Lealdade sem Fronteiras #1
19 Capítulo 19 – Versus Seaking
Notas iniciais
Dan Young
— NÃO! MEIKO! MEI, ME RESPONDA! — gritei, batendo contra a parede que nos separava. Em um minuto, eu estava correndo por um enorme labirinto fugindo de um furioso Rhyhorn, e no outro, estava socando aquela lateral do labirinto, tentando descobrir o que havia acontecido com minha amiga.
Meiko e eu estávamos nos vendo conforme passávamos pelas curvas, que tinham vidros para o outro labirinto. Era como se estivéssemos passando por lugares espelhados, e eu tinha certeza que a veria no final. E então, no último corredor, quando ela deveria ter apertado um botão, algo de errado definitivamente devia ter acontecido. Eu tinha a impressão de que Mei não havia apertado o botão que deveria, e agora o Rhyhorn havia machucado ela. Pelo som e a falta de respostas, ela poderia estar mais do que machucada. Eu não queria acreditar que aquilo estava mesmo acontecendo, mas sabia que não havia outra explicação para o sangue que se espalhou.
Não sei por quanto tempo fiquei socando aquela parede. Sei que em certo momentos meus ombros estavam completamente tensos e doloridos, minhas mãos em carne viva e minha força havia se esgotado. Meus gritos se tornaram murmúrios e as lágrimas presas em meus olhos eram as únicas que ainda indicavam resquícios das minhas forças, pois eu me impedia de chorar. Talvez tivesse também ficado por tanto tempo que se viram obrigados a me tirar dali, pois abriram, com algum mecanismo, a estranha porta com Unown esquisito. De início eu havia visto que era a letra L, mas naquela hora poderia ser todo o alfabeto e eu não me importaria.
Eu só queria Mei de volta.
Eu já estava com as mãos completamente doloridas antes de me convencer de continuar. E eu só continuei porque queria encontrar com ela, queria ver onde ela estava, e se realmente tivesse acontecido o que pensei, dar vários socos na cara de Scott e todos aqueles imbecis da Equipe Fermata que deixaram algo como aquilo acontecer.
Passei pela porta e por tudo sem prestar atenção em nada. Ela deu em um corredor que eu poderia jurar que era o mesmo que Mei e eu ouvimos a conversa de Scott com o outro membro da equipe.
Mei…
O ódio lentamente consumiu a dor que aquele nome deveria trazer. Tentei respirar fundo e fui até a parede, onde fiquei encostado com os olhos fechados.
Isso não pode ser real. Ninguém sequer parece ligar para o que aconteceu! Que diabos há de errado com essas pessoas?!
— Dan Young?
Eu teria me assustado se minha fúria não permanecesse. O corredor estava vazio, exceto por um garoto que me encarava, parecia ter uns dois anos a mais que eu. Usava o uniforme da Equipe Fermata, seu cabelo era meio grande, chegando ao queixo, e até mesmo escondia seu olho direito com uma franja. Seu outro olho estava visível e tinha os mesmos traços finos de Mei, talvez ele fosse de Johto. Uma cicatriz antiga cruzava seu nariz, e mesmo com toda aquela seriedade, tinha uma expressão triste ao me observar. Um brilho estranho me chamou atenção. Ele tinha um cordão no pescoço, que eu não conseguia ver o pingente.
Apenas acenei com a cabeça para ele falar. Tinha certeza que se eu abrisse a boca, acabaria por falar algum palavrão. Porém, se todos eram tão idiotas ali, era melhor eu simplesmente ir embora.
Meu peito estava ardendo em pensar que sairia sem Mei. Mas eu não me permitiria chorar. Pretendia continuar concentrado em minha raiva. Qualquer outro sentimento me impediria de continuar em frente sem ela.
Por um momento eu havia esquecido que o garoto estava ali. Ele apenas estava me observando preocupado, apesar de eu ter certeza de que havia a sombra de um sorriso em sua expressão.
— Senhor Young, vejo que está frustrado com o que aconteceu. Como bom colega da Fermata, ofereço meus sentimentos. Nós tentaremos não permitir que os próximos passem pelo mesmo. — Ele ousou tocar meu ombro. Ou apenas era burro para perceber que eu estava com raiva.
