Left Behind

8 Capítulo 8 - Dead Ones Don't Talk


Notas iniciais
Olá!! Eu sei, eu demorei muuuito pra postas, e peço desculpas, mas com o natal e ano novo, ficou complicado atualizar a fic, ainda mais porque eu viajei para a praia, e realmente não tive tempo de escrever e responder os comentários... Mas enfim, feliz 2016!! (um pouquinho atrasado). O capítulo ficou um pouco maior do que eu planeja, eu ia dividir em dois, mas como sei que vocês gostam de capítulos grandes resolvi deixar assim mesmo. Enjoy ♥

Capítulo 8 — Dead Ones Don't Talk

S A M

“A raiva é um veneno que bebemos esperando que os outros morram.”

—William Shakespeare

O vento bagunçava meus cabelos enquanto eu fixava o olhar na casual paisagem a frente. As ruas se cruzando, algumas árvores e vegetações cobrindo os campos, e as várias casas pequenas e sem graça distribuídas pelo subúrbio de Atlanta. E naquela única casa azul, destacando-se entre as demais, eu estava sentada sobre o telhado, fazendo com que todos que passassem na rua olhassem para mim com estranheza. Nunca me importara por ser uma criança diferente, ou ter uma casa e uma família diferente entre todas que viviam ali. Exceto quando o diferente tornava-se algo ruim. Era o caso daquele dia.

Estava encolhida, os braços envolvendo os joelhos, os olhos úmidos e o semblante triste. Os ecos dos gritos ainda perturbavam minha mente. Ouvi o estalar da janela abrindo-se, mas não olhei para trás. Eu sabia quem era.

— Sammy? — A voz acolhedora do papai me reconfortou por alguns segundos. — O que está fazendo aí, querida?

— Eu não conseguia mais ouvir… — funguei.

— Ah, Sammy… — Não precisei me virar para ver que ele estava se espremendo pela janela. Meu pai equilibrou-se pelo telhado e logo se sentou ao meu lado, um pouco desconfortável. Repousou o braço ao lado do meu, sustentando o peso do corpo e esticou as pernas. Por alguns segundos ele apenas ficou ali parado, observando a vista e enchendo os pulmões com o ar fresco da tarde.

— Sempre quis me mudar daqui — ele quebrou o silêncio, então o olhei. — Para um lugar mais distante de tudo… Com grandes campos… Uma fazenda, quem sabe.

Enxuguei uma lágrima que escorria por meu rosto.

— E por que não nos mudamos? — perguntei.

Ele me olhou com divertimento.

— Porque, bem… As coisas não são como queremos. Elas acontecem da maneira como deveriam. Se estamos aqui é porque é onde temos que estar.

— Mas… Você seria mais feliz se vivesse no campo?

Ele suspirou.

— Às vezes nem tudo se trata da nossa felicidade — ele sorriu. — Eu sou feliz aqui. Seria feliz no campo, ou em qualquer outro lugar. Desde que estivesse com vocês.

— Então por que você continua no exército? Você sempre viaja pra esses lugares perigosos e fica longe de nós por dias, e a mamãe grita com você, Ellie chora porque sente saudade, e eu nunca sei o que fazer. Ela diz que… Tem medo que você não volte mais.

— Eu sei que é difícil querida. As coisas que você assiste na televisão… Infelizmente são reais. E alguém precisa resolver toda aquela bagunça. Alguém precisa ajudar aquelas pessoas, não é?

— Sim — concordei cabisbaixa, aceitando que ele tinha razão. — Mas a mamãe diz que você pode escolher não ir. Ela sempre fica nervosa e começa a gritar, e eu estou cansada de ver ela brigando com você!

— Não culpe sua mãe por isso, ela tem seus motivos para se zangar.

Suspirei.

— Eu sei. Só queria que tudo isso acabasse.

Parei olhando para o céu sob nossas cabeças, lembrando-me das imagens cruéis que retratavam a guerra na televisão.

— Você não pode adiar a viagem? Ou não ir, só dessa vez? Por favor, papai. — Supliquei.

— Eu sinto muito Sammy, mas sabe que não posso.

— É que… Eu estou com medo... — estremeci imaginando meu pai em meio à zona de guerra. — De que você não volte pra casa.

Ele sorriu e empurrou meus cabelos para trás da orelha em um gesto carinhoso.

— Não seja boba. Alguma vez eu deixei de voltar pra vocês?

Meus olhos se abriram lentamente, e voltei a enxergar aquelas paredes cinzentas. Empurrei os fios de cabelo para trás da orelha e envolvi os joelhos em um abraço. Eu daria tudo para reviver todos aqueles dias com meu pai. Por mais duros que possam ter sido tê-lo por perto novamente era tudo que poderia desejar. Tateei meu pescoço em busca do colar da mamãe e o segurei entre os dedos.

Ouvi um estrondo e virei-me para ver. Ellie debatia-se contra a porta de ferro, tentando derrubá-la a todo custo.

— O que está fazendo?

— Tentando nos tirar daqui — respondeu, então distanciou-se da porta, e em um impulso correu novamente atirando o peso do corpo contra a superfície de ferro, e caindo contra o chão de imediato, sem sucesso.

