Left Behind
7 Capítulo 7 - Gone
Notas iniciais
Capítulo 7 — Gone
E L L I E
“O único dom que me salva é a distração. Ela preserva minha sanidade.”
–A Menina que Roubava Livros
Organizar enlatados nas prateleiras não era minha atividade preferida, mas contando o fato de que aquelas pessoas nos davam abrigo e comida… Bem, era o mínimo que eu podia fazer em troca.
A tarde caía quando a Sra. Mckean, a responsável pelo controle das despensas em Woodbury pediu minha ajuda para organizar os alimentos. Ela falava incansavelmente sobre como seus netos a deixavam orgulhosa antes do mundo acabar, enquanto eu repetia o movimento de me abaixar, pegar dois enlatados e posicioná-los nas prateleiras diversas vezes.
Mesmo com o sol se pondo no horizonte, o clima estava quente e o cômodo, abafado. Desamarrei a bandana vermelha do pescoço para limpar o suor da testa, e em seguida devolvi-a ao lugar. Abaixei-me novamente, apanhei os enlatados e os coloquei junto aos demais. Para a minha sorte, haviam sido os últimos.
— Acabei — avisei a Sra. McKean, que olhou para as prateleiras um pouco frustrada, talvez pelo fato de que eu não seria mais sua ouvinte pelas horas do dia que ainda restavam.
— Oh, certo querida, muito obrigado… Talvez eu te chame para limpar as prateleiras qualquer dia desses — ela sorriu.
— É… Estarei à disposição — forcei um sorriso implorando mentalmente para que ela não se lembrasse disso mais tarde.
A porta da loja abriu-se, e Isaac adentrou o compartimento. Lançou-me um olhar rápido antes de dirigir-se à dona.
— Sra. McKean, minha mãe pediu para eu vir buscar ervilhas… Ela vai fazer um ensopado.
— Ah! Claro, claro, tome aqui — ela pegou um dos enlatados e entregou a Isaac. — Os ensopados da Melissa são os melhores! Não se esqueça de trazer um pouco para mim, se sobrar!
— Anotado — sorriu ele, já se retirando da loja. — Obrigado, Sra. McKean!
Ela acenou.
— Ahn… Eu também já vou indo — falei, aproveitando a oportunidade. Antes que ela pudesse protestar eu já estava do lado de fora da loja, acompanhando os passos de Isaac.
— O que? Vai querer ensopado também? — perguntou ele, ao notar minha presença.
— Sabe, eu nunca recuso comida… Mas vou ter que dizer não dessa vez — sorri. — Você por acaso viu a Sam em algum lugar? Ou meu pai?
— Achei que seu pai tinha saído em uma busca.
— Ele saiu, mas já faz tempo, achei que estaria de volta a essa altura… — Eu não podia negar que a preocupação me consumia. Não me sentia nada bem ao fato de que ele estava lá fora, tendo em vista o que ocorreu da última vez.
— Não se preocupe — disse Isaac descontraído, enquanto brincava com a lata de ervilhas jogando-a para cima. — Ele vai estar de volta logo.
— Sim, eu espero… E Sam, ela sumiu também, não é a primeira vez, mas…
— Sumiu? — repetiu ele, franzindo o cenho.
— Você sabe onde ela pode estar? — perguntei. — Tem passado mais tempo com ela ultimamente.
Ele balançou a cabeça e acelerou o passo.
— Eu não faço ideia de onde ela está. Talvez tenha se metido em alguma encrenca por aí.
— Não é típico dela — comentei.
— Ela também vai voltar logo — tranquilizou-me ele. — Sinto muito, eu tenho que ir pra casa — Ele indicou o enlatado nas mãos. — Nos vemos mais tarde?
— Claro — assenti, com um sorriso.
Ele seguiu pela calçada e eu permaneci parada, olhando para o horizonte. Decidi que o melhor a se fazer era voltar para casa também e esperar que ambos retornassem no fim do dia.
Girei sobre os calcanhares e comecei a me dirigir ao apartamento. Já não havia tanto movimento nas ruas, as pessoas começavam a se recolher à medida que a claridade no céu diminuía. As poucas árvores dispostas ao longo da rua balançavam levemente com a brisa quente do vento e alguns pássaros cantavam ao longe. O céu dourado, pincelado com manchas alaranjas e rosadas era uma das coisas mais belas para se admirar, e era estranho demais imaginar toda aquela calmaria da cidade, com aquela obra de arte erguendo-se sobre nossas cabeças, enquanto além do muro o mundo se acabava cada vez mais, afundava-se na morte e na desolação. Ao menos parecia ser a mesma realidade… Eu ainda não conseguia acreditar em quanta sorte tinha por estar protegida por aqueles muros.