Pensei que só estava tentando me impedir de sair socando todo mundo, fazendo todos sofrerem como a parede, no entanto, vi que ele não tinha qualquer relação real com o restante da Fermata. Ele se inclinou sobre mim para murmurar no meu ouvido e eu hesitei, só então notando seu comportamento evasivo quanto a outros membros passando pelo corredor, como se tivesse medo de ser interrompido, ou fosse me vender algum doce que não era recomendado para menores.
— Mas como possível futuro outro tipo de colega, oferto a ti uma vingança. — Ele puxou o cordão, mostrando um adorno prateado e uma pérola no meio. O símbolo do Palkia.
Tentei não permitir que meu queixo atingisse o chão.
Ele é da Equipe Orbis.
— Junte-se a nós e terá não só o corpo de sua amiga livre como estes malditos também sofrerão as consequências. — convidou.
Eu não podia acreditar. Como aquele cara havia chegado até ali? Não podia estar invadindo. Seu uniforme mostrava que já havia passado nos testes da Fermata. Na verdade, ele parecia ser um veterano. Há quanto tempo a Orbis observava a Fermata? Há quanto tempo ele estava ali, chamando membros rebeldes para o outro lado?
Levei as mãos ao cinto de Poké-Balls, percebendo que elas não estavam ali, e também sentindo a dor na minha mão. Embora a realidade estivesse oscilando em minha mente, ali estava ela de novo: Mei estava morta e a Equipe Fermata pouco se importava com isso. Eu estava sentindo o ódio me consumir, mas mesmo assim, todo o caminho que fizemos até ali estava claro na minha mente. Principalmente como conhecemos a Team Orbis. Ou T.O, como aquela dupla havia chamado.
— Vocês queriam nos matar. Não sou idiota. — retruquei irritado.
— Aquela dupla que vocês encontraram? Eles estavam afastados, andavam por aí com nosso uniforme sem permissão. Queríamos conversar com vocês. Ainda assim entendo que não queira. Você está nervoso e acha que não é o melhor momento para pensar nisso, mas pense. Eles pouco se importam com quem não passa nos testes. Você passou. Acha justo que se importem apenas com você, não com ela? — Não respondi. Não conseguia. — Venha para o nosso lado e eles se sentiriam tão traídos quanto você se sente agora. Se quiser pensar melhor em nossa proposta, eu entendo. Quando decidir, procure pelo Sora. É meu nome. Eu sou bem conhecido na equipe.
Ele saiu andando, sumindo de vista. Não sei quanto tempo fiquei ali, alternando entre sentar e andar de um lado a outro, e socar a parede mais algumas vezes, provocando uma dor reconfortante. Tudo aquilo acontecia sem qualquer nexo, como acontecimentos de um sonho que não se sente nada de verdade, apenas se espera que acabe. Mas nem esperar eu fazia, pois tinha medo de fazê-lo e não acabar.
Pessoas vieram me buscar, me convencendo a continuar com os testes. Por mais que eu tentasse, não conseguia focar em nada. Passei por outra das salas escuras, sem nem esperar a luz acender, e segui em direção à porta. Dei de cara com uma sala do outro lado, com cores brancas e rosadas. Haviam várias placas e coisas que não prestei atenção, como roupas e armas. Ignorei tudo aquilo e passei pela porta seguinte, sem nem saber se estava acertando ou não no teste. Por que eu deveria me importar de entrar na Team Fermata se agora eu sequer tinha motivo para estar lá? A maior parte do tempo eu me dedicara por conta de Mei. Ela precisava da ajuda da Equipe e éramos amigos, agora Meiko estava morta. Por que eu ficaria ali com tanta raiva que sentia deles?
Ou talvez eu devesse ficar exatamente por isso…
Meiko morreu. Mei está morta. Ketchum não vai mais seguir jornada comigo.
Aquelas frases simplesmente não faziam sentido na minha mente. Eu me sentia completamente abandonado à escuridão da ingenuidade: ela vai voltar, ela está bem, não aconteceu nada, é tudo um sonho, ela não se machucou.
Fechei minhas mãos com força, sentindo a agora agradável dor nos dedos. Ela me ajudava a manter o foco. Seguindo pelo corredor, dei de cara com uma multidão. Foi um dos poucos momentos em que eu estava prestando atenção.