— Ai — reclamou ela, se encolhendo.

— Você não vai conseguir.

— Quanto otimismo.

Ela se levantou novamente e repetiu o gesto, desta vez com mais força, o que resultou em uma pancada ainda maior contra o chão.

— Ah, merda! — ela chutou a porta, ainda caída.

— Vai parar agora?

— Vai se foder, Sam!

Ellie tinha um vocabulário muito sujo para a idade, nossos pais sempre tentaram contê-la, mas nunca tiveram sucesso. Com o tempo me acostumei e passei a ignorar seus acessos de raiva.

— Se você me ajudasse talvez conseguíssemos — continuou.

— Não há como sair! Ainda não entendeu? Acabou!

Ela me encarou por alguns segundos.

— Por que está fazendo isso?

— O quê?

— Desistindo — aqueles grandes olhos verdes e expressivos me fitavam, carregados de decepção. — O que o papai diria?

— O papai está morto! — enfatizei, retribuindo seu olhar. — E os mortos não falam.

Ela pareceu ser pega de surpresa, então desviou o olhar e encostou-se contra a parede, os braços repousando sobre os joelhos. Vi de relance ela secando uma lágrima, e contendo-se para que segurar as demais.

— Então o que vai ser? — perguntou com a voz falha. — Vamos ficar aqui sentadas, esperando pela morte?

— É exatamente o que vai ser. — Respondi, e no segundo seguinte percebi que estava sendo um pouco dura demais. — Sinto muito.

Ela apenas balançou a cabeça e ficou em silêncio. Uma raiva momentânea me atingiu ao vê-la chorar. Aquilo tudo era minha culpa? Tudo que eu queria eram respostas, e enfim as havia encontrado. Talvez se eu tivesse parado, nós não estaríamos em apuros, mas ainda assim o papai estaria morto. Ele sabia demais, e estava prestes a revelar a verdade a todos. Contaria quem era o real Governador. Ele me dissera para confiar nele, que tudo daria certo, e eu confiei. Agora ele estava morto.

— O que você quer de mim?! — disparei, não suportando mais vê-la chorar. — O que quer que eu faça? Eu não posso nos tirar daqui! Eu queria ser forte como o papai, inteligente como a mamãe e corajosa como você, mas eu não sou! Eu não posso nos tirar daqui, não posso nos manter vivas… Eu sinto muito.

— Você não está sozinha — disse Ellie, após alguns segundos, enquanto se recuperava. — Eu estou com você. Vamos superar isso, tá bem? Eu só… Não quero que desista agora.

Fitei-a sem reação. Como ela conseguia lidar tão bem com tudo? Mesmo sendo mais nova, parecia muito mais madura que eu em algumas situações. E talvez ela estivesse certa, afinal. Estávamos juntas, uma dependia da outra, e eu não podia aceitar que morreríamos ali para o homem que assassinou nosso pai bem diante de nossos olhos.

— Eu… — comecei, mas fui interrompida pelo estouro dos tiros vindos do lado de fora. Olhei em direção a porta, espantada, e levantei-me.

— O que é isso? — perguntou Ellie, alarmada.

Ela se curvou para tentar enxergar algo entre o vão da porta.

— Não dá pra ver nada — reclamou.

Os disparos eram intermináveis, seguidos de gritos de desespero.

— Estão atirando no meio da cidade? — perguntou ela, confusa. — Por que fariam isso?

Encostei o ouvido contra a parede e concentrei-me em tentar achar uma resposta para todos aqueles tiros.

— Talvez os errantes tenham invadido? — sugeriu Ellie.

— Como? Os muros são muito bem protegidos, não teria como errantes invadirem assim… Espera… Acho que é um tiroteio.

— Ah, não me diga!

— Não! Estou dizendo que outras pessoas possam ter invadido — expliquei. — Talvez estejam atrás de suprimentos.

— Bem, nesse caso tivemos sorte por estar presas aqui — comentou ela.

Os barulhos intermináveis dos tiros e dos gritos da população de Woodbury seguiram-se com estouros ecoando pelas ruas, como se granadas fossem detonadas. O que aconteceria com nós se os tais saqueadores dominassem a cidade? Talvez tivéssemos uma chance de fugir, ou simplesmente nos deixariam vivas, o que não parecia muito provável devido ao fato de que estavam atirando em tudo e todos do lado de fora. Um desespero momentâneo me atingiu ao perceber que agora estávamos mais encrencadas do que antes.

O ruído da chave girando na fechadura despertou-me de meus pensamentos. Ellie afastou-se e a puxei para trás de mim. Em poucos segundos a porta abriu-se revelando um Isaac ofegante.

— Achei vocês — sorriu ele, satisfeito. Adentrou o cômodo carregando um rifle de caça familiar nas costas.

— Isaac! — Ellie correu e pulou sobre ele, abraçando-o. — Cara, não acredito! — Ela o soltou, incrédula. — Como foi que nos encontrou? Onde conseguiu a chave? E o que diabos está acontecendo lá fora?!

— Você disse que Sam tinha sumido então eu fui procurar e acabei encontrado isso — ele ergueu o relicário prateado.

