verdade, era ainda mais cruel.

— Não quero te machucar — Serena continuou falando — não quero machucar ninguém.

— Você não vai me machucar.

Ela ignorou aquilo.

— Não sei por quanto tempo consigo ficar parada — disse, o corpo se contraindo outra vez — faça isso de uma vez, Bucky. Vai ficar tudo bem.

Serena arqueou o corpo, como se estivesse a um passo de ter uma convulsão. Bucky se aproximou um pouco mais, encostando a testa na dela. O coração batia rápido, mas seu olhar dizia “por favor.”

Mas ele não faria aquilo.

Não seria capaz de matá-la.

✧❄✧

— Precisava mesmo ter deixado as duas inconscientes?

Enquanto Sam Wilson voava quarteirão abaixo com aquela mulher no colo, não conseguia parar de pensar em tudo que ela havia feito, em como suas atitudes eram, para dizer o mínimo, questionáveis. Mesmo assim, suspirou, se forçando em manter a parcimônia. Apesar de tudo, sabia que Isabel Valente não era uma pessoa intrinsicamente ruim.

E ele poderia mesmo julgá-la tão facilmente por desejar uma vida tranquila depois de lutar por tanto tempo ou estava sendo hipócrita? O que faria se estivesse no lugar dela? Teria tentado salvar Bucky da Hidra, ciente de que seria morto no processo, ou fugiria?

Sam afastou o pensamento, em partes, por saber que não gostaria de ouvir a resposta.

Só que, mesmo assim, não teria como negar que Isabel Valente havia sido completamente consumida pelo medo e pelo ódio, uma sede irracional por vingança que a levara a cometer uma série de decisões egoístas e mal pensadas.

Comprimiu os lábios. Não fazia ideia de como deveria lidar com aquela mulher. Cada um de seus instintos lhe dizia que não podia confiar uma pessoa tão instável e perigosa, mas... havia uma vozinha bem lá no fundo de sua mente soprando que Isabel Valente queria sim ajudar, que merecia o benefício da dúvida e... merda.

O que Steve faria em seu lugar?

— Tinha uma ideia melhor? — Isabel resmungou, a voz abúlica.

Sam voltou para a conversa.

— Que tal parar de tratar as pessoas ao seu redor como peças de xadrez e pensar nelas como adultos funcionais?

— Elas vão acordar logo. O efeito dura pouco mais de dez minutos. — Isabel revelou. — O que foi, preferia levar duas civis despreparadas até uma zona de conflito?

— Claro que não — Sam respondeu.

— Então por que continua me julgando?

Uma pausa. O gorgolejar da água que jorrava dos hidrantes estourados era o único som perceptível enquanto se deslocavam pelos céus.

— Sabe o porquê, agente — ele murmurou, encarando o horizonte.

— Ela é cabeça dura — Isabel insistiu.

Sam suspirou. No fundo, sabia que era verdade. Íris Miller tinha temperamento explosivo, estava desesperada e era teimosa. Tal combinação em uma situação tão delicada... É, não acabaria bem.

Mesmo assim, ele emendou:

— Tratá-la feito criança não nos ajuda em nada. Íris possui muitas habilidades que poderiam ser úteis.

A agente deu um suspiro triste, os olhos acinzentados refletindo um brilho cansado.

— Eu sei disso — murmurou — e entendo que Íris tem boa intenção, mas estou cansada de ver pessoas morrendo por minha causa.

Ela desviou o olhar para as mãos, como se houvesse alguma coisa ali. A própria consciência, quem sabe?

A imagem de Erika Jones piscou em sua mente.

Sam culpara Isabel pela morte daquela mulher, mas fora uma acusação injusta, quase covarde. Havia sido uma fatalidade, uma triste consequência daquele trabalho. Todos que escolhiam aquela vida tinham ciência dos riscos envolvidos e Erika não seria exceção e...

É, talvez... estivesse sendo hipócrita, afinal.

— A essa altura da vida, Wilson — ela emendou, trazendo-o de volta para a conversa — prefiro que Íris esteja viva para me odiar, do que morta por ter me seguido.

Sam torceu os lábios e se lembrou de Serena Valente, a neta dela. O catalizador de toda aquela confusão. De um jeito torto, Isabel tinha feito aquilo tudo por ela; porque acreditava que era a única forma de mantê-la a salvo. Aquela mulher estava disposta mover mundos pela pessoa que amava. Ele suspirou.

— Não tem que ser assim — disse, olhando-a de soslaio.

Ela ergueu um lábio para cima.

— Mas é como termina, não? — lamentou — para nós, sempre acaba em tragédia — essa última parte não foi dita, mas projetada em sua cabeça.

Sam levou uma das mãos as têmporas. Era como se tivessem enfiado um megafone em seu canal auditivo.

— Poderia não entrar na minha cabeça sem permissão? É bizarro.

Isabel fez um estalido com a língua.

