Lealdade sem Fronteiras #1
10 Capítulo 10 - vs Mayra (Parte 1)
Notas iniciais
Meiko "H". Ketchum
Sempre achei que se houvesse algo que iria me aquecer o coração, seria algo relacionado a mim mesma ou aos meus Pokémon. Vê-los felizes, brincando, seria algo bom, ou então eu ganhar algo, uma competição, ganhar a Liga Índigo, qualquer coisa nesse aspecto. No entanto, ver outra pessoa que, para mim, permanece um mistério, ganhar? Por que vê-lo feliz me fazia feliz daquele jeito?
Dan deu um sorriso enorme ao ouvir o que Tytos disse quando declarou sua vitória. Apesar de só estarmos na jornada juntos há duas ou três semanas, eu tinha certeza de uma coisa. Eu nunca vi Dan sorrir daquele jeito, estar tão feliz. E também orgulhoso. Ainda sim, por mais que sorrisos orgulhosos fossem normais em humanos como ele, eu me sentia olhando para alguém diferente. Ele não estava orgulhoso de ganhar a insígnia, mas sim de ver seus Pokémon vencendo.
Toda a minha vida, ou o que eu me lembrava dela, eu procurara por alguém que pudesse ao menos chegar perto das minhas expectativas para a humanidade. Alguém que considerasse os Pokémon como algo além de uma ferramenta para vencer competições, considerar como amigos.
Depois de tanto tempo, acho que encontrei alguém.
Porém não era o sorriso dele que me deixava tão feliz em ver, tão confortável ao estar ao lado dele. Eram seus olhos. Dan tinha as feições bonitas. Seu cabelo preto e a pele morena davam a sensação de seriedade e firmeza, enquanto aquelas sobrancelhas finas e um sorriso sempre estampado lembravam algo mais calmo e agradável, desde o momento ruim ao momento bom, era uma boa pessoa para se estar perto. Tudo nele era agradável. Seus olhos castanho-claro estavam acima de tudo. Expressivos, sempre brilhando com alegria. Naquele momento, eles demonstravam ainda mais essa alegria de viver.
Eu o observei, sorrindo como nunca o vira sorrir, até que Dan pareceu reprimir uma careta e levou a mão ao abdômen, segurando a lateral do corpo. Eu me preocupei. Tinha visto tudo da arquibancada. Desde a batida da dura asa de Aerodactyl contra suas costelas até seu giro e desmaio quando caiu no chão. Eu sabia que perguntar não ajudaria contra a dor, então me aproximei e fiquei ao seu lado.
Dei uma olhada em Pichu no meu colo. Ele dormia tranquilo, apesar de todos os ferimentos. Aquilo significava que, mesmo tendo passado dois anos, eu ainda conseguia cuidar dos Pokémon.
Prestei atenção em Tytos Fist, o Líder do Ginásio. Ele tentava ler algo numa prancheta, fazia a mesma cara de quando tentavam ler minha letra propositalmente ilegível, todavia eu sabia que o problema não aquele. Cutuquei Dan levemente e indiquei o Líder.
— Repara no nome dela. — falei eu, debochada.
— Mayra Collie-Styx Keythorn. — pronunciou lento, ainda tentando entender.
Vi Dan segurar a risada, seus olhos semicerrados numa tentativa desesperada de se controlar, porém o ar lhe escapou e ele começou a rir. Olhei para ele, disfarçadamente rindo junto. Eu sentia todos nos encarando. Ele me lançou um último olhar risonho, aqueles olhos alegres brilhando para mim, e pigarreou, tentando ficar sério.
— Eu, hum, lembrei de uma vez que meu pai me levou para uma das minas que ele trabalhava e... — tentou se desculpar.
Eu, curiosa, esperei ele continuar, mas a voz de Fist soou o repreendendo.
