Lealdade sem Fronteiras #1
15 Capítulo 15 - Versus Zebstrika
Notas iniciais
Dan Young
Eu não podia ter ouvido aquilo certo. Meiko queria se entregar?!
— Você está louca?!
Ela só podia estar. Levantei de súbito, querendo segurá-la, mas apenas fiquei na frente dela para que olhasse em meus olhos. Se Mei não fosse uma mulher, eu lhe dava um soco.
O Growlithe dela latia alto. Eu apenas ignorava.
— Dan, fica calmo, 'migo. — Scott disse, com seu estranho sotaque do norte de Unova.
— Ficar calmo?! Ela quer se estregar, Scott! — Olhei para ele, inconformado. — Você simplesmente vai deixar?!
Scott levantou também, ficou entre nós e olhou para Meiko. Olhei para Rex para só então perceber que ele não latia para mim. Latia para a garota.
Ele também não queria que ela fizesse aquilo.
— Dan não está errado nisso. Você chegou muito longe para desistir agora, não acha?
Mei desviou o olhar, se afastou de nós, como se lentamente se fechasse dentro de si novamente, e voltou a andar de um para outro, em silêncio. Eu me afastei antes que começasse a gritar com ela de novo. Aflito, passei a mão pela minha cabeça. O desespero não deveria me trazer uma luz? Mostrar-me o que eu deveria fazer?
Por que eu não conseguia pensar em nada agora?
Dei um soco em uma árvore, frustrado. Um Caterpie caiu e se afastou com medo. Pichu pulou e se escondeu em minha mochila. Sendo um bebê, provavelmente não gosta de climas como aquele. Squirtle o acompanhou, mas apenas se escondeu atrás de uma mochila.
— Eu tenho algo próximo de uma ideia. — Dessa vez, a frase veio de Scott.
— Qual? — perguntei olhando para ele. Mei também o fitou, ainda sem dizer nada.
— Ainda não é algo sólido como um plano, porém mesmo um abstrato pode nos ajudar agora. Vocês podem até mesmo pensar em uma maneira de fazer isso realmente funcionar, algo possivelmente mais elaborado e com maior possibilidade de acertos. — explicou, ainda sem dizer nada quanto à sua sugestão. — Podemos escapar se conseguirmos fazer os policiais focarem em um lugar apenas. Como uma distração. Algo que chame atenção em uma das saídas, para escaparmos por outra, de preferência nada perigoso demais para nós como uma isca como Mei sugeriu.
Ele falou muito, e no final era apenas para sugerir uma distração.
— Ok, mas como e onde? — perguntei.
— Onde eu já sei, se possível. — Scott continuou. — Se sairmos pela entrada de Pewter, podemos ir para a base da Equipe Fermata. É logo depois de Pewter.
Depois de um longo tempo em silêncio, Mei finalmente voltou a falar. Provavelmente apenas por não ter opção, pois seu Shinx estava falando tanto com ela quanto conosco.
— Spyke tem uma sugestão. — Sua voz estava baixa. — Viemos voando em Skarmory, certo? Se virem ela voando, provavelmente vão pensar que somos nós.
Scott pareceu pensativo, assentindo.
— Ela é a única dos meus Pokémon resistente às armas deles. Os projéteis não tem efeito contra sua pele de ferro. — acrescentou Scott.
— Mas não vai adiantar se eles notarem que ela está sozinha. — comentei, imaginando tudo. Se fosse eu observando, a primeira coisa que notaria é a falta de alguma silhueta em cima do Pokémon.
— Podemos enviar Pokémon humanóides. — Scott sugeriu. — Caso vocês tenham algum.
— Magi. — disse Mei. — Minha Alakazam.
— Acho que o Sawk também pode ajudar. — completei.
Durante poucos minutos, continuamos formulando mais detalhes do plano. Recolhemos nossas coisas e Pokémon e nos preparamos para correr. Nós três soltamos nossos Pokémon que ajudariam no plano ao mesmo tempo. Mei falou com eles, pois Scott e eu sabíamos que eles não entenderiam coisas complexas como aquelas se fôssemos nós a explicar.
Eu estava observando Mei enquanto ela conversava com os Pokémon. Era difícil acreditar que ela aprendera aquilo forçada por Mewtwo. Ela falava naturalmente com as criaturas como se falasse com um humano. No entanto, embora ela parecesse natural, também parecia concentrada, parecia prestar atenção até mesmo em gestos, olhares e tons de voz, como se até os mínimos detalhes fossem importantes.
Mei levantou e olhou para nós. Sua expressão sequer mudava ao conversar conosco.
— Está tudo pronto. — declarou.
— Vamos ter que correr muito. — disse Scott.
Meiko não pareceu ligar para o comentário.
— Eu estou acostumada com esse tipo de coisa.
Não admiti que eu não estava. Assentimos uns para os outros e observamos Skarmory levantar vôo com Alakazam e Sawk. Meiko, assim como combinado, liberou seu Pidgey. Ele disse algo em sua língua, ela explicou tudo rapidamente e o pássaro voou em direção à saída que usaríamos. Ele seria nosso informante quanto à situação de nossa rota de fuga.
Pegamos nossas coisas rapidamente, prontos para correr. Ainda levou mais alguns desesperadores minutos para Pidy voltar e avisar Mei sobre a situação. Ele começou a piar e Meiko, sem parecer sentir dificuldade alguma, começou a traduzir para nós.
— Parece que os policiais foram para longe, direto para Cerulean. Pewter está bem menos protegida agora, mas ainda é perigoso, pois eles estão pelos arredores.
Eu xinguei baixo. Não planejamos para onde Skarmory iria, e a única opção sem ser atraí-los para dentro da floresta foi, pelo visto, enviar na mesma direção que nós vamos.
— É melhor irmos. Agora. — Scott declarou.
Mei seguiu na frente. Ela era a única que não perdia tempo com um mapa. Scott seguia logo depois, assim como ela com certa naturalidade em andar entre tantas árvores, arbustos, galhos, espinhos, morros, raízes altas.
Só eu ficava para trás. Por que ninguém parecia se incomodar com tanto obstáculo? No que deveria ser a metade do caminho, eu já estava repleto de cortes e já tinha tropeçado inúmeras vezes.
Quando chegamos às últimas árvores, Mei parou e nos esperou. Depois de um momento controlando a respiração simplesmente respirando fundo, ela inspirou erguendo os braços e expirou os abaixando, com os olhos fechados e uma concentração perceptível. Não parecia ser apenas pelo cansaço de ir até ali. Parecia mais um ritual para se preparar, como se estivesse tentando controlar algo além da respiração. Talvez os próprios sentimentos.
Scott ficou do nosso lado e olhamos para frente. Os Guarda-Treinadores de sempre estavam lá, um ponto negativo, mas as portas estavam abertas, um ponto positivo.
— Por aquelas portas. No três... — Scott começou.
Certo. Correr como um desvairado. Você consegue, Young.
— Dois…
Caralho! No que eu estava me metendo?!
— Um…
Não tem como paralisar o tempo e voltar, não?
— AGORA! — Scott gritou.
