Lealdade sem Fronteiras #1

9 Capítulo 9 - vs Aiden (Parte 2)


Notas iniciais
"Se eu pensei que a primeira batalha foi violenta o bastante pelo resto do desafio naquele ginásio, eu estava enganado. De repente, depois de tudo aquilo, depois do fim daquela batalha, eu entendia o motivo da minha avó e da minha mãe não gostarem de Batalhas Pokémon."

Dan Young

Meu alegre e inocente Charmander, agora um forte e determinado, apesar de ainda com seu sorriso alegre de sempre, Charmeleon, mantinha-se de pé em frente ao Poliwhirl. O mesmo permanecia hesitante, mas eu podia ver que faria seu maior esforço agora, pois evitava ao máximo olhar diretamente para os dentes de Charmeleon. Mas eu sabia que, mesmo que nosso adversário não estivesse mais tão amedrontado, meu Pokémon não desistiria tão fácil.

Um silêncio quase tangível se estabelecera no ginásio, deixando tudo mais tenso e qualquer barulhinho parecendo uma explosão de sons. Como, por exemplo, a ventania que invadia o ginásio pelo teto, fazendo-nos estremecer. Com a chuva que Poliwhirl conjurara ainda persistindo, porém mais fraca, o clima do lugar tinha voltado à costumeira tarde de inverno, só que agora mais fria, pois todos estavam molhados com o aguaceiro anterior. O vento só nos fazia ficar com a sensação térmica ainda mais gélida.

Além do vento assobiando através da arquitetura complexa do Ginásio de Cerulean, consegui ouvir o mesmo barulho de bater de asas de antes. Tentei novamente descobrir o que era, seguir o som, mas tudo o que vi foi o mesmo vulto amarronzado, dessa vez descendo para a arquibancada próximo a Mei. Ela não pareceu perceber nada, numa conversa entretida com Rex.

Aquela coisa, fosse o que fosse, não parecia uma grande ameaça, mesmo que se escondendo de todos. Seu tamanho era o que? Cinquenta centímetros? Apenas ignorei. Se fosse algo perigoso, não faria grande estrago. Precisava me concentrar. Tanto eu quanto Aiden, assim como nossos Pokémon, estávamos exaustos, apesar de ser nossa segunda de três batalhas. Eu tomei um profundo fôlego, Aiden disfarçadamente fez o mesmo. Nós esperamos alguns segundos e ordenamos ao mesmo tempo.

— JATO DE ÁGUA! — mandou ele.

— LANÇA-CHAMAS! — mandei eu.

Meu Pokémon deu outro sorriso, semelhante ao anterior, e olhou para mim. Seu olhar me mostrava que queria que eu visse o que viria a seguir. Veio um abrir de boca. Mas de lá saiu algo diferente de um fogo enfraquecido. Não era laranja ou vermelho como as chamas do rabo dele, que agora estavam ainda maior, tanto pela evolução quanto pela habilidade ativada.

O poder que saiu da boca de Charmeleon era uma mistura de duas cores, passava desde o roxo azulado e amarelo, que preenchia o centro daquela energia, e voltava ao roxo. A água que caía dos céus não parecia afetar aquele ataque e, mesmo com a chuva aumentando o poder do Jato D'água, ele ainda não conseguiu vencer aquele poder recém aprendido. O jato simplesmente não teve força, talvez efetividade, contra a energia lançada por Charmeleon e Poliwhirl foi acertado em cheio. Ele rolou pelo campo logo após a pequena explosão, saindo mais machucado que antes. Admirado, eu olhei para o telão, completamente perdido sem minha Poké-Dex.


Poliwhirl
em 8% de saúde
Movimento usado: Jato D'água


Charmeleon em 5% de saúde
Último movimento: Raiva do Dragão
Recentemente evoluído
Habilidade ativada: Blaze

O Pokémon Aquático levantou devagar. Depois do impacto, recuperara a completa consciência de realidade e agora, apesar de ainda meio trêmulo, voltara a cerrar as patas, pronto para reiniciar a luta. Aiden, completamente irritado com o próprio Pokémon, ordenava agora com todo o vigor.

