Legacy | Bucky Barnes ︎
16 XVI
DEPOIS DE QUASE MEIA HORA DE LUTA, uma série de arranhões e duas mordidas no braço, Serena enfim conseguiu tirar a bolinha de pelos daquele emaranhado de caixas de papelão. O bicho ainda rosnava e se debatia em seus braços às vezes, mas parecia conformado com ideia de que havia sido resgatado. Ela, por outro lado, se deu conta de que definitivamente não poderia voltar ao bar.
Seu estado era deplorável.
A maquiagem estava completamente arruinada; as roupas, ensopadas no que ela torcia para que fosse apenas água da chuva; o cabelo... por Deus, estava todo embolado; e, ainda por cima, seu corpo fedia a lixo.
— Quando chegarmos em casa — murmurou para o gato resmungão em seus braços — vamos tomar um banho. Dois banhos. Em água sanitária. — Isso se conseguisse voltar para o apartamento, completou em pensamento.
Era difícil acreditar que qualquer motorista em sã consciência a aceitaria naquele estado. Parecia uma bruxa de filmes de terror de quinta categoria.
Serena então olhou para trás. Não conseguiria voltar pelo mesmo lugar onde entrara, ao menos não enquanto estivesse com o gato a tiracolo, mas era bem provável que houvesse outra saída por perto. Tinha que ter. Seguiu a passos lentos pelo beco escuro até sair em rua deserta — só um pouco menos escura que o beco — e sentiu um arrepio correndo pela espinha.
Não deveria estar ali, pensou.
A aura daquele lugar beirava o assustador, com a luz piscante dos postes de iluminação. O filhote, como se também estivesse ciente disso, eriçou os pelos e grasnou para o nada. Ela respirou fundo. Tarde demais para arrependimentos, concluiu. E continuou andando.
A chuva ainda caia, embora fraca, e a brisa gelada do início da madrugada começava a castigar Serena, que sentia os dedos dos pés — grotescamente úmidos dentro do coturno — congelando. Com a sorte que tinha, acabaria resfriada. Ainda assim, ela continuou andando.
O único barulho que jazia era o crepitar dos próprios passos —um som irritante da meia molhada, misturado com raspar do coturno no asfalto velho e esburacado — ecoando por toda a rua.
Já estava a meio caminho do quarteirão de cima quando estagnou. Algo estava errado. Era a mesma sensação de antes e, embora estive torcendo para que estivesse enganada, sentia algo queimando em sua nuca. Não estava sozinha, concluiu, alarmada. Não fazia a menor ideia de onde estava ou quantos eram, apenas sabia que estava sendo observada. Sentia o olhar vindo de algum lugar. Prescrutando.
— Não tenho dinheiro — Serena ciciou da mesma forma indolente de antes, reunindo toda a sua coragem.
Ninguém respondeu. Não saberia dizer se era um bom ou mal sinal. Talvez estivesse exagerando de novo. A rua estava em completo silêncio. A sensação, no entanto, continuava ali.
— Mas, se quiser, pode ficar com o gato — emendou ela.
O gato rosnou outra vez.
"Você não deveria estar aqui." Soprou alguém, a voz irritada. "Ele pode estar por perto."
Serena se virou. Nem mesmo uma sombra a vista.
— Quem pode estar por perto? — ela quis saber.
"É perigoso." Argumentou a voz, ignorando a pergunta.
— Sei disso — ela respondeu, mais alto.
Seu corpo tremia. Seria pelo frio ou pela voz? Não fazia ideia. Ela torceu o nariz. Estava exagerando, tinha certeza disso. Não havia ninguém ali. De qualquer forma, continuou:
— Mas as pessoas costumam dizer que não tenho bom-senso.
Uma risada melodiosa ecoou em seus ouvidos. O felino em seus braços se encolheu.
"Não tem mesmo." Censurou a voz. "Infelizmente isso não é de agora."
Serena sentiu outro arrepio correndo na espinha.
— Obrigada, subconsciente — debochou ela, olhando ao redor de novo. A voz parecia ter sido projetada diretamente em sua cabeça. O gato em seu colo se remexeu — faça algo de útil e me ajude a encontrar uma saída. Ou a chamar um táxi.
"Aqui não é seguro, menina. Volte por onde veio agora mesmo." A voz era impassível.
— Não tem saída — Serena respondeu. Será que estava falando sozinha?