— Poupe-me. — ele voltou seus olhos à prancheta. — Continuando, a batalha agora será entre Mayra Keythorn e... — ele abaixou a voz, seu tom agora demonstrava nojo, desdém, e eu sabia o que estava por vir. Mesmo que, na hora de me inscrever para o ginásio, eu tivesse usado da minha caligrafia propositalmente feia de novo, ele sabia o meu nome. E sabia quem eu era. — Meiko Ketchum.
Evitei um suspiro. Era meu nome, sim, mas ouvi-lo quase me fazia ficar um pouco abalada. Depois de quase um ano fugindo de qualquer reconhecimento, ouvir alguém dizer meu nome completo e olhar-me nos olhos ainda me fazia estremecer, no entanto resisti a esse impulso. Como sempre fazia, tentei me concentrar no capuz, na falsa sensação de proteção que ele me trazia.
Olhei para Pichu, tentando evitar encarar a realidade e me concentrar nele. Dan me entregou minha Poké-Dex e eu a guardei, sem o encarar diretamente. Pichu era minha distração daquele momento. Só que não podia ficar segurando-o no colo todo o tempo. Dan, já entendendo, chegou mais perto para pegá-lo.
— Imite minha posição. — eu mandei e ele tentou, eu dei um sorriso mínimo com sua falta de jeito. — Relaxa um pouco mais. Isso.
Cuidadosa e delicadamente coloquei Pichu em seus braços. Ele apenas gemeu baixinho em sua língua e se arrumou no colo de Young. Eu olhei para o garoto e tentei murmurar o mais normal possível.
— Pichu está muito machucado, principalmente queimado, mas se trancá-lo na Ball agora, a ferida pior será a emocional. Deixe-o ao menos pensar, inconscientemente, que está em um lugar seguro.
Dan assentiu para mim, e eu sabia, mesmo que espiando por baixo do capuz, que seus olhos sempre tão expressivos estavam transbordando seriedade. E foi essa mesma que me fez ter confiança que ele cuidaria do pequenino. Ele não me perguntou como eu sabia tanto sobre o estado de Pichu, e me senti aliviada por isso.
Depois de tanto tomar coragem, o fitei, só então pensando sobre minha batalha contra Mayra. Seria a primeira batalha minha que ele veria de verdade. Perceberia quem eu era. Quando pequena, antes de tudo acontecer, minhas técnicas eram bem diferentes. Eu era mais defensiva, não gostava de realmente batalhar, e provavelmente nunca participaria de algo como aquela batalha onde os treinadores realmente machucavam uns aos outros. Agora eu estava diferente. Não via a hora daquela luta começar, queria com todas as forças descontar a raiva tanto guardada no meu peito. Isso provocaria perguntas depois, principalmente se minhas íris mudassem durante a batalha. Ainda assim será que haveria alguma agora?
Ele sorriu, seu olhar tão agradável me confortando por alguns segundos. E então, fazendo-me sentir um arrepio descer pela espinha, seus olhos pararam de sorrir, o brilho alegre desapareceu, e a seriedade preencheu toda a sua expressão. Eu me sentia prestes a ouvi-lo brigando comigo. Hesitei, dando um passo para trás, o medo e a dúvida enchendo meu peito. Ele abriu a boca lentamente e quase não pude entender, com meu coração batendo no ouvido, o que ele disse.
— Vença. — disse ele, com voz de autoridade, imitando-me.
Eu sorri e dei uma risada nervosa, puxando um pouco o capuz de maneira envergonhada, mas estava relaxada. Talvez, apenas, um pouco nervosa.
Meu coração palpitava aliviado e alegre, confortável e divertido. Ele parecia me fazer tão bem... Eu dei um passo em sua direção, um mais do que eu necessário, e me senti prestes a abraçá-lo. Tentava me convencer que seria apenas um abraço de amigos, como poderia, porém? Eu mal o considerava meu companheiro de jornada.