Todos estavam com uniformes, mas não eram da Fermata. Eram idênticos aos que vi aquele casal usando no Monte Lua, e isso me surpreendeu. Aquilo era mesmo um teste? Ou era a Orbis invadindo a Fermata? A segunda opção não era impossível, um membro já havia me chamado para trocar de lado, afinal. Talvez eles tivessem me chamado para me aliar no último momento.
Eu estava atrás da multidão, chamando bastante atenção pela falta do meu uniforme, que deveria ter pego na sala anterior. Deveriam ter pelo menos cem pessoas ali, separadas em dois grupos lado a lado, com apenas espaço para um corredor entre elas. Eu estava bem no meio desse corredor, tentando passar despercebido encostado na parede atrás de mim. Talvez eu ainda tivesse chances de alcançar a porta.
Além dos grupos, um mezanino, que era mais usado de palco, se erguia com um homem alto e robusto encarando todos nós com autoridade. Eu poderia jurar que seus olhos continham um certo fanatismo.
— Hoje, neste exato momento, nós acabaremos com os últimos resquícios da Equipe Fermata!
Todos gritavam entusiasmados, como um exército inspirado para a guerra. O homem fez um sinal com a mão e todos se acalmaram para ouvi-lo.
— Hoje, meus caros amigos, tiraremos todas as pedras do nosso caminho e seguiremos em busca do Novo Universo sem mais interrupções. Os Pokémon se curvarão diante de nossa espécie! Esse mundo corrupto terá um novo líder!
Mais gritos e comemorações.
— Logo estaremos livres dessas monstruosidades que chamam de Pokémon, e eu os levarei a um mundo de glória, superioridade e paz!
— Vida longa ao Capitão Brandon! Vida longa à Equipe Orbis! — Vibrou a plateia, repetindo três vezes.
— Agora, sem mais delongas... — Seu olhar seguiu diretamente para mim. Meu coração, antes agitado, congelou. — Soldados, segurem os prisioneiros!
Antes que eu pudesse escapar, dois membros da Orbis seguraram meus braços. Eu tentei lutar, mas eles eram enormes, deveriam ter mais de trinta anos e pelo menos chegavam perto de dois metros de altura. Me debater era inútil. Havia mais duas pessoas, eu notei, ao meu lado direito e esquerdo também sendo seguradas. Eu nem havia notado a presença delas ali.
Comecei a ser empurrado em direção à frente, onde havia o verdadeiro palco. Empurravam-me com tanta força que eu quase caía no meio do caminho. Pensei em usar isso para fugir, mas para onde iria? O meio da multidão? Estaria morto ainda mais cedo.
A platéia estava a beira da loucura, agitados, xingando e ameaçando nossas vidas com tamanho ódio que eu me surpreendia que eles se diziam humanos. Alguns até tentavam vir até mim me matar pessoalmente. Os soldados me derrubaram de joelhos e me mantiveram com a cabeça baixa.
— Acalmem-se, acalmem-se. Vamos fazer isso por partes. Eu vou escolher alguém para fazer isso por vocês. Três de vocês terão a chance de sentir o sangue deles nas mãos. O primeiro… — Ele olhou em volta, para cada rosto na multidão, mas parecia não se importar de verdade com qualquer um deles. — Você. — Ele deve ter apontado para o grupo da minha esquerda, para uma pessoa aleatória de uma fileira do meio, pois estavam todos olhando para lá. Como se treinados para isso, todos se sentaram, deixando a pessoa visível. Eu não conseguia ver além de sua cintura da posição que estava.
— Parabéns. Você terá a honra de matar um Fermata por todos nós. Pegue suas armas, ou espanque-o, faça como quiser.
Os passos daquele membro ecoavam pelo salão, como se a multidão não estivesse ali. Eu tinha que admitir, a disciplina deles era notável. Mesmo entusiasmados, obedeciam ao líder sem questionar. Comecei a me perguntar se aquilo era uma idolatria ou algum tipo de lavagem cerebral.
Puxaram minha cabeça para trás, quase arrancando meu cabelo. Eu fiz uma careta e tentei me debater, mas minhas forças sumiram assim que vi quem era o membro assassino. Ela caminhava com firmeza e confiança, como se sequer estivesse morta até pouco tempo atrás. Na verdade, ela parecia determinada a fazer outra morte acontecer.