— Rajada de Bolhas!

Eu não podia perder essa. Não mais.

— Raiva do Dragão! Força, Charmeleon!

Eu estava animado, entusiasmado, e sentia que Charmeleon estava se sentindo do mesmo jeito. Correu em direção ao nosso inimigo usando o movimento. A rajada de bolhas confrontou o ataque do tipo Dragão, e a disputa permaneceu até estarem tão próximos que novamente uma fumaça os engoliu. Dessa vez, não havia chuva para sumir com o vapor rápido. Na verdade, nem mesmo o vento aparecia. Era como se até mesmo o clima quisesse testemunhar o final daquela batalha sem nenhuma interferência.

Enquanto esperava, apreensivo, levantei minha blusa e tentei dar o mínimo de uma olhada nas minhas costas. Vi que não estavam na melhor forma. Depois de tantos golpes consecutivos, a pele estava avermelhada, mesmo que a minha cor quase não deixasse à mostra, e, julgando pela dor, minhas costas logo ficariam com hematomas escuros. Mas não eram tão graves. Com o tempo sumiriam.

Mas minha determinação, se eu perdesse aquela batalha, não curaria tão rápido.

Voltei a olhar para o campo, ainda meio ansioso, e vi com um sorriso que meu Pokémon realmente cumprira o que eu achei que ele prometera. Charmeleon estava ereto, um pé sobre o desmaiado Poliwhirl, erguendo uma pata vitorioso como um verdadeiro lutador. Em seguida, olhou para mim. Parecia curioso, como se não soubesse o que esperar de mim. Mas, ao ver meus olhos expressando orgulho, correu na minha direção. Uma grande parte de mim berrava para que eu apenas o retornasse para a Ball, mas eu me abaixei, agora nem tanto, pois ele tinha crescido. Além das garras ainda mais afiadas, os dentes ameaçadores e o corpo menos frágil, estava com uma pele mais espessa. Charmeleon lançou fogo no ar, um fogo de verdade, apesar da cor azulada e branca. Eu ri, vendo, e brinquei com ele, esfregando sua cabeça como esfregava a do filho pequeno do meu vizinho. A memória me trouxe outro sorriso, mas resolvi apenas ignorá-la. Não era um momento de sentir nostalgia.

Com aquela nova forma, eu me senti perdido. Cocei minha cabeça, olhando-o de cima à baixo.

— É, eu definitivamente preciso da minha Poké-Dex de volta.

Charmeleon puxou minha calça e indicou o campo de batalha, querendo voltar à luta.

— Char, Charmeleon! — sua voz também mudou, eu reparei, se tornando mais rouca e grave, mas ainda com aquele tom alegre que sempre ouvira.

Eu balancei a cabeça.

— Você fez o suficiente hoje. Valeu. — dei um sorriso e o retornei, voltando a assumir minha posição para o último duelo naquela zona que se tornara o campo da nossa luta.

Foi então que, como um choque no meu peito, eu percebi algo que não acharia nunca na minha vida que faria um dia. Eu tinha falado com Charmeleon. Eu entendera seus gestos, seus sentimentos, e conseguira quase manter um diálogo com ele. Sentira orgulho dele. Todo o orgulho e ainda mais do que o possível. Tratara-o como uma criança pequena que ganhara uma recompensa por ser inteligente na escola, tratara-o como um... Um... Um ser humano. E só agora, depois de o retornar, percebera todos esses meus erros.

Charmeleon era um Pokémon. Não tinha emoções, não pensava, agia apenas pelo impulso da luta, pelo impulso de conseguir um território que nem mesmo conhecia. Não era possível que ele procurasse me orgulhar, me satisfazer, me... me vingar. Era? Não! Eu não deveria me perguntar aquilo!

Mas havia algo ainda pior atormentando minha mente.

Por que o protegi?

— De campo de batalha para planeta inútil, responda. — uma voz entoou através do campo, me tirando dos devaneios, e cerrei meus punhos. Ao ver que eu finalmente iria batalhar com ele, Aiden liberou seu último Pokémon e eu percebi com horror que, mesmo com toda a minha boa educação familiar...

