Em janeiro de 1973 o Vietnã ainda era foco na TV, mas dessa vez com um possível acordo de paz. Em 27 de janeiro, a assinatura de um acordo firmado em Paris deixou o povo esperançoso. Richard Nixon decretou que nos próximos sessenta dias, as tropas americanas seriam retiradas do Vietnã do Sul. Ruby tinha muito o que dizer sobre o assunto e as conversas pela NASA eram basicamente só sobre isso.

Kelly estava tendo menos pesadelos nas últimas semanas desde a virada do ano, e Cole insistia que ela precisava relaxar. E por que não uma praia? Mesmo morando praticamente nela, eles mal iam até lá. E Kelly merecia uma folga, pois estava trabalhando demais.

Quando souberam que Cole e Kelly tirariam o fim de semana para irem à praia, a turma toda se animou em ir. Ruby, Don, Stu, Henry e a família, e até Walter foram também.

— Isso vai ser uma farra. — Cole comentou rindo ao lado de Kelly.

Ambos descansavam com suas devidas roupas de banho em duas espreguiçadeiras coladinhas debaixo de um guarda-sol vermelho e branco.

— O que? — Kelly levantou a cabeça e o óculos de sol para olhar onde ele olhava e viu a trupe chegando. Também riu. — Não acredito.

A mais nova de Henry correu até Kelly que só deu tempo dela levantar para abraçá-la.

— Oi pequena arteira! Como você cresceu! Faz tempo que não te vejo.

— Tia Kelly, eu tomei vodka! — contou entusiasmada.

Os olhos de Kelly se arregalaram, assim como os de Cole.

— Você o quê??

— Você disse que era pra eu aproveitar minha infância e fazer tudo o que eu tivesse vontade.

— Não foi… exatamente isso que…

Cole caiu na risada.

— Meu Deus do céu…

— O que esperava que ela entendesse, meu bem?

— Eu preciso ser mais clara nos meus conselhos aos mais jovens. — sorriu nervosa. — Ai, eu não sirvo pra ser mãe.

— Que isso, claro que serve. Você vai ser uma mãe maravilhosa.

Kelly sorriu, pois foi a primeira vez que o assunto surgiu, eles nunca conversaram a respeito. Talvez falasse com ele mais tarde.

— Não faz mais isso, pelo amor de Deus. — Kelly trouxe a cabeça da guria pra perto e beijou o topo dela enquanto Cole gargalhava. — Fazer tudo o que tiver vontade com a autorização dos seus pais, de preferência, tá bom?

— Tá bom. — ela riu e olhou pra trás, onde o resto do grupo chegava perto deles com mais dois guarda-sóis, cadeiras e coolers.

— Digam adeus à paz, pombinhos. — disse Ruby. — Vamos nos divertir!

— Certeza que isso foi ideia do Walter, não é? — Kelly brincou e sorriu com a cara dele ao concordar, mesmo não tendo sido.

Todos se acomodaram junto ao casal e iniciaram um papo descontraído.

Cole foi buscar uma água de côco para sua amada, e Don aproveitou para ir junto fazer o mesmo para Ruby.

A esposa de Henry conversava animada com as duas enquanto ele, Stu e as crianças — que não eram mais tão crianças assim — preparavam Walter para o vôlei que jogariam em alguns minutos.

— E vocês, Kelly, já pensaram em ter filhos? O casamento já deve estar perto, imagino.

Ruby quase teve um treco e arregalou o olho pra mulher sem que Kelly percebesse.

— N-Não, na verdade… não conversamos sobre isso ainda.

A coincidência do assunto deixou Kelly nervosa e ao olhar para Ruby, sorriu buscando ajuda. Foi a primeira vez que a viu sem graça e Ruby claramente sabia de algo que as duas não sabiam.

— Sério? Já faz três anos que estão juntos.

Ruby a salvou, pois viu que ela não sabia o que responder.

— Kelly e Cole são diferentes, eles não querem ter pressa. Não é, amiga?

— É. Isso. — Kelly deu um sorriso amarelo e olhou para Cole que já estava voltando com sua água de côco.

Ruby aproveitou que Kelly estava distraída, e lançou um olhar para a mulher e fez um sinal com a cabeça para Cole que já estava ao lado da amada, e agradeceu o que Don lhe entregou do lado oposto. Felizmente, a mulher sacou o que ela quis dizer.

— Ah, mas vocês ainda tem bastante tempo pra isso, né?! — sorriu e recostou-se na cadeira dando um tapinha na mão de Kelly.

— Tempo pra quê? — Cole indagou dando um beijo no topo da cabeça de Kelly após lhe entregar sua água de côco.

— Para o resultado da campanha do Starbucks. Tem um tempinho ainda para recebermos a resposta. — ela inventou uma desculpa que não era cem por cento mentira.

— Certeza que já deu certo. Vocês são as melhores.

Kelly e Ruby sorriram e trocaram um olhar cúmplice.

