Left Behind

15 Capítulo 15 - Stand By Me (Parte 2)


Notas iniciais
Heey lindões e lindonas, tudo baum com vocês? Eu sei que eu prometi postar esse capítulo na semana passada mas eu só consegui encostar no meu computador hoje, sorry. Não vou enrolar muito vocês, espero que gostem do capítulo! Enjoy ♥

Capítulo 15 — Stand By Me (Parte 2)

E L L I E

Minha boca abriu-se involuntariamente e tive que arregalar os olhos para acreditar no que estava vendo. Os cabelos rebeldes cor de areia e olhos grandes… Como não o reconhecera antes?

— Isaac… — sorri, não contendo a animação de encontrá-lo novamente. — Eu achei que você estava…

— Será que dá pra deixar isso pra depois? — ralhou uma voz feminina — Não temos tempo pra isso!

Isaac virou-se e assumiu um semblante preocupado. Notei que uma das mulheres amparava um homem caído ao chão e as outras ajoelhavam-se ao lado. Reconheci o homem como o tio de Isaac e a mulher era sua mãe, porém as outras eram desconhecidas. O braço do homem parecia gravemente ferido e o sangue manchava suas roupas. Com pesar, percebi que se tratava de uma mordida.

Isaac correu para o lado do tio e segurou seu braço.

— O que vamos fazer? — perguntou, olhando aflito para a mãe.

Carl e eu nos entreolhamos, talvez tendo a mesma ideia em mente.

— Talvez possamos ajudar — informei, chamando atenção do grupo.

— Como? — perguntou a mãe de Isaac, em desespero.

— Conhecemos alguém que foi mordido e teve a perna amputada — contou Carl.

— Amputada? — repetiu o homem fracamente.

A mulher ergueu os olhos.

— Você tem certeza de que vai funcionar?

— Mãe, não temos outra escolha — disse Isaac. — Eu vou procurar algo para cortar.

Ele levantou-se apressado e sumiu em um dos cômodos.

Aproximei-me do grupo e ajoelhei-me ao lado da mulher e retirei a mochila das costas. Suas mãos tremiam violentamente enquanto tentava estancar o sangue que escorria pelo braço do irmão.

— É Melissa, certo? — perguntei com a voz calma. Ela afirmou com a cabeça. — Eu tenho certeza de que vai dar certo. Hershel é o nosso amigo que perdeu a perna. Ele está bem e saudável, como se nada tivesse acontecido.

Ela balançou a cabeça, deixando uma lágrima escorrer pelo rosto sujo. Notei que Isaac tinha muitas das feições da mãe.

— Nós vamos precisar de lençóis, certo? Algo para estancar o sangue? — perguntou a garota que eu havia salvado mais cedo. Parecia ter a mesma idade de Isaac. — Eu vou checar os quartos.

A outra mulher segurou o ombro de Melissa, tentando tranquilizá-la. Logo Isaac retornou com um serrote pequeno e a garota carregando um lençol e um travesseiro, onde apoiou a cabeça do homem.

— De onde você tirou isso? — perguntou Melissa com espanto quando o garoto se aproximou com a lâmina.

— De uma caixa de ferramentas no porão…

— Ah, meu Deus — a mulher irrompeu em lágrimas, assustada demais com a ideia. Sua pele parecia mais pálida do que antes.

Isaac abaixou-se ao seu lado e entregou a ferramenta à mulher. Estava prestes a dizer algo quando o sofá que bloqueava a porta afastou-se com o peso dos errantes que a empurravam. Imediatamente ele correu para a entrada, assim como a outra mulher ao lado de Melissa.

— Alguém precisa segurá-lo — falei, impedindo Carl de se levantar para ajudar. A garota também ficou onde estava.

— Mãe, você vai ter que fazer! — gritou Isaac com dificuldade devido ao esforço para segurar a porta.

— Não — Melissa balançou a cabeça. — Não, não, não, eu não consigo…

— Mãe, você precisa, não temos escolha!

— Eu não posso! — repetiu ela, aflita.

Não conseguia imaginar o que ela sentiria ao cortar o braço do próprio irmão… Desesperada como estava ela nunca conseguiria. Suspirei pesadamente, já me arrependendo do que diria.

— Eu faço — anunciei. Melissa pareceu ainda mais espantada, porém me entregou o serrote com as mãos trêmulas.