— Meu colar — aproximei-me e o peguei, verificando com os dedos. — Onde estava?

— Perto de um casebre, bem afastado… Eu nunca tinha ido lá antes. — Explicou. — Eu fiquei por lá, e então vi quando um carro chegou e tiraram vocês duas de dentro, encapuzadas. Eu me escondi, e eles trancaram vocês aqui. Quando o tiroteio começou eu fui até a casa do Governador buscar as chaves, não tinha ninguém por lá… E também achei isto — ele tirou o rifle das costas e estendeu para Ellie. Ela correu em direção a ele, e o pegou animada.

— Jhonny! Achei que o tinha perdido pra sempre. — Ela pendurou a bandoleira no ombro.

— Você deu um nome ao rifle? — perguntou Isaac, então olhou para mim e busca de respostas e dei de ombros. Ellie era estranha. — Ah, tanto faz... Mas, afinal… Por que vocês estão presas aqui? O que aconteceu?

O sorriso de minha irmã desapareceu, e ela buscou meu olhar.

— Eles o mataram — respondi, duramente. — Mataram meu pai.

A notícia o atingiu em cheio.

— Ah meu Deus… Eu sinto muito… — ele parecia totalmente perdido. — Sinto muito mesmo… Droga.

— Não é culpa sua.

Ele esfregou a cabeça.

— Eu disse que estava paranoica… Droga, não acredito…

— Isaac, tudo bem. Sério. — Tentei reconfortá-lo. Ele suspirou e recompôs-se.

— Certo, eu… Eu vou tirar vocês daqui, mas temos que ser rápidos.

— Espera, está tendo um tiroteio lá fora! — lembrou Ellie.

— E vai ser a distração perfeita — esclareceu Isaac. — Olha, alguns caras invadiram a cidade, eu não sei bem o que está acontecendo, mas precisamos ir antes que terminem o que vieram fazer aqui.

— Tá bem… — concordou Ellie, então me olhou. — Vamos sair daqui.

Balancei a cabeça, então deixamos o pequeno cômodo e passamos a correr pelas ruas, beirando as calçadas e desviando das pessoas. A noite caía, o que me fez perder a noção de quanto tempo havíamos ficado presas dentro daquele quarto. Os tiros ficavam cada vez mais altos, e a confusão estava solta pela cidade. Bombas de fumaça eram atiradas e estouravam, ofuscando minha visão, mas não paramos de correr.

— Por aqui! — chamou Isaac. Eu conseguia enxergar apenas sua sombra, mas agarrei a mão de Ellie e o segui para fora da nuvem de fumaça. Desviamos de um grupo de pessoas assustadas que corriam para o lado oposto e aceleramos o passo para longe do tiroteio.

Eu sempre me perguntei como o papai se sentia em meio à zona de guerra, acho que agora eu sabia exatamente a sensação.

O medo e a adrenalina misturavam-se em meu interior, e eu corria sem parar, sabendo que a qualquer momento podia me tornar uma vítima de bala perdida. Seguimos Isaac até uma das extremidades laterais da cidade, distante de toda a confusão, onde ficavam os muros, mas não havia ninguém vigiando. Isaac parou diante das fortificações e apoiou-se nos joelhos, ofegante, puxou o inalador do bolso e sugou o ar pelo bocal.

— Ah… Droga, foi por pouco — ofegou Ellie.

— Conseguimos — permiti-me sorrir por alguns segundos.

Ellie olhou para os muros, esperançosa.

— Vamos dar o fora daqui.

Comecei a segui-la, mas parei ao ver que Isaac não nos acompanhava.

— Você não vem?

— Não posso deixar minha mãe e meu tio — disse ele.

— Mas se ficarem… — ponderou Ellie. — As pessoas que invadiram…

— Vamos ficar bem — sorriu ele.

— Isaac, se o Governador descobrir que nos ajudou… — comecei.

— Eu vou ficar bem — cortou ele. — Eu prometo. Agora vocês têm que ir.

Ellie olhou de mim para ele, sem acreditar.

— Ah, tá brincando?

— Vamos indo Ellie — falei, sem tirar os olhos de Isaac.

Ela suspirou frustrada, então começou a se afastar.

— Espera, fique com isso — ele entregou sua faca a mim — Vai precisar.

Peguei o objeto de suas mãos e prendi no cinto da calça, notando que estava deixando todas as minhas coisas para trás, mas não havia como buscá-las agora.

— Se cuidem — pediu ele.

Parei por alguns instantes, analisando se devia mesmo fazer o que estava prestes a fazer, então deixei de lado os pensamentos e me aproximei em um impulso, envolvendo-o em um abraço.

Fiquei colada a ele por alguns segundos, sentindo sua respiração quente em meu pescoço. Eu só queria que ele soubesse o quanto eu era grata por tudo que havia feito por nós. Também não sabia se o veria novamente, em um mundo de incertezas como aquele em que vivíamos, era pouco provável. E não podia negar que sentiria sua falta.

— Obrigada.