— Mei? — Eu não sabia bem se estava assustado com sua determinação ou com o fato dela estar viva. Eu a teria abraçado, se não fosse pelos soldados me segurando para meu próprio extermínio.
Extermínio esse que ela mesma causaria.
Os olhos dela não demonstravam qualquer tipo de hesitação. Na verdade, sua expressão era impiedosa.
— Mei, você não vai…
Ela se posicionou exatamente na minha frente, seu olhar mais frio do que nunca. Era mesmo ela? Meiko era mesmo capaz de me matar? Fosse tudo aquilo um teste da Equipe Fermata ou não, era o momento da resposta da minha pergunta. Eu esperava não descobrir daquela forma, mas eu sempre quisera descobrir.
Seria a Ketchum capaz de me matar pelo próprio bem?
A garota tirou do cinto um objeto pequeno, cilíndrico e metálico. Era exatamente do tamanho da mão dela, como se feito para que usasse naquela ocasião. Com um gesto, talvez ao apertar um botão, uma energia azulada surgiu do que descobri ser uma empunhadura, mostrando-se uma lâmina de energia.
Ela fez um movimento para cima, prestes a me atingir. Eu queria fechar os olhos, mas não o fiz. Encarei Mei golpeando com sua arma apenas para lhe lançar um último olhar. Um que dizia algo bem breve.
Eu sabia que você era uma assassina.
Ela desceu com a espada em um arco. Ouvi um som estranho, grave e metálico, mas esperei. Deveria ser a espada atingindo o chão depois de me atravessar. Esperei pela dor, que não veio. Meiko cambaleou para trás, repentinamente zonza.
— … É um alívio não serem reais.
Do que ela estava falando?
Olhei para baixo, mas meu corpo estava intacto. Ao redor, a multidão, o líder, o mezanino, tudo havia sumido, restando apenas uma plataforma que antes era o palco e todo o resto cinzento. Objetos grandes e metálicos estavam atrás de mim, e entendi que eram robôs. Um deles estava com um corte irregular que o partia ao meio na diagonal, Meiko puxou sua arma dali de dentro depois de se recuperar do susto.
Mas eu ainda não estava recuperado.
— Você não...
Mei jogou para longe a estranha espada e caiu de joelhos na minha frente, envolvendo meu corpo com os braços e afundando o rosto no meu ombro. Ela nunca me abraçara daquela forma antes, a única vez foi quando nos encontramos depois de sua prisão, mas ainda assim, ela nunca havia me abraçado de maneira tão firme.
Depois de um tempo, eu retribuí. Pude sentir que ela estava trêmula, muito. O quanto Meiko havia escondido o que sentia?
— Eu estou tão feliz que esteja vivo! — exclamou baixinho, como sempre controlando o próprio tom da voz.
— Você não me matou. — Foi tudo o que pude responder.
— Eu não sou uma assassina, Dan. — respondeu, se afastando de mim e me encarando como se de repente não entendesse o porquê de eu falar aquilo.
Ela estava se fazendo de sonsa.
Levantei e indiquei o robô.
— Como explica isso então?
Mei desviou o olhar, inquieta.
— Eu tive uma impressão. Eles se moviam de maneira estranha e faziam rangidos metálicos. Além disso, nem piscaram quando estavam te arrastando e você quase socou um deles. Não tinham qualquer indício de serem humanos.
— É muito pouco para quem poderia ter matado uma pessoa! Uma pessoa, Mei! Você diz que não é uma assassina, mas veja o que consegue fazer? Você fingiu que ia me matar e ainda teria matado uma pessoa se não fosse tudo fingimento! E se você estivesse errada? E se suas impressões fossem apenas impressões?! — gritei com ela.
Meu coração estava acelerado. Eu não sabia se brigava com ela por realmente ter achado que ela me mataria, se por ter visto que ela não hesitou em matar aquele robô simulando uma pessoa, ou se era apenas a adrenalina correndo em minhas veias e me fazendo ficar daquela forma. Eu simplesmente não podia ficar ali, parado, apenas aceitando que ela tivesse agido daquela forma, mesmo dizendo que não era uma assassina. Ela estava mentindo, eu tinha certeza. Embora eu ainda tivesse uma pequenina voz que tentava me alertar que ela havia me salvado, eu não conseguia ignorar a sensação de que estava sendo enganado. Ela dizia ser inocente e não ter feito nada do que diziam, mas como eu poderia ter certeza se ela agia como uma criminosa?