Como dois competidores de cem metros rasos, Mei e Scott partiram rápido. Eu fui no segundo depois. Eles tiveram um reflexo para correr na hora certa maior que o meu, então eu não conseguia alcançá-los. Mei parecia correr na mesma velocidade que eu, Scott era bem mais rápido devido ao seu tamanho, então eu nunca conseguiria alcançar eles.
Os Guarda-Treinadores nos encararam, como se perguntando por que corríamos. Encararam cada um de nós. Seus Golem prepararam pedras, também nos fitando. Scott. Eu. Mei.
Mei.
Eles iriam reconhecê-la.
— POKÉMON! — eu gritei, demonstrando um desespero que soou bastante verdadeiro. Eu estava desesperado. — POKÉMON GIGANTE ATRÁS DE NÓS!
Sua atenção desviou para a floresta atrás de nós. Deixaram que entrássemos e fecharam os portões logo em seguida, ficando do lado de fora. Mei, sem parar, correu para dentro da cidade e se escondeu em um beco escuro, despistando os Guarda-Treinadores. Scott e eu conseguimos os convencer que talvez tivéssemos despistado, mas não queríamos voltar lá tão cedo, iríamos para casa. Eles nos deixaram passar, apesar do mais baixo ainda nos encarar, semicerrar os olhos e murmurar algo com o outro.
Scott e eu voltamos a correr e entramos no mesmo beco.
Caí sentado no chão, ofegante, ao lado de Mei. Scott parou na nossa frente, do mesmo jeito. Aquela era só a primeira parte, mas não duraríamos muito se corrêssemos por toda Pewter sem um descanso.
— Vocês estão bem? — perguntei.
Scott assentiu. Mei apenas ficou quieta. Aquilo era tão comum nela que considerei como uma resposta positiva.
Depois de alguns minutos, Pidgey passou voando na frente do lugar que estávamos e sumiu, pois era difícil se esconder no céu da cidade e provavelmente teve de se esconder antes de entrar lá. Pouco depois, entrou na rua que estávamos como uma bala e pousou no colo de Meiko. Voltou a piar. Mei assentia algumas vezes, e outras parecia fechar a expressão de modo que eu conseguia perceber que não eram boas notícias. Na verdade, eram péssimas notícias. Meiko controlava suas expressões quando falava com alguém e não controlar era sinal de algo grande. No final, ela virou para nós. Era difícil ler sua expressão com certeza, eu só reconhecia algo… sombrio.
— Os policiais se separaram. A maioria já está na Rota antes de Cerulean ou rondando por esta cidade. Alguns poucos ficaram entre Pewter e o Monte Lua.
Monte Lua era o nosso objetivo. De acordo com Scott, a base da Equipe Fermata ficava em algum lugar na lateral da montanha, no subterrâneo da floresta.
Depois de alguns minutos descansando, algo que chegamos a um decisão unânime sem palavras de que precisávamos, nós levantamos e voltamos a correr.
A caminho da Rota 4, eu pensei no quanto minha vida estava agitada. De início, eu pensava ter uma jornada normal. Correr apenas para escapar de Pokémon, fortalecer meus Pokémon através de seus status, fazendo ótimas combinações de ataques de acordo com seus IVs, derrotar os Pokémon certo para ganhar os EVs certos. Tudo estava tão bem planejado, dois anos pensando em toda uma jornada e aqui estou eu. Fugindo da polícia junto com uma garota acusada de genocídio e um cara que não conheço e confio apenas por ter cuidado dos meus ferimentos.
Como eu cheguei aqui mesmo?
Eu estava imerso ainda mais em meus pensamentos quando ouvi um rápido bater de asas e Pidgey deu um rasante desesperado sobre nossa cabeça, piando.
— MAIS RÁPIDO! CORRAM! — Mei disse, não sei se traduzindo ou apenas dizendo, e voltamos a correr.
Apenas alguns minutos depois, virando uma curva, a vários quarteirões de nós, policiais apareceram correndo, junto com os dois Guarda-Treinadores de antes, que apontaram para nós três e eles aceleraram. A distância ainda era grande, estávamos logo no final da principal avenida de Pewter, enquanto eles haviam acabado de chegar ao início dela. Mas logo eles estariam perto de nós.
Xinguei outra vez e tentamos acelerar nosso passo. Tudo parecia perdido. Mesmo que conseguíssemos despistar aqueles, ainda havia mais pela frente. Como passaríamos?
Comecei a ouvir sons que eu não reconheci de primeira. Eram estampidos altos e secos, seguidos de um barulho abafado. A terra perto de nós era levantada algumas vezes, como se algo batesse com velocidade e força altíssimas contra ela. Até mesmo algumas paredes foram atingidas. Foi apenas quando um atingiu Scott que eu entendi do que se tratava.
Tiros.
Otero começou a cambalear, tocou a perna e eu vi. Aquele líquido vermelho. A mão dele estava empapada.
Sangue.
Ele olhou para a perna e tentou voltar a correr, mas no primeiro passo caiu no chão com um gemido alto. Evitava tocar no ferimento, como se sequer pudesse pensar em encostar naquilo. Eu parei para ajudar, desesperado. O que se faz quando alguém leva um tiro? Por que ninguém nunca ensinou isso naqueles programas de sobrevivência? Será que ninguém nunca considerou um tutorial de “Como sobreviver ajudando um genocida”?
Os tiros continuavam, cada vez mais próximos. Pelo visto, aquele que o atingiu fora pura sorte do atirador. E azar nosso. Olhei em volta, Mei estava bem adiantada, ainda correndo.
— MEIKO! — eu berrei, desesperado. Nunca conseguiria correr carregando Scott sozinho. Eu precisava de ajuda.
Mas então eu percebi.
Por que Mei nos ajudaria?
Scott e eu éramos a distração perfeita para ela se livrar daquilo correndo. Nós seríamos presos por sermos cúmplices e ela escaparia quase sã e talvez salva.
Mei parou, olhando para nós, e em seguida para o caminho à frente.
— Ajude-nos... — eu pedi, quase implorando. Tentava apoiar Scott, seu braço por volta do meu pescoço, mas aquilo não era suficiente. — Por favor...
Mei nos fitou e depois fitou mais tempo ainda sua rota de fuga.
É… Estávamos perdidos.
Outro tiro, dessa vez pouco atrás de nós. Com dificuldade, comecei a puxar Scott comigo. Seu braço estava ao redor do meu pescoço, ainda assim, de nada adiantava pois ele ainda não conseguia andar. Sua perna tinha tanto sangue que a visão me causava vertigens. Eu desviei o olhar e tentei me concentrar apenas em apoiá-lo. Dois pés se juntaram aos nossos três inteiros e um machucado e eu estranhei. Olhei para cima, para o outro lado de Scott.
Meiko... Ela tinha voltado para nos ajudar.
— Mei… — eu gaguejei. Ela deu um sorriso pequeno e, com mais facilidade, nos apressamos para a saída.
Olhei para trás, apenas para notar que os policiais estavam mais perto. Metade da distância que havia de início.
Assim que saímos da cidade, viramos para a extrema direita e entramos no mato, nos escondendo atrás de algumas árvores, dentro do mato alto. Ele se escondeu atrás de uma árvore. Mei e eu o seguimos. Os policiais, depois de pouquíssimos minutos, passaram por ali também. Não nos viram, pois Mei fez Pidgey ficar numa árvore próxima. Além de algum som nosso poder ser associado a ele, os policiais pensaram que, se havia Pokémon tranquilo ali, não havia humano.