Eu. Estava. Fudido.

O Pokémon saiu da Great Ball de maneira majestosa, batendo asas lentamente, porém de maneira tão firme que ventanias fortes eram provocadas a cada bater. Ele bateu uma outra vez, mais forte, e rugiu. O som aterrorizante, agudo e alto, ressoou através do ginásio, fazendo-me sentir um calafrio descer pela espinha. Em seguida pousou no chão e, inclinado para frente, na minha direção, esperou pelo adversário. Era bípede. Seu focinho era rígido, com uma boca, naquele momento aberta, e mandíbula inferior forte cheia de dentes serrilhados. Seu corpo era revestido com uma pele de cor cinza-violeta clara com asas violetas. As asas do Pokémon consistiam em uma membrana que ia desde o lado do corpo à ponta de um dedo alongado. As mãos, ou patas, nas curvas das asas pareciam demonstrar sua capacidade de agarrar presas. Uma corcova crescia de suas costas. E ele tinha uma inconfundível cauda forte, com ponta de seta. Lembrava completamente um réptil. Seus olhos, cinzentos, duros e intensos como rocha, me observavam como se eu fosse a próxima presa.

Meu coração estaria aos saltos, animado em ver um Pokémon já impossível de se encontrar, pois além de extinto, seus fósseis sumiram no tempo. Mas ele estava parado, sem bater corretamente, pois eu batalharia com o Pokémon Fóssil.

Batalharia com um Aerodactyl.

Peguei e observei as Pokébolas dos meus Pokémon restantes. Ralts tinha sua vantagem com seu Teleporte e até sua capacidade de usar Telepatia, porém ele não controlava esta e era bem inexperiente. Quem garantia que aguentaria uma batalha como aquela?

Sawk era o mais experiente, mesmo que sendo meu há pouco tempo, pois se tornara um líder de vários Pokémon da Floresta de Viridian. Porém, era do tipo Lutador. Apenas um movimento tipo voador de Aerodactyl, que eu conhecia o suficiente para saber ter um Ataque Físico formidável, além da velocidade inacreditável, e ele estaria fora.

Tinha Squirtle, é claro, eu não podia esquecer. Ele me ajudara bastante, na verdade, quando na Floresta de Viridian, algumas vezes batalhando contra selvagens e me ajudaria bastante. Mas ele era um tanto frouxo, medroso, principalmente depois de ver o que aconteceu com sua suposta treinadora, e eu o conhecia o suficiente, apesar de ser apenas um Pokémon, para saber que ficaria muito temeroso para lutar com um Pokémon como aquele.

Pichu, em questão de experiência, era o menos adequado, mesmo que tendo vantagem de tipos como o Squirtle. Eu o peguei para a equipe hoje e não seria nada inteligente da minha parte mandá-lo numa luta contra um Pokémon como aquele. Ele estava fora de cogitação.

Charmander não aguentaria nem um ataque sem muito efeito. E olha que Aerodactyl também era tipo Pedra.

Bufei. Eu perderia aquela batalha. Era óbvio.

Pensei em toda a minha jornada até ali. Tudo foi um golpe de sorte, não é? Muito boa sorte encontrar e conseguir todos os iniciais da região, boa sorte conseguir um Pokémon forte como o Sawk, má sorte (apesar do meu coração não admitir) encontrar e fazer amizade com alguém como Mei, má sorte sermos atacados no Monte Lua...

Mas hoje mesmo eu tivera um golpe de sorte ao conseguir o Pichu, certo?

Eu precisava seguir isso. Precisava confiar completamente na minha sorte.

Embaralhei, sem olhar, as Balls nas minhas mãos e peguei uma aleatória, jogando em direção ao campo. Desta, saiu um confuso e desorientado e amedrontado e perdido...

Pichu.

É, talvez eu não estivesse com tanta sorte assim...