Mei pareceu prestes a discutir. Demonstrava estar inconformada com minhas palavras e eu me preparei para brigar. Eu sentia como se uma onda crescesse dentro de mim, dos recônditos do meu interior. Mei havia provocado um maremoto, e a tsunami se formava dentro de mim prestes a sair. Já ela, parecia mais como uma bomba em contagem regressiva, prestes a explodir.
Mas então, sua expressão amenizou. Seus olhos voltaram à melancolia e distância de sempre, a mesma de quando a vi pela primeira vez, e sua expressão não demonstrava emoção alguma. Às vezes me surpreendia como Mei conseguia manter suas emoções sob controle, apenas apertando um botão para fazê-las sumirem. A bomba havia sido desativada, como se sequer fosse capaz de destruir. Mas minha tsunami não desapareceria de um momento a outro.
— Está bem. Você tem razão. — disse, encerrando o assunto. Dando-me o prazer da vitória.
Observei Mei colocar seu capuz e seguir na frente, passando pelas portas de Unown. Letras I na porta da direita e G na da esquerda. Ela estava me evitando, mas seus ombros tensos e sua postura orgulhosa
Em vez de nos separar como das outras vezes, seguimos em um corredor com curvas e nos deparamos com um grande lugar vazio e escuro. Holofotes lentamente se acenderam, revelando um campo de batalha. Do outro lado, havia duas pessoas, uma delas era a garota que havia sido minha rival no Xadrez, e ao lado dela um garoto que eu não conhecia. Os dois se posicionaram em um lado do campo e nos observaram, esperando. Eu fiquei sem entender. Se eles iam batalhar um contra o outro, por que estavam do mesmo lado?
— Uma batalha em dupla… Bem, pode ser interessante. — Mei falou tão baixo que mal pude ouvir sua voz.
— Batalha em dupla?
Vi ela indo até as portas de novo e só então percebi. Nossas coisas estavam ali. Ela abriu a mochila brevemente e entendi que estava tentando conferir o ovo. Pareceu satisfeita em vê-lo bem, então colocou a mochila nas costas após pegar as Balls que nela havia. Prendeu cada uma à cintura, parecendo seguir uma ordem específica, e se posicionou na frente do garoto.
Peguei minha mochila também. Estava confuso com tudo aquilo, mas fui até o lugar ao lado de Mei e olhei para ela.
— Nós vamos batalhar juntos?
Mei assentiu. Seu silêncio voltando novamente.
Eu não sabia se estava aliviado por tê-la ao meu lado ou se prestes a entrar em desespero. Depois de tantas emoções relacionadas àquela garota, como eu poderia tratá-la como uma aliada em uma batalha?!
O garoto que antes havia me chamado para a Team Orbis se posicionou onde deveria ser o juiz. Ele era tão influente assim na Equipe Fermata para confiarem aquela batalha a ele?
— Essa será uma batalha em dupla de treinadores! — declarou. — Três Pokémon para cada Treinador. Os Pokémon que desmaiarem estão fora. Substituições são proibidas a menos que o Pokémon saia da arena ou seja derrotado. Perde o lado que tiver todos os Pokémon de um de seus Treinadores desclassificados. A dupla vencedora poderá continuar para a próxima fase do desafio da Equipe Fermata! A outra dupla, infelizmente, terá de ir embora.
Ele pediu para que escolhêssemos um lado da moeda. Mei e eu discutimos um longo momento sobre qual queríamos, mas cedi e escolhemos Coroa, como ela queria, porque o outro lado escolheu Cara. Ao jogar a moeda, o juiz indicou que nossos adversários começariam mandando seus Pokémon.
A garota liberou seu primeiro Pokémon. Eu não consegui reconhecê-lo. Era bípede, com pernas parecendo fortes, e corpo rochoso. Tipo Pedra, pelo visto. Sua cabeça era grande, provavelmente devido à enorme mandíbula. Mei explicou ser um Tyrunt. Seu aliado liberou um peixe, que reconheci ser um Seaking.
Olhei para Mei.
— Bulbasaur e Bayleef?
Ela assentiu, ainda que parecendo desconfiada. Levou um longo tempo para responder, como sempre fazia quando limitava suas palavras. Dessa vez, até falou bastante para os próprios padrões.