Afastei-me lentamente e olhei no fundo de seus olhos que me encaravam com uma expressão indecifrável, então virei-me e puxei Ellie em direção aos muros. Subimos pelas caixas que formavam a plataforma e olhei para trás uma última vez. Para Isaac e para o caos da cidade, buscando deixar para trás tudo que havia vivido ali, e desejando que Woodbury nunca tivesse acontecido em nossas vidas, então saltei os muros e o gramado denso e macio amorteceu a queda. Ellie pulou logo em seguida, então disparamos pela mata.

As árvores pareciam vultos negros em nosso caminho, e a fraca luz da lua e das estrelas não era suficiente para iluminar a floresta. O som dos tiros estava muito distante agora, dando lugar aos gemidos dos mortos que se aproximavam, que, com todo aquele barulho, não seriam poucos. Busquei ao máximo ficar por perto de Ellie enquanto corria, olhando atentamente para todos os lados, tentando enxergar qualquer possível ameaça, mas com toda aquela escuridão presente seria impossível.

— Merda, eu não estou enxergando nada! — reclamou Ellie.

— Continue correndo, temos que ir o mais longe possível!

Aceleramos o passo, nos aprofundando cada vez mais na mata. Eu me perguntava onde aquilo iria terminar.

Comecei a ouvir sons de passos que não eram nossos por perto, então de súbito, debati-me contra algo corpulento e senti as mãos podres do errante agarrando-me e levando-me para o chão. Caí segurando-o com força para longe de mim, sem conseguir vê-lo direito. Sua mandíbula estalava, abrindo e fechando e os gemidos horripilantes pareciam estar mais perto do que eu previa.

— Sam! — gritou Ellie.

Ela correu em minha direção e chutou o errante, que tombou para o lado, então rapidamente puxei a faca do cinto e cravei em seu crânio. Ele parou de se remexer instantaneamente e pude me permitir respirar. Ellie me ajudou a levantar.

— Obrigada — ofeguei, aliviada.

— É… Vamos dar o fora daqui.

Assenti, então voltamos a correr. Eu agradecia mentalmente a Isaac por ter me dado a faca, mais uma vez ele havia me salvado.

À medida que avançamos pela floresta, eu ouvia mais gemidos e passos, e era assustador poder ouvir os errantes, e não poder vê-los. Eles podiam estar bem em nossa frente, ou há metros de distância, e eu temia ser pega de surpresa novamente, pois se houvesse uma segunda vez, eu poderia não ter tanta sorte.

Uma dor insistente logo abaixo dos pulmões me incomodava profundamente, e minhas pernas começavam a ceder ao cansaço. Logo à frente avistei um cenário diferente da floresta, não havia mais árvores ou vegetação, e sim postes de luz apagados e o asfalto formando as estradas.

— Estamos quase lá — ofeguei, encorajando Ellie.

Não demorou muito e alcançamos a rua. Parei de correr imediatamente e sentei-me no asfalto, ofegando. Ellie limpou o suor da testa e olhou ao redor. Não era muito diferente da mata, quase não conseguia enxergar um palmo a frente da mão. Estávamos muito vulneráveis ali.

— O que vamos fazer agora? — perguntou ela, após alguns segundos respirando pesadamente.

— Precisamos achar um lugar pra dormir.

— Não vamos encontrar nada desse jeito. Está muito escuro.

Olhei ao redor, não parecia haver nenhuma construção por perto, apenas a estrada longa e contínua. Além de abrigo precisávamos encontrar comida e água logo, ou não duraríamos muito tempo. O desespero começou a me afligir, como sobreviveríamos sozinhas? O papai sempre sabia o que fazer como encontrar comida e água, a situação com ele parecia estar sempre sob controle, mas eu não era como ele, não fazia ideia de como fazer isso.

— Podemos dormir nas árvores — sugeriu Ellie.

Olhei-a com espanto.

— E cair quando pegar no sono? Não, obrigada.

— Você tem uma ideia melhor?

Suspirei. Poderíamos andar pela estrada até encontrar algum carro, mas estava escuro demais e eu não sabia se haveriam veículos por perto. Era muito arriscado andar às cegas com os errantes por perto. Nenhuma outra opção parecia acessível. A menos que encontrássemos uma lanterna ou algo do tipo, não iríamos a lugar algum.

— Certo, vamos dormir nas árvores — concordei, ainda desejando que uma lanterna caísse do céu. — Mas antes me dê o rifle, vou ficar de vigia.

Vi um pequeno sorriso de deboche formando-se em seus lábios.

— Desde quando você sabe atirar com o Jhonny?

— Não pode ser tão difícil... Se você consegue — brinquei e ela fingiu se ofender. —

Não se preocupe, vou cuidar bem dele — tomei a arma de suas mãos e passei a bandoleira pelas costas.

Segui Ellie até o acostamento, onde a mata beirava a estrada e ela começou a escalar a árvore mais próxima. Para Ellie era extremamente fácil escalar, ela vivia brincando no alto das árvores quando visitávamos o sítio do vovô, desde pequena sabia exatamente onde pisar ou que galho agarrar para subir mais alto. Eu não.