Scott estava péssimo. Suava muito, com a respiração entrecortada. Depois de um longo momento, ele olhou para mim. Ele estava calmo, mas eu podia ver claramente a dor na sua expressão. Também via um pedido silencioso. Ele estava com tanta dor que mal conseguia falar.
Assenti, sem mais palavras. Sabia que ele queria minha ajuda. Peguei a mochila nas costas dele. Mei estava vigiando a Rota 4.
Com a ajuda de gestos e palavras pequenas e roucas de Scott, consegui fazer um curativo na perna dele e dar-lhe remédio para a dor. Aparentemente, o tiro foi mesmo muita sorte do atirador. Fora de raspão e, pelo ângulo do machucado, havia sido na verdade ricocheteado antes de chegar a Scott. Ele disse que não sentia dor exatamente, só uma extrema queimação no local, e que pisar no chão era a única coisa que ele não estava suportando, pois aí sim a dor aparecia.
Comecei a guardar tudo. Havia tanta coisa para primeiros socorros na mochila dele que me perguntei se ele nunca esquecia nada para viajar. Como eu e a lanterna.
— Precisamos… — Scott disse, depois de um tempo tomando fôlego em meio à dor. Sua voz estava calma, como sempre, mas ele não era de ferro. Também havia perdido o fôlego e a rouquidão devido ao esforço era notável. — ...nos disfarçar. Ou nunca passaremos.
A Ketchum não pareceu se importar em ouvir aquilo.
— Vocês dão seu jeito. Eu já volto. — colocou a mochila nos ombros e entrou no mato.
Scott e eu nos entreolhamos e resolvemos trocar algumas coisas. Coloquei o boné nele, usei o gel da minha mochila para abaixar meu cabelo espetado, se tornando algo que eu odiava, parecia que um Lickitung havia lambido meu cabelo para o lado.
Eu tirei minha blusa de frio e troquei com ele. Coloquei o uniforme dele do avesso, pois ficava com uma cor preta, que escondia as costuras para fora e ainda sim diferenciava de nossas roupas anteriores. A blusa dele era grande em mim, mas não tínhamos opção. Eu estava com uma camisa branca por baixo, o que fez parecer que eu estava com uma roupa social. Aproveitando a deixa, peguei uma calça preta minha na mochila. No final, Scott parecia um garoto de rua com roupas pequenas e eu parecia um empregado.
Depois de alguns minutos nos sentindo ridículos e até rindo da situação, Meiko voltou a aparecer.
Ou eu acho que era Mei.
Ela estava tão...
Tão... Linda.
Tinha dado um jeito de mudar a cor dos seus olhos de novo, com ajuda de algum de seus Pokémon, para um amarelo energizado. Sua cabeça estava repleto de florezinhas brancas do mato, mas que pareciam se encaixar com seu cabelo preto como apenas enfeites de verdade, não algo improvisado no meio das árvores. Eu nunca o vira preso como estava, como em um coque com aqueles objetos estranhos que geralmente só as mulheres sabem o nome.
Sua roupa era uma que eu sequer imaginava que ela tinha na mochila. Aliás, eu nunca a imaginaria usando algo como aquilo.
Seu vestido era florido e alegre, com flores amarelas como seus olhos e o resto do tecido vermelho. Ele lhe cobria todo o corpo, pois arrastava no chão e tinha mangas longas, provavelmente para esconder as cicatrizes, mas parecia servir perfeitamente bem nas curvas do seu corpo. Ela lembrava as mulheres de séculos atrás.
Por um longo momento, eu não consegui desviar o olhar. Parte de mim se perguntava "Aquela é a Mei?" e a outra parte, uma parte maior, questionava "Desde quando ela é tão bonita?".
Mei olhou para o próprio corpo.
— Acham que é o suficiente? — depois olhou para mim e então para Scott.
Scott assentiu demonstrando certeza.
— Convincente de um modo impossível de saber que é você. — ele disse. — E, aliás, você está muito bonita, moça.
Mei não pareceu ouvir o comentário. Fechei minha boca antes que começasse a babar.
— Eu tenho uma idéia. — disse Scott. — Vocês dois vão na frente com meu Zebstrika. Podem fingir que Dan está guiando o cavalo e ela é uma lady. Vocês sabem que não é raro senhoritas ricas mandarem seus criados batalharem por elas. — completou.
Mei quase não consegue esconder uma careta, mas nada disse. Não entendi o porquê e não me importei. Balancei a cabeça quanto à sugestão.
— Não. Você pode ir no Zebstrika, isso ajudaria muito na sua locomoção. — insisti.
Ele negou.
— Você tem um Ralts. Com ele será ainda mais fácil se ele souber Teleport e se ele quiser nos ajudar. Basta falar através da Telepatia.
Ele não estava errado. Liberei Ralts, que olhou em volta, encarando cada um de nós.
Aflição…, ouvi ele dizer em minha mente.
Mei semicerrou os olhos, observando Ralts com uma atenção que apenas ela tinha. Talvez tivesse ouvido ele também. Dei de ombros e olhei para meu Pokémon.
— Vá em frente, moço. — Scott me disse. — É só pensar bem alto, como se falasse na própria cabeça.
Mei olhou de Ralts para mim. Sua expressão era estranha ainda. Eu resolvi fazer de uma vez.
Estamos fugindo, Ralts, e preciso que nos ajude.
Era definitivamente estranho aquilo. "Pensar alto" para "falar com um Ralts" por Telepatia. Falar com um Pokémon. Eu me sentia ignorado como havia acontecido quando falei com Bulbasaur.
Teleporte-o para a lateral do Monte Lua, assim ele passará pelos policiais com facilidade.
Ralts continuou nos encarando. Olhava para cada um de nós, sequer se movia para fazer o que mandei.
A expressão de Mei apenas pareceu mais desconfiada.
Ralts? Você me ouviu?
Ele continuava quieto. Encarou-me, mas ainda parecia confuso.
Eu só entendi o motivo da expressão de Mei e do silêncio de Ralts quando ela explicou.
— Seu Ralts ainda está aprendendo a se comunicar Telepaticamente com humanos. — declarou. — Ele ainda entende apenas seus sentimentos, não sabe decifrar pensamentos e não sabe… digamos... converter palavras para poder entender o que significam. — olhou para nós. — Explicar por Telepatia não vai funcionar. Eu cuido disso. Vigiem.
Mei se abaixou na frente de Ralts e começou sua mágica de novo. Ninguém acreditaria se eu contasse. Era, ao mesmo tempo, fascinante e bizarro. Sua naturalidade era tão grande que a sensação é que qualquer um podia fazer aquilo, no entanto, sabíamos que se fosse um de nós no lugar dela, os Pokémon nos entenderiam como nós os entendemos.
Isso me fez ficar confuso com aquela capacidade. Era compreensível que ela foi forçada por Mewtwo para entender Pokémon, mas como os Pokémon a entendiam? Ela falava na nossa língua, não na deles. Porém, não pude perguntar. Scott e eu vigiamos a Rota de onde estávamos por apenas três minutos. Logo pegamos nossas coisas e estávamos prontos.