Lentamente senti meu rosto queimar, o rubor preenchendo minha face, e puxei o boné dele para baixo, tampando completamente sua visão. Puxei meu capuz também, fazendo o máximo para esconder minhas bochechas vermelhas. Ele riu, nervoso, talvez confuso. Ouvi Rex rosnando aos meus pés e vi Dan arrumando o boné. No entanto, eu não me deixei ser vista.
Corri para o campo, sentindo a brisa molhada e gélida envolver meu rosto quente e me fazer sentir mais próxima à batalha e menos próxima a... a tratar Dan como ele deveria ser tratado. Ou como meu coração queria tratar.
Rex, depois de lançar um olhar quase de ameaça de assassinato a Dan, me encarou e latiu. Seu nome repetido não demorou a chegar traduzido à minha mente.
— O que pensou em fazer ao chegar perto daquele humano? — Rex não era muito simpático no tom de voz.
Eu desviei o olhar e murmurei, sabendo que me ouviria com sua audição aguçada de Pokémon.
— Só queria me distrair um pouco. — minha voz saiu estranha, como se não fosse minha. Acho que minha vergonha ainda estava me afetando.
Ele rosnou alto e latiu de novo, mais irritado.
— Você sabe que não confio nele. Sabe como são os humanos. Você não deveria confiar em ninguém, Mei! — Rex latia e rosnava, até pulava, de raiva e desconfiança.
Eu fiquei em silêncio por um longo instante, meu coração estava apertado depois daquela frase. Eu, tomando uma atitude drástica, peguei a Ball dele e, mesmo sabendo o quanto ele detestava com todas as forças ficar lá dentro, olhei no fundo dos olhos do meu Growlithe.
— Você não confia em humanos, Rex. — eu abaixei meu olhar. — Mas às vezes esquece que eu sou uma.
Retornei-o e me virei para o campo. A tempo de ver Tytos terminando uma breve conversa com Mayra e vindo na minha direção. Fingi estar psicologicamente preparada para sua desdém.
— Não batalharemos aqui. Não há mais espaço por conta da destruição do teto. Como conversei com sua adversária competente, há uma arena do lado de fora do ginásio que servirá por ora. Se concordar. — avisou, sua voz autoritária.
Não é como se ele estivesse me dando as opções. Assenti respeitosamente curvando a cabeça e, depois do Líder avisar aos dois que assistiam, juntos caminhamos para o lado de fora., seguindo pela porta de trás do ginásio. Dan me alcançou quando estávamos na saída. Ele parecia agitado, apesar de ainda com dor.
— Você não fica ansiosa com uma batalha como essa? Com, sei lá, medo de perder? — me perguntou, mas eu estava o observando.
O momento de constrangimento nem parecia tão próximo depois do que aconteceu entre eu e Rex. Apenas dei de ombros, mais preocupada com seu estado.
— Meus medos são todos centrados a outros tipos de situações. — levei as mãos aos bolsos da blusa que usava, escondendo minha vontade de fechar as mãos. Sabia que, se começasse a lembrar do que eu tinha medo, começaria a tremer, e queria já estar pronta para meu trauma atacando. — Estou pensando é no seu machucado. — indiquei o lado que ele parecia sentir dor. — O jeito que foi atingido e sua respiração fraca... Você deveria sair daqui. Pode ser uma costela fraturada.
Ele deu de ombros com uma careta.
— Mesmo que seja, não é tão sério. Aguento até você acabar a batalha.
Deixei-me dar um sorriso fraco. Dan olhou para trás e eu segui seu olhar. Vi, acredito eu, o mesmo que ele. Havia uma pequenina sombra vindo na nossa direção, saindo do Ginásio através de um dos buracos no teto. Ignorei. Algum Pokémon selvagem.
Virei para frente. O campo era simples. Ficava bem atrás do ginásio, com terra batida e molhada por conta da chuva, sem muros ou teto dessa vez. Posicionei-me, ainda numa desesperada tentativa de esquecer a briga com meu companheiro. Meu olhar foi para Dan, que sorriu em apoio, mas voltei a abaixar o olhar.