Prendi os cabelos para trás e ergui as mangas da blusa.

— Ellie, você tem certeza? — perguntou Carl, preocupado.

Balancei a cabeça.

— Eu consigo — falei, tentando convencer a mim mesma. — Só… Fique do meu lado.

Ele afirmou com a cabeça e lançou-me um olhar encorajador.

Lembrei-me de todas as vezes que eu havia visitado minha mãe no hospital e a observara cuidar de pacientes em estados mais graves que aquele. E de quando Sam e eu assistíamos às gravações de suas cirurgias, tendo as mais hilárias reações nas partes nojentas. Naquele momento, eu não acreditava que poderia ter qualquer reação do tipo. Senti-me responsável pela vida daquele homem e de repente não ficou tão difícil entender a devoção de minha mãe ao seu trabalho…

— Certo preciso que o segurem.

Melissa depositou ambas as mãos em seus ombros enquanto Carl e a outra garota seguravam suas pernas. Ele estava pálido, com os olhos entreabertos, mas estava acordado.

— Isso vai doer pra caralho — informei.

— Apenas faça garota — murmurou fracamente.

Segurei seu braço direito e posicionei o serrote há poucos centímetros acima da mordida. Tentei controlar a tremedeira em minhas mãos, o que parecia quase impossível. Eu estava prestes a fazer a coisa mais assustadora da minha vida.

Sem mais demora forcei a lâmina contra a pele e comecei a serrá-la em um movimento de vai e vem. O homem gritou e contorceu-se, porém depositei todas as forças em segurá-lo com uma das mãos e serrar com a outra. Ele se remexia violentamente e seus urros de dor era o que mais me assustava.

— Droga, segurem firme! — ralhei, quando ele quase se soltou de minhas mãos.

O sangue manchava tudo à minha frente, dificultando uma visão direta do que estava fazendo, porém continuei o trabalho sentindo a carne rasgar-se diante da lâmina, rompendo nervos e vasos e fazendo o líquido vermelho escuro eclodir como um rio de sangue, encharcando minhas roupas e a tapeçaria. Senti os respingos quentes em meu rosto, contudo nada fez com que eu parasse. De repente a superfície de seu braço tornou-se dura e percebi que havia chegado no osso. Continuei repetindo os movimentos rapidamente, aplicando ainda mais força. Eu ouvia os gritos horrorizados do homem e os gemidos dos mortos do lado de fora estourando em minha mente como vários disparos.

Isaac por fim conseguiu lidar com os errantes na porta, bloqueando-a com uma estante pesada. Quando pareceu seguro se afastar ele ajoelhou-se ao meu lado e ajudou-me a segurar o braço do tio.

A lâmina por fim tornou a alcançar o tecido muscular e em pouco tempo já não havia mais nada ligando as duas partes do braço. Larguei o serrote e agarrei os lençóis brancos, enrolando-o apressadamente em volta do que restara do membro. A essa altura o tio de Isaac já havia perdido a consciência, o que facilitou o trabalho.

Com uma faca cortei uma tira do lençol e a amarrei firmemente em volta do braço, apertando o nó com todas as forças que consegui reunir. O fluxo de sangue diminui consideravelmente, porém não parou de manchar o lençol. Por fim apoiei as mãos nos joelhos dobrados e respirei profundamente. Tudo ao alcance de meus olhos estava mergulhado em sangue e minhas mãos ainda insistiam em tremer descontroladamente.

— Você está bem? — perguntou Isaac.

— Nunca estive melhor — menti, forçando um sorriso.

Ele voltou o olhar para o tio com o coto enrolado desajeitadamente no lençol e respirou com dificuldade. Puxou um objeto branco do bolso da calça e o levou à boca. Notei que se tratava de sua bombinha de ar.

— Você conseguiu — disse Melissa fracamente. Parecia presa em um tipo de estado de choque. — Obrigada…

Balancei a cabeça, embora não me sentisse satisfeita com o trabalho. Eu sabia que o tio de Isaac perdera muito sangue e se não o levássemos para a prisão rapidamente para receber os cuidados de Herhsel, ele não sobreviveria.

— Bem, acho que agora é uma boa hora para nos dizer quem são — sugeriu a outra mulher, levando as mãos à cintura, aparentemente cansada pelo esforço.

— Eu sou Ellie, e este é o Carl — respondi.

— Nos conhecemos em Woodbury — esclareceu Isaac.