Scott foi o primeiro a ir. Mei havia combinado de nos encontrarmos na lateral direita do Monte Lua. O Teleporte foi um brilho rosa que envolveu ambos e eles desapareceram no segundo depois.
Mas agora é que as coisas realmente ficavam difíceis.
Já estávamos a caminho do cerco policial. Mei estava em Zebstrika, sentada de lado, com as pernas quase cruzadas, o que exigia um galope lento, e demonstrava delicadeza da parte dela. Sua postura estava sendo a orgulhosa de sempre, então naquele aspecto não houve muita mudança. Ela conseguiu controlar a expressão de preocupação, agora estava algo próximo de orgulho e calmaria.
Eu não conseguia tanto assim. Provavelmente parecia estar quase em desespero.
Nós havíamos usado uma Corda de Fuga¹ de Mei para fingir ser rédeas para o Zebstrika e eu o puxava na direção dos policiais. Nosso intuito era passar por eles.
Caminhávamos lentamente. Não demorou nada para ficarmos na vista das autoridades. Alguns hesitaram, outros se curvaram levemente para Mei. Eram poucos ali, mas eu podia ver que estavam falando sobre um grupo que fora procurar no Monte Lua. Eu parei. Não podia simplesmente passar. Precisávamos pedir permissão.
— Boa tarde, senhores. — eu me curvei diante deles, assim como Mei havia dito pouco antes de sairmos de lá. Aquilo foi um gesto estranho para mim. Eu não tinha costumes de Johto.
— Boa tarde, policiais. — Curvando levemente a cabeça, Mei deu um sorriso. Perguntei-me o quanto ela forçava aquilo. — Importuna-lhes algo? De conhecimento de minha parte, esta não é uma Rota de acesso proibido.
— Boa tarde, senhorita. — disse um deles. — Estamos a procura de um grupo de adolescentes. Uma é procurada há anos por genocídio, e é possível que ela tenha voltado à ativa.
— Que horror! — exclamou Mei, levando a mão ao peito, parecendo realmente horrorizada. Se a situação não fosse tão tensa, eu teria dado uma gargalhada. Porém, naquele momento, eu só conseguia suar. — Sinto-me imensamente aliviada, segura e, ademais, agradecida ao ver que há pessoas como vocês, senhores, que se empenham em tirar esse mal do mundo. — Mei fez outra reverência, dessa vez demonstrando mais respeito. Eu tentei acompanhá-la, apesar de ainda me sentir estranho.
Os policiais pareceram radiantes com o elogio e abriram passagem para nós, comentando sobre fazer todo o possível para mantê-la segura. Só havia um policial quieto, que talvez simplesmente não gostasse de falar. Agradecemos e seguimos em frente.
— Espere. Você, garoto. — ouvi um deles dizendo depois de estarmos alguns metros de distância. Era uma voz que ainda não ouvira, o que significava que era o único que havia ficado quieto todo o tempo.
Eu me virei lentamente, deixando Zebstrika de lado.
— Sim, senhor? — eu queria engolir em seco, mas minha garganta já estava seca o suficiente para me impedir.
— Como funciona isso de guarda-costas? Sempre tive curiosidade. — ele realmente parecia curioso. Seus olhos, negros como a pele, pareciam até brilhar por tanto desejar saber.
Eu abri a boca para responder. Eu não sabia exatamente como era, e aquilo estava me deixando nervoso.
— Existem dois tipos seguros possíveis de Jornadas Seguras. — disse Meiko, respondendo. Minha mente logo trouxe à tona o fato daquele ser o nome do que estávamos imitando. Uma senhorita rica com um segurança seguindo Jornada. — Há aquelas que preferem terem apenas guarda-costas, seguindo sua jornada por si só, se arriscando apenas nas batalhas, e há também aquelas como eu, que optam por uma segurança ainda maior, constituída por apenas o acompanhamento enquanto seu segurança…
Ela me indicou e eu assenti, quase em uma reverência de novo. Eu estava ficando enjoado. Aquilo nunca acabava? Era tudo tão antiquado que eu tinha que fazer… Como podiam os costumes de Johto serem tão diferentes de Kanto?
Mei continuava.
—… segue capturando em seu lugar. Todavia, as vitórias de D… David ficam no meu nome, é claro. — olhei para Mei. Ela tinha sido rápida, mas será que foi o bastante?
Olhamos para eles. O policial de antes apenas assentiu e fez um sinal para continuarmos.
Nós seguimos em um tenso silêncio em frente, mantendo a mesma velocidade de antes por um longo tempo, até termos certeza de que eles não estavam nos vendo. Mei assentiu para mim, passou uma das pernas para o outro lado, realmente tomando o controle de Zebstrika agora, e eu montei no Pokémon também, logo atrás dela.
— É melhor segurar. — Mei avisou, esperando.
Eu não sabia ao certo como ela conhecia montaria, ainda assim eu precisava obedecer, pois ela nunca dizia nada a toa. Procurei algum lugar onde segurar, mas o resultado foi apenas ficar sem jeito nenhum quando tentei segurar no corpo de Zebstrika.
Mei revirou os olhos e me encarou pelo canto do olho.
— Continue assim e cairá no primeiro passo.
Eu hesitei, sem saber onde segurar. Constrangido, passei minhas mãos ao redor da cintura dela. Meiko ficou quieta, o que significava que estava certo.
Mas não era o que meus instintos diziam. Eu ainda queria correr. Ao meu toque, Mei era tão frágil... Mesmo através da roupa, eu tinha a sensação de que seu corpo era feito de vidro, o mínimo impacto machucaria ela. Mas eu sabia que não era verdade. Mei era mais forte do que parecia.
E aquilo só ficou mais evidente quando Zebstrika correu.
A velocidade foi alta, eu tive de segurar Mei com mais rigidez, praticamente abraçando sua cintura. Estava feliz por ela não poder ver meu rosto, pois estava quase envergonhado. Mas conforme Zebstrika corria e pulava o mato alto e as pedras pelo caminho, eu me sentia quase… feliz.
O vento contra meu rosto, desarrumando aos poucos meu cabelo para o bagunçado de sempre, a habilidade de Mei na montaria, os músculos de Zebstrika se movendo sendo sentidos pelas minhas pernas, a adrenalina de correr através do espaço em tamanha velocidade e, acima de tudo, sentir o corpo de Mei envolto em meus braços... Por que tudo aquilo parecia tão... Perfeito?
Até o fato de Mei não poder me ver envergonhado era bom.
O cabelo preto dela voava ao vento, eu não conseguia ver seu rosto, mas por algum motivo eu sentia que o mesmo sorriso que eu tinha podia ser encontrado pelo menos em uma sombra nos lábios de Mei.
Quando chegamos ao Monte Lua, Mei fez Zebstrika parar e acariciou seu pescoço. O Pokémon bufou, feliz. A menina se inclinou e pediu para ele nos guiar até a Team Fermata. Zebstrika voltou a correr.
— É. Ele realmente conhece o caminho. — Mei disse alto para que eu ouvisse, mesmo com o vento forte fazendo sua voz sumir um pouco.