— Eu tenho a impressão que pode dar errado, Tyrunt não é apenas Pedra, mas… Sim, vamos com eles. Não quero que use seu Pokémon mais experiente logo de início.
Eu a encarei sem entender o motivo de não usar Sawk, mas ela me ignorou. Parecia distraída, como se seus pensamentos estivessem em outro lugar. Resolvi ignorar também e liberei Bulbasaur, que logo foi acompanhado por Bayleef.
Os dois se entreolharam. Bayleef pareceu querer dizer algo, simpática, mas o fato de Bulbasaur a ignorar, concentrado nos adversários, só a desmotivou, e ela voltou a focar na batalha. Desviei o olhar dos Pokémon. Eu estava começando a pegar costume de observá-los e não queria isso.
O juiz indicou o início da batalha, e antes que eu e Meiko pudéssemos fazer alguma coisa, nossos adversários começaram a batalha.
— Seaking, Ataque de Chifre na Bayleef e dê uma Bicada no Bulbasaur!
— Chicote de Cipó, Leaf. Segure como defesa. — Ainda que sendo uma ordem e tendo o tom de tal, Mei permanecia calma na batalha.
Seaking seguiu evadindo dos golpes de Bayleef, mesmo que ela se esforçasse para atingi-lo. Quando pensei que ela conseguiria, Seaking deu um alto salto e girou no ar, ficando de cabeça para baixo, atingindo Leaf por cima com seu chifre. Ela fez um som alto, parecendo ser de dor, e recuou. Seaking estava vindo atacar Bulbasaur, mas eu já estava pronto.
— Bulbasaur, Pó Venenoso! — Já eu, simplesmente não sabia não entrar em desespero para dar ordens aos meus Pokémon.
Seaking passou sem problemas pelo pó roxo e atingiu Bulbasaur. Mas ele não era burro. Aproveitou a leve lentidão que o peixe apresentou ao ser envenenado e usou Chicote de Cipó para jogá-lo longe.
Foi apenas quando Seaking voou de volta que eu percebi.
Ele era apenas uma distração.
Tyrunt havia avançado há muito e Bayleef mal teve tempo de se proteger com o Folha Mágica. As folhas brilhantes até atingiram o Pokémon, mas ele apenas as ignorou como se não tivessem efeito algum. Leaf acabou por ser atingida diretamente pelo golpe dele. Ele estava com sua cauda brilhando roxa, e parecia muito maior, o ataque aumentando seu tamanho. Primeiro ele atingiu Bayleef de baixo para cima. Embora com menor altura, seu peso maior, músculos mais fortes e corpo rígido lhe proporcionaram uma força que a fez quase voar com o golpe. Ele ainda pulou e girou no ar, a atingindo uma segunda vez com a cauda e a jogando na nossa direção.
Bayleef colidiu diretamente com uma confusa Mei, que caiu no chão perdida. No impacto, Bayleef esbarrou no cinto de Poké-Balls dela, ativando a própria Ball, entrando nela e ainda derrubando uma, que bateu no pé de Meiko e rolou até o campo de batalha.
Shinx saiu da Poké-Ball sem entender o que estava acontecendo. Eu corri para ver se Mei estava bem, mas ela recusou minha ajuda de início, tentando ver se o cinto estava quebrado. Eu sabia que não estava.
— O que que…? — De alguma forma consegui ignorar o fato dela permanecer com suas palavras monossilábicas.
— Cauda do Dragão. — respondi, sério, e fingi tentar ajudá-la com o cinto. Comecei a sussurrar rápido. — Seaking não vai ser nosso único problema, pelo visto. Ele pode ter sido a cobertura para o tempo que Tyrunt levaria para usar aquele movimento, que demora a ser efetuado. Precisamos atacá-lo e impedi-lo da próxima.
Meiko não respondeu e o juiz perguntou se estávamos bem. Eu a ajudei a levantar, ela pareceu entender que eu estava oferecendo para fingir que ela estava um pouco machucada. Era a única forma de falar com ela sem que os nossos adversários lessem nossos lábios. O juiz deu o sinal para recomeçarmos.
— Dan, cobertura. — disse ela assim que se posicionou.
Depois daquele tempo juntos, eu deveria estar começando a entender as entrelinhas de Meiko, pois eu soube exatamente o que ela queria dizer. Quem precisava de cobertura era ela agora.