Aproximei-me do tronco grosso e agarrei-me a um ponto alto, então posicionei meu pé no centro onde a árvore abria-se formando um emaranhado de troncos menores e galhos grossos. Com dificuldade empurrei o peso do corpo para cima, o que fez com que meu pé escorregasse, então voltei á posição inicial. Frustrada, repeti o processo, e desta vez agarrei-me ao tronco mais próximo antes de escorregar, e comecei a escalá-lo lentamente às cegas. Tentei não olhar para baixo à medida que subia, mas era impossível, e embora eu não pudesse ver nada, temia pisar em falso e cair novamente.

Quando dei-me conta de que não conseguia mais subir, parei e sentei-me desconfortavelmente no tronco, e para minha sorte havia mais galhos por perto, o que me sustentaria caso eu tombasse para os lados enquanto dormia. Olhei para a árvore oposta e vi um relance de Ellie, acomodada entre os troncos, com as pernas esticadas.

— Ellie? Tudo bem? — perguntei.

— Melhor impossível — respondeu ela.

— Acha mesmo que isso vai dar certo?

— Bem, o pior que pode acontecer é cair de alguns metros e quebrar um osso. Nada demais.

Suspirei.

— Relaxa, eu já fiz isso milhares de vezes — continuou ela. — Vamos ficar bem.

Pelo menos estávamos a salvo dos errantes, já era um ponto positivo.

— Certo, de manhã vamos seguir a estrada… Precisamos encontrar comida e água. E abrigo. — Esfreguei a testa pensando em todos os problemas que enfrentaríamos e em como eu queria que o papai estivesse ali para nos orientar. Não seria nada fácil sem ele.

— Sam, vamos ficar bem — repetiu ela. — Você disse que não podia nos tirar de lá e nos manter vivas… Mas você fez isso. Estamos vivas, e vamos continuar assim. É isso o que importa certo?

— Certo — concordei, lembrando-me que o papai sempre dizia que tudo que importava era que estávamos vivos e juntos.

Por mais que eu tentasse me distrair, todos os meus pensamentos voltavam-se para ele, para o meu ódio pelo Governador e por tudo que havia acontecido. Prometi a mim mesma que a morte dele não seria em vão. O Governador pagaria caro por tudo.

Encolhi-me, ainda desconfortável sobre a árvore. Estava bem claro que eu não dormiria naquela noite. E provavelmente seria a primeira de muitas.

***

Acordei com um susto, e para o meu espanto, o sol já iluminava o céu. Eu provavelmente havia adormecido por poucas horas, pois me lembrava de ver os poucos raios solares surgindo no horizonte antes de pegar no sono. Remexi-me sobre o tronco da árvore, ainda segurava o rifle na mesma posição, e todos os meus músculos estavam doloridos.

Do lado oposto, Ellie dormia tranquilamente, os braços e pernas esparramados pelos troncos e galhos da árvore. Eu me perguntava como ela podia dormir tão bem em um lugar tão peculiar como aquele. Ergui-me lentamente dobrando os joelhos em busca de uma posição favorável para olhar ao redor com o rifle. Quando a encontrei, posicionei o “Jhonny” e olhei através da luneta, fechando o olho esquerdo. Busquei atentamente por qualquer sinal de perigo, por algum veículo parado em meio à estrada, uma cidade não muito distante ou qualquer coisa que pudesse nos ajudar a ficar vivas. Mas tudo o que encontrei foram os errantes vagando sem rumo ao longe. Frustrada, devolvi a arma às costas e comecei o processo para descer da árvore. Com estrema cautela, agarrei-me ao tronco e lentamente desci equilibrando-me entre os galhos e troncos. Em poucos segundos estava em terra firme.

Caminhei até a árvore onde Ellie dormia e bati duas vezes na madeira.

— Ei! Acorde!

Logo ela se mexeu e levantou a cabeça, procurando a origem do som.

— Aqui em baixo!

Ela olhou para mim e esfregou um dos olhos.

— Só mais cinco minutos? — pediu ela. Não precisei respondê-la, apenas lhe lancei um olhar serio e logo ela estava pousando ao meu lado. — Já vi que não esta de bom humor hoje.

— Não peça pra ficar de bom humor quando estou com fome — retirei o Jhonny das costas e entreguei a ela. — Não tem nada por perto, casas, carros... Vamos ter que caçar.

— Você quis dizer que eu vou ter que caçar — enfatizou ela, com um mínimo sorriso nos lábios. Eu começava a me arrepender por ter recusado quando o papai disse que me ensinaria a caçar.

— É, o que me diz?

— Vamos nessa. Estou morrendo de fome!

Atravessamos a estrada, nos direcionando a margem oposta, onde a floresta continuava. Seguimos pela trilha de vegetação densa e passei a seguir os passos de Ellie. Eu suspeitava de que conseguiríamos alguma coisa tão facilmente, mas não havia escolha. Tínhamos que tentar.

Ela se abaixou e analisou o chão de terra com atenção, provavelmente a procura de rastros de animais. Então levantou-se e voltou a seguir o mesmo caminho. Caminhamos a passos lentos, tentando não alarmar os animais, caso houvesse algum por perto. Ellie olhava as folhas e galhos nos arbustos, procurava marcas no chão e parava repentinamente tentando focar-se nos sons da floresta. Havia apenas o farfalhar das árvores, o soprar do vento e o canto dos passarinhos ao longe.