— Oh — aquilo pareceu sensibiliza-la. — Nesse caso acho que já conhecem John e Melissa… Eu sou Joyce e esta é minha filha, Barbara — ela indicou a garota de cabelos escuros.

— Obrigada por me salvar, mais cedo — comentou Barbara, sem jeito. Forcei um meio sorriso em resposta.

— Vocês estão sozinhos?

Busquei o olhar de Carl. Não sabia se ele se sentia confortável para contar sobre a prisão.

— Não, temos um grupo grande. Mas acabamos nos perdendo deles… — explicou. — Vamos encontrá-los assim que conseguirmos sair daqui.

A mulher assentiu, olhando para trás.

— Acho que deveríamos fazer silêncio agora — ela indicou a porta, onde os mortos ainda lutavam para entrar, sem sucesso. — Uma hora eles têm de ir embora.

— Certo… Eu vou procurar algo para me limpar — informei, levantando-me.

Segui para o andar superior e Carl me acompanhou em silêncio. Ao chegar no piso de cima abri a primeira porta à esquerda, encontrando um banheiro, então abri a segunda e encontrei o que queria. Segui para os fundos do quarto e abri a janela, colocando a cabeça para fora.

— Você acha que Michonne conseguiu? — perguntei, observando um grande grupo de errantes vagando pela rua, sem destino, enquanto outros se aglomeravam em nossa porta. — Ainda não acredito que deixamos ela para trás.

— Ela conseguiu — disse ele, quando voltei para dentro. — Michonne sabe se cuidar melhor que ninguém. Ela vai nos encontrar.

— É, bem, eu acho que só nos resta esperar por ela e seu pai. Não acho que vamos conseguir sair daqui com todos aqueles errantes lá fora.

Ele balançou a cabeça.

— Eu vou ficar aqui de vigia, caso alguém apareça — informou.

Assenti e deixei o quarto, voltando ao banheiro. Puxei a toalha de rosto pendurada ao lado da pia e comecei a esfregá-la nos braços, porém não tive muito sucesso. Ouvi passos nos degraus e aproximando-se do banheiro e logo Isaac parou diante da porta aberta; trazia uma garrafa com água nas mãos e um semblante um pouco mais tranquilo que anteriormente.

— Ei, acho que vai precisar disso — ele me estendeu a garrafa.

— Obrigada — aceita-a e girei a tampa, derramando o mínimo possível na toalha. Em seguida fechei o recipiente e o apoiei sobre a pia. Ergui o olhar para Isaac enquanto me ocupava em limpar o sangue dos braços. — Acho que temos muito o que conversar, não é?

— Com certeza — assentiu ele cruzando os braços e apoiando-se no batente da porta. Ele franziu o cenho assumindo uma expressão preocupada de repente. — Sam não está com você? Eu quero dizer, ela está…

— Viva — completei, percebendo o alívio em seu rosto. — Depois que fugimos de Woodbury encontramos essas pessoas que nos acolheram.

— Então vocês tem um acampamento?

— Na verdade, temos uma prisão — expliquei.

— Prisão? — repetiu ele. — Espera não é a mesma prisão que… — ele parou, parecendo refletir por alguns segundos. Eu apenas comprimi os lábios, sabendo que ele estivera presente no dia em que o Governador atacara o lugar. — Ah, droga… Então vocês estavam lá, atirando em todo mundo?

Acabei rindo com sua reação.

— Sam estava. Eu tive que ficar escondida — contei. — Mas depois que todos fugiram ela foi para Woodbury com um grupo e no caminho acabaram encontrando os caminhões, mas todos estavam mortos. Ela me disse que não encontrou você.

— É, bem, nós conseguimos fugir antes de todos baterem em retirada e… Espera, o que você quer dizer com todos estavam mortos?

Ergui as sobrancelhas.

— O Governador… Ele atirou em todo mundo. Matou o próprio pessoal e depois foi embora. Karen foi a única sobrevivente.

Ele parecia perplexo.

— Eu sabia que tinha algo errado com aquele cara, mas eu não imaginava que fosse tão grave — comentou, esfregando a parte de trás da cabeça. — Eu só estou aliviado de termos conseguido fugir antes… Minha mãe achava que eu estava errado sobre ele até que contei o que ele tinha feito com… — Ele parou a frase e desviou o olhar, não precisando completar. — Bem, eu consegui convencê-la e nós fugimos logo depois do tiroteio na prisão.

