Legítimo
4 "Tenho até medo de dormir, pra não lembrar daqueles olhos que refletem luz no meu coração"
Notas iniciais
Fernando havia passado horas para escolher um buquê, quase matando a vendedora da floricultura de raiva. As coisas só não ficaram ruins porque ele acabou escolhendo rosas vermelhas, uma das mais caras para buquês. Queria impressionar Ana, colocar uma expressão de surpresa no rosto dela. E, em seguida, lágrimas, mas só de felicidade. Aquela garota para a qual ele matara o treino, comprar buquê e chocolates, para quem ele tinha colocado sua melhor roupa casual, que quase tomara banho de perfume era aquela que ele queria fazer feliz.
Não que eles já não fossem felizes juntos, mas Fernando queria poder abraçá-la mais forte, beijar com vontade e perder as noites assistindo-a dormir. Queria chamá-la de amor, coisa que ele já fazia, mas queria que tivesse um significado literal. Até porque ele já a amava, desde o primeiro olhar, a primeira conversa. No fundo, Fernando sempre soube que nascera para ser de Ana e que ela nascera para ser dele.
— Então, o que você está fazendo aqui com esse buquê enorme? — Ana disse, entre risinhos quando Fernando entrou na sorveteria.
— Eu... eu queria... Queria dizer... Dizer... — cada palavra que Fernando pensara em dizer agora pareciam estúpidas.
Ele queria surpreendê-la, queria fazer aquilo da maneira certa, mas nada parecia funcionar agora como funcionou na frente do espelho em seus treinos. A presença das amigas de Ana, olhando para ele com um tom de divertimento, só piorava tudo. Ele apenas calou-se, tremendo e suando, sentindo seu rosto perder a cor.
— Mas que… — ele se xingou, baixinho, odiando o que estava fazendo consigo e com Ana. Afinal, ela devia estar morrendo de vergonha daquele circo que ele montou. “Moleque burro, moleque burro” ele repetia mentalmente. Ana via a expressão dele, com raiva, mas ao mesmo tempo, pálida. Ficou instantâneamente preocupada com o amigo.
— Fernando, você está bem? Você está super pálido… — Ana pegou em sua mão livre – Gelado e tremendo também. O que você tem? – ela levantou, colocando a outra mão sobre a testa do rapaz, sentindo o pouco calor e o suor no rosto de Fernando.
Antes que ele dissesse algo, ela o puxou para sentar e, em seguida, sentou-se ao lado dele. Chamou a garçonete e pediu uma água e sal. Ela estava realmente assustada com o estado de Fernando, temendo que ele desmaiasse a qualquer momento, suspeitando que a pressão dele estivesse muito baixa. Pouco preocupadas, pois já suspeitavam o motivo do nervoso de Fernando, Bruna e Paula apenas se despediram e começaram a se levantar quando Ana protestou.
— Vocês vão me deixar aqui sozinha? – resmungou – E se ele estiver muito mal e precisar ir para o hospital? Como vou carregá-lo até lá?
— Chama o SAMU, eles vêm rapidinho… — Bruna disse, sorrindo – Mas não acho que será necessário, ele está apenas nervoso. – soltou, percebendo o rosto de Fernando, que agora a encarava, enrubescer. “Eu estava certa!” Bruna pensou e apenas transmitiu a mensagem pelo olhar para Paula, que sorriu de volta.
— Então vamos indo! Até mais, casal – Paula soltou, puxando Bruna para a porta, tentando controlar as risadas.
— Ei, esperem! – Ana levantou-se, gritando – Não me deixem aqui sozinha, eu preciso… — suspirou, vendo as amigas passarem pela porta da sorveteria e irem embora.
Fernando pegou a mão da amiga, puxando-a de leve para sentar. Ela voltou-se para ele, preocupada. O rosto dele, antes branco como a neve, agora pegava fogo. A água e o sal chegaram logo em seguida. Ela entregou o copo para o amigo, que virou todo o líquido de uma vez.
— Poxa, Cachinhos, como você vai tirar o gosto de sal da boca agora? – Ana disse, brava com o rapaz – Não era pra tomar de uma vez!
