Lealdade sem Fronteiras #1

2 Capítulo 2 - Versus Croconaw


Notas iniciais
"As rivalidades são bem comuns nesse mundo, principalmente entre espécies, mas isso não impede de existir entre humanos também. Dan terá um rival, mas não imagina ele que este não será o único, como também haverão até mesmo alguns amigos que se tornarão inimigos..."

Viver na época que vivo não é como parece. Observar o mundo se "desmanchando" em rivalidades entre pessoas e pessoas, Pokémon e Pokémon, ou ambos entre si... Sempre foi algo que me fizera sentir o coração apertado.

Lembro-me vagamente de um dia, ainda criança, estar a seguir pela Cidade de Viridian e observar um humano correndo, uma expressão de desespero estampada em sua face. Pude ver também o pássaro de apenas uns trinta centímetros que o seguia lentamente, com passos e saltos pequenos, curioso. Sua penugem era marrom, com sua face, peito e abaixo de seu corpo com cor de creme. Havia uma pequenina crista com ambas as cores em sua cabeça. O humano, como se estivesse em real perigo, começou a gritar e pedir ajuda para que conseguisse se livrar daquele simples Pidgey. Diversas pessoas chegaram com perigosas armas e atacaram a pobre criatura, que saíra quase sem vida do local e entrara de volta na floresta.

Eu segui escondida para a floresta e tentei ajudar o Pokémon. Seus ferimentos quase o levaram a óbito, sua sorte foi o fato de eu poder ajudá-lo com o pouquíssimo de Medicina Pokémon que sabia naquela época. Ele queria seguir-me no caminho de minha casa, mas o convenci de permanecer ali na floresta. Era perigoso se me seguisse. Apenas disse para que esperasse, pois eu sempre o visitaria, assim como nunca esqueceria o apelido que dei a ele.

E sim, até hoje, eu visito Pidy naquela floresta.

Mas ninguém entenderia se eu contasse a verdade sobre o motivo de eu ir até lá. Ninguém entenderia que sou contra toda essa violência, tanto do lado da Humanidade quanto do lado dos Pokémon. Pelo que percebi Dan não entende isso. Como eu disse, ele é um garoto normal de uma família normal. As famílias normais ensinam suas crianças apenas sobre a importância de serem Mestres, ensinam sobre as espécies de Pokémon da região e só. Ensinam só isso. Na escola a mesma coisa. E assim os novos treinadores, assim como Dan, pensam sempre do mesmo modo:

"Vou me tornar um Mestre Pokémon e que se dane o resto".

Exatamente isso, um pensamento egoísta. Um pensamento egoísta é o que todos têm em mente, mas nunca admitem. Sempre dizem que vão cuidar de Pokémon, vão cuidar da Natureza, etc. Mas é sempre o contrário. Quando acabam a jornada, sempre soltam os Pokémon que capturaram ou, dependendo da maldade, quebram as Poké Balls com eles dentro. Pergunto-me se só eu percebo isso, se só eu me importo com isso. Só eu tenho que ser diferente? Só eu vejo esse mundo indo por água abaixo? Só eu me importo com o futuro dos Humanos, dos Pokémon, da Natureza, do mundo inteiro...?!

Queria saber a resposta.

Ele estava andando pela Nova Rota Um. Isso mesmo, Nova Rota Um. A que vocês conhecem foi invadida pela floresta e se tornou parte desta. Era a Natureza se vingando de novo. O novo caminho é uma rota ao oeste de Pallet City, e depois virava para o norte e só então encontrava a também nova Viridian City. A Rota é à beira de um lago. Há uma lenda que diz que um treinador desafiou Lugia e ele batalhou naquele local, criando uma cratera imensa e depois criando uma enorme tempestade, assim enchendo ela de água. Depois disso os Pokémon mais comuns por ali são os Poliwag, girinos pequenos e inofensivos, por isso o nome Poliwag's Lake. Havia outros também, como Oddish, Pokémon semelhantes a mudas de plantas, e muito raramente Psyduck, patos amarelados, embora esse último só aparecesse no verão e o inverno não passaria tão rapidamente.

Dan e Charmander estavam sem sorte, não viam nenhum Pokémon fazia horas e o dia estava acabando, algo ruim, pois à noite tudo era duas vezes mais perigoso. O único da qual tiveram chance de ver fora o mais comum ali, porém ele correu diretamente para a água, exterminando qualquer chance de batalha. Aquela era a décima quinta vez que passavam naquela rota e não havia uma única criatura para batalhar.

— Charmander, está ficando complicado, quero pelo menos mais um Pokémon, mas temos que sair daqui. Logo, logo aparecem os Poliwhirl e sabemos que não nos daremos bem se nos virem. — diz observando todo o local em busca de ameaças.