— Eu sei que isso leva tempo e paciência, mas...

— Estamos só começando — cortou ela. — Sim, vai demorar bastante até encontrarmos algum animal... Se tivermos sorte acharemos um esquilo correndo pelas árvores.

— Acho que um esquilo não vai matar minha fome — comentei.

Ela me encarou por alguns segundos como se quisesse dizer mais alguma coisa, mas virou-se e continuou o percurso. Mais passos lentos e paradas para olhar o chão. Agora eu entendia o motivo pelo qual eu recusara me juntar à caça.

Estava prestes a desistir e voltar à estrada quando avistei um movimento nas árvores, então duas aves de porte grande saíram correndo pelo tronco. Uma delas pulou e correu para longe enquanto a outra abriu as pequenas asas e levantou voo, porém não era alto o suficiente. Em um movimento rápido, Ellie apontou o rifle para a ave e disparou. O animal caiu morto e o estouro do tiro ecoou por toda a região.

— Eu... Consegui... — disse ela, como se não acreditasse. Nos entreolhamos sorrindo como bobas, então Ellie correu para a ave caída e a apanhou pela perna. — Acho que é um peru selvagem.

As penas escuras e a forma corpulenta do animal não deixavam dúvidas. Seria uma bela refeição.

— Bem, agora só precisamos achar um jeito de tirar as penas e assar... Droga, isso é mais difícil do que eu pensei.

— Vamos encontrar um jeito — incentivou Ellie, levantando a ave e carregando-a. — Certo, acho que essa é a parte em que juntamos madeira para o fogo.

— Madeira — repeti, olhando ao redor. Comecei a juntar alguns galhos mais grossos e largos e depositá-los e uma área plana. Quando já tínhamos o suficiente, organizamos tudo em uma pilha e formamos uma espécie de círculo em volta da futura fogueira, enquanto eu pensava em como acenderia o fogo.

Estava prestes a chegar a uma solução quando ouvi o barulho de galhos se partindo sobre o peso de pés. Levantei-me bruscamente.

— Olha só o que temos aqui — disse uma voz arrastada. Quando ergui o olhar, dois homens nos fitavam apontando as armas para nossas cabeças. Pareciam homens de meia-idade, as roupas sujas e rasgadas, a aparência de quem está na estrada há muito tempo. Mas tinham algo a mais, uma malícia no olhar, e aquilo me afligia.

Em um movimento rápido, Ellie virou-se apontando o rifle para os homens, mas era tarde demais.

— É melhor baixar isso se não quiser levar um tiro na testa — avisou o outro homem.

Ellie engoliu em seco e baixou a arma, levantando-se lentamente com as mãos erguidas.

— Muito bem — sorriu o homem. — Agora chute pra cá.

Com certa relutância ela o obedeceu e logo o Jhonny estava nas mãos do homem de voz arrastada. Aproximei-me de minha irmã, também com as mãos erguidas, postando-me ao seu lado.

— Não queremos confusão — comecei, tentando ao máximo não demonstrar medo em minha voz. O homem riu debochadamente.

— É uma pena, porque nós queremos — disse o segundo homem. — Não é mesmo Eddie?

— Não é sempre que se encontram duas princesas como essas perdidas na floresta — disse o tal Eddie.

Minhas mãos começavam a tremer. Eu sabia muito bem o que fariam com nós, e eu não podia deixar isso acontecer com Ellie. Morreria se fosse preciso, mas não deixaria que encostassem sequer um dedo em minha irmã.

— Vocês têm uma bela de uma ave ali, hein? — comentou Eddie. — Não podia estar melhor, o café da manhã servido e duas bonitinhas pra nos esquentar.

— Vai pro inferno — disse Ellie entre dentes.

— Pode ter certeza que eu vou, princesa — disse o outro homem aproximando-se com um brilho doentio nos olhos.

Eu tinha que agir rápido. Faria uma grande loucura, e se tivesse muita sorte, ela acabaria salvando nossas vidas. Mas eu não podia ter certeza de que Ellie estava preparada.

O tal Eddie aproximou-se de mim lentamente ainda com a arma em riste, e dei um paço para trás.

— Fique bem longe de mim!

Mas ele ergueu ainda mais a pistola.

— E você fique pa... — antes que ele pudesse continuar, movimentei meus braços o mais rápido que pude e bati em sua mão, desviando a arma de minha cabeça e funcionou, mas ele puxou o gatilho mesmo assim e ouvi o grito de Ellie ao meu lado. Sem ter tempo para ver o que havia acontecido, desferi um golpe com o joelho no homem a minha frente, e em seguida vi de relance o segundo apontar a arma para mim, mas Ellie pulou sobre suas costas, agarrando seu pescoço e ambos caíram contra o chão esperneando.

— Sua vadiazinha... — Eddie puxou meus cabelos arrancando um grito de minha garganta, então pisei em seu pé com toda a força que consegui reunir e desvencilhei-me afastando momentaneamente. Ele pulou contra mim e agarrou meu pescoço, sem pensar duas vezes minhas mãos dirigiram-se à sua garganta e começaram a apertá-la também, mas ele era mais forte.