O ginásio estava em completo silêncio, com Pichu encolhido e Aerodactyl o encarando como se fosse uma lasanha, quando de repente, tanto Aiden, quanto Mayra e Tytos caíram na gargalhada. Olhei para Mei, mas tudo o que ela fizera fora bater a palma da mão contra a própria testa em arrependimento ao ver aquilo. Balancei minha cabeça e olhei para frente.

— Pode começar, Dan. — Aiden sorriu depois da risada, já com certeza que ganharia aquela.

Assenti.

— Pichu, Carga! Prepare-se!

Aiden balançou a cabeça.

— Pegue leve, Aerodactyl. Presa-Trovão.

Pichu se encolheu e ficou envolto numa aura de eletricidade bem visível. Aerodactyl foi um borrão cinza quando abocanhou Pichu e o levou para cima, a eletricidade se misturou com a dele e, mesmo com Pichu que gritando de medo, ou dor, eu não sabia ao certo, o vôo de Aerodactyl de repente pareceu atrapalhado por algo. Ele foi em direção ao chão, soltando Pichu, que conseguiu cair de pé depois de rolar um pouco, e nós dois vimos confusos o dinossauro fazer um pouso um tanto forçado.

Foi então que eu entendi o porquê.

A aura de antes, que eu vira em Pichu, não era apenas do movimento de Carga. A energia, os pequenos raios que agora envolviam Aerodactyl, o paralisando, pertenciam à sua habilidade também.

Olhei para o telão e tive certeza. A habilidade dele era Estática. Qualquer ataque que exigisse contato físico paralisava o oponente.

Aerodactyl agora tinha sua velocidade reduzida e tinha uma certa chance de não conseguir se mover. Mas eu me sentia ainda totalmente perdido, pois não sabia o que exatamente aquilo significava, o quão reduzida seria a velocidade dele e nem se eu tinha a vantagem agora. Não seria possível continuar mandando movimentos sem saber quem atacaria primeiro.

Levei a mão ao bolso instintivamente, mas minha Poké-Dex não estava ali, assim como antes. Cerrei minhas mãos, até uma voz que parecia séculos não ser ouvida por mim soar através do campo.

— Senhor Fist! Eu preciso falar com o Dan. — Meiko exclamou, levantando-se.

Olhei na direção dela, surpreso. Meiko fazia de tudo para não chamar atenção e agora queria parar a batalha no meio da mesma? O que ela tinha na cabeça?

Era óbvio que Tytos não permitiu.

— Vai ficar precisando. — ele não olhou para ela, o que só aumentava sua desdém.

Mei não pareceu ligar.

— Você vai permitir que Aiden tenha uma vantagem tão grande? Vai ser tão injusto, senhor? — ela perguntou, como sempre demonstrando respeito, apesar de obviamente estar desafiando ele. Ela mantinha o capuz e a cabeça baixa, mas dessa vez de um jeito respeitoso, não escondido. Sua cabeça estava inclinada, revelando um pouco do seu cabelo escuro na frente do capuz. Sua voz, de início com certa inocência agora assumira um tom de dúvida. — Dan, se o senhor não percebera, está sem a Poké-Dex. — ela ergueu uma Poké-Dex vermelha na mão direita, que tinha uma luva. Ela usava luvas em ginásios? Eu só percebera naquela hora. — Eu estou com ela.

— E por que você está com ela?

— Eu perdi a minha. — vendo que ele não reclamara quanto a entregar, Mei, que já estava de pé, deu um passo à frente, passando por cima de um banco, e começou a caminhar na minha direção calmamente. — Ele foi cavalheiro o suficiente para emprestar a dele, eu devolveria antes da próxima batalha dele e... Bom, eu esqueci.

Eu estava pasmo, sem conseguir pensar no que significava aquele gesto. Ela não só estava arriscando ainda mais a visão de Tytos sobre si, demonstrando a ele irresponsabilidade, como também mentindo por mim e talvez até se arriscando. Vendo que eu estava imóvel, ela olhou para mim e pegou minha mão, pousando a sua Poké-Dex na minha palma e fechando meus dedos com as suas mãos por cima. Mei olhou para mim, como sempre parecendo olhar dentro dos meus olhos, e mesmo por baixo do capuz, eu pude vê-la piscar para mim e sorrir quase imperceptivelmente.

