Após um banho, ambos seguiram para o escritório. Kelly teria que terminar o trabalho de eliminação de provas, e Cole prepararia seus meninos para uma penca de entrevistas.

Conversaram enquanto trocavam carícias, e Kelly decidiu se estabelecer em Cocoa Beach, para viver ao lado de Cole, sair para comer camarão e maionese no pão no Píer Canaveral, e talvez voar em Jenny nos fins de semana com ele. Kelly continuaria na publicidade da NASA, mas também pegaria trabalhos por fora, afinal, ficou ainda mais conhecida com a missão Apollo 11. A NASA era sua família agora e não queria perder isso.

No escritório, algumas horas depois, Cole pegou Kelly no flagra com Sapeca.

— Aha! Pegos no pulo!

O gato preto se assustou e correu pra fora da sala.

— A gente podia ficar com ele.

— Ficou maluca, né?

Kelly se aproximou dele e pousou as mãos em seu peito, brincando com o tecido da camiseta.

— Olha, eu sei que ele fez coisas que te irritaram, mas eu também fiz e você me perdoou. Por que não perdoar um gatinho inofensivo e dar amor a ele também? — e mais uma vez estava lá, a tombada fofa de cabeça.

— Eu odeio o fato de você sempre ter bons argumentos. — Kelly riu. — Algo me diz que vou perder todas as discussões no nosso relacionamento.

— É assim que funciona, não é?

— Engraçadinha. — Cole lhe deu um beijo, hábito que ele estava amando ter, e reconsiderou... um pouco. — Eu vou pensar. Sapeca vai ter que me convencer que é um bom gato preto.

Kelly sorriu e abraçou Cole pelo pescoço, não ficando tanto na ponta dos pés agora por estar de salto, e beijou a ponta de seu nariz.

* ☽ * ☾ *

Não deu nem dois meses e Cole deu o braço a torcer com Sapeca. Kelly havia adotado o gato, ou melhor, o gato adotou Kelly, pois ela o deixava livre pra ir onde quiser no angar como ele sempre fez, mas ele sempre voltava pra ela, pra comer e pra dormir em seu colo no escritório, ou em sua poltrona em seu quarto. Kelly continuava hospedada lá, mas já estava com a mudança agendada de Manhattan pra Cocoa Beach, pois conseguiu um apartamento legal — que por enquanto dividiria com Ruby — na cidade, para ambas se estabelecerem melhor, apesar de já estarem bem encaminhadas depois desses quase um ano na NASA. O motel ainda era temporário, mas Cole passava mais tempo lá do que na própria “casa”.

Durante aquelas semanas, Cole tentou fazer Kelly subir em Jenny mais uma vez para mais um voo com ele, mas Cole sempre acabava voando sozinho, pois ela sempre vencia nos argumentos. Dizia que só voaria de novo se fosse uma emergência como da última vez. Mas ele estava decidido a tirar o medo dela de voar e estava confiante de que conseguiriam. Ela vivia dizendo ao vento “isso que dá namorar um piloto”, e ele sempre ria.

Três anos se passaram e Kelly só cedeu umas três ou quatro vezes com muita relutância, sempre com medo apesar de saber que estava segura. Mas no meio de fogos de artifício? Aí já é demais.

— Vai, meu bem, você vai amar ver os fogos do ano novo de dentro do avião. É uma experiência totalmente nova. — Cole tentava convencê-la com um novo argumento. Estava ficando bom naquilo.

— Amor, eu não sei não. E se um deles atingir o avião? Vamos os três pro beleléu, nós dois e Jenny.

Cole deu risada, e não foi vencido.

— Eu prometo que nada vai atingir o avião. Sem querer me gabar, mas eu sou o melhor piloto da região, quiçá do mundo. — Kelly sorriu de lado com o convencimento. — Eu só quero que a virada de 72 para 73 seja especial, como as outras.

— Sabe que enquanto eu estiver com você, todos os momentos vão ser especiais. — Kelly acariciou o rosto dele ao dizer.

— Ah não, não vai me vencer nos argumentos dessa vez, sua ardilosa.

Kelly riu e recebeu um beijo.

— Confia em mim. — Cole colocou uma mecha de seu cabelo, que havia crescido e estava abaixo dos ombros, e acariciou a bochecha dela com o polegar. — A essa altura já sabe que está segura comigo. Tanto no chão, quanto numa aeronave.

— Eu sei.

Segura e feliz. Como nunca experimentou antes. Não foi feliz assim em mais de trinta anos como foi nesses últimos três. Cole a fazia se sentir especial, a tratava com todo amor e respeito, era além de namorado, amigo dela, estava sempre ali pra ela, e Kelly se sentia bem perto dele. Nenhum outro homem causou nela o que Cole causou.

— Vamos?

— Poxa, nem me despedi do Sapeca.

Cole riu e lhe deu um beijo na testa.

— Você vai gostar, meu bem, eu prometo. Só não vale fechar os olhos. Promete?