Lancei-lhe um meio sorriso.

— Que loucura… Mal dá pra acreditar que saímos todos vivos dessa — ele riu. — Sam vai ficar feliz em te ver.

Terminar de limpar-me e deixei a toalha suja sobre a pia, deixando o banheiro e seguindo para as escadas, pensando em abrir um dos enlatados em minha mochila; estava começando a ficar faminta. Isaac seguiu-me pelos degraus.

— Me ver? — repetiu ele, como se parecesse impossível. — Eu não acho que vamos seguir o mesmo caminho.

— O que quer dizer com isso? — parei subitamente, franzindo o cenho e virando-me para ele. Isaac balançou a cabeça, com desânimo.

— Ellie, eu ajudei o Governador a atacar a prisão, o lar daquelas pessoas…

— Não ouse se culpar por isso.

— Não é culpa, é só… Eu não acho que seja uma boa ideia.

— Isaac, eles nos acolheram. Acolheram Sasha e Tyreese que também estavam com o Governador — contei. — E todas aquelas pessoas que haviam ficado na cidade, escondidas, estão na prisão agora. São boas pessoas, eles vão aceitá-los, não importa o que tenham feito. — Fiz uma pausa e ele abriu a boca para falar, porém cortei-o, continuando. — E além do mais, você salvou nossas vidas. Se não fosse por você, Sam e eu ainda estaríamos apodrecendo naquele porão. Você vem conosco quando voltarmos para lá.

Ele baixou a cabeça e suspirou pesadamente.

— Tudo bem — falou por fim. — Mas ainda não acho que seja uma boa ideia.

Virei-me novamente e voltei a descer os degraus, alcançando o piso térreo.

— Não importa. Você não está em posição de escolher — brinquei, tirando um meio sorriso de seus lábios.

Ele se dirigiu à mãe que acompanhava Joyce e Barbara enquanto ascendiam algumas velas. A casa realmente começara a ficar mais escura. Espiei brevemente pela pequena fresta deixada entre a cortina e a janela e notei que a pouca luz do dia se esvaíra, levando as densas nuvens consigo e dando espaço para as estrelas. Os mortos do lado de fora já não empurravam mais a porta, porém ainda vagavam ao redor da casa. Imaginei que Michonne não nos encontraria tão cedo e na pior das hipóteses teríamos que passar a noite ali.

Procurei minha mochila e encontrei-a sobre a tapeçaria manchada. Peguei-a pela alça, notando que John havia sido transferido para um sofá vago e parecia ter recobrado a consciência. Moveu levemente a cabeça e minha direção e estreitou os olhos cansados. Imaginei que diria alguma coisa, como me amaldiçoar por ter arrancado fora metade de seu braço, porém apenas ergueu o polegar da mão que lhe restava. Repeti o gesto, com um sorriso triste e afastei-me lentamente, voltando ao degraus e deixando o grupo a sós.

Enquanto subia, pendurei a mochila em um ombro e a abri, retirando um dos poucos enlatados que havia conseguido na busca. Parei por alguns segundos apenas para abri-lo com a faca e certa dificuldade e voltei a subir as escadas.

Dirigi-me ao quarto onde deixara Carl, porém não o encontrei. A janela permanecia aberta e o vento frio fazia as cortinas dançarem.

— Carl? — chamei, olhando para o corredor vazio através da porta entreaberta.

— Aqui — sua voz não estava tão distante. Virei-me na direção de onde vinha e caminhei até a janela, inclinando-me para fora. Ele estava sentado no telhado que cobria o andar inferior. Franzi o cenho e deixei a mochila de lado, levando apenas o enlatado aberto quando me esgueirei para fora.

Desci cautelosamente pelas telhas, que para a minha sorte não eram íngremes demais, e sentei-me ao seu lado.

— Viu alguma coisa? — perguntei, olhando para o céu noturno.

— Nada — respondeu, desanimado. Voltou a atenção para a lata em minhas mãos, estreitando os olhos. — Ervilhas?

— É… Eu ficaria mais contente se fossem feijões, mas tudo bem — dei de ombros, oferecendo as ervilhas. Carl juntou uma porção com os dedos e levou a boca. Imitei-o, sentindo o gosto pouco saboroso dos grãos.