Eu apenas assenti.
Zebstrika contornou o Monte lua pela direita, pulando pedras, depressões e relevos. Parecia que ele apenas era um Pokémon selvagem subindo a montanha, mas assim que chegou ao topo de um pequeno morro, ele voltou a descer, indo para a floresta.
Ao entrar na floresta, não demorou muito mais parar. O que foi estranho, pois parecia que não havia nada ali. Sequer era uma clareira, apenas mais um dos pontos onde a floresta era densa, porém não o suficiente para impedir Zebstrika. Por que ele deixou a gente ali? Não havia trilha, não havia acampamento, não havia nada.
Mei desceu, e eu a segui. Ela não parecia menos perdida que eu, porém era mais controlada.
— Por que o Zebstrika nos deixou no meio do nada?! — perguntei, irritado. Eu ainda acreditei que o Pokémon nos traria para o lugar certo? — Não tem base nenhuma aqui!
— Ele disse que é aqui. Não sabe onde exatamente nem como os humanos entram, mas é. — insistiu minha companheira de jornada. Ela parecia, como sempre, imersa nos próprios pensamentos, como se concentrada em algo que apenas ela era capaz de se concentrar.
Meiko pegou uma Poké-Ball e liberou dois Pokémon. Growlithe, como todas as outras vezes, e Spyke, que parecia sempre a dupla dele.
— Rex, Spyke, conseguem procurar por Scott? — o tipo Fogo assentiu e começou a farejar o ar e o chão a procura. O Elétrico assentiu e fez o mesmo, um pouco mais longe.
A Ketchum olhou para mim.
— Agora nós esperamos. Ou saímos gritando por ele. Eu prefiro a primeira opção. — ela declarou.
Eu franzi o cenho. Qualquer uma para mim era aceitável, eu só queria sair daquela mata logo.
— Groowlithe!
Meiko olhou para Rex, franzindo o cenho.
— O que quer dizer com isso? — perguntou.
Eu tentei não estranhar de novo. Para mim, "Groowlithe" queria dizer "Groowlithe".
Rex voltou a falar do jeito dele. Como ele estava agitado, logo Spyke também apareceu, sentando e repetindo tranquilamente seu nome.
Mei suspirou.
— Eles não conseguem farejar. Parece que o rastro acaba exatamente onde estamos. — ela balançou a cabeça. — Acho que vou embora. Seguir a jornada, perseguida ou não, faz mais sentido do que tudo isso.
— Ele está com meu Ralts. — eu disse.
De repente, um brilho rosado nos ofuscou. Alegre, pensei ser Scott. Mas quem surgiu dele foram Skarmory, Sawk e Magi. Os três pararam no chão e nos encararam. Pareciam completamente agitados, exceto por Magi, que só parecia pensativa. Sawk, como estava inquieto, olhou em volta, andou alguns passos e olhou para mim. Fez um gesto com a cabeça, como se esperando ordens. Magi e Mei se encararam um longo momento. Julguei ser Telepatia. Depois Olharam para Skarmory, que as encarou um momento de novo e voou para longe.
Nós dois retornamos Magi e Sawk depois de um tempo.
— Skarmory também diz que é aqui.
Comecei a olhar ao redor.
Talvez, se juntássemos as informações, conseguiríamos descobrir o que estava acontecendo.
Scott dissera que a base era em algum lugar da direita do Monte Lua, onde estávamos. Rex dissera que o rastro acabava ali, o que indicava que era onde estávamos, enquanto Zebstrika dissera que não sabia como os humanos entravam, e Skarmory confirmou todas as informações.
Se era uma base… era secreta. Ou seja, não era visível.
Olhei em volta. Eu aprendi com meu pai nas minas que, muitas vezes, os minérios não estão escondidos, apenas tão visíveis que ninguém os procura em lugares tão óbvios. Tão visíveis que ninguém vê.
O que estava tão visível que nós estávamos ignorando?
Olhei ao redor.
Árvores.
Caminhei até uma e comecei a analisá-la.
— Dan? — Mei chamou, estranhando.
Eu ignorei, procurando. Tinha que ter alguma coisa. Continuei vendo outras árvores, até que uma em especial me chamou a atenção. Aliás, era a que eu menos estava dando bola, pois parecia muito normal. Mas nada é tão normal que é perfeito, certo?
Em um lugar do tronco, havia uma pequenina saliência, como um botão, escondido abaixo de um galho grosso, que fazia sombra e escondia ainda mais. Embora meu coração dissesse que aquilo podia explodir alguma coisa, considerando que eu não sabia para que servia, eu apertei.
Esperei algo grandioso. Uma enorme rocha sair do chão com barulhos de pedra contra pedra, abrindo uma porta revelando uma enorme entrada, para um lugar mais iluminado que a própria floresta, com admiráveis colunas dóricas portando candelabros escuros, porém que iluminam todo um corredor à frente. Paredes esculpidas de maneira arcaica e, ao mesmo tempo, elegante… Tudo o que um dia eu, quando criança, acreditava que meu pai procurava nas minas, quando achava que ele escavava atrás de artefatos, não de minérios para nossa sobrevivência com o pouco dinheiro que ganhava.
Por que a realidade é sempre tão decepcionante?
Tudo o que aconteceu foi todas as árvores repentinamente serem afastadas, como se uma enorme tesoura invisível cortasse a terra em duas partes. Era como um alçapão que abria ao meio, empurrando tudo para os lados. Eu não sabia como exatamente eles conseguiram fazer algo tão eletrônico ser tão semelhante à natureza, mas eu deveria admitir que, embora o interior fosse chato, aquilo era mesmo fascinante.
Olhando pela beirada do buraco, sua abertura deveria ter pelo menos três metros quadrados. Lá embaixo, eu via apenas uma plataforma de ferro, com faixas azuladas, que levava a um túnel escuro.
Zebstrika desceu primeiro, levando em suas costas Mei. Eu pulei logo depois. A altura era de pelo menos dois metros e meio, mas consegui pular e cair abaixado sem machucados.
As portas fecharam acima de nós, deslizando até encostar uma na outra e parecer novamente o mesmo lugar de antes. Assim que a luz do sol através das árvores, única coisa que nos iluminava, foi tampada, lâmpadas quase ocultas foram acesas, revelando um corredor que descia até duas portas pesadas, com duas câmeras em cada canto superior e um estranho painel do lado contendo uma tela contornada de azul e dois botões, um cinzento, como todo o resto, e um vermelho, que se destacava dos demais.
Algo me dizia que ele não era um bom botão.
Mei e eu voltamos a nos encarar. Eu estava prestes a sugerir de apertar o botão branco quando a tela de repente ligou. A imagem que eu vi foi tão estranha quanto toda a situação. Havia um garoto, mais velho que a gente em alguns anos, com olhos verdes, mas era tudo o que eu sabia. Sua cabeça estava coberta por algo semelhante a uma máscara ninja, com cores diferentes. Ao redor do buraco que revelava apenas seus olhos, havia um contorno cinzento, enquanto todo o resto era azul. Cinza e azul como todo o lugar que estávamos. Atrás dele, eu só conseguia ver um símbolo. Era como uma pedra de diamante, dela irradiavam faixas metálicas. Eu lembrava vagamente de ter visto o mesmo símbolo no uniforme de Scott.