— Desculpe, foi involuntário — e ergueu os olhos para Sam — em minha defesa, seus pensamentos são muito altos. Fica um pouco difícil não os ouvir.

O Falcão fez uma careta. Agora tinha que controlar o volume dos próprios pensamentos?

— E o que isso quer dizer?

— Que consigo ouvir seus conflitos internos, por mais que tente reprimi-los — respondeu. — Não precisa sentir pena de mim, Wilson. Sei que não sou nenhuma heroína.

Sam voltou a olhar para o caminho.

— Não estou com pena de você — esclareceu.

Isabel exalou.

— Ah você está — ela respondeu em um tom jocoso. — Mesmo com todos os motivos do mundo para me odiar, está tentando ver as coisas pelo meu ponto de vista. E ainda diz não entender os motivos que levaram Steve Rogers a escolhê-lo como sucessor. Você é engraçado, heroizinho.

Sam engoliu em seco. Se pudesse, sairia correndo. Voando.

— Quer a opinião de alguém de fora? — ela continuou falando, pouco se importando se ele queria ou não ouvir a opinião dela. — Diferente de você, eu consigo entender perfeitamente seu amigo. Não consigo pensar em ninguém melhor para assumir o legado dele enquanto Capitão América.

Ele ficou em silêncio e tentou se concentrar no objetivo final, o centro poliesportivo. Não que mudasse alguma coisa. Estava na presença de uma telepata; ela deveria saber exatamente o que passava em sua cabeça, os motivos que o forçaram a entregar o escudo para o museu e desistir daquela ideia estúpida de Steve.

A razão dela estar entrando naquele assunto em um momento tão inoportuno, no entanto, era um mistério.

— Bucky é quem deveria fazer isso — Sam revelou, sabe lá por quê. — Ele foi o melhor amigo de Steve e o ajudou a construir aquele legado, não eu.

— James — ela soprou, sopesando as palavras dele. — Você tem razão. Talvez James soubesse o que fazer com o escudo e, quem sabe, daria um bom Capitão América. Mas nós dois sabemos que seu estado psicológico não é dos melhores. Jogar um fardo tão pesado em seus ombros em um momento tão delicado...

— Ele não aguentaria — Sam completou, suspirando.

Ela aquiesceu.

— Steve Rogers sabia disso. O próprio James sabe disso, Wilson — ela fez uma pausa apenas para erguer o rosto. Encará-lo diretamente. — Mas não foi por causa dele que você desistiu do escudo, não é?

Sam não respondeu de cara.

Ele tinha entregado o escudo ao museu. Queria por uma pedra no assunto, mas... aquilo sempre voltava para assombrá-lo.

— Não — admitiu. — Não foi.

Isabel desviou o olhar. E suspirou.

— É compreensível — disse, a voz tenra — e talvez esteja certo em pensar que o mundo não está pronto para ver um homem negro assumindo o manto.

Sam sentiu o corpo tensionando. Maldita telepatia.

— Mas?

— Não tem “mas”, Wilson. — Simples. Direta. Brutal. Quase como se concordasse com ele. — Parte do mundo nunca estará pronto para ver um homem negro assumindo o manto.

Sam sentiu algo contraindo no peito. Ele sabia que era verdade, mas ouvir aquilo de outra pessoa...

— Da mesma maneira que nunca estará pronto para ver uma mulher, um latino, gay, uma pessoa transsexual ou qualquer coisa que não seja um homem branco erguendo o escudo — Isabel completou. — Para muita gente por aí, o Capitão América representa a liberdade, patriotismo e todas essas merdas, sim. Mas para uma camada muito, muito, restrita da sociedade.

Ele ajeitou a postura, embora soubesse que não havia nada para ajeitar.

Isabel Valente tinha razão, apesar de ele nunca ter falado sobre o assunto abertamente. Pensando bem, aquela era a primeira pessoa que jogara aquilo em sua cara sem meias palavras ou subtextos mal pensados. Apenas a realidade crua e podre.

A verdade era que a maioria não entendia — ou fingia não entender — a problemática entremeada a figura do Capitão América.

Era mais fácil assim. Conveniente.

— É um símbolo controverso — ele admitiu — nem sempre é tratado da forma que Steve gostaria.

Por isso o entregara ao museu, para que que o legado do Steve fosse o que ele sempre quis: um símbolo de liberdade, de luta e resistência, não de conservadorismo e ódio. Para que não se corrompesse ainda mais.

— Símbolos podem ser ressignificados — ela disse.

O Falcão apertou os olhos.

— Isso é uma coisa boa ou ruim?

Silêncio sepulcral.

Eles continuaram voando por alguns minutos, até que ela respondeu:

— Cabe a você decidir, heroizinho.

— Porque estou com a impressão de quer me dizer alguma coisa, Valente?

Isabel deu uma risada fraca.

— Porque, Wilson, eu sei exatamente como é, em suas palavras, “uma vida de fuga e conivência“.

Ele sentiu o rosto queimar, apesar de não estar arrependido de ter dito aquilo; pensado, na verdade — a culpa havia sido toda dela, por ter entrado em sua cabeça sem ter sido convidada.