Fechei meus olhos e respirei fundo, tentando me concentrar. Eu sabia bem que me arrependeria por ter prendido Rex na Poké-Ball, ainda assim, tentei só abrir meus olhos e olhar para frente.
Mayra me encarou sorrindo. Eu não reagi à sua expressão. Apenas caminhamos até o meio do campo para seguirmos a tradição. Fizemos uma mesura uma à outra e apertamos as mãos, entretanto nossas expressões e comentários não foram pacíficos, não como aqueles gestos.
— Você já deveria ter desistido. Sabe que não honrará nunca o nome da sua família. Acha que fingir ser uma pessoa normal vai te ajudar? Não. Tampouco fazendo amizade com um cara inocente. — pela primeira vez, ela não estava sorrindo com deboche.
Eu estava.
— Fica quietinha, Border Collie. Eu sei bem que cão que ladra não morde. — murmurei para apenas ela ouvir.
Ela praticamente rosnou com meu comentário e eu caí na gargalhada.
— Boa garota. — baguncei o cabelo dela disfarçadamente e me afastei.
Eu sabia que ela estava prestes a correr até mim e levar tudo aquilo para o lado pessoal, me bater até dizer chega. Ainda assim, vi que ela queria mesmo aquela insígnia, então se controlou.
Caminhamos até nossas áreas técnicas e nos preparamos pra batalhar. O Líder deu o sinal e jogamos nossas Poké-Bolas ao mesmo tempo. Eu deveria ser previsível para ela, pois enquanto eu liberei Leaf, minha Bayleef, ela enviou seu Quilava.
Quilava era um pequeno Pokémon quadrúpede. A metade superior do seu corpo era azul, enquanto a metade inferior era creme. Com orelhas triangulares com interiores vermelhos, e nariz arredondado. Seus olhos eram vermelhos. Tinha cinco manchas vermelhas em seu corpo; duas com um pouco de marca de exclamação na testa e três alinhadas horizontalmente na parte traseira. Assim que se viu no campo de batalha, ele projetou chamas delas. O pêlo de Quilava não era inflamável, por isso podia suportar o fogo.
Era óbvio que ela tinha acertado o Pokémon. Isso a fez sorrir. Eu apenas tirei minhas mãos dos bolsos, cerradas. Senti meu corpo retesar. Eu sabia que era tarde demais para esconder de Dan o segredo dos meus olhos, porém ainda tinha uma pequenina esperança que pudesse escapar de todos os ataques e, assim, meus olhos permaneceriam pretos como estavam. Eu tinha certeza que estavam daquela cor. O último movimento que levei sem querer foi brincando com Rex.
Pisquei com força, afastando os pensamentos, e me concentrei. Leaf olhou para trás, para mim, e sorriu. Eu sorri de volta, acenando com a cabeça. Outra companheira de longa data, Leaf, assim como Rex, Spyke e Magi, sempre teve sua própria personalidade. Calma, equilibrada, simpática, bondosa, delicada e principalmente gentil. Eu quase podia resumi-la naquelas palavras agradáveis assim como ela era.
Nós sorrimos uma para a outra novamente e olhamos para frente. Vencendo ou perdendo contra Quilava, eu me sentia bem em batalhar junto à minha amiga.
O Líder deu o segundo sinal para iniciarmos e eu não hesitei.
— Folha Navalha! — mandei imediatamente.
Mayra tinha seus planos.
— Cortina de Fumaça! Preencha o campo! — ordenou ela, confiante.
E eu sabia que, com eles, eu estava ferrada.