Estava quase alcançando o prédio ao leste da cidade quando avistei um carro descendo a rua. Era comum ver os veículos rodando pela área, mas não há essa hora. Aguardei-o passar, para que eu pudesse atravessar a rua, mas o carro virou-se em minha direção e estacionou ao meu lado, bloqueando a passagem. Merle, que vinha no banco do passageiro lançou-me um olhar sério, e notei que carregava um revólver e o apontava diretamente para mim. A porta traseira abriu-se.
— Entre no carro — mandou ele.
Estática, procurei por algum sinal de vida pela rua, mas não havia mais ninguém. O indicador de Merle repousava no gatilho e ele parecia decido a puxá-lo caso eu não obedecesse.
— O que está acontecendo? — perguntei, tentando ganhar algum tempo. Mil pensamentos atravessavam minha mente, e eu tentava em desespero entender o que estava havendo, e se aquilo tinha algo a ver com o sumiço de Sam e do meu pai.
Merle riu com desdém.
— Apenas entre no carro garotinha, e prometo que não vai se ferir — suas feições endureceram.
Engoli em seco, e me ocorreu gritar por socorro, mas talvez antes que alguém pudesse aparecer ele já teria estourado meus miolos. Adentrei a parte traseira do veículo, fechando a porta.
— Por que está fazendo isso? — tentei novamente, com a voz trêmula.
— Cala essa boca — disse o homem sentado ao meu lado. Ele prendeu minhas mãos com um pedaço de corda, e eu nada pude fazer com Merle ainda mirando em minha testa.
— Relaxe agora — um sorriso malicioso formou-se em seus lábios. — Vamos dar um passeio.
Os vidros do carro fecharam-se, e em seguida o homem que amarrara minhas mãos ensacou minha cabeça com uma espécie de capuz, ocultando minha visão. Senti minha respiração pesando e meu coração palpitando cada vez mais acelerado. Eu repetia a mim mesma para que não entrasse em pânico à medida que o veículo movia-se pelas ruas. Eu só esperava que papai e Sam estivessem bem, e que viessem me procurar.
Tentei focar-me em respirar apenas, para esvaziar a mente das terríveis imagens que se formavam em dedução do que aconteceria comigo em seguida. Por que eles me sequestrariam? Milhares de teorias formavam-se em minha cabeça, mas nenhuma delas parecia plausível o bastante para explicar aquela situação. Tudo estava bem poucos minutos antes, eu não havia feito nada de errado, então o que diabos queriam comigo?
O veículo reduziu a velocidade e ouvi o ruído dos portões abrindo-se, então avançamos o que aumentou mais ainda meu desespero... Estávamos deixando Woodbury. Após algumas curvas e vários metros percorridos, o carro enfim parou. Ouvi as portas abrirem-se e os passos do lado de fora, e em seguida fui puxada bruscamente pelo braço. Meus pés repousaram no chão e fui levada até algum ponto distante, pisando em falso. As mãos que me seguravam soltaram-me, e me fizeram ajoelhar no gramado, então o capuz foi retirado de minha cabeça.
A pouca claridade que ainda restava do dia cegou meus olhos, e levei alguns instantes para adaptar-me novamente. Quando olhei para frente, encontrei meu pai também ajoelhado, a cabeça baixa, mãos atadas.
— Ellie! — ouvi a voz de Sam, e quando virei-me, ela me olhava com desespero, igualmente aprisionada. Eu nunca a havia visto tão assustada antes.
— O que está acontecendo? — repeti. Estava totalmente confusa e o medo começava a me consumir por dentro.
— Você a trouxe para a festa também — o Governador aproximou-se sorrindo. Ele esfregava o punho e parecia ofegante.
Meu pai ergueu o olhar para mim e assustei-me ainda mais quando vi sua situação. O sangue lhe escorria pelo queixo manchando sua barba, a lateral de seu rosto estava inchada, e o olho esquerdo afundava-se em uma enorme mancha roxa. Fui tomada pelo ódio quando me dei conta de que o Governador havia feito isso a ele.