— Nomes. — disse o Ninja-Azul-Estranho.
— Dan Young. — respondi de prontidão.
Já a Ketchum demorou um pouco.
— Meiko Hikari. — respondeu por fim e eu olhei para ela.
— Pode entrar, Dan Young. Você fica, Meiko Hikari. — ele respondeu. Eu podia ver o reflexo de um computador nos olhos dele. Talvez ele tivesse uma lista de quem pode entrar.
— Mei. — olhei para ela. — Diga seu nome.
— Eu já disse. — Meiko olhou para mim. Seus olhos rosas devido à Telepatia demonstravam acusação, como se ela achasse errado eu pedir para ela revelar seu nome verdadeiro. Eu fiz um gesto disfarçadamente, indicando ele. Ela olhou, percebeu o reflexo e suspirou. — Meiko… Ketchum.
— Ah, sim… Podem entrar. — a imagem no painel sumiu e as portas se abriram. Eram extremamente grossas. Nós entramos e elas fecharam atrás de nós.
Por dentro, nada havia mudado, era apenas um longo corredor, mas dessa vez não estávamos sozinhos.
— Enfim entraram! — Scott ergueu as mãos, como se comemorando. Ele apoiava o peso em uma perna só e então eu entendi o motivo de ele não nos esperar. Entrara para cuidar logo de seu ferimento, que agora tinha sido bem cuidado, com um curativo bem feito.
Ralts, ao lado dele, correu até mim assim que me viu. Admito que uma parte pequenina de mim estava preocupada com ele. Seu chifre brilhou e ele sorriu. Provavelmente sentiu o mesmo que eu. Sua Telepatia, ou o que quer que fosse enquanto ele não entendia direito, surgiu novamente.
Saudade!
Estranhei. Eu não senti saudade, só estava preocupado.
— Ele que sentiu. — Mei disse, dando um raro sorriso. Encarei ela. Como ela podia saber?
— É hora de eu realmente lhes apresentar a Equipe Fermata. — Scott sorriu.
Mei semicerrou os olhos.
— Eu ainda não aceitei entrar. Apenas estou tentando ficar viva, fugir e me esconder. — declarou.
Eu não respondi. Scott insistiu.
— Você tem todos os motivos possíveis para entrar, moça.
— Eu duvido muito. Quais seriam? — ela teimou.
— Na verdade, acredito que três deles vão te convencer. — ele deu um sorriso orgulhoso, como se tivesse toda a certeza do mundo.
Eu só esperava que ele não a irritasse ao ponto dela lançar aqueles olhares mortais que sempre lançava para mim.
Rex começou a rosnar.
Talvez ela não precisasse. Aquele mini cachorro já assustava bastante.
— Motivo número um: — começou ele — Somos a melhor rota de fuga para que sobreviva.
Ketchum apenas cruzou os braços, desconfiada. Seu Growlithe estava sentado ao seu lado, sério como sempre, soltando um grunhido desconfiado da garganta. Parecia até um segurança.
— Motivo número dois: — insistiu — Podemos ajudar a senhorita a se tornar inocente. Acabar com essa perseguição.
Meiko só parecia mais cética. Growlithe deu um latido, ameaçando Scott, como se dizendo que nem ele acreditava naquilo.
— E o último? — perguntou desdenhosa.
Scott deu um sorriso vitorioso antes mesmo de falar o que era.
— Podemos ajudá-la a recuperar sua memória. — Otero disse.
Mei empalideceu, descruzando os braços, e hesitou, sem conseguir responder.
— Touché! — exclamei. Os dois me encararam como se eu fosse um louco. Resolvi ficar quieto de novo, apesar de odiar ficar em silêncio. Era algo que não era da minha natureza. Deixava-me inquieto. Se continuasse daquele jeito, eu sairia correndo a qualquer momento.
Rex estava rosnando como se realmente fosse arrancar um pedaço da perna de Scott, mas ninguém lhe dava atenção.
— Você está falando sério? — Ketchum perguntou com seriedade, parecendo até com medo de perguntar.
Scott assentiu. Não parecia estar brincando.
— Nós procuramos ajudar todos que fazem parte da equipe. E não queremos que você seja a única que não podemos ajudar. — Scott fez um sinal para o seguirmos e caminhou pelos corredores de maneira leve, mas ainda que mancando um pouco. Continuava falando. — Temos contato com dois Elgyem, que também são companheiros de um Beheyeem. Se conseguirmos explicar sua situação por Telepatia, talvez consigamos recuperar suas memórias. E eu acho que a possibilidade de conseguirmos é grande, porque embora o labirinto da mente seja complicado para os humanos, não é para os Beheyeem.
Scott parou, novamente apoiando o peso na perna esquerda, que não estava ferida. Desde que começamos a andar, passamos por outros corredores mais largos, mas dessa vez realmente sendo, ou como deveria ser, a Base da Team Fermata. Repleto de portas identificadas e com fechaduras seguras, quadros de membros, líderes, e outras pessoas, figuras de arte, em geral de lendários, quase como uma cidade escondida, parecia um enorme complexo subterrâneo. Se eu tivesse que deduzir, aquele lugar no subterrâneo ocupava todo o espaço que o Monte Lua ocupava. Agora, estávamos em frente a duas portas brancas. Diferente das outras, as plaquinhas não continham nome nenhum. Apenas continham mais dois dos mesmos quadros, com um Pokémon que até então eu julgava lendário, pois nunca o vira.
Scott continuava explicando, enquanto Mei prestava bastante atenção.
— Partindo do pensamento que você conseguiu recuperar uma parte das memórias visitando a caverna, eu estive pensando que você não as perdeu totalmente. — ele apontou para testa de Mei. — Elas ainda estão aí, o seu trauma apenas as bloqueou. Se eu estiver certo, coisa que a chance de estar é grande, Beheyeem poderá alcançá-las acessando seu subconsciente e poderá trazê-las de volta. — Scott concluiu, parecia empolgado.
— Você quer dizer… — eu disse, estava perdido. Ele parecia falar a mesma coisa em vários modos diferentes e aquilo estava me deixando confuso. —… que Mei pode recuperar as memórias trazendo do subconsciente com ajuda de Pokémon? — franzi o cenho.
Scott assentiu. Meiko apenas parecia avaliar cada detalhe da situação, como se procurasse algum caroço no angu.
— Qual é o porém? — ela perguntou.
— "Porém"? — Scott pareceu confuso. — Nan tem porém, moça.
— Sempre há um. — Ketchum insistiu. — Um efeito colateral, ou uma moeda de troca. Algo do gênero.
— Você terá que entrar na Equipe Fermata primeiro. — esclareceu ele. — Um efeito colateral… Eu ainda não tenho uma resposta concreta. Ainda não falei com os cientistas.
Meiko olhou para mim. Eu dei um sorriso e dei de ombros, como um "Não custa tentar". Em resposta, Mei apenas encarou o chão.
— Queria poder falar com minha mãe... — Meiko murmurou.
— Nós podemos dar um jeito nisso também, senhorita. — Scott disse. Àquele ponto, eu já duvidava. E não era o único.