Minha Bayleef movimentou a folha em cima da cabeça e dali saíram várias folhas, que seguiram cortando o ar perigosas. Quilava, por ter uma velocidade maior que Leaf, abriu a boca e de lá saiu um nevoeiro preto, uma fumaça tão densa que não podíamos vê-lo. As lâminas continuaram seu caminho, mas não foi possível ver se havia mesmo o acertado. A fumaça chegou até mim e Leaf e eu não pude evitar começar a tossir. Meus olhos arderam, eu mal podia deixá-los abertos. Minha visibilidade se limitava a apenas alguns metros, eu mal podia ver onde Leaf estava.
— Lança-Chamas! — ordenou a voz de Mayra através da cegueira que se tornara minha visão.
Esfreguei meus olhos e tentei olhar para frente.
— Atenção, Leaf! — pedi, ainda com esperanças que pudéssemos evitar os movimentos.
Ela, se me ouviu, obedeceu, olhando em volta atentamente, apesar de ser inútil. Fiz mais um esforço para abrir os olhos, novamente sentindo a fuligem invadindo-os. Um vulto escuro e extremamente rápido cruzou minha esquerda, passando pelo lado de Leaf também, e veio por trás de mim. Virei-me, depressa, todavia o perdi de vista. Ele só deixara um rastro na nuvem de fumaça. Olhei para Leaf, mas foi tarde para avisar. Uma luz alaranjada veio do meio do nevoeiro escuro e, mostrando ser uma enorme rajada de fogo, engoliu Bayleef com facilidade e minha Pokémon foi jogada para trás com força.
— LEAF! — gritei, sentindo meu coração apertar e meu fôlego sumir. Comecei a andar sem rumo pela fumaça, metade do tempo tossindo ou chamando por ela.
— Ataque Rápido! Quantas vezes conseguir! — continuou Mayra, aproveitando cada vez mais a nossa fraqueza.
Caminhei cegamente fazendo meu máximo para encontrá-la. Engasguei ao tentar chamá-la de novo. Tentei recuperar o fôlego. Fui impedida por algo colidindo fortemente contra minhas costas. Cai no chão e sentir meu corpo arranhar ao escorregar pela terra enlameada do campo. Levantei de maneira lenta, meu corpo ardia, esfreguei meus olhos e olhei ao redor. Leaf estava ao meu lado, levantando devagar, bastante ferida pela efetividade do movimento.
Corri até ela, ignorando minhas dores. Fiquei ao seu lado e, mesmo que meu corpo reclamasse, apoiei minhas costas contra a lateral do corpo dela e empurrei, ajudando a levantar.
— Aguente firme. — postei-me atrás dela, pronta para um novo ataque. Vi o mesmo vulto de antes, vindo diretamente até ela. — Chicote de Cipó!
Minha Bayleef obedeceu. O ataque de Quilava era mais rápido que seu tempo de ação. Quilava colidiu com Leaf, os dois foram empurrados para trás, apesar de apenas Leaf realmente ter certo dano. A Bayleef suportou a dor e vinhas surgiram dos lados do seu pescoço, onde haviam pequenos brotos. Ela conseguiu envolver Quilava com firmeza e, num instinto em certa parte maldoso, admito que por ser algo que eu mesma sugeri a ela num dos treinos em Johto, começou a bater o Pokémon tipo Fogo contra o chão diversas vezes. A cada batida contra o chão, de um lado e do outro, Quilava guinchava alto de dor, eu quase podia ouvir seus ossos estalando.
A fumaça começou a baixar e só então Mayra entendeu o que estava acontecendo.
— O que?! Quilava! Roda de Fogo! — assustou-se, sua confiança sumindo.
Os cipós de Leaf foram facilmente queimados quando Quilava se envolveu em Fogo e ele se jogou contra Leaf, que foi jogada para trás de novo, me derrubando. Ela caiu ao meu lado em seguida e eu mal tinha forças naquela hora para levantar.
— Vamos prolongar um pouco isso, Quilava. Vamos deixá-las sofrer mais. Cortina de Fumaça! — mandou de novo. Ela queria demonstrar maldade, ainda assim, eu sabia que era apenas sua covardia falando mais alto.
