Notas iniciais
Baseada na música linda do Linkin Park. Boa leitura.

O que eu estarei deixando

Quando eu acabar por aqui?

Desde que a guerra terminara, Gilbert se sentira cada vez mais confuso, perdido e entendia menos das coisas. Estava em um quarto. Ele não sabia se era em sua casa ou em um hospital, apenas acordou lá e ninguém surgiu para ele poder perguntar algo.

Seu primeiro dia lá foi em absoluto silêncio.

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De tarde seu irmão veio lhe visitar. Disse que ele ia ter que ficar lá por um tempo. Contou algumas novidades. Gilbert ouviu tudo com um sorriso e vez ou outra repetia como se sentia bem e que podia ir. Ludwig negava e dizia que era melhor ele permanecer lá.

"Que seja, o incrível eu vai se recuperar rapidinho, acredite!" ele riu, passando a mão pelos cabelos brancos.

"Vai sim. Eu tenho certeza."

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No terceiro dia, Gilbert sentiu algumas dores. Nada que ele achou digno de assunto na conversa que teve com seu irmão, pela tarde. Mas elas voltaram, um pouco mais fortes. Mesmo assim ele continuou conversando normalmente, como se estivesse tudo bem. Perguntou quando poderia ir embora, onde estava, o que ele tinha...

"Está tudo bem." Ludwig respondeu "Não se preocupe."

"Não estou preocupado. Só curioso."

"Vai ficar tudo bem Gilbert."

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No quarto dia, Gilbert acordou mal. Vomitou pela manhã e sentiu dores horríveis o resto do dia. Aquilo devia ser praga. Pela noite já estava com febre. Seu irmão foi visitá-lo de noite e cuidou um pouco dele. Disse que logo iria passar. Gilbert assentiu.

"Se quiser trago remédios..."

"Não preciso. Sou incrível demais para remédios!"

Quando Ludwig fechou a porta e foi embora, ele chorou. Não se sentia nada incrível naquele estado deplorável.

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No quinto dia, ele estava com dor de cabeça e permaneceu deitado na mesma posição o dia todo. Mal conseguia mexer os braços ou as pernas e qualquer movimento lhe parecia um sacrífico tremendo. Quando seu irmão veio, ele nem conseguiu encará-lo.

Conversaram sobre bobeiras e Gilbert disse que ainda se sentia bem e que havia passado por coisas piores. Ludwig sabia que era mentira, mas era melhor não discutir com Gilbert.

Na madrugada, Gilbert piorou. Tossiu e sentiu o gosto metálico de sangue na boca. Por que ele não melhorava?

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No sexto dia, ele não sentia mais os braços e as pernas. Reparou que seu quarto não tinha espelhos. Reparou que as janelas estavam sempre fechadas. Reparou que ninguém entrava no quarto sem ser seu irmão e às vezes ele via pela fresta da porta Feliciano chorando um pouco.

Por que choravam? Ele estava bem. Ou pelo menos ia melhorar. Era só algum mal passageiro. Era só questão de tempo para que ele estivesse de pé novamente, mostrando todo seu esplendor, forte e firme como sempre fora.

Às vezes, na calada da noite, Gilbert pensava o que estava acontecendo com ele e se algum dia ele seria o mesmo de antes.

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No sétimo dia, ele começou a se perder no tempo. Não sabia qual era o dia da semana, não sabia as horas, não sabia o mês... Esperava seu irmão de noite pensando que era de tarde e se surpreendia quando ele chegava de tarde porque pensava que era de noite.

As memórias também se confundiam em sua cabeça. Falava de tempos antigos como se fossem recentes e de vez em quando tinha alucinações. Ludwig fingia que nada estava acontecendo e quando o irmão estava lúcido e perguntava o que estava acontecendo, ele disfarçava.

Gilbert sabia que algo estava acontecendo, mas preferia não pensar no pior.