"Deixe o gato e escale pela sebe. Agora." Ordenou a voz.Não havia espaço para discussão naquele tom.
Serena institivamente apertou o felino contra o peito. Não o abandonaria o gato molhado no relento, estaria apenas sentenciando-o a uma morte lenta e dolorosa. Ela então ouviu um estalido de lábios, seguido de um palavrão. Diabos, aquilo estava mesmo acontecendo, não seria capaz de imaginar algo do tipo nem se quisesse. Definitivamente estava enlouquecendo.
"Tarde demais" a voz grunhiu, enervada pela falta de reação de Serena "você não vai conseguir fugir a tempo."
E Serena estava prestes a perguntar sobre o que diabos aquela maldita voz estava falando quando ouviu um estrondo.
Um instante depois, uma fumaça densa e cinza começou a se espalhar pela rua, seguido por destroços de concreto que foram lançados em sua direção. Só que antes que pudesse sequer arregalar os olhos, sentiu uma onda de calor, que em um milésimo de segundo jogou seu corpo para trás, com força. O gato, protegido em seus braços, estremeceu, tão assustado quanto ela. Merda. Precisava se levantar. Mas estava zonza devido a intensidade do impacto.
Ela piscou.
Naquele instante, uma silhueta encapuzada entrou em seu campo — limitado — de visão.
O mundo ao redor desacelerou.
"Fique acordada" sussurrou a voz. Era suave e levemente rouca, percebeu enfim. E familiar. Muito familiar, que diabos. "Ainda não acabou."
— Quem é você? — Serena chiou, o corpo formigando — nos conhecemos?
— Não importa — disse a voz. Disse de verdade. As palavras saíram de dentro do capuz de um jeito que a fez estremecer. — Mas, de qualquer forma, espero que possa me perdoar um dia. Juro que estou fazendo isso tudo por você. Para protegê-la.
Me proteger? Pensou Serena. Me proteger do quê? Quem é você?
— Olhe para cima — devolveu a voz — e tome cuidado com olhos penetrantes.
Quando a visão de Serena voltou ao normal, a figura encapuzada tinha desaparecido.
O tempo descongelou.
Ela olhou para cima, bem a tempo de notar que um pedaço de concreto estava a um passo de cair em sua cabeça. Sua única reação foi gritar. Então tudo girou e ficou preto.
✧❄✧
Bucky estava descendo pela rua parecendo um andarilho bêbado, quando ouviu aquele grito.
Sua reação instintiva foi se perguntar se estava ouvindo coisas. Era possível, considerando a força com que batera o corpo — e a cabeça — quando havia sido lançado daquele prédio. Diabos, como aquilo doía.
Só que quando virou a esquina, se arrastando feito um moribundo, percebeu que não estava louco. De fato, havia alguém ali. Um corpo pequeno e feminino jogado no meio da rua, provavelmente por causa da explosão. Merda, ela não deveria estar ali... Porque diabos havia uma civil naquele inferno esquecido por Deus e por quê...
— Puta merda — ele grunhiu.
Ao se aproximar o suficiente, ele reconheceu o corpo.
Serena. Era a coisinha que estava ali, perigosamente próxima ao caos que enfrentara, sabe Deus por quê. Seu corpo pequeno e frágil estava estatelado no chão e rodeado por escombros que, por um milagre, não a acertaram.
— Por que não? — resmungou ele, a mão nas têmporas.
Estava tão cansado. A fumaça estava abaixando, mas o que sobrara do laboratório ainda irrompia em chamas e os prédios velhos que rodeavam o quarteirão estavam desmanchando feito pó. Ao redor, não havia nenhum sinal de bombeiros, polícia ou da figura de antes. Mas o que realmente importava para Bucky naquele instante, era descobrir o que a coisinha estava fazendo naquele maldito lugar tão repleto de cientistas malucos, pessoas misteriosas, prédios em chamas e mais Deus sabe o que, espreitando. Se bem que... ela não estava com alguém?
Tinha certeza de que Serena havia comentado algo a respeito, mais cedo. A menos que... ele estremeceu. Merda.
— Coisinha — chamou Bucky, o ar ao seu redor condensando. Ao redor dela havia também uma série de destroços de prédios, fumaça e... finos cacos de gelo, o que era bastante contraproducente, considerando o calor pungente das chamas do prédio a menos de duas quadras de distância — Serena.