— Charrr! — diz o Pokémon, aparentemente concordando.

Quando estavam em sua décima sexta volta que seria a penúltima, paralisaram em seus lugares. À sua esquerda havia o lago. A água reluzia o sol poente como se fosse um espelho e, apesar da beleza, aquilo não era algo bom. Como em todos os outros lugares, à noite a periculosidade do local aumentava. À sua direita havia grama alta seguida das diversas árvores e arbustos que invadiram a rota antiga. Uma dessas moitas, que tinha cerca de um metro de oitenta, começou a se mover com velocidade até que dali saiu um Pokémon.

A criatura era pequena, do tamanho de Charmander. Seu corpo era completamente esférico, exceto por sua cauda longa de estranha transparência.

Era revestido por uma pele de aparência elástica e, onde deveria ser a barriga da criatura, havia uma espiral preta que ia a esquerda para a direita em um círculo também transparente. Seus olhos eram grandes e tinha os lábios rosados. Parecia estar fugindo, mas suas pequenas pernas não permitiam grande velocidade. Seguia diretamente para a água e os instintos de Dan diziam que não conseguiria pegá-lo quando submerso.

— Ali, um Poliwag! Vamos! — exclamou Dan.

O Pokémon Aquático não parecia preocupado com os dois. Corria olhando para trás, para a floresta, como se realmente estivesse fugindo. Repentinamente, quando faltavam apenas alguns centímetros entre o Pokémon e o lago, rochas caíram, impedindo-o de seguir em frente.

O que é isso? Pedras estão saindo do além?, questionou-se surpreso o novo treinador, que esfregava os olhos por conta da poeira levantada pelo estranho ataque.

O arbusto se move novamente e dessa vez sai um humano. Aparentava ter a mesma idade de Dan. Caminhava com uma postura rígida. Sua expressão e olhos eram um misto de frieza e orgulho. Seus cabelos eram louros e escorriam através do rosto, cobrindo em parte os olhos, que eram castanho claro. Alto, maior que Dan, podia facilmente ser mais velho que ele. Sua roupa consistia em uma camiseta preta com alguns detalhes próprios que lembravam pingos brancos, calça Jeans cinza. Carregava uma mochila nas costas preta como seus tênis.

Ao seu lado surgiu o provável Pokémon que atacara anteriormente. Era uma criatura corpulenta e um focinho comprido. Seu peito e costas eram amarelos com formatos azuis em padrão assimétrico. Seus quatro dentes visíveis eram muito assustadores para uma criatura com apenas um metro de altura. Mas não era só isso que causava arrepios na nuca de Dan. Os olhos vermelho-sangue do Pokémon eram envoltos em uma mancha preta. Em sua cabeça havia três espinhos vermelhos como uma crista. Em suas costas havia mais dois e na cauda um com formato de diamante.

— Mordida. — ordenou o garoto. Sua voz era grave e profunda e parecia assustar ainda mais do que o Pokémon.

A criatura correu em direção ao Poliwag que não teve outra opção a não ser fechar os olhos e esperar pela dor. A mandíbula do atacante parecia ainda mais aterrorizante durante o ataque. Charmander se escondeu trêmulo atrás de Dan, que desviou os olhos e tentou ignorar os uivos de dor de Poliwag. Ouviu algo a mais também. Pegou sua Poké-Agenda. Era quase impossível entender o que ela dizia, mas Dan leu a descrição dos novos Pokémon ali presentes. A do primeiro:

Poliwag, o Pokémon Girino. Originou-se nos primeiros lagos de Kanto. Sua pele é tão fina que se você prestar bastante atenção você consegue enxergar seus órgãos internos. Apesar disso, ela também é flexível. Tem dificuldade para andar com seus pés recém-crescidos e por isso ele tropeça frequentemente.

E também do atacante:

Croconaw, o Pokémon Mandíbula Grande. É a primeira evolução do Inicial Aquático da região de Johto, Totodile. Uma vez que ele morde, não se entregará tão fácil até que tenha perdido seus dentes. Dentes novos crescem rapidamente no lugar. Sua arcada dentária possui 48 dentes.

Dan estremeceu. Quase podia sentir dor em apenas pensar em ter quarenta e oito dentes presos em seu corpo. Olhou para a pobre criatura na boca da fera. Gritava e esperneava desde o início, mas agora seus movimentos eram lentos, seus olhos lutavam para permanecerem focados e abertos. E então, após um último chute lento, Poliwag desmaiou, sua cauda pendendo como seu corpo na boca do réptil.