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No oitavo dia, ele teve alucinações piores. Não reconheceu o irmão. Não reconheceu Feliciano, que veio visitá-lo pela primeira vez. Falou apenas de guerras que tinha ganhado, de pessoas que tinha conhecido. Passou mal de noite. Teve alguns pesadelos. Chorou e chamou Ludwig, mas ele não veio.

Gilbert se sentiu abandonado.

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No nono dia, ele não acordou cedo. Acordou apenas quando o irmão veio visitá-lo, já no fim da tarde. Gilbert olhava apenas para o teto e respondia com palavras simples. Às vezes sequer respondia. Ludwig se preocupou, mas ele sabia que aquilo aconteceria.

Quinze dias, lhe disseram, era o que o albino ainda tinha. Mas ele tinha muito medo de ser menos do que aquilo.

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No décimo dia, Gilbert não falava mais. Apenas se comunicava com sinais simples. Gilber sentia-se fraco, sem ânimo para nada. Ouviu algumas vozes diferentes e reconheceu-as sendo de Eliza e Roderich. Vieram lhe visitar também?

Ouviu algumas palavras esparsas. Coisas como "sumir", "tratado", "sempre"... Não ligou e voltou aos seus pensamentos, que eram sua maior companhia nos últimos dias.

Ele estava se isolando.

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No décimo primeiro dia, ele mais dormia do que ficava acordado. Não sabia como estavam alimentando-o. Quando dormia estava com fome, quando acordava não tinha nada. Não sabia se Ludwig o visitava, não sabia se alguém ainda se importava com ele.

Não ouvia nada, apenas palavras distantes e às vezes um choro baixo. Era de seu irmão? Por que ele chorava?

Por que Gilbert estava daquele jeito?

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No décimo segundo dia Ludwig lhe levou flores. Colocou-as em um vaso ao lado da cama. Gilbert sentia o perfume delas. Eram rosas? Ou lírios... Ele sempre confundira o perfume das duas.

Ouviu choros de novos. Eram vários agora. Ele teve vontade de berrar que odiava aquelas lágrimas todas, mas não conseguia nem abrir os olhos direito.

Gilbert se sentiu inútil naquele dia.

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No décimo terceiro dia Ludwig não foi visitá-lo. Gilbert permaneceu acordado o dia inteiro. Viu um espelho, ao longe, abandonado em cima de um armário. Conseguiu enxergar seu reflexo. Era desolador.

Ele parecia areia. Voava. Não tinha mais parte de seu corpo. Então ele entendeu o que estava acontecendo. Então ele entendeu porque piorava mais à cada dia. Então ele entendeu as flores, os choros, as mentiras...

Ele estava morrendo.

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No décimo quarto dia ele sonhou com anjos. Sonhou com seus irmãos já mortos. Então ele soube que sua hora havia chegado. Ele não tinha medo, mas também não queria ir. Iria sentir falta das coisas.

"Estou morrendo não é?" foi a primeira coisa que disse em dias para o irmão.

"Gilbert... Eu..."

"Não se importe. Chegou minha hora." ele disse, num sorriso. "Eu não temo."

"Sinto muito brüder."

"Esqueça os meus erros. Mantenha-me em sua memória e já me basta. O resto... Jogue fora." ele disse, com certa dificuldade.

Gilbert sorriu. Um sorriso bonito e calmo.

~

No décimo quinto dia Gilbert não abriu os olhos. Desde aquele dia, ele não abriu mais os olhos.

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Ludwig sentiu falta do irmão em todas as horas de seu dia. Mas seu sorriso, suas palavras, seus gestos e tudo mais. Ele não esqueceu nada. Não precisou jogar nada fora.

Tudo era apenas Gilbert ali.

Eu não posso ser quem você é

Eu não posso ser quem você é

Notas finais
Eu tive essa ideia depois de ver alguns vídeos sobre o Gilbert... Vídeos tristes por sinal.
Bem... Se não for pedir muito... Reviews?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!