— Calma, Ana… — Fernando finalmente conseguiu dizer — É só nervoso, Ana... Eu tô um pouco nervoso... – Ele declarou. E como estava! Ele não se lembrava da última vez que suas pernas tremeram tanto. Ele tentou pará-las, segurando com suas mãos, mas o tremor só ficou mais evidente, pois suas mãos tremiam mais ainda. “Idiota, idiota, idiota!” ele resmungou mentalmente.
— Nervoso com o quê? – Ana perguntou – O que aconteceu? Você tem um jogo importante?
— NÃO! – ele gritou, mas ele não queria fazê-lo — Me desculpe, eu não queria gritar… É só que… Não, eu não tenho um jogo, mas é algo importante.
Ana o encarou confusa.
— Então o que é? E o que são essas flores? – disse, apontando para o buquê que agora jazia na mesa.
— Elas são… São… — ele estava travado, não conseguia dizer nada do que havia planejado – Elas são para… São para…
— Fernando, o que está acontecendo? – Ana aproximou-se do rapaz, colocando seu braço por cima do ombro do amigo, abraçando-o pela lateral – Me explica o que você tem, eu estou ficando assustada…
— Essas rosas são para… — ele começou a dizer, mas foi interrompido pela figura loira que sentou-se do outro lado da mesa, de frente para ele e Ana.
— Oh, Fernando, você trouxe rosas para mim? – disse Camila, num tom emocionado.
Camila era a ficante de Fernando. Não apenas isso, Camila era melhor amiga de Ana, Paula e Bruna. E Ana não pôde disfarçar o pontada de decepção que sentiu em seu peito.
***
Ana resolveu ligar para Diogo, seu atual melhor amigo/peguete nas horas vagas. Ele era louco por ela, mas sabia que seu sentimente não era de todo recíproco. Acabva, então, por aceitar as migalhas de amor oferecidas por Ana, que precisava de alguém pra ouvir, dar colo e beijar, uma vez ou outra. Ele atendeu no segundo toque.
— Oi, Aninha, beleza? — uma música alta era pano de fundo da linha dele.
— Oi, gato – disse, rindo ao ouvir o barulho de festa do outro lado da linda – Tá na balada em plena segunda? Que isso! — Ana riu.
— Mais ou menos, é só uma festinha na casa do Figueira. Cai pra cá, tem tequila do jeitinho que tu gosta e uma piscina aquecida que tá show!
— Oferta tentadora, mas não dá, começo no trabalho amanhã às oito...
— Então você conseguiu? Parabéns, gatona! Eu sabia que esse emprego era seu! Temos que comemorar! – ele disse, genuinamente feliz pela amiga/peguete.
— Pois é, por isso te liguei, queria fazer essa comemoração à dois, daquele jeitinho, sabe? — Ana sabia como convencer Diogo a largar tudo por ela, e abusava desse poder quando precisava.
— Chego aí em vinte minutos! — e desligou. Ela riu.
Com Diogo, a diversão era garantida. Ele era exatemente quem ela precisava agora.
***
Fernando olhava fixamente às estrelas de sua sacada. Levara seu cobertor e deitara no garboso sofá marrom, que fazia composição com a varanda. Pensava em todas as vezes que teve a chance de dizer tudo o que sentia por Ana, e em como desperdiçou quase todas. Desde o primeiro dia, quis se declarar. Fora amor à primeira vista. Mas as palavras nunca saiam da maneira certa, o lugar nunca era apropriado, e ele acabou por não dizer, mesmo no dia da sorveteria. Naquela tarde incrível...
O telefone tocou. Ele saiu correndo da sacada até o criado-mudo, onde deixara seu celular. No fundo, uma vozinha dizia que era Ana, que ela queria vê-lo, que queria dar uma chance para os dois. Mas o nome que piscava no visor do aparelho não era nada do que ele pudesse imaginar.
"Paula chamando"
Ele suspirou e fechou os olhos. "Será que o passado resolveu brincar de me foder hoje?"
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