Ele pareceu admirar-se quando estreitei os olhos em sua direção.
— Seu pai devia ter te ensinado — começou. — Não deviam bagunçar as coisas dos outros.
Então, de chofre, virou-se e desferiu outro soco, dessa vez no estômago do papai. Ele se curvou, tossindo e gemendo. O Governador abaixou-se ao lado dele, com tranquilidade.
— Jaime… No momento em que te vi eu soube que tipo de pessoa era. O tipo de herói, que daria a própria vida até mesmo a uma causa perdida. — Meu pai continuou de cabeça baixa, parecia prestes a desabar a qualquer momento.
O Governador levantou-se e olhou para Sam e para mim, com indignação.
— Soltem essas garotas! Que falta de cortesia.
Merle, de mau gosto, aproximou-se e cortou as cordas que prendiam minhas mãos. Assim que me vi livre, tentei correr para o meu pai, mas ele agarrou meu braço com força, me impedindo. Notei que dois homens seguravam Sam do outro lado, que esperneava tentando soltar-se.
O Governador aproximou-se dela e acariciou seu rosto.
— Não há motivo pra tanto alvoroço — disse ele, em tom baixo.
— Vai pro inferno — murmurou ela entre dentes, fuzilando-o com o olhar.
O sorriso do Governador desapareceu e ele puxou a arma, encostando-a contra a testa de Sam. Ofeguei, tentando soltar-me desesperadamente.
Do outro lado, meu pai tentava erguer-se com dificuldade. Apoiou um dos pés no chão e forçou-se a ficar de pé.
— O q-que a… P-penny diria… — falou com dificuldade.
A expressão do Governador tornou-se sombria de uma forma que eu nunca havia visto antes. Não fazia ideia de quem era Penny, mas era visível o quanto ela fora importante para ele… Meu pai havia tocado em sua ferida mais profunda, e isso não era nada bom.
Ele baixou a arma lentamente, fitando Sam que retribuía seu olhar sem vacilar. Por alguns segundos eu cheguei a pensar que ele não faria nada, que havia acabado ali. Talvez ele tivesse dado ouvidos ao papai, e não continuaria com aquela loucura… Mas estes poucos segundos passaram-se tão rápidos como o movimento brusco do Governador ao apontar a pistola para o peito do papai e disparar duas vezes.

O estouro dos tiros ecoou pelo vazio daquela tarde. Minhas pernas tremeram e meus joelhos cederam, enquanto minha garganta explodia em um grito. Meu pai tombou para o lado, o olhar paralisado, e seu corpo bateu com um estrépito contra o chão. Puxei meu braço com força e desvencilhei-me de Merle, correndo diretamente para meu pai. O sangue encharcava sua camisa, e ele respirava com dificuldade.
— Pai… — minha voz estava rouca e fraca, e as lágrimas lavavam meu rosto, dificultando minha visão.
Posicionei as mãos trêmulas sobre os buracos de bala, tentando conter o sangramento, mas era inútil.
— Ellie… — disse ele com dificuldade, segurando minha mão. Eu apenas soluçava, desmanchando-me em lágrimas. — N-não tenha… m-medo…
Antes que ele pudesse terminar a frase o ar esvaiu-se de seus pulmões, o leve aperto de suas mãos nas minhas afrouxou e seus olhos fixaram-se em um ponto distante.
— Pai? — chamei. Sacudi seu ombro, em desespero. — Pai! Por favor…
A dor em meu peito era maior do que qualquer outro sentimento, como se alguém houvesse apunhalado meu coração. Eu me negava a aceitar que ele estava morto… Que estava morto e tudo acontecera diante dos meus olhos, e eu não pudera fazer nada.
— Já chega — interrompeu o Governador. — Vamos acabar logo com isso.
Os dois homens forçaram Sam a se ajoelhar novamente, e ela o fez sem relutância. Eu nunca a havia visto naquele estado… Parecia estar presa em algum tipo de choque emocional. Os olhos vidrados com espanto no corpo do papai, sem qualquer reação.
— Sinto muito, garotas. Mas vocês não podem viver depois disso.
O Governador apontou a arma novamente para sua cabeça, mas foi interrompido por um de seus homens, que aproximou-se com o rádio comunicador nas mãos e disse algo a ele que não entendi. Ele suspirou frustrado e baixou a arma.