Comemos em silêncio, apenas observando a escuridão do céu e a diversidade de estrelas preenchendo-o. Por alguns poucos segundos senti-me grata por tudo estar tão abandonado. Quando o mundo ainda era o mundo, era impossível enxergar tantas estrelas e constelações. As luzes da cidade impediam aquela vista maravilhosa.

Quando a lata por fim se esvaziou, Carl deixou-a de lado sobre uma das telhas.

— Ei, achei que tinha dito que ia se limpar — disse ele. Ergui uma sobrancelha e olhei para as próprias mãos. Ele riu. — Estou falando do seu rosto. Está todo respingado.

Esfreguei os dedos na bochecha e percebi que ele falava a verdade quando voltaram manchados. Tentei desajeitadamente livrar-me dos respingos.

— Melhor? — perguntei depois de esfregar uma boa parte do rosto. Carl comprimiu os lábios para segurar o riso.

— Agora está todo manchado.

Suspirei frustrada.

— Vou procurar um espelho...

— Espera, eu te ajudo — riu ele, virando-se para mim. Ele puxou a manga do casaco, cobrindo a mão e ergueu-a, tocando minha pele. Com leveza ele limpou as manchas restantes e parecia concentrado no que fazia, porém tudo em que eu conseguia prestar atenção era em seus olhos cruelmente azuis que estavam um pouco perto demais. Quando terminou ele baixou a mão lentamente e só então pareceu perceber o quão próximo estava. Ele não se moveu, continuou olhando-me como se estivesse em transe. Eu podia sentir sua respiração fazendo cócegas sutis em minha pele e isso fez com que minhas bochechas queimassem e uma sensação estranha brincar em meu estômago — e eu ao menos sabia o motivo para aquela reação. Ergui uma sobrancelha e encontrei seus olhos novamente, sentindo o ar gélido cortando minha pela, porém o frio, os errantes vagando na rua logo abaixo de nós ou qualquer outra coisa parecia ter importância naquele momento.

Carl por fim ergueu a mão novamente e senti o tecido de sua blusa deslizando em meu queixo.

— Tinha esquecido dessa... — ele engoliu em seco e desviou o olhar.

Pisquei algumas vezes tentando entender o que havia acontecido ali, porém decidi que era melhor continuar não sabendo. Virei-me para o céu novamente e cruzei os braços sobre os joelhos, sem saber o que dizer. Ficamos em silêncio por alguns minutos — que pareceram horas — apenas com meus pensamentos fervendo em meu cérebro. Balancei a cabeça, decidindo ignorar tudo aquilo.

Ahn — comecei, sem jeito. — Eu acho que vamos ter que passar a noite aqui…

— Sim — concordou ele, apressadamente. — Não seria uma boa ideia tentar sair para procurá-los agora.

— Com certeza — assenti. — Se quiser entrar, eu vou ficar por aqui vigiando…

— Não vou deixar você sozinha… — começou ele, porém pigarreou — Quero dizer, eu também quero ficar, caso algo aconteça…

— Certo — falei, por fim.

Encolhi-me em meu moletom e abracei os joelhos, sentindo meu corpo tremer levemente. De repente a presença de Carl fazia com que eu me sentisse estranha, talvez… Envergonhada? Decidi que não gostava daquela sensação e queria que ela acabasse o mais rápido possível, pois eu teria que passar uma noite toda ao lado do garoto e não gostaria nem um pouco de passá-la no total silêncio. Contudo, foi exatamente o que aconteceu… Pelo menos até que me cansei de esperar que ele começasse algum assunto aleatório, como sempre.

Estiquei as pernas e deitei-me sobre as telhas, sentindo-me instável e desconfortável, porém minhas costas já não aguentavam ficar curvadas. Por fim apoiei a cabeça nos braços dobrados e encarei o céu.

— Agora é sua vez — falei. Ele se virou, confuso e eu apenas continuei fitando as estrelas. — Me fale sobre a Lori.

Desviei o olhar para ele notando um tom surpreso em suas feições.

—Tudo bem, acho que é justo… — comentou, lembrando-se de nossa conversa mais cedo, quando lhe contei sobre minha mãe. — Todos dizem que Judith se parece muito com ela — ele olhou vagamente para o horizonte. — Ela era… Uma boa mãe. Eu só não sabia disso enquanto ela era viva.