E novamente fomos envolvidas pela obscuridade do nevoeiro escuro que Quilava soltou. Consegui, ainda assim, levantar e ir até Leaf. Ela mal conseguia se manter de pé. Observei seu estado. Suas pernas e todo o resto, trêmulas de fraqueza e ferimentos, estavam cobertas de sujeira e arranhões, além das próprias queimaduras dos ataques de fogo.
Mas o pior foi olhar em seus olhos.
Cada Pokémon meu me mantinha sendo eu mesma de alguma forma. Magi, com seu jeito calmo, realista, compreensivo e distante, me ajudava a enfrentar meu medo. Desde aquele incidente, eu não sabia muito lidar com Pokémon Psíquicos, mesmo assim ela me ajudava nisso. Ela me fazia lembrar um pouco Mewtwo por conta dos seus poderes, mas ela aproveitava isso e usava para me tornar mais forte contra o estado que fiquei. Treinávamos todo dia com esses movimentos Psíquicos. Ela me mostrava que, mesmo sendo tão poderosa, não eram todos eles que iriam me atacar, e também mostrava que, mesmo sendo da mesma tipagem, eu não correria mais perigo por causa daquilo.
Rex era meu companheiro de todas as horas e momentos. Fazia-me sorrir com suas brincadeiras, me protegia e parecia sempre saber quando eu precisava me distrair. Muitas vezes conseguia de alguma forma me conhecer mais do que eu mesma. Ele era quem me contava de mim mesma, do passado. Rex era minha memória, e eu, era a falta dela. Ele me ajudava a lidar com tudo, mesmo que significasse ficar grande parte do próprio tempo tentando me ajudar.
Spyke era, ao mesmo tempo, parecido e diferente a Rex. Meu Growlithe era orgulhoso e muitas vezes teimoso, tinha principalmente o pavio curto. Era como um adulto, um pai, que protege com suas lições e eu a criança que nunca aprendia. Mas Spyke também era quase como um adulto para mim, a diferença é que ele conseguia ser mais calmo e compreensivo que Rex. Confiava mais nos humanos que meu outro companheiro, era até mesmo sábio, o que significava que apoiava mais minha jornada que ele.
Leaf, a que estava ali na minha frente, era como uma mãe de outra espécie para mim, e ao mesmo pura como uma criança, uma irmã mais nova. Meu desejo era protegê-la de tudo. Inocente e carismática, com seus olhos sempre tão expressivos e felizes, eu não podia de forma alguma vê-la machucada.
Não como naquela hora.
Eu cerrei minhas mãos em punhos quando vi seus olhos, sempre tão alegres, reduzidos a dor e sofrimento. Ela viu minha expressão, minha vontade de matar Mayra e aquele Quilava desgraçados, e balançou a cabeça, se encolhendo. Observei-a em silêncio.
No final, ela precisava ser protegida de mim também.
Ainda assim, não agora. Eu podia aproveitar minha atual situação para acabar com aquela maldita batalha.
— Eu confio em você, confio na sua capacidade de vencer essa batalha. Mas também conheço nossa situação. — fiz um gesto para ela me seguir e comecei a andar através da fumaça ao lado dela, sabendo que ficar em movimento ajudaria. — Não podemos parar em um local só e muito menos arriscar um ataque. Não temos tempo para esperar a fumaça baixar. — parei e me virei para ela. — Se quisermos vencer, não podemos errar e nosso golpe tem de ser fatal.
Leaf me observava com atenção, em parte temerosa do meu estado. Eu sabia o que ela estava temendo que eu voltasse a… Bom, voltasse ao estado que fiquei quando me resgataram. Apenas ignorei seu olhar antes que me fizesse esquecer-me da minha raiva.