— Não tenho certeza. — disse Mei, olhando para ele. — Se souberem que minha mãe falou comigo, ela se tornaria automaticamente uma suspeita.
— Nós não temos tanta tecnologia à toa, moça. Não se preocupe com isso. Nós temos como fazer ligações sem que consigam rastrear ou saber quem ligou, só precisamos que ela esteja sozinha em sua casa. Este seria o único risco. — concluiu Scott.
Mei estava mais quieta que de costume, provavelmente pensando no assunto. Scott indicou as portas atrás de si.
— Estes vão ser seus quartos. Por enquanto, provisórios, mas se entrarem na equipe, serão permanentes. — Nos entregou duas chaves. — Sintam-se à vontade. — Scott deu um de seus sorrisos calmos. — Eu tenho que ir, ainda assim, pensem no assunto. E, Dan, depois eu venho buscar. — Scott indicou a blusa que eu usava e sumiu ainda mancando em uma das curvas dos corredores, se misturando à multidão de uniformes iguais.
Eu abri minha porta, assim como Ketchum, só que, diferente dela, não entrei. Já ela, imediatamente sumiu da minha vista também. Eu encarava o quadro que havia ali do lado.
Era uma pintura à óleo sem muita claridade, o que me deixava indeciso se o artista queria imitar realmente a luminosidade da situação ou se queria deixar a figura sombria. Detalhadamente, havia um local que eu nunca vira antes. Pelo modo que as nuvens pareciam baixas e o chão era rochoso, possivelmente era o topo de uma montanha bastante alta. Pilares pedregulhosos estranhos, em formatos de lanças apontadas para cima, estavam espalhados através do cenário. No meio de dois deles, havia uma silhueta humana. Eu não conseguia ver muito dela, apenas conseguia identificar um chapéu vermelho e um cachecol também vermelho voando com o vento. Estava com os braços abertos. Mas não era aquela silhueta a figura que deveria ser a principal.
À frente dela, em um tamanho gigante e até majestoso, havia um Pokémon. Ou pelo menos eu queria acreditar que era um Pokémon.
Seu corpo era quase gigantesco, quadrúpede, com patas altas, pescoço comprido e uma cauda de tamanho médio. O formato de seu corpo lembrava vagamente o da Bayleef de Mei com cauda e patas bem maiores, mas as semelhanças eram só aquelas. Seu corpo era azul escuro, quase impossível de se ver com a escuridão do ambiente, com algumas partes metálicas cinzentas, tais como o peitoral, que tinha um diamante no centro. Ele também possuía várias listras de luz azul, que contrastava com tudo ao redor, parecia até mesmo a única luminosidade do local. Tinha algo como uma estrutura de barbatana nas costas e uma crista na cabeça, semelhante a um dinossauro. Também tinha dois chifres em cima de sua cabeça, dois chifres semelhantes a presas ao redor de sua boca e três espinhas na parte de trás do pescoço. Era, ao mesmo tempo, aterrorizante e poderoso, mesmo que sendo apenas em uma pintura à óleo.
Encarei aquele diamante em seu peito.
— Mei? — chamei. Ela ainda não havia fechado a porta. Apenas respondeu de lá de dentro, perguntando qual era o problema. Eu não parava de encarar o Pokémon. — Vem cá um minuto.
Ela veio. Sua expressão era indecifrável. Perguntei-me quantas vezes mais ela era capaz de guardar para si tudo o que pensava e sentia.
Indiquei o quadro.
— Isso te lembra algo? — eu precisava ter certeza para concluir meu pensamento. Precisava de uma segunda opinião.
Depois de longos momentos encarando, Mei se aproximou mais do quadro e tocou levemente, contornando o formato do Pokémon. Eu indiquei o símbolo no peito.
— Isso é mesmo o… — olhei para ela.
Mei assentiu antes que eu concluísse a frase.
— É o mesmo símbolo que tem por todo o lugar. A mesma cor. Tudo. — voltou a olhar para o quadro. — Mas o que essa equipe tem a ver com ele?
— Ele? — perguntei. — Você o conhece? Já o viu?
— Não, não de verdade. Nem mesmo a silhueta humana eu conheço. Apenas sei qual Pokémon é. — ela voltou a encarar o quadro. — Dialga, o Pokémon Lendário Senhor do Tempo. É o oposto de Palkia, Senhor do Espaço, não é necessariamente seu inimigo. Ou pelo menos… não era. — a expressão dela finalmente demonstrou algo, e parecia uma profunda tristeza olhando para o quadro. — Dialga foi extinto há anos…
Eu a encarava incrédulo.
— Como você sabe tudo isso? Como sabe que é o Dialga se ele foi extinto há anos e eu mesmo nunca vi nada parecido? Eu sequer conheço a aparência dele. — eu já havia desistido de pensar naquilo, mas será mais um sinal de que Mei é um Pokémon?
— Minha mãe. — ela respondeu. — Ela sempre me ensinou sobre os mitos do Mundo Pokémon, principalmente sobre lendários. Ela acredita que, como uma Ketchum, eu devo manter a tradição de contar oralmente e por meio, também, da escrita, todas as grandes aventuras do meu avô, assim como meu pai contou a ela pouco depois de se casarem. As aventuras do Grande Ketchum não envolvem realmente ganhar a Liga Pokémon como seu avô. — ela disse, olhando para mim, e depois fitou o quadro novamente, tocando a pintura como fizera antes. — Meu avô salvou e se envolveu com diversos lendários, provavelmente todos eles. Inclusive, com ajuda de dois amigos, ele salvou Dialga das garras da Equipe Galáctica. — ela disse. Eu lembrava vagamente sobre alguma história antiga com uma Team Galactic, nada muito concreto como tudo o que ela dizia. Eu só sabia que eram maus. — Ainda assim, mesmo com todo o esforço, o último Dialga morreu há alguns anos. Eu me pergunto o que essa equipe tem a ver com o Lendário do Tempo.
— Espera um minuto. — olhei em volta. Não havia nada útil. — Eu já volto, está bem? — segurei a maçaneta da minha porta. Estava agitado, queria fazer logo o que tinha em mente antes que a ideia desaparecesse.
— Eu preciso trocar de roupa, mas chame para o que quer que for. — ela disse, entrando no quarto e trancando atrás de si.
Entrei no meu também, encostei a porta e corri até minha mochila. Na confusão, a Poké-Ball de Sawk rolou e o liberou ao bater na de Squirtle, que também acabou por sair. Squirtle sentou na cama e me observou, sem dar atenção a mais nada, enquanto Sawk me encarou confuso, logo após encarar o lugar.
— Caderno… onde está meu caderno?! — continuei procurando dentro da minha mochila. — Achei! Agora falta um lápis. — voltei a procurar, mas eu já havia feito uma bagunça tão grande que era difícil encontrar.
Sawk de repente colocou a mão no meu ombro. Eu estranhei e ergui a cabeça. Na mão, ele segurava uma pequena bolsa. A minha bolsa de lápis.
— Ah, valeu, cara. — peguei dele e subi na cama. Sawk me seguiu, sentando ao meu lado.