Eddie me empurrou contra o tronco de uma árvore apertando meu pescoço com força. Senti o ar faltar em meus pulmões e a terrível sensação de estar sendo sufocada. Eu abria a boca e busca de ar, mas não conseguia mais do que gritos sufocados. Soltei sua garganta e segurei suas mãos tentando afastá-las de meu pescoço desesperadamente. Avistei dois errantes aproximando-se de nós e uma ideia me ocorreu. Minha visão começou a escurecer gradativamente e eu sentia o pouco ar restante esvaindo-se de meus pulmões, mas antes que apagasse desferi um chute em suas partes baixas. O aperto em minha garganta afrouxou e Eddie curvou-se como se houvesse levado um soco no estômago. Reuni minhas últimas forças e empurrei-o para os errantes que o agarraram mordendo-o e arrancando pedaços de sua carne. O sangue encharcou a grama e os gritos do homem ecoaram pela mata.

Cori para longe da cena, desorientada, puxando o ar com força pela boca e pelas narinas e esfregando o pescoço. Meus pensamentos direcionaram-se imediatamente a Ellie. Onde ela estava? Estaria morta? Teria sido baleada? Ignorei todas as perguntas e corri em direção à origem dos gritos abafados, avançando pelas árvores.

Minha irmã estava caída no chão, com o homem sobre ela segurando uma faca contra seu pescoço e empurrando-a com força para atingi-la, enquanto Ellie segurava suas mãos desesperadamente. A pistola do homem estava caída no chão há poucos centímetros de mim, então sem pensar duas vezes corri e apanhei a arma, erguendo-a e em seguida disparando contra a cabeça do homem. A bala perfurou seu crânio, e uma explosão de sangue banhou o rosto de Ellie que assistiu enquanto o cadáver tombava para o lado. Assustada, ela o empurrou para longe de si e sentou-se no chão, encarando-me com os olhos arregalados. Eu ainda apontava a pistola para algum ponto distante, não acreditando no que acabara de fazer. Eu havia matado um homem. Simplesmente puxara o gatilho e no segundo seguinte ele estava morto. E Ellie assistira a tudo.Ela me encarou boquiaberta por mais alguns segundos antes de suas feições contorcerem-se, e levar a mão até a lateral de seu tórax.

— Você está bem? — perguntei, baixando a arma.

— Eu... Fui atingida — explicou, com dificuldade.

Aproximei-me aflita e abaixei-me ao seu lado. Ela levantou a camiseta e pude ver o rasgo feito pela bala, e o sangue escorrendo livremente.

— Foi de raspão. Não é tão ruim — falei tentando convencer mais a mim mesma do que ela. Tirei minha jaqueta com as mãos trêmulas e envolvi-a ao redor do tórax de Ellie, amarrando-a.

— Isso deve diminuir o sangramento. Vem, temos que encontrar alguma coisa pra fechar o ferimento.

— Espera — ela engatinhou até o homem morto e puxou o rifle de seu ombro, então apoiou-se em mim e ajudei-a a se erguer.

— Droga, se eu não tivesse feito aquilo ele não teria te acertado — ralhei, enquanto a segurava.

— E nós estaríamos mortas agora — disse ela. Respirava pesadamente e eu podia ver a dor estampada em seu rosto. Tudo o que eu queria era protegê-la e acabei causando algo ainda pior. Mas pelo estávamos vivas.

Guardei a pistola na calça e começamos a nos direcionar para a estrada novamente. A preocupação era tudo que preenchia minha mente. Aqueles dois errantes não se conteriam com Eddie por muito tempo e logo viriam atrás de nós, e o som dos disparos atrairia mais deles... E talvez os homens não estivessem sozinhos. Poderiam ter um acampamento por perto, e logo viriam procura-los e nos encontrariam também. Tínhamos que andar rápido, mas Ellie não estava em condições, e não havia nada por perto que pudesse ajudar a estancar o sangramento ou fechar a ferida.

— Sam, estamos indo para o lado errado — disse ela, após alguns minutos de caminhada.

— Não estamos não — insisti, desejando estar certa, mas tendo em vista que o encontro com os dois homens havia me desorientado. — Vamos continuar por aqui.

Não desviei o caminho e Ellie não insistiu, parecia sentir dor demais para falar qualquer coisa.

Todo o meu corpo tremia, minha mente processava milhares de informações ao mesmo tempo, e o peso de Ellie em meus ombros não ajudava em nada. Ela mancava e a cada passo parecia que iria cair para frente, o que me forçava a mantê-la de pé. Pelo que pareceram horas caminhamos sem parar, e a floresta ficava cada vez mais densa. Ellie começou a ceder, e tombar para frente, e me braços doídos já não aguentavam segurá-la por muito tempo.

— Ellie, fique comigo — incentivei-a. — Estamos quase conseguindo, vamos lá...

— N-não... Eu não... — Ela caiu de súbito, então segurei-a para que não topasse contra o chão, e com esforço sentei-a à sombra de uma árvore, abaixando-me ao seu lado. Desamarrei a jaqueta e levantei sua camiseta para verificar a ferida, que estava cada vez pior. Havia muito sangue, era assustador, e eu não fazia ideia de como cuidar daquele tipo de ferimento.