— Vença. — disse com voz de autoridade, no entanto, quando voltei a olhar em seus olhos, vi um misto de emoções que me surpreendeu além de tudo aquilo o que ela acabara de fazer.

Orgulho e esperança.

Ela voltou caminhando pouco depois para o lugar de antes, onde Rex esperava por ela ansioso, porém sentado obedientemente. Ele olhou para mim e nossos olhares se cruzaram. Eu esperava que ele desaprovasse o gesto dela, porém, o Growlithe na verdade, eu quase podia jurar, assentiu para mim. Meus impulsos diziam para correr e envolver Mei em meus braços, agradecer pela salvação que fora naquele momento, mas apenas permaneci ali, em conflito comigo mesmo. Tytos não reclamava por ela me entregar, mas sim por outra coisa.

— Tão desonrosa... E pelo visto um caso perdido também. Vejam só. A família que um dia foi o exemplo para o Mundo Pokémon resumida a um traste como essa garota, que até mesmo a coisa mais importante, mais útil, para a jornada ela perde.

Mayra e Aiden riram e eu quis ainda mais correr até Mei, abraçá-la e protegê-la daquelas palavras. Porém, havia alguém já fazendo esse trabalho. O Growlithe subiu no colo dela e começou a lambê-la com vontade, a fazendo rir. Até mesmo a derrubou no banco, ela mal conseguia respirar de tanto rir. Seu capuz, caído sobre a madeira abaixo dela, agora nem parecia lhe importar. Seu rosto pálido estava visível, assim como seus cabelos negros, que estavam espalhados por cima do capuz. Era incrível como aqueles dois se gostavam. Ela voltou a olhar para mim e assentiu sorrindo divertida. Meiko estava bem.

Abri a Dex, sem mais tempo a perder, e usei nos dois Pokémon. Pichu estava com 75% de vida, apenas um pouco assustado, mas bem. Aerodactyl estava com 100%, mas sua velocidade foi reduzida em 75%, indo de 130 à 32,5, de acordo com a conta que fiz na calculadora da Poké-Dex. Além da paralisia também acabar tendo 25% de chance de impedi-lo de se mover.

Verifiquei a velocidade de Pichu e percebi.

60 de velocidade.

Nós éramos mais rápidos agora. Estávamos na vantagem.

— Pichu, Trovoada de Choques!

— Aerodactyl, Presa de Fogo!

Pichu, agora vendo a condição de Aerodactyl, não ficou tão amedrontado e logo que o voador veio na sua direção, se concentrou e soltou sua energia, com o dobro de potência por conta do Carga. Mas Aerodactyl, mesmo atingido, ainda conseguiu se recuperar no ar e abocanhar Pichu de novo, o levando para o alto e apertando seus dentes ferozmente no meu Pokémon.

Fiquei apreensivo de novo. Pichu gritava e esperneava, eu podia ver, conforme algumas vezes Aerodactyl passava perto o suficiente, seu corpo sendo perfurado por aqueles dentes. E não só isso. Os dentes estavam com uma energia avermelhada, obviamente quentes, e a boca do Aerodactyl pegava fogo em certos pontos. Pichu não estava sofrendo apenas pela dor, mas também pelas queimaduras que aquilo causava a ele.

— Continue, Aerodactyl. — ordenou Aiden, firme.

Eu precisava fazer alguma coisa.

— Pichu! — gritei a plenos pulmões, torcendo para que ele pudesse me ouvir. — Trovoada de Choques!

Meu Pichu continuou tentando se soltar, não parecia me ouvir. Houve um momento que Aerodactyl abriu a boca, apenas para recuperar o fôlego e conseguir usar o movimento anterior, mas foi o suficiente para Pichu também se recuperar. Eu podia ver seu corpo completamente cheio de sangue; enormes ferimentos, comparando aos seu tamanho pequeno, cobriam sua pelagem no formato exato do maxilar do Pokémon Fóssil. O pequenino se encolheu, de dor ou medo, acredito que ambos, tomou uma respiração profunda e dolorosa e soltou a mais forte trovoada que conseguiu, dessa vez mais potente, pois não precisava atravessar a carapaça que era a pele de Aerodactyl dessa vez.