Após tomarem a água de côco, as meninas se juntaram ao restante do grupo para o vôlei. Kelly e Cole ficaram na primeira rodada no mesmo time, e depois em times diferentes. Se divertiram bastante jogando, mas pararam só pra observar os amigos.

— É legal. — Kelly comentou enquanto descansava entre as pernas dele na espreguiçadeira. Estava com as costas apoiadas em seu peito e a cabeça em seu ombro.

— O que? — Cole quis saber.

— Ter uma família. Eu nunca tive uma. Sempre fui só eu e minha mãe, depois só eu. — ela suspirou. — É bom. Olha só pra eles. — e sorriu.

Cole também sorriu e beijou seu ombro.

— É bom sim. Você merece ter uma.

Kelly apertou ainda mais os braços dele em volta de sua cintura. Era ali que gostava de ficar. E aquela tarde foi perfeita.

* ☽ * ☾ *

O momento favorito do dia de Kelly era chegar em casa, tomar um banho, colocar um pijama e ficar abraçada com Cole conversando e/ou namorando a noite inteira.

Lembrou de quando disse “eu te amo” pra ele pela primeira vez.

Era noite, estavam naquele cantinho no alto onde ele a levou pra ter a segunda melhor visão da base, lhe contando sobre os “mares” da lua e ouvindo sobre sua história com a mãe. Era mais um dia relaxante onde a equipe se divertia lá embaixo, Kelly sentiu até um déjà vu.

Cole cobriu o chão com o mesmo lençol, mas dessa vez havia levado uma garrafa de vinho e duas taças. Observaram as estrelas primeiro, deitados lado a lado sobre o lençol, e depois eles sentaram e bebericaram o vinho enquanto curtiam o momento e a música que vinha de baixo. Mais especificamente Close To You dos Carpenters.

Henry acenou para Cole lá de baixo e apontou para a mesa.

— Ah, Henry trouxe petiscos. Você quer?

— Ai eu quero, por favor. — ela sorriu.

Cole deu um selinho nela e levantou pra ir buscar.

Kelly olhou para as estrelas, na forma intensa que elas brilhavam, assim como os olhos de Cole quando olhava pra ela.

Com o sorriso ainda no rosto, Kelly também levantou e correu pra grade. Cole já estava lá embaixo indo em direção à mesa e aos amigos, e ela gritou:

— Cole! — ele parou e olhou pra cima. Os olhos de alguns também se voltaram pra eles por conta do grito de Kelly. — Eu te amo!

O piloto teve uns segundos de delay, para registrar no cérebro o que ouviu, e voltou correndo pra ela.

Kelly riu com a velocidade que ele subiu de volta e a tirou do chão num abraço apertado, porém confortável a ponto de não querer sair.

Ela ficou surpresa com essa reação, mas correspondeu e riu ao ser tirada do chão. Foi rápido, logo estava de volta ao solo. Quando se afastou só o suficiente para olhá-lo, viu os mesmos olhos claros brilhantes e percebeu que dessa vez tinha lágrimas nele, que ele tentava segurar.

— Desculpa, é que já tem muito tempo desde a última vez que ouvi isso de alguém.

Ela suavizou a expressão acariciando o rosto dele e ouviu:

— Eu também te amo, Winnie. — ele sussurrou encostando sua testa na dela.

Kelly sentiu o coração transbordar de amor. Sabia que o amava e era recíproco, pois demonstravam isso um pro outro todos os dias, mas não havia nada mais recompensador e pertencente do que ouvir, e a sensação gostosa de sentir aquela frase dentro de si quando é dita.

Se aproximou e colou seus lábios nos dele sendo correspondida de imediato. Nem ouviram os assobios lá de baixo e Ruby gritando “lindos!”.

Kelly saiu do devaneio ao sentir um beijo ser depositado abaixo de sua orelha. Estavam sentados no sofá prontos para assistirem um filme.

— Um doce por seus pensamentos.

— Só um doce? — o olhou de soslaio com um sorriso escondido.

— E talvez um beijo.

Kelly deixou o sorriso escapar e acariciou o braço dele que estava sobre seu ombro.

— Me voltou à mente o dia que você ouviu um “eu te amo” meu pela primeira vez.

— Ah! — Cole sorriu. — O dia em que você lembrou da explicação que eu dei sobre os “mares” da lua e você disse uma das coisas mais lindas que o chefe dos astronautas poderia ouvir. Pode repetir, por gentileza?!

Kelly riu.

— Meu beijo e meu doce, primeiro.

Cole não conseguiu evitar de sorrir mais uma vez e segurou o rosto dela com a mão livre, lhe dando um beijo lento que pareceu ter durado horas de tão bom. Após isso, tirou uma bala de caramelo do bolso.

Kelly riu novamente pegando da mão dele.

— Você tinha mesmo um doce. — enquanto abria a embalagem, Kelly repetiu o que disse enquanto olhavam o céu naquela noite. — Eu disse que quando a Apollo 11 pousou no mar da tranquilidade, eu também pousei, e continuo nele desde então.