Ellie estava encharcada de suor, respirava com dificuldade e seus olhos piscavam pesadamente.

— Ei, temos que continuar.

Ela negou com a cabeça.

— Ellie, eu sei que está doendo, mas não podemos ficar aqui — insisti.

Ela riu sem humor.

— Não tem nenhuma chance pra mim, tem? — perguntou.

— O quê? É claro que tem, eu vou te tirar dessa.

— Como?

Engoli em seco. Essa era a pergunta que me assolava há horas. Estávamos no meio do nada, perdidas na floresta, sem saber para qual lado seguir, sem água ou comida ou qualquer suprimento medico. Mas Ellie precisava de mim agora, e eu não podia demonstrar que estava com medo e desesperada. Tinha que manter tudo sob controle.

— Vamos dar um jeito — respondi. Mas não pareceu animá-la. — Eu sei o que o papai diria... Ele diria pra levantar essa bunda do chão e erguer a cabeça. Desistir não é uma opção.

Vi um pequeno sorriso formando-se em seus lábios e foi suficiente para que eu tivesse um pouco de esperança. Ellie ergueu-se para frente e eu a ajudei a passar o braço por cima dos meus ombros, e com dificuldade nos levantamos. Instantaneamente, os gemidos horripilantes de meia dúzia de errantes se aproximando preencheu a floresta. Olhei para trás rapidamente e os visualizei aproximando-se em seus passos lentos, as mãos erguidas, as mandíbulas estalando, famintos por nossa carne.

— Droga! — Puxei Ellie pela mata, andando o mais rápido que conseguia, mas à medida que avançávamos, mais deles nos cercavam. Era incrível como tudo estava dando errado naqueles dias, como se o universo estivesse se voltando contra nós.

Continuamos avançando pela mata, mas não importava o quão rápido nos locomovíamos, os mortos pareciam estar sempre um passo a frente.

Um resquício de alívio formou-se em minha mente quando avistei a estrada poucos metros à frente. Acelerei o passo, praticamente carregando Ellie, ela apenas deixava-se levar, sem forças para se manter de pé. Eu mesma estava prestes a me entregar quando meus pés atingiram o asfalto, e com um grande susto notei que um carro vinha disparado pela rua, e estava a centímetros de nos atingir. No último momento, arremessei-nos para a direita e o veículo virou bruscamente para o lado oposto, atropelando os errantes e parando logo em seguida. Eu não sabia se estávamos salvas ou ainda mais ferradas.

Equilibrei Ellie com as últimas forças que me restavam, e ela se manteve de pé, oscilando.

Um homem desceu do carro, seguido por um outro asiático de aparência mais jovem e uma mulher de cabelos curtos. Eliminaram os errantes caídos no chão, então o homem dirigiu-se a nós, enquanto o asiático parou ao seu lado com as mãos no bolso da blusa. Seu olho esquerdo estava completamente roxo e inchado, o que indicava que provavelmente havia levado uma bela surra.

O outro homem era alto, tinha os cabelos escuros penteados para trás, e os olhos claros e intimidadores nos fitavam. Uma mão repousava em sua cintura e a outra no revólver preso ao coldre. Estava limpo e aparentemente saudável, provavelmente tinha um acampamento ou um lugar fixo.

— Quem são vocês? — perguntou, após alguns minutos avaliando nossa situação.

— Acho que eu é que deveria perguntar — falei com dificuldade, tentando demonstrar alguma autoridade. — Vocês quase nos atropelaram.

— Caso contrário teriam sido mortas pelos walkers.

— E o que você quer? Um obrigado? — ralhei. Eu sabia que não estava em posição de fazer isso, mas eu tinha que mostrar que poderia me defender, afinal não conhecia aquelas pessoas e não sabia do que eram capazes.

— Sam... — chamou Ellie fracamente, mas a ignorei, não podia desviar a atenção daquelas pessoas.

A mulher de cabelos curtos aproximou-se. Também tinha aparência mais jovem e olhos verdes e chamativos.

— O que aconteceu com ela? — perguntou indicando Ellie, mas antes que eu pudesse responder, a porta traseira do carro abriu-se revelando uma mulher de pele chocolate, feições duras e longos dreadlocks, presos por um faixa no alto da cabeça.

— Michonne? — perguntei, incrédula.

Ela me olhou franzindo o cenho, mas logo pareceu me reconhecer, abriu a boca para dizer alguma coisa, mas naquele exato momento Ellie despencou para o chão e desta vez eu não consegui segurá-la. Minha irmã estatelou-se no asfalto, os olhos fechados e o sangue em seu tórax encharcando suas roupas.

— Ellie? Droga! Acorda! — Eu a sacudi. — Vamos... Por favor...

O desespero tomou-me por completo, eu não sabia dizer se estava viva ou se ficaria por muito tempo.

Notas finais
Comentem aí o que acharam! Ah, eu percebi que tinha errado na idade das irmãs, peço desculpas, já mudei lá no tumblr, a Ellie tem 13 na verdade e a Sam 17. Beijinhos e até o próximo.