Kelly assentiu segurando a mão dele, e lá foram eles até Jenny. Estava tendo uma festa de Réveillon com a galera no mesmo lugar de sempre. Kelly estava com um conjuntinho lindo azul escuro, de manga comprida e saia, com um coletinho listrado por cima, e o cabelo solto com seu lenço favorito. Inclusive, quando Cole a viu pronta, foi regada de elogios. Foi um pouquinho difícil subir no avião de saia, mas deu certo.

— Dá tempo de desistir, amor? — Kelly perguntou com o fone e o comunicador quando ele estava prestes a decolar.

— Não. — ele riu. — Fica calma, é cem por cento seguro. Enquanto a gente estiver lá em cima e você quiser descer, a gente desce, tá bom?

— Tá bom. — Kelly apertou os olhos, mas como prometeu não fechar, fez um esforço pra olhar a decolagem e a vista lá de cima. Já ia dar meia noite e os fogos já iam começar. — Meu Deus, que ideia de jerico.

Cole gargalhou e ao fazer isso, ergueu a cabeça.

— Amor, presta atenção! — Kelly riu mandando ele olhar pra frente e focar na direção. — Já estão soltando os fogos. AH! — deu um gritinho quando um dos fogos foi perto do avião, e riu de nervoso. — Você é maluco.

Cole riu e deu a volta com a aeronave.

— Olha só!

O medo deu lugar ao fascínio assim que Kelly viu todos aqueles fogos no céu enquanto ela voava bem pertinho. Tomava uns sustinhos com os barulhos e ainda tinha um receio de acertarem o avião, mas ainda assim era lindo. Fogos de todas as cores e jeitos diferentes de estourar. O céu escuro só dava mais destaque àquelas cores cintilantes.

Cole planou e pousou numa área aberta de gramado.

— Não vamos voltar pra base?

— Vamos, mas achei melhor terminar de ver os fogos daqui.

— Na grama? Deve ter bicho. E os jacarés?

Cole riu.

— A gente pode deitar na asa. Vem.

Cole a ajudou a sair e a deitar na asa, garantindo que não iam tombar ou escorregar pro lado, ou serem atacados por jacarés, nem nada do gênero, porque sim, ela levantou a possibilidade.

— Isso que dá namorar um piloto.

Cole riu, pois ali estava a fatídica frase.

— Você está bem?

— Estou. Apesar do medo, eu gostei. Realmente foi uma boa ideia ver os fogos lá de cima.

Essa confissão arrancou um sorriso dele.

— Que bom que gostou. — pegou a mão dela e deu um beijo no dorso. — Mas estou te sentindo meio melancólica, com uma agitação que não parece ser o medo de voar. Certeza que está tudo bem?

Ele a conhecia tão bem, Kelly nem conseguiu disfarçar e olha que era boa nisso. Mesmo assim tentou desconversar.

— Eu estou bem, não é nada.

— Winnie…

— É superstição. E se tem alguém que é supersticioso, esse alguém é você. Não quero te preocupar.

— Já estou preocupado, amor. Vai, me conta, o que houve?

Kelly suspirou e sentiu sua mão ser acariciada pelo polegar dele.

— Eu tenho tido pesadelos recentemente.

— Eu sabia que tinha alguma coisa errada. Você estava agitada esses dias, mas eu achei que era por conta da agência.

— Alguns dizem que é mau presságio, que quando você tem pesadelos recorrentes é porque uma coisa ruim vai acontecer de verdade. Já tem uma semana que estou ficando paranóica. Eu fico imaginando que vão descobrir o que eu fiz, que eu não estou livre como o Moe disse, que vão me achar e aparecer lá em casa pra me levar algemada e eu nunca mais vou ver você.

Cole sentou e a puxou delicadamente para fazer o mesmo, e assim ficaram frente a frente.

— Você não vai ser presa, Winnie. Seu passado ficou pra trás, ninguém vai te levar. Eu prometo, tá? — Kelly sentiu um nó na garganta, mas segurou e assentiu. — São só sonhos ruins, eles também são decorrência de estresse e ansiedade, o trabalho pode estar fazendo isso. — ela fez uma cara de que sim, podia ser possível também. — Nada de ruim vai acontecer. E eu quero que me prometa algo também. — Kelly ergueu uma das sobrancelhas. — Que vai me acordar sempre que tiver pesadelos. Não é justo você acordar assustada de madrugada enquanto eu estou lá que nem a Bela Adormecida. — essa fala a fez rir. — Mesmo que eu não esteja com você, é só me ligar. Promete?

Kelly o olhou com ternura e não teve como não prometer. Ela achava que não podia se apaixonar ainda mais por ele. Estava enganada.

— Eu te amo tanto, sabia? — disse ela fazendo um carinho em seu cabelo rebelde que já precisava cortar.

Cole sorriu, acariciou o braço dela e direcionou a palma daquela mão macia até seus lábios. Depositou um beijo ali e disse o mesmo a ela.