O resultado foi um dano crítico.

Aerodactyl tinha acabado de carregar as chamas na boca, resultando em queimar ainda mais a barriga de Pichu, faltando apenas as costas de novo, quando recebeu a eletricidade através do corpo. Ele parou de bater as asas e caiu um momento, mas seu temporário susto passou e ele voou desgovernado, não parecia conseguir se manter no ar, e soltou Pichu, que caiu semiconsciente, criando uma marca de sangue no chão.

Aerodactyl, ainda meio zonzo pelo movimento, colidiu contra o terreno do campo, se ferindo mais.

— Levante-se! — ordenou Aiden, com o que parecia desprezo na voz.

Eu olhei para Pichu. Eu podia ver que não estava desmaiado ainda.

— Pichu?! Levanta! Força! Acabe com isso!

Os dois Pokémon tiveram dificuldades para levantar, mas é óbvio que Pichu estava em piores condições. Aerodactyl, quando recuperado, rugiu novamente, só que considerando suas condições, não foi tão assustador quanto antes.

O Mini Camundongo que era meu Pokémon se encolheu. Parecia querer desistir, fechando os olhos lentamente. Eu dei um passo adiante, prestes a tentar fazê-lo mudar de ideia, mas outra voz preencheu o campo.

— Pichu! Levante-se! Você consegue! Seu treinador, eu, Rex... Todos confiamos em você! Força! — de todo o apoio que tentei dar, era óbvio que aquela voz conseguia fazer mais. A voz vinha dela de novo.

Mei.

Olhei para ela, confuso, e ela apontou para Pichu, seus olhos demonstrando um tipo de repreensão quanto a mim. Eu entendi o recado. Não podia desconcentrar. Voltei minha atenção a ele.

— Pichu, você consegue. Levante-se.

Por um longo momento, nós permanecemos ali. Achei que ele estivesse desmaiado até vê-lo levantar, um movimento lento por vez. Agora ele já não estava ereto e sim sobre as quatro patas, mas encarava Aerodactyl enfrentando todo o seu medo, dor e fraqueza. Aerodactyl levantou vôo de novo, porém permaneceu baixo.

Aiden pareceu avaliar a situação, olhando desde ele até Pichu e então eu. Deu um sorriso, maligno e raro, e levantou a mão, em direção ao Pokémon Fóssil.

— Aerodactyl, Ataque de Asas — ele desceu sua mão lentamente na minha direção. — no Dan!

Senti meu corpo estremecer e cambaleei para trás. Aerodactyl olhou diretamente para mim, aqueles olhos cinzentos assustadores. Eu havia esquecido completamente daquela falta de regras na batalha que estávamos tendo. Eu hesitei. Mesmo que diminuída a sua velocidade, eu sabia que Aerodactyl era rápido demais para eu desviar, então apenas assisti ele pegar impulso e voar na minha direção.

Suas asas brilhavam, mas eu sabia que não precisava daquilo para me matar.

Seus olhos eram de pedra, mas uma pedra machucaria menos.

Seu rasante era perigoso, mas não tanto quanto para mim.

Ou para ele mesmo, considerando que pouco antes de passar por cima de Pichu, o mesmo pulou no seu rosto e apertou seus olhos com suas patinhas miúdas. Aerodactyl perdeu o controle e seu vôo perdeu uma rota, começando a bater e bater contra o chão algumas vezes. Isso me deu a oportunidade de tentar escapar, e eu tentei. Porém, quando corri para o lado, a asa de Aerodactyl voltou a se expandir e, mesmo que eu tentando evitá-la, ainda fui atingido na lateral do corpo. O impacto me fez girar e cair. Meu torso explodiu em dor, eu sabia que tinha algo errado e esse mesmo incômodo não me permitia prestar atenção em mais nada. Queria gritar, mas toda aquela dor não me permitia nem mesmo respirar. Queria me contorcer, mas meu corpo quase parecia paralisado, eu não conseguia me mover sem que tudo só aumentasse. Tentei respirar fundo, tomar fôlego, mas aquilo só pareceu agravar mais a situação. Pontos pretos dançavam na minha visão já sem foco.