— Mei… — Ela me chamou assim que notou que eu a evitava. Sua voz, como sempre, era semelhante ao aroma sempre emanado dos bulbos no seu pescoço. Doce, harmoniosa e reconfortante. Segurei um suspiro e olhei para ela. — Você tem mais dois Pokémon, eu nunca fui uma das mais fortes e…
Interrompi-a.
— Vou te mostrar que você é mais forte do que pode achar. Carregue um Raio Solar e feche seus olhos. — minha voz soou mais fria e autoritária do que eu desejava. Não dei importância.
Ela estranhou, mas, obediente, o fez. Novamente fiquei atrás dela, podia sentir o poder, a energia, que ela acumulava na sua folha conforme o tempo passava. Mayra estava quieta há algum tempo. Provavelmente queria nos dar a falsa sensação de segurança, entretanto também significava que não sabia que estava nos dando tempo de carregar nosso ataque mais poderoso.
Fechando os olhos e nos concentrando totalmente na nossa audição, poderíamos ouvir a aproximação de Quilava. Ele veio correndo, pude ouvir o rugir de chamas, e pulei para o lado em seguida. Estava vindo na minha direção.
— Leaf! — gritei.
Ela se virou rapidamente e, antes de ser atingida pela Roda de Fogo, lançou o raio com toda a sua força em Quilava, que foi lançado para trás com um chiar semelhante a um grito de dor. Eu não podia hesitar. Tinha dó, é claro, daquela pobre criatura. Ninguém merecia um treinador desdenhoso como Mayra, mas eu tinha que vencer dela. Ao menos uma vez na vida.
— Não pare! — exclamei. — Folha Navalha!
A fumaça ainda nos impedia de ver onde ele foi parar depois de ser jogado, mas Leaf confiava em mim e a folha acima de sua cabeça brilhou colorida, da cor do arco íris, antes que ela atacasse. As folhas que saíram seguiram pelo ar de mesma cor, brilhando com uma magia estranha. No entanto, sem mais nem menos, pararam no ar e redirecionaram, e dessa vez elas pareciam bem mais afiadas e perigosas.
Sorri sozinha, reconhecendo o movimento.
Folha Mágica.
Com aquela magia nelas implantada, o movimento quase tinha vida própria. Sabia seu alvo e rastreá-lo-ia até o pegar. Eu estava orgulhosa. Mas não do ataque. Do fato de Leaf estar tão determinada ao ponto de aprender um novo movimento.
Acariciei e abracei-a. Ela sorriu e permaneceu atacando. Àquela altura, a fumaça voltava a abaixar e podíamos ver Quilava lutando para levantar. Não levou muito tempo. Mayra, sorrindo como sempre sorria, fez um gesto com a mão.
— Roda de Fogo! — mandou de novo.
Uma armadura flamejante arredondada cobriu Quilava. As folhas seguintes que Leaf enviou foram queimadas pelas chamas e ele partiu em nossa direção. Mesmo bem machucado, ainda tinha uma velocidade tremenda e nada pude fazer quando ele atingiu minha Bayleef ao meu lado. Assustada, caí sentada, e vi, no chão, Leaf desmaiada.
Suspirei e cheguei perto dela. Acariciei seu pescoço lentamente, tentando não tocar em suas feridas, e a retornei. Caminhei até minha área técnica calmamente e me posicionei. Estava dando meu máximo, ainda assim me sentia fraca contra Mayra. Eu estava perdendo. Pela sexta vez consecutiva, pelo que Rex me contou.
— Será que estou em um dèjá vu? Ah, espera, é apenas a Ketchum perdendo DE NOVO! — ela gargalhou.
Fechei meus olhos. Rex não estava ali dessa vez para me ajudar a me distrair com suas brincadeiras. Spyke não estava ali para me acalmar. Leaf acabara de desmaiar. Magi também não estava disponível naquele momento, eu preferia guardar ela para momentos de desespero.
Eu não tinha muita escolha.
Se