— Levem-nas de volta — ordenou aos homens. — Terminaremos mais tarde.
Os dois homens puxaram Sam, que deixou-se levar em direção ao veículo.
Virei-me novamente para o meu pai, estirado no chão sobre a poça de sangue. Agarrei-me a ele quando Merle tentou me levar de volta.
— Não! — resisti, aos prantos. — Não!
— Pare de lutar, garota! — vociferou ele.
Senti minhas forças esvaindo-se, então ele me arrastou para longe do corpo.
— Não podem deixar ele aí! Por favor… — Eu soluçava enquanto ele me levava para o carro. — Por favor… Não podem deixá-lo...
Merle me empurrou para o banco traseiro e bateu a porta em seguida. Segundos antes de o capuz cobrir meus olhos novamente pude ver o Governador aproximando-se do corpo inerte de meu pai, e apontando a pistola para sua cabeça. Ouvi o estouro do tiro com pesar quando o saco de pano ocultou minha visão.
O veículo começou a se mover, mas eu já não me importava mais com o que aconteceria em seguida. Encostei-me no banco e deixei-me relaxar. As lágrimas quentes ainda rolavam por minhas bochechas e a dor apertava meu peito, causando-me uma angústia sem fim. Meu pai estava morto. Morto. Aquela era uma definição que eu nunca imaginei que se encaixaria a Jaime Hill algum dia. Em questão de segundos ele olhava para mim, segurava minha mão, tentava me dizer algo… “Não tenha medo”... E então, ele partiu, sem ao menos terminar. Eu ao menos sabia a real razão pela qual tudo havia acontecido, e também não queria entender. Tudo o que queria era o Governador morto. Queria vê-lo estirado no chão, sangrando no lugar do papai, queria pegar aquele revólver e disparar até a última bala em seu peito.
Quando o veículo enfim estacionou, senti alguém me puxando para fora do carro e em seguida o capuz foi retirado de minha cabeça e fui empurrada para dentro de um quarto vazio, assim como Sam. A porta fechou-se com força, e os homens a trancaram antes de ir.
Não havia janelas no cômodo, apenas as paredes de cimento, o teto baixo e a porta de ferro. Seria esse o nosso fim? Esperar, presas e sufocadas em um porão, aguardando ser executadas?
Sam encostara as costas contra a parede, e fitava o chão com uma expressão indecifrável. Não derramara sequer uma lágrima. Não soltara sequer uma palavra.
O ódio, o rancor e a tristeza fundiam-se em meu peito. Apertei a mão, fechando-a em um punho, tentando conter a raiva.
— Eu vou matar ele — falei, entre dentes.
Sam ergueu o olhar para mim e balançou a cabeça.
— Matar ele? — repetiu. Havia um desgosto iminente em sua voz. — Não. Pessoas como ele merecem viver neste mundo podre. Ele tem que viver — continuou. Ela falava mais para si mesma do que para mim. — Tem que assistir a todos que ele ama serem destroçados. E no fim, ele tem que gritar… — Sam começou a rir de uma maneira insana. — Sim… Eu quero ouvir ele gritar… Quero vê-lo agonizar até implorar pela morte.
Era como se ela estive imaginando tudo o que dizia em sua mente, e ao mesmo tempo ria com prazer. Fechou os olhos e suspirou.
— Eu quero ouvir ele gritar… — repetiu, com um sorriso sádico esboçando-se em seus lábios.
Ouvi-la falar daquela forma começava a me assustar. Quando achei que a situação não podia piorar, Sam passou a rir e chorar ao mesmo tempo. Ela repetia a mesma frase enquanto as lágrimas encharcavam seu rosto e o riso insistia em não abandonar seus lábios. Deitou-se no chão cimentado, com as mãos sobre o rosto e os soluços ecoando alto pelo quarto, até que não ria mais, apenas chorava de maneira sofrida e lamentava.
— ELE SE FOI! — berrou ela, para si mesma. — Ele se foi…
Temi que minha irmã estivesse ficando louca. Mas talvez fosse essa a solução… A loucura podia ser uma mão amiga nas horas de sofrimento. Pelo menos funcionava bem para Sam.
Encostei-me contra a parede, enquanto a ouvia chorar. Minha mente parecia finalmente ter aceitado. Ele se fora.
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