Engoli em seco, pensando em todas as vezes que eu guardara magoas de minha mãe, e de tosas as brigas tivemos, que mesmo que poucas, foram marcantes. Gostaria de poder consertar aquilo, mas já era tarde demais.

— Como ela morreu? — Dosei o tom de voz, tentando não ser tão indelicada, porém ele parecia já esperar por aquela pergunta, apesar de demorar alguns instantes para responder.

— Quando Judith nasceu ela teve algumas complicações — explicou. — Maggie teve que… — ele parou, parecendo incapaz de continuar.

— Tudo bem, eu entendi… — falei. Eu sabia o quão doloroso era reviver lembranças como aquela e acabei por me arrepender de ter perguntado. — Desculpe, eu não devia ter falado sobre isso.

Ele balançou a cabeça.

— Eu queria falar sobre ela — revelou. — É uma coisa que não faço há muito tempo. Eu só não queria que fosse tão difícil… lembrar...

— Acho que entendo como se sente — comentei. — Mas lembrar é a parte fácil. Esquecer é que é difícil.

— Não é algo que dá para esquecer — disse ele. — Eu não quero esquecer o que aconteceu com minha mãe.

— Eu também não, mas ao mesmo tempo não quero lembrar — liberei o ar com força pelas narinas.

— Isso não faz o menor sentido — ele riu sem humor.

— Talvez um dia faça… — continuei. — Talvez um dia tudo o que aconteceu com o mundo e com as pessoas faça algum sentido.

Carl franziu o cenho, pedindo silenciosamente uma explicação.

— Meu pai sempre dizia que tudo acontece por uma razão — continuei. — E no fim das contas ele poder estar certo…

— Você acredita mesmo nisso?

Demorei a responder e passei alguns momentos encarando o véu negro acima de nós, coberto por pontos brilhantes e infinitos… Se eu acreditava? Era difícil negar uma sentença como aquela quando eu estava diante daquela imensidão de incertezas que era o céu. O universo, o mundo, as pessoas… Nada existia ou acontecia por acaso.

— Eu tenho que acreditar.

Carl optou por permanecer em silêncio e eu o acompanhei, não dizendo mais nada. Comecei a refletir sobre a conversa, mas logo senti-me consumida o suficiente por todas aquelas lembranças e passei a fitar o céu novamente. Para não ficar entediada, passei a contar as estrelas. Minhas pálpebras começaram a pesar e uma leve ardência tomou conta de meus olhos. Fechei-os após perceber que já havia contado a mesma estrela repetidas vezes e deixei-me levar pelo cansaço, adormecendo.

A noite fora conturbada e fria, porém nada fez com que eu acordasse. Somente voltei a abrir os olhos quando as primeiras luzes da manhã tomavam o horizonte. Cada centímetro de meu corpo doía e tremia. Levantei-me desajeitadamente esfregando os olhos e sentindo a lateral de meu rosto marcada. Estreitei os olhos para Carl ao meu lado; estava deitado sobre as telhas frias e dormia profundamente. Desviei o olhar para a rua abaixo de nós, não querendo acordá-lo. Notei que já não havia mais errantes em nossa porta, eles haviam se espalhado pelo bairro, e apenas meia duzia vagava pela rua estreita.

Estava pensando em ir até a sala verificar Isaac e seu grupo quando a movimentação ao longe me chamou a atenção. Estreitei os olhos e ergui o pescoço e só então percebi que se tratava de três pessoas avançando pela rua e eliminando os errantes mais próximos.

Estendi a mão e chacoalhei o garoto ao meu lado.

— Carl, acorda — intensifiquei o movimento. — Carl!

Ele se virou bruscamente, erguendo a arma em uma das mãos.

— Ei, calma, abaixa isso!

Carl abriu os olhos, confuso e encarou-me com olhos sonolentos. Apontei para o horizonte, indicando o grupo que aproximava.

— São eles… — constatou incrédulo.

Abri os lábios em um sorriso.

— Sim — afirmei, reconhecendo Michonne com sua katana em riste e Daryl ao seu lado, apontando a besta para os mortos ao redor. Pela primeira vez, durante todas aquelas horas longe do grupo, senti-me segura. — Vamos pra casa.

Notas finais
Espero que tenham gostado desse reencontro e desse momento Callie. A Ellie ta toda confusa por enquanto mas logo ela vai perceber que gosta do Carl e vai ficar bem mais fofinho, prometo. Até o proximo, beijões!