Eu ouvia vozes... Estavam tão distantes. Eu estava tão atordoado que não sabia o que estava acontecendo. Estavam me chamando? Eu já não conseguia saber se sim. Nem mesmo entender o que estava acontecendo. Uma voz entre as demais me chamou atenção. Abri meus olhos, tentando lutar contra a careta de dor que me surgia desde que caíra, e olhei para cima.

—... levantar. Vamos. Se você conseguir... — minha vista e audição novamente pareceram deixar tudo distante. Dormir seria tão bom, não é mesmo? —... ganhar!

Quando finalmente consegui focalizar minha visão, vi que a voz que quase me fazia levantar era a de Mei. Em meio à dor e torpor, a voz dela era tão... harmônica aos meus ouvidos. Como seria se ela cantasse para mim antes de dormir? Deveria ser maravilhoso como era ouvir minha mãe… Eu já tinha uma voz harmoniosa em minha companhia, agora faltava-me apenas dormir...

— Levante-se, Young!

Se bem que, quando perdendo a paciência, não era tão bonita, não.

Eu rolei com completa dificuldade, a lateral do meu peito ainda doía bastante. Olhei ao redor, minha visão oscilando, mas já me conseguia localizar no ginásio novamente, flashes da batalha invadiam minha mente aos poucos. Lembrei de Aerodactyl me atacando e lembrei do mais importante.

Se eu não levantasse, a vitória seria de Aiden.

Fiz um esforço enorme e consegui sentar para logo levantar. Aprendendo a lidar com a dor, percebi que tudo o que eu precisava fazer era evitar respirar fundo, mas já percebeu que é quando com dor que você mais quer fazê-lo?

Olhei ao redor, absorvendo o que via aos poucos. Aiden retornava um todo espatifado contra a parede Aerodactyl com uma expressão de total descontentamento. Eu não conseguia ver Pichu em lugar algum. Tytos me observava atentamente, Mayra estava logo atrás de Aiden, sussurrando algo em seu ouvido. Ele apenas a ignorava.

Mei olhava nos meus olhos, logo em seguida o meu corpo, a procura de ferimentos. Demonstrava preocupação por baixo da touca, mesmo que estivesse indiferente quanto a todos quando vinham falar com ela. Vi que ela segurava Pichu desmaiado com completo cuidado, sem se importar se estava se sujando de sangue. Conseguia pegá-lo com jeito, entre o braço e o próprio peito como um bebê pequeno, e o fazia sem tocar tanto suas queimaduras e sem mexer seus ossos, que eu tinha certeza estarem muito machucados.

Fist veio até mim, eu podia ver que o brilho louco por trás dos seus olhos bicolores.

— Vejo que ainda consegue ficar de pé. — comentou ele.

Assenti, tentando parecer firme. Não queria me arriscar a falar. Tinha a sensação que só exigiria mais da minha respiração dificultada.

— Então significa que ainda conseguiria lutar? — questionou o Líder de Ginásio.

Disso eu já não tinha certeza.

— Talvez... — me esforcei a dizer, minha voz soou mais grave que o normal, rouca.

— Libere seu Charmeleon. — ordenou ele.

Eu evitei um suspiro doloroso e peguei a Ball do meu Tipo Fogo, liberando-o logo após. Charmeleon estava exausto. Assim que saiu da Ball, cambaleou um pouco e caiu sobre um joelho, mas, ao ver-me observando-o, fez um esforço maior e ficou de pé, suas pernas fraquejando. Tytos assentiu e foi até o meio do campo, apesar de todos nós estarmos de um lado só.

— Por ainda ter um Pokémon que consegue ficar de pé e por não ter ferimentos tão graves, a vitória é de Dan Young! Ele conseguirá a insígnia e Aiden Birch terá que me ajudar na reforma do meu ginásio até que esteja apto para outra batalha, que será a dele contra mim, só enfim conseguirá sua insígnia.