Ela, contudo, não respondeu. Ele começou a ficar preocupado. Não havia mais nada ou ninguém em um raio de muitos quarteirões, exceto por um filhote de gato — tão maltrapilho quanto Bucky— que o encarava.
— Serena — repetiu outra vez, mais alto.
Nada.
Ele se agachou ao lado dela. Não encontrou machucados aparentes além de marcas de arranhões superficiais no rosto — que pelo tamanho e forma, poderiam facilmente ter sido causados pelo gato — e um pouco de sujeira nas bochechas.
O peito subia e descia devagar, ao menos ela estava respirando. Os sinais vitais estavam normais também, conferiu, pressionando dois dedos na artéria carótida, embora o corpo estivesse assustadoramente frio, provavelmente porque as gotinhas de chuva em suas roupas acabaram congelando devido à geada da madrugada.
O filhote se aproximou, miando e fazendo aquele barulho esquisito de gato. Ele se enroscou nas pernas de Bucky, esfregando o corpo, como se quisesse cumprimentá-lo.
E Bucky poderia até considerar a ideia de agradar o bichinho — parecia contraditório para alguém como ele, mas até que gostava de gatos — se não estivesse tão preocupado com Serena. Ele então tirou a jaqueta chamuscada e jogou sobre o corpo pequeno dela, torcendo para que fosse o suficiente para protegê-la de uma hipotermia.
E agora? Pensou ele. O que deveria fazer?
Bucky passou uma das mãos no cabelo. Resgastes não eram seu ponto forte e ele não fazia ideia de como deveria agir. Quem deveria chamar: polícia ou ambulância? Talvez fosse prudente levá-la direto a um hospital. Não. Se ela estivesse com algum ferimento delicado, poderia acabar piorando a situação ao pegá-la no colo.
Mas também não poderia simplesmente deixá-la ali, largada no chão frio e...
Seu cérebro estava a um passo de entrar em combustão quando notou o rosto de Serena se contorcendo. Bucky se aproximou. Talvez estivesse despertando.
— Coisinha — ele chamou mais uma vez, a voz aguda, rezando para que acordasse.
E como atendesse suas preces, um par de olhos amendoados se abriu. Ele chegou mais perto. Mas o movimento seguinte foi tão repentino que Bucky não teve tempo de reagir. Um punho pequeno e inesperadamente forte se chocou contra seu maxilar.
Ele soltou um palavrão.
Serena gritou.
— Sargento? — disse ela, um momento depois — que merda você está fazendo aqui?
Ele acariciou o queixo. Doera bem mais do que gostaria de admitir.
— Estava prestes a fazer a mesma pergunta.
Serena piscou algumas vezes e começou a olhar ao redor, confusa.
— Onde é aqui? — ela se corrigiu, erguendo o corpo.
— Não sabe como chegou até o meio das docas?
— Sim — ela piscou algumas vezes — quero dizer, não. Sim?
Bucky respirou fundo. Serena estava confusa. Talvez um daqueles pedaços de concreto que a rodeavam tivessem se chocado contra a cabeça dela. Ou poderia ainda ter batido alguma coisa no chão com a queda. Ela, contudo, não parecia ter nenhuma concussão ou galos aparentes. Também não havia sangue no chão ou em suas roupas.
— Alguém forçou você a vir até aqui? — ele perguntou, mudando a postura.
— Não, estou aqui por vontade própria. — Serena devolveu. Bucky não sabia se acreditava nela ou não. — E, sim, sozinha. É que... é complicado.
Houve uma pausa. Serena comprimiu os lábios, como se estivesse pensando. Bucky ficou encarando-a pacientemente.
— Eu estava em frente ao bar quando ouvi aquele choro e... — Ela fez outra pausa, massageando as têmporas — acho que era um gato.
Como se tivesse sido convidado para a conversa, o gato miou.
— Olha ele ali — disse ela, como se explicasse tudo.
Bucky ergueu uma sobrancelha.
— Você está bêbada?
Serena fez um estalido com a boca.
— O quê? Claro que não. Estou tão sóbria como quando saí de casa.
Ele, no entanto, tinha suas dúvidas.
— Acha que pode ter sido drogada ou envenenada por alguém?
— Deus Bucky — ela resmungou, a mão ainda massageando a região — qual o seu problema com veneno?
Ele franziu o rosto.
— Isso pode acontecer em bares.
Ela soltou um palavrão.