— Bulbasaur, avance com Folha Navalha!
Apesar de mais lento por estar usando o ataque, Bulbasaur começa a avançar, jogando lâminas por toda parte. Elas cortaram o ar e atingiram ambos os adversários. Tyrunt não pareceu sentir tanto o efeito, sua defesa pelo visto era mais alta, enquanto Seaking não pareceu lidar tão bem com o golpe, pois também era efetivo nele. Na verdade, ele parecia ter a defesa baixa, o que me ajudou a dar ainda mais dano.
Enquanto isso, Shinx estava parado, com faíscas leves saindo do corpo. Eu precisava lhe dar mais tempo.
— Pó Venenoso no Tyrunt!
— Não respire, Tyrunt, e avance com o Cauda do Dragão!
— Avance também, Seaking, Bicada!
Novamente, Bulbasaur foi mais esperto. Eu estava começando a estranhá-lo, pois ele sempre seguia coisas que estavam além da minha ordem, e eu não sabia se aquilo era algo bom. Ao usar o Pó Venenoso, meu Bulbasaur se afastou. A nuvem de poeira roxa avançou, e a dupla adversária também. Tyrunt não tinha como escapar da nuvem enorme de pó, então apenas prendeu a respiração. Seaking estava vindo logo atrás, saltando, já envenenado e sem muitas preocupações com o veneno.
Quando Tyrunt passou pela nuvem, girou para atingir Bulbasaur com sua cauda, mas ele foi mais rápido. Conseguiu segurar o adversário pelo pé e o puxar, e de repente eu percebi que não era a primeira vez que ele fazia aquilo.
Charmander também fora atacado daquela maneira em nossa primeira batalha. Bulbasaur simplesmente adorava aquela estratégia.
Ele deixou Tyrunt no Pó Venenoso até envenená-lo, uma posição que ainda serviu de defesa contra o golpe de Seaking. O Pokémon Planta o jogou para trás contra Tyrunt e ambos rolaram até a outra ponta do campo de batalha. Em um momento de alívio, percebi que Meiko estava pronta para atingi-los com seu golpe. Os Pokémon estavam juntos, tínhamos tudo para atingir os dois.
— Agora, Spyke! Onda de Choques com toda sua força nos dois!
Por mais que Tyrunt fosse resistente, a maneira como ele havia caído em cima de Seaking nos dava chance de acertar ambos e Meiko percebeu isso. Eu estava me sentindo feliz, estávamos indo bem ao perceber novas estratégias.
Foi quando Shinx liberou toda a sua eletricidade, antes armazenada em pelo menos dois Cargas seguidos, que eu percebi que a batalha não acabaria tão rápido. E nós não estávamos indo bem. Nossos adversários mandaram Bayleef para longe e queriam fazer o mesmo com Bulbasaur agora porque conheciam Seaking o suficiente para saber que ele tranquilamente daria conta de um Pokémon Elétrico.
O ataque foi poderoso e cruzou rapidamente o campo até o outro lado, bem mirado onde os dois estavam. O máximo que os Pokémon tiveram tempo de fazer fora sair de cima um do outro e esperarem a dor. Porém, o golpe desviou completamente para Seaking, e o brilho da eletricidade desapareceu ao tocar e ser sugado pelo chifre do Pokémon, que simplesmente não se machucou, permanecendo como antes, exceto pelo veneno que lhe feriu um pouco.
Mei estava assustada ao meu lado, me perguntando baixo o que tinha acontecido.
Eu não conseguia responder. Minha mente ainda estava tentando procurar uma forma de nos livrarmos daquela habilidade, mas eu não conseguia pensar em nada. Os golpes de Shinx estavam inúteis agora.
— É a habilidade do Seaking… Ele absorve eletricidade como um pára-raios e transforma em energia para si mesmo. — expliquei, lembrando de como meus pais estudavam aquilo. Minha voz soou completamente desolada.
Seaking era imune a eletricidade e tinha golpes efetivos em ambos nossos Pokémon Planta. E mesmo que resolvêssemos enviar outros Pokémon, Tyrunt limitava nossas escolhas.
Sem sequer conhecermos os Pokémon adversários, eu já sabia o que aconteceria.
Aquela batalha estava perdida.
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