Leave Me on The Moon
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Kelly Jones não se apaixonava. Tudo era uma farsa, tudo era para benefício próprio, nunca criando laços nem apego a ninguém. O que ela não esperava, era que vender a lua seria menos desafiador do que entregar seu coração a um piloto da NASA. Um piloto esquentadinho e mal humorado que não podia ir pro espaço, apenas ocupar o espaço vazio do coração de uma golpista, que aprendeu a mentir para sobreviver, e que agora só sabia o que era viver porque uma mentira quase lhe tirou tudo isso.
O coração de Kelly nunca esteve tão acelerado naquela noite pós discussão, pós chuva, pós conversa decisiva, e Kelly sabia que não era por conta de seu medo de voar. Ela sabia que algo tinha crescido dentro dela, tomado conta de seu lado racional e que aos poucos tomava conta do seu emocional.
Cole a levou para voar em Jenny e a trouxe segura pro chão. O que ele não sabia era que mesmo no chão, ele a manteve nas nuvens quando segurou sua cintura assim que ela deslizou da asa do avião, e se aproximou para beijá-la.
Kelly soltou os sapatos e nem mesmo ouviu o baque dos saltos no chão, não ouviu nada em volta. Ficou na ponta dos pés para alcançar aqueles lábios tão convidativos que ansiavam pelos dela, e sorriu em sua boca, tamanha sua satisfação com aquele momento. Não sabia que queria tanto estar nos braços dele, até estar.
Ficaram ali, na noite fria, sem sentir um pingo de frio. Corpos quentes, lábios quentes, num beijo que durou alguns bons minutos, pois Cole o aprofundou fazendo-a caminhar pra trás até encostar na asa do avião. Kelly não resistiu a um gemido com isso e se entregou ainda mais ao beijo, derretendo em seus braços fortes e firmes. A sensação das mãos grandes dele em sua cintura e suas costas lhe causava arrepios que ela jurava serem causados pelo vento. Não há vento gelado no mundo que a faça arrepiar assim. Apenas Cole Davis.
Separando os lábios, mas não os corpos, Kelly e Cole se olharam e o mundo meio que voltou a ser real. Kelly voltou a sentir o chão, Cole voltou a respirar.
— Há quanto tempo queria fazer isso? — Kelly não resistiu ao sorriso provocativo.
— Desde a lanchonete. — ele não hesitou. — Mas você já sabia disso.
Kelly riu e nem conseguiu puxá-lo para mais um beijo, pois começou a chover novamente. Apressou-se em pegar os saltos largados no chão e segurando a mão de Cole, eles correram pra dentro do galpão.
Cole não podia acreditar que tinha perdido as estribeiras assim que concordou em levá-la a um date se conseguisse os patrocinadores. É óbvio que ela ia conseguir o dinheiro, é óbvio que o bom humor dela ao negar o papel higiênico o faria rir, é óbvio que ela ia lembrar do que ele disse a ela no bar com aquela tombada fofa de cabeça, é óbvio que ela ia fazê-lo se apaixonar por ela nesses sete meses. E nem mesmo chegou a completar os sete meses.
Ela soube do seu problema do coração, ela contou sobre o passado dela, ela conheceu Jenny e voou com ele, ela lhe acalmou antes da entrevista, e todas as vezes que ia até aquela área de testes ou no escritório e não a via, sentia falta. Mesmo discordando um do outro, discutindo, lá estavam eles, totalmente entregues a um beijo delicioso naquele sofá cama do galpão onde ele guardava Jenny e dormia às vezes. Não foram além disso por mais que tivessem vontade, pois Kelly recebeu um telefonema importante e muito a contragosto teve que deixar Cole no galpão com um sorriso maior que a asa de seu avião.
Mas claro que tudo tinha que dar errado, claro que o segredo dela tinha que vir à tona, claro que os vilões venciam naquele cenário.
Kelly recebeu uma festa surpresa, todas aquelas pessoas ali agradeceram a ela por tudo o que fez pela NASA, e ela só estava mentindo pelas costas delas, pelas costas de Cole, tudo por um passado que ela não queria expor. Não havia ser humano mais culpado no mundo do que Kelly ao dançar com Cole, naquele lugar que ela aprendeu a amar, naqueles braços que ela descobriu estar segura.
“Que bom que ele achou outra coisa importante pra ele”. As palavras de Armstrong não saíam de sua cabeça. Todo mundo já tinha percebido o envolvimento deles além do profissional, eles não faziam questão de esconder só pela forma que se olhavam, e Kelly não tinha coragem de pôr um fim naquilo olhando nos olhos dele. Então fez o que fazia de melhor: tentou fugir. Mas não podia deixar Moe vencer, então encarou a fúria e decepção de Cole. Seu coração nunca havia se partido daquela maneira quando ele disse que nunca mais queria olhar na cara dela. Foi como se ele tivesse pegado seu coração e arrancado pra fora do peito após esmagá-lo num aperto.