— Santo Deus, quem te disse isso? —devolveu, indolente — o senhor Nakajima?
— Só estou tentando entender que merda aconteceu com você.
Serena revirou os olhos e fez uma careta, como se quisesse desafiá-lo. Bucky, no entanto, manteve a expressão resignada.
Ela o encarou.
Ele a encarou de volta.
O olhar mais rígido e impassível que conseguira esboçar.
Ela murmurou outro palavrão, cedendo. Ponto para ele.
— Estava com uma amiga no Shark's — Serena confidenciou, desviando o olhar e apontando para o fim da rua — tomei uma dose de tequila e duas cervejas, mas não, eu não estou bêbada — emendou, antes que Bucky pudesse protestar — depois disso tudo, saí do bar, ouvi um choro e fui atrás do gato. Ele estava com frio e sozinho naquele maldito beco. Sei que não faz sentido, mas é a verdade.
Ele suspirou. Não, não fazia sentido. Nenhuma palavra que saía da boca dela parecia fazer sentido.
— E não vou me desculpar por ter feito isso — ela continuou, provavelmente porque notara o olhar acusatório dele — jamais me perdoaria se o deixasse para morrer — a última parte não foi mais que um sussurro combalido.
Ele suspirou, aliviado. Pelo menos não era nada do que estava pensando. O alívio, no entanto, logo foi suprimido pela raiva.
— Está me dizendo que entrou no meio das docas a essa hora da noite por livre e espontânea vontade? — Censurou Bucky — atrás de um maldito gato de rua?
— Não faça parecer uma ideia estúpida.
Ele deu uma risada seca.
— Oh, me desculpe, coisinha — ele devolveu, complacente— andar por aí sozinha e ficar desacordada em uma das partes mais perigosas de Nova Iorque é a epítome da inteligência.
— E quanto a você? — ela retrucou — está aqui também. Corre tanto perigo quanto eu.
Ele deu um olhar jocoso.
— Tenho certeza de que posso me cuidar — e reforçando seu ponto, Bucky ergueu o braço esquerdo — além do mais, me mantive consciente a noite toda.
Sem resposta para isso, Serena desviou o olhar para o gato enroscado nas pernas dele. Ao menos o filhote parecia desperto. Com um banho e um pires de leite, ficaria novo em folha.
— Tem razão — ela ciciou logo depois, tão baixo, que se não fosse pela distância, Bucky jamais teria ouvido — me desculpe.
— O que disse?
— Você me ouviu — a coisinha resmungou, cruzando os braços — tem razão, sargento. Foi uma tremenda estupidez. Não deveria ter saído da droga do bar. Muito menos ter entrado naquele beco. Ou ido atrás do gato.
Tinha parado de chover, mas algumas gotinhas de água ainda escorriam pelo rosto de Serena, os olhos refletindo um brilho cansado. Bucky se retraiu.
Não queria dar sermão na coisinha especialmente porque, bem, aquela era ela. Estava falando da mesma pessoa que se enfiara em um maldito assalto para proteger dois desconhecidos; a que sempre oferecia ajuda aos vizinhos sem pedir nada em troca; aquela que o olhara sem julgamentos ou medo, mesmo sabendo quem era ele e o que tinha feito no passado. Praticamente uma fadinha.
Claro que Serena iria colocar sua própria segurança em segundo plano apenas porque um gato de rua sarnento estava chorando em um canto escuro. A coisa toda era bem a cara dela, na verdade.
— Por que está rindo? — Serena perguntou, a cara franzida.
— Não estou rindo.
Os lábios esticados indicavam o contrário, mas ele não se importava.
— Ah, está sim — ela retrucou — o que foi que eu fiz agora?
— Foi uma longa, longa noite — Bucky respondeu, empertigando-se com o gato nos braços, sabe lá por que — que tal se formos embora de uma vez?
Dito isso, ele estendeu a mão para ela, que aceitou sem protestar.
O prédio ao fundo ainda ardia em brasas, mas nenhum dos três —contando com o gato, que havia encontrado uma forma de se enfiar dentro da jaqueta de Bucky — parecia se importar com aquilo enquanto desciam a rua. Ele então olhou para trás uma última vez, apenas para garantir que ninguém os seguia.
Mas Bucky estava longe demais para notar a figura encapuzada vigiando-os do topo de um dos prédios enquanto sumiam pela escuridão da madrugada.
Fale com o autor