Croconaw soltou relutante o adversário, que caiu no chão com um som abafado. Havia sangue do corpo de Poliwag na boca de Croconaw, mas a vítima ainda respirava com dificuldade. O treinador jogou a Poké-Bola. Ela apenas aprisionou o Pokémon sem movimento algum, soltando os brilhos costumeiros de quando a captura está completa. Dan quase sentiu pena da criatura ali dentro, não tivera nem chance de atacar antes que fosse completamente derrotada. A mente do menino insistia em repetir a cena da mordida enquanto ele pensava em uma das frases que descreviam o Poliwag: "Sua pele é tão fina que se você prestar bastante atenção você consegue enxergar seus órgãos internos". Começou a se questionar se o Pokémon sobreviveria quando o outro Treinador se aproximou de seu Pokémon. Permanecia com a mesma expressão, não parecia se importar de ter capturado o Monstro de Bolso.

— Você foi bem, Croconaw. — disse ao Pokémon Mandíbula Grande enquanto pegava a Poké-Bola. Fitou-a por alguns momentos. — Mas não acredito que ele seja útil.

— Se ele não será útil... — Começou Dan hesitante ao novamente encarar as presas de Croconaw. Desviou o olhar para o outro treinador. — Por que o capturou?

O desconhecido o encarou de modo que Dan se arrependeu de perguntar, sentia-se um idiota ao ver aquela expressão.

— Não percebeu a diferença dele para os outros da espécie? — questionou o louro. — A espiral em sua barriga?

— Era como as outras, não? — disse Dan.

— A espiral era da esquerda para a direita. Todos os outros Poliwag daqui têm sua espiral da direita para a esquerda. — explicou lentamente como se estivesse falando com uma criança pequena. — Em suma, ele é de outra região. Procure esta informação em sua Poké-Agenda se não tiver certeza. Apesar de que qualquer treinador de verdade saberia disso. — Virou-se para ir embora.

— Espere! — gritou Dan. O outro parou e esperou sem se virar. — Qual seu nome?

— Você é um grande intrometido. — grunhiu.

— Ei! Eu só estou curioso! — reclamou. — Eu sou Dan. Dan Young. — apresentou-se.

— Se eu responder você cala a boca e me deixa em paz? — Virou-se e encarou o novo treinador com uma expressão fria.

— Uh... Sim? — gaguejou, confuso com a maneira que estava sendo tratado.

— Aiden. — disse por fim. — Aiden Birch.

Foi embora, deixando Dan e seu assustado Pokémon para trás. Dan repetiu cada frase que dissera em sua mente, perguntando-se se havia dito algo errado, mas logo tentou ignorar e seguiu em frente. Resolveu voltar à procurar outro Pokémon. O problema é que o garoto estava tão distraído que Charmander teve que puxar levemente sua roupa para chamar a atenção.

— Chaaar! Chaaarmander! — chamou e pulou o Tipo Fogo.

— O que houve? — disse Dan.

O Pokémon apontou para a frente. Havia uma outra criatura na margem do caminho de terra. Era obviamente uma tartaruga, pois havia uma carapaça. Ela era laranja nas costas e amarelo pálido na parte inferior. Sua pele era de um azul ciano e, assim como o último Pokémon selvagem que encontraram, suas patas eram um pouco pequenas para o corpo. Dan pensou em sua evolução e lembrou de Croconaw, mas ele não parecia tão ameaçador. Na verdade, agarrado a própria cauda ondulada como estava, parecia até triste.

— Verdade, Charmander. É um Squirtle. Como aquele do laboratório. — concordou.

O Pokémon Selvagem ergue os olhos. Assim como o último Pokémon visto, seus olhos eram vermelho-sangue, mas eles não demonstravam agressividade nenhuma. Estavam melancólicos e era impressão de Dan ou também estavam marejados?

— Squir? — disse o Pokémon com uma voz embargada. Se o garoto tivesse que adivinhar, diria que o Squirtle estivera chorando.

A Poké-Agenda novamente fez seu trabalho:

Squirtle, o Pokémon Mini Tartaruga. É o Inicial de Água da região de Kanto. Quando nasce, seu casco é mole, endurece quando cresce. É seu refúgio quando se sente ameaçado e é um ótimo modo de se proteger. Mas não é apenas esta a sua função. Ele também dá a capacidade ao Pokémon de nadar em grandes velocidades por minimizar sua resistência na água.

Dan o encarou em silêncio. Ele não deveria estar ali. Nem deveria estar livre. Squirtle são Pokémon iniciais, não selvagens. Estava se questionando como ele fora parar ali quando lhe ocorreu. Não era o primeiro Pokémon que deveria estar em um laboratório. Não era o primeiro Pokémon Inicial que estivera solto sem motivo aparente.

O treinador pegou a Poké Ball de seu outro Pokémon e encarou-a. Teria o Bulbasaur algo em comum com o Squirtle?

— Daria uma chance ao nosso companheiro, Charmander? — questionou. Ele pareceu protestar, mas o garoto ignorou. — Sei que está muito fraco de nossa batalha, mas não acredito que devemos batalhar. Saia, Bulbasaur! — disse enquanto jogava o objeto no chão e esperava que a criatura saisse.

Ele sai, porém tem problemas em permanecer de pé. Cambaleia. Teria tombado se Charmander não corresse e ajudasse-o se usando de apoio.

Os três parecem conversar e se entender, mas Dan apenas entendia as criaturas repetindo o próprio nome. Esperou. Não queria batalhar. Depois da horrível cena que vira anteriormente, aquela da qual o Monstro de Bolso fora derrotado em apenas um ataque, Dan não se sentia a vontade de atacar alguém, ainda mais um Squirtle chorando.

Ele se sentou e encarou o lago. Estava anoitecendo, apenas alguns minutos e estaria em perigo. Não ligava. Queria apenas fechar os olhos e esquecer o mundo como sempre fazia ao pensar nos pais.

Para afastar aquele tipo de pensamento, Dan pegou alguns dos equipamentos em sua bolsa. Estava avaliando os status de seus Pokémon.

Começou por Charmander, por sua descrição na Poké-Agenda.

Charmander, o Pokémon Lagarto. É o Pokémon Inicial de Fogo da região de Kanto. A chama na ponta de seu rabo indica a sua saúde, se fraco, o fogo será menor, assim como com suas emoções. Quando calmo, a chama tremulará de maneira leve, quando nervoso, se tornará extremamente intensa.

Sua natureza era Alegre, o que diminuía o poder de seus ataques especiais, mas aumentava sua velocidade. Seu nível permanecera em vinte, sua barra de saúde estava em 70% por conta da batalha com Bulbasaur, que foi a quem pertencia o status a ser visto em seguida.

Bulbasaur, o Pokémon Semente, é o Inicial de Planta da região de Kanto. Cheio de nutrientes, o bulbo em suas costas serve de sua fonte de energia. Por absorver os raios do sol, o bulbo aumenta na proporção que o Pokémon cresce. Por conta dessa espécie de fotossíntese, esse Pokémon pode ficar vários dias sem se alimentar e permanecerá bem.

Já o tipo folha estava bem diferente. Sua natureza, Quieto, aumentava seus ataques não físicos e diminuía sua velocidade. Sua saúde não passava de 5%, seu nível era 21.

Dan guardou os itens e voltou a encarar o lago. Assim como qualquer outro treinador novo, a repentina mudança nos níveis dos Pokémon Iniciais havia o surpreendido. Mas ele sabia que era necessário. Os níveis menores dos Pokémon selvagem naquele ano eram 15 (exceto por Bulbasaur, que com certeza tivera um treinador), então era necessário um aumento nos dos Iniciais.

Ele soubera também que, para permanecerem sendo como na tradição, todos os Professores Pokémon utilizavam Everstones, assim os outros como o Charmander não evoluíam, e quando o dia de entregá-los chegava, eles pegavam as pedras de volta.

Pensou na outra mudança, a rota. Mal conseguia imaginar que árvores (coisas simples como árvores!) conseguiram obstruir o caminho para a cidade. Ou pior! Conseguiram destruir a cidade de Viridian! Tudo isso em apenas trinta anos! Tentou imaginar como teria ficado a cidade, mas estremeceu quando a imagem surgiu em sua mente: os dois únicos prédios abandonados, estradas destruídas por raízes, árvores atravessando calçadas... Se aquele lugar ainda existia, não gostaria de visitá-lo.

Estava em seu devaneio ainda quando Bulbasaur o empurrou levemente com a cabeça. Dan olhou e percebeu que os três agora estavam sorrindo, inclusive o Pokémon Aquático. Ou pelo menos o menino imaginou que eram sorrisos.

Charmander pegou do cinto do treinador uma das Poké Balls vazias e a estendeu, entregando ao treinador. Os dois se entreolharam e tiveram um consentimento mútuo: Aquele Squirtle merecia um treinador.

Levantou-se e limpou a calça. Jogou a Poké-Bola no Pokémon. Sabia que não era necessário uma batalha e teve certeza disso quando o objeto capturou a criatura sem nem ao menos balançar uma vez. Seja lá o que os Pokémon tinham conversado, eles conseguiram fazer o Selvagem se tornar Pokémon de Dan.

Ele voltou para a cidade e recuperou a saúde de seus Pokémon. Deixou apenas Bulbasaur fora de sua Ball, o que deixou o Pokémon ainda mais feliz.

Os dois saíram da cidade sem olhar para trás. Ambos tinham medo de que, algum dia, voltassem sem o amigo para o lugar, mas é claro, nenhum dos dois saberiam que o parceiro pensava nisso enquanto seguiam juntos.

Notas finais
Gostaram? Sei que o capítulo foi meio parado, mas o próximo garanto ser melhor! Até dia 15!