Mas ela tinha que se explicar, ela tinha que falar a verdade e tinha que dizer o que estava sentindo. E pela primeira vez desde que soube das mentiras, ele voltou a olhar pra ela como sempre olhou desde o primeiro encontro: com carinho. Não sabia se estava perdoada, não sabia se ele queria que ela desistisse de Nova York, mas sabia que ele havia acreditado nela, deu pra ver na forma como ele perguntou qual era o plano dela para acabar com Moe.
Foram longos três dias desde o lançamento até o pouso, e nesses três dias eles não se falaram, mas o plano continuava de pé. Kelly deu espaço a Cole, sabia que ele precisava e que ele tinha todo o direito de estar chateado, se sentindo traído e com raiva dela. Mas cada vez que pensava que poderia perdê-lo por suas mentiras, o coração de Kelly se partia um pouco mais.
Não é porque estava dando tempo a ele para organizar os sentimentos, que seus próprios seriam esquecidos. Estavam sufocando ela. Kelly não lembrava da última vez que chorou por amor, nem SE já chorou por amor. Já teve paixões passageiras, encontros para satisfazer seus desejos carnais, pois era bom se sentir desejada, até aqueles que insistiam em lhe chamar pra sair novamente e lhe dar rosas para tentar agradá-la. Não chorou por nenhum deles, não sentiu por eles o que sentiu por Cole, o que sentia por Cole, com aquela abordagem totalmente inesperada e honesta. E por culpa sua podia nunca mais tê-lo de volta.
Aninhada em sua cama temporária, abraçada ao travesseiro temporário, Kelly ouviu alguém bater na porta temporária. Nem criou expectativas ao ir atender, e nem poderia, pois ouviu a voz da amiga.
Tentou parar de chorar e se recompor, mas para Ruby ela não precisava fingir.
— Kelly…?
— Oi… — sua voz embargada era perceptível, mas Ruby perguntou mesmo assim se ela estava bem. — Não... — respondeu fungando e apoiando a cabeça na madeira da porta antes de enfim abri-la.
Ruby nunca sentiu tanta dó ao olhar para a amiga, pois aquela era uma imagem que nunca tinha visto em todos os anos de amizade que tinham.
— Oh amiga…
— Eu estraguei tudo, Ruby. — Kelly prontamente foi acolhida no abraço da amiga assim que entraram. — Ele me odeia.
— Ele não te odeia, Kelly. Só está magoado, mas vai reconsiderar.
— Traí a confiança dele. — disse num fio de voz. — É isso que eu faço com as pessoas.
— Tenta se acalmar. — Ruby desfez o abraço e olhou bem para a amiga. — Se apaixonou por ele. — foi mais uma afirmação do que uma pergunta.
— Eu tô ferrada.
— Eu venho observando vocês com bastante atenção, tanto que fiz aqueles desenhos que modéstia parte eu amei. — Kelly quase sorriu com isso. — Ele também se apaixonou por você, Kelly, isso não some de uma hora pra outra. Confia em mim, vocês vão se acertar. Você precisa descansar e tentar dormir.
Kelly suspirou e assentiu, concordando apenas com a última afirmação, não as anteriores.
— Quer que eu fique aqui com você?
— Poderia? — Kelly secou as lágrimas ao perguntar.
— Claro. — Ruby a guiou pra cama e aninhou a cabeça de Kelly em seu colo, afagando seu cabelo. — Cole Davis pode ser esquentadinho e impulsivo, mas é justo e honesto. Duvido que ele não entenda seus motivos.
Kelly sorriu com o otimismo dela. Até lhe deu esperanças.
— O que eu faria sem você?
— Provavelmente desenharia as próprias campanhas.
Kelly conseguiu rir.
— Você também quer ficar aqui, não quer?
— Nada vai me fazer voltar pra Manhattan a menos que seja para buscar minhas coisas.
Kelly riu, mas o pessimismo acabou voltando a reinar em sua mente.
— E se não acontecer? Vamos só voltar para Nova York e fingir que nada disso aconteceu? Que foi como qualquer outro trabalho, qualquer outro golpe?
Ruby suspirou.
— Parece que o golpe dessa vez foi na gente. — Kelly secou as lágrimas mais uma vez ao assentir, ainda deitada no colo daquela a conhecia mais do que ninguém. — Mas relaxa. O plano vai dar certo e quando tudo isso terminar, ainda vou desenhar vocês de novo, dessa vez com o Cole ajoelhado pedindo sua mão em casamento.
Kelly conseguiu rir mais uma vez e desejou que aquele delírio não fosse tão absurdo assim. Que Cole iria perdoá-la e ficaria com ela.
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