Peguei meu lápis para desenho e comecei a fazer um esboço. Eu nunca procurei colocar o ato de desenhar em prática, apesar de ter gostado muito quando criança. Fazia vários Pokémon, dizendo que eles ainda seriam meus um dia. E até hoje eu guardo meus desenhos em casa, pois eu tinha que admitir que alguns eram até bonitos, bem desenhados.
Como era apenas um esboço, resolvi não apagar muito ou deixar muito detalhado, apenas o possível para que fosse entendível. Eu desenhava o símbolo que havia visto na roupa das pessoas da Equipe Orbis no Monte Lua. Era um símbolo estranho, mas parecia significar algo para eles assim como significava para os membros da Equipe Fermata.
Quando acabei, notei que estava muito agitado. Resolvi tomar banho, dando tempo à Mei e relaxando meu corpo na banheira, por sorte havia um banheiro e closet em todos os quartos.
Coloquei uma das minhas roupas. Era simples. Uma camiseta branca estampada com os iniciais de Kanto, uma calça preta e um tênis branco que eu gostava, apesar de já estar ficando velho. Um boné, como sempre, na cabeça. Era um grande alívio sentir meu cabelo bagunçado no lugar daquela coisa lambida para o lado que estava antes. E, claro, meu cinto de Poké-Bolas.
Peguei o desenho que eu fiz. Sawk, que estava ali esperando ainda, me encarava e então o desenho. Era estranho tentar aquilo, mas depois de tanto tempo com Mei, talvez os Pokémon entendessem pelo menos um pouco.
— É uma coisa que vi nas pessoas do mal. — tentei falar da forma mais simples possível. Sawk assentiu, entendendo, enquanto Squirtle apenas inclinou a cabeça sem entender. Franzi o cenho ao perceber. — Precisamos ir falar com Meiko agora. — Sawk levantou sozinho, sem ordem nenhuma minha, e caminhou até a porta. Squirtle o seguiu. O Lutador parou e me encarou confuso.
— Saawk? — ele perguntou, fosse lá o que fosse?
Balancei a cabeça.
— Vamos lá. — segui até a porta, abri e bati na porta à direita, a de Mei. Ela mandou entrar e foi o que fiz, girando a maçaneta.
Mei também havia tomado banho. Seu cabelo preto estava molhado. Usava uma jaqueta preta com cinza, uma calça jeans clara e meias, que tornava tudo bastante caseiro, mas eu podia ver um par de tênis fácil de colocar na frente da porta, como se pronta para correr a qualquer instante.
Sawk entrou primeiro e fez uma reverência, parecendo focar tanto em Mei quanto em Growlithe. Squirtle foi em seguida, encarando os três sem saber se deveria fazer o mesmo. Depois, os três Pokémon começaram uma conversa entretida entre si.
Caminhei até perto de Meiko. Ela indicou para eu sentar na cama e me fitou.
— Você parece agitado.
— Eu estou. — guardei o papel do desenho e sentei na beirada da cama. — Você disse que Dialga era o Pokémon do Tempo, certo? — Mei assentiu e eu continuei. — E disse que ele tinha um parceiro?
— Sim, algo próximo disso. É mais uma contraparte. Palkia, o Senhor do Espaço. Eles criaram o espaço-tempo que conhecemos.
— Palkia… tem algo como isto? — peguei o papel do meu desenho e mostrei.
Meiko pareceu surpresa.
— Você desenha bem. — olhou para mim.
— Tem ou não tem? — perguntei de novo.
Ela assentiu. Parecia assustada.
— Eu nunca parei para comparar os símbolos. Eu sentia que era familiar, não lembrava de verdade. Mas eu não entendo. Juntos, esses Pokémon podem fazer coisas bem mais grandiosas do que separados, e eu não acho que as duas equipes vão se juntar um dia.
— O que eles são capazes de fazer? — perguntei.
— Quando meu avô estava em Sinnoh, ele descobriu uma equipe maligna chamada Equipe Galáctica. Eles eram estranhos, ninguém realmente sabia seus objetivos. Não eram como a Equipe Rocket que seu avô derrotou. — ela olhou para mim. — Eles pareciam ter ideais maiores e mais… sinistros. Vovô, em meio a uma luta com eles junto com os companheiros de jornada, para resgatar um amigo, ouviu algo sobre Pokémon dos Lagos.
— Pokémon dos Lagos?
Mei assentiu e pegou um caderno e um lápis na folha. Não era um desenho, era mais uma explicação. Eu fiquei confuso. Havia um triângulo grande, com símbolos estranhos, e aqueles mesmo pilares de antes. Era tudo como um grande altar. Ela circulou as três pontas do triângulo conforme falava.
— Azelf, o Pokémon da Força de Vontade, havia escolhido meu avô, pois mesmo depois de tantas derrotas, ele permanecia em busca do sonho. Uxie, o Pokémon da Sabedoria, escolheu o companheiro do meu avô, Brock, que já fora Líder de Ginásio de Pewter e que era extremamente inteligente em questão de saúde dos Pokémon. E havia Mesprit, o Pokémon da Emoção, que escolheu a amiga do meu avô, que morava em Sinnoh, Dawn, que era especialista em conquistar a plateia através da emoção durante os Torneios Pokémon. Os três Pokémon dos Lagos foram capturados e controlados pela Team Galactic e postos nestas pontas do triângulo em um lugar chamado Pilar da Lança. O lugar daquele quadro. — ela mostrou os pilares semelhantes à pintura. — Era assim que se invocava Dialga e Palkia. Controlando ambos, o Líder da Equipe Galáctica exigiu um novo mundo.
— Novo mundo? — perguntei, sem entender. Mei assentiu.
— Um novo universo. Dialga e Palkia são capazes de criar um novo espaço-tempo, meu avô se viu na obrigação de pará-los, pois a criação de um novo universo destruiria o que conhecemos.
— Eita. — foi tudo o que consegui dizer. Estava com medo, de repente, de ser engolido por um espaço-tempo, por mais que aquilo fosse completamente confuso para mim e provavelmente impossível com os Pokémon mortos. — O que acha que estes Pokémon podem fazer sozinhos?
— Se eles estivessem vivos? — Mei olhou para o desenho, parecia apenas pensar profundamente no assunto. — É difícil dizer… O poder deles nunca foi realmente descoberto. Mas… Controlando o tempo… Dialga provavelmente é capaz de fazer o que bem lhe entender. Voltar, pausar, mudar, adiantar, viajar... Até mesmo parar eternamente o tempo.
Levei um momento para conseguir fazer a pergunta seguinte. Se a Team Fermata parecia fissurada em Dialga, eu temia o que a Team Orbis pretendia com Palkia.
— E o outro lendário?
A expressão de Mei era tensa e sombria.
— Controlando o espaço? Provavelmente até destruir todo o planeta e o resto da galáxia.
— Se a Team Orbis odeia a figura que você representa, como se alguém que se une aos Pokémon. E se eles ainda foram foram capazes de usar Autodestruição de seu Graveler para matar todos os Zubat… — eu comecei.
Meiko fechou as mãos lenta e fortemente. Ela não parecia sentir tanto ódio desde que Mayra falara sobre sua família.
— Com ou sem Palkia, eles vão destruir os Pokémon.
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