— Tomei decisões... questionáveis, você tem toda razão — Isabel continuou falando — e hoje tenho que lidar com as consequências de meus atos. Tem certeza de que quer seguir pelo mesmo caminho?

— Acredita que cometi um erro?

Você acredita que cometeu um erro? — Ela devolveu a pergunta.

Sim. Não. Talvez?

Não sabia no que acreditar. Não se sentia digno do posto de Capitão América, mas, ao mesmo tempo, não era como se simplesmente pudesse ficar de braços cruzados enquanto um bando de velhos engravatados decidia o que fazer com o aquele escudo, pouco se importando no que aquilo representava para Steve, ao país ou ao mundo.

Estava em uma encruzilhada. Não havia resposta certa.

— Não é a melhor hora para discutirmos isso — ele chiou, o centro poliesportivo finalmente entrando em seu campo de visão.

Aquele não era o momento de ficar remoendo sobre suas decisões de vida. Boas ou não.

— Tem razão, mas... — Ela murmurou, com uma doçura contraproducente a mulher altiva de antes — você é um homem bom, Sam Wilson. É uma característica muito rara hoje em dia. Não desperdice isso.

Ele piscou.

— Obrigada — não sabia dizer se estava afirmando ou perguntando.

Sem dizer mais nada, Sam foi descendo em frente à entrada dos fundos do centro poliesportivo. Uma emboscada por trás seria mais vantajosa, concluiu.

Esse tipo de investida não era sua favorita, mas não sabia o que lhes aguardava do lado de dentro daquele prédio e, considerando o ar glacial fora de época, era melhor aproveitar qualquer vantagem.

— Vou mandar redwing na frente para fazer uma varredura — Sam anunciou quando estavam perto do saguão principal, o pequeno drone alçando voo de suas costas.

Isabel, no entanto, agarrou o pulso dele.

— Não — ciciou — não faça isso.

Ele ergueu os olhos.

Havia alguma coisa impedindo a passagem e Sam não fazia ideia do que acontecia do lado de dentro, quantas pessoas estavam no saguão, se estavam armadas... não. Precisavam de mais informações antes de agir.

— Já disse que não é para mandar o maldito drone — Isabel entoou, apertando o braço dele com mais força.

— Por que não? — Sam perguntou.

— Essa coisa vai chamar a atenção, e vai ser melhor se o pegarmos de surpresa.

— Vai chamar a atenção de quem?

Ela então apontou para o saguão.

De onde estavam não dava para enxergar muita coisa. Apertou os olhos mesmo assim, forçando as vistas. Em vão. Pilastras estavam obstruindo a visão. Pilastras enormes, irregulares e que destoavam completamente do resto.

Que escolha de arquitetura peculiar.

— Vou na frente — ela declarou, ignorando o comentário de Sam — preciso alcançá-los antes que Orlov use o soro. Guarde o drone e entre pela esquerda enquanto ele está distraído.

Dito isso, Isabel deu um passo para frente. Depois outro. E outro. Antes que Sam pudesse impedir, já tinha se postado para dentro, indo para Deus sabe onde enquanto serpenteava pelas sombras. Como conseguia ser tão esquiva? Santo Deus, aquela mulher deveria ter a idade de seus avós.

— Soro? — ele repetiu para o nada.

Mesmo assim Sam a seguiu com redwing ao seu lado, andando lentamente até pilastras, o ar ficando mais frio conforme alcançava o saguão. Então, fazendo o mesmo caminho que Isabel, tocou uma das bases e... puta merda não eram pilastras.

Uma rápida varredura com o scanner do drone e percebeu que aquilo era... gelo? Arfou. Por isso estava tão frio. Ele apertou o passo, a região da entrada ficando visível. Foi quando avistou duas pessoas no chão e uma parede bloqueando a porta principal. A porra de uma parede de gelo.

Bateu os dedos na pulseira do traje, mandando redwing fazer uma análise detalhada do saguão por cima. Mas, antes que pudesse cruzar a última pilastra, ouviu um estrépito metálico atrás de si.

Sam imediatamente puxou a própria pistola do coldre, apontando na direção do barulho quando o Senador Orlov surgiu de uma das pilastras.

— Não se mova.

Notas finais
Esse foi um capítulo com bastante do Sam e da Isabel, mas confesso que gostei muito de escrevê-lo. Colocar um pouquinho mais das inseguranças do Sam para fora foi muito interessante. Um adendo que eu gostaria de fazer é que várias coisas sobre os personagens eu acabo deixando implícito e a questão do escudo é uma delas, principalmente porque a história se passa antes da conclusão do arco deles em TFWS. Gosto de pensar que as coisas aqui seriam como sementinhas plantadas na cabeça dele e não uma evolução de fato ( principalmente para o Sam). Bom por hoje é isso, até segunda eu juro que coloco as respostas em dia hahaha. Beijão e até mais!