Eu sorri e senti meu coração se animar no meu peito. Minha respiração queria acompanhar o ritmo, mas lutei para não fazê-lo. Levei a mão direita à barriga do lado esquerdo, o lado dolorido, e continuei lutando contra a dor, ouvindo Tytos continuar falando, sua voz grave e firme se espalhando pelo destruído ginásio.

— Agora haverá uma segunda batalha, com participantes tendo...

Ele franziu o cenho, tentando ler o nome de uma delas. Mei me cutucou, eu quase comemorei por ser pelo lado direito, e indicou Tytos.

— Repara no nome dela. — sua voz soava debochada.

Olhei para Sr. Fist.

— Mayra Collie-Styx Keythorn.

Tentei segurar minha risada, mas acabei deixando escapar sem querer feito gás escapa de uma garrafa de refrigerante. Quase gargalhei, o que me fez sentir bastante dor. Todos me encararam seriamente, exceto Mei, que olhou para mim, fingindo a mesma seriedade, mas apenas eu pude ver, através do capuz, o quão risonha ela estava. Pigarreei, me sentindo constrangido, mas ainda querendo rir.

— Eu, hum, lembrei de uma vez que meu pai me levou para uma das minas que ele trabalhava e...

— Poupe-me. — me interrompeu o Líder de Ginásio. — Continuando, a batalha entre Mayra Keythorn e... — ele abaixou a voz, seu tom agora demonstrava nojo, desdém. — Meiko Ketchum.

Olhei para minha companheira, mas ela não permitia que eu olhasse em seu rosto. Depois de tantos momentos que ela escondia a si mesma, aquilo não era mais novidade.

Peguei a Poké-Dex dela e estendi para que pegasse. Ela apenas desviou o olhar e guardou. Ainda evitando olhar diretamente para mim, Mei se virou e acenou para que eu fizesse as mesmas posições que seus braços estavam para segurar meu Pokémon. Eu obedeci, só que não tinha tanto jeito quanto ela. Aos poucos fui entendendo e ela me disse que era bom evitar retorná-lo por ora, ele se sentia seguro naquela posição e era bom deixá-lo confortável. Um Pokémon pequeno como aquele se assustaria muito facilmente.

Não fiz questão de perguntar como ela sabia.

Olhei para Mei, que apenas me fitou, tive quase certeza que pensávamos o mesmo. Sobre a batalha dela. Sorri para ela e apertei seu ombro com uma mão livre. Fingi seriedade, olhando em seus olhos como se aquilo pudesse resultar na salvação da raça humana e da salvação do mundo que vivíamos. Ela hesitou com meu olhar, pude ver dúvida e medo no seu, então eu disse aquilo em seguida.

— Vença. — disse eu, com voz de autoridade, imitando também o seu tom.

Ela sorriu e relaxou, permitindo-se uma risada breve. Deu um passo na minha direção e quem ficou confuso fui eu com aquela aproximação, porém, ela balançou a cabeça para si mesma, puxou meu boné para baixo até tampar minha visão, brincando. Eu, ainda meio tenso e confuso, dei uma risada nervosa e arrumei de volta, e vi ela pouco depois correr para o campo, Rex logo atrás, me lançando um olhar de raiva sem motivo.

Mas ele não me preocupou, não foi o olhar dele que permaneceu na minha mente quando eu fui para a arquibancada me sentar. Foi Mei ter sorrido para mim e ter abaixado a cabeça, muito corada, antes de correr.

Por mais que eu não fizesse a mínima ideia do que, aquilo significava algo, certo? Mei não ficaria ruborizada sem motivo.

Eu acho.

Notas finais
Konnichiwa, minna-san! Tudo bem com vocês? Aqui está a segunda parte da batalha e, obviamente, o próximo capítulo será com Mayra e Mei. Talvez seja separado em duas partes também, pois estou fazendo o possível para não cometer o erro na reescrita anterior e quase não haver descrição. Espero que tenham gostado! Comentem, eu juro que, diferente do Aerodactyl, eu não mordo :3 Na verdade, responderei com todo o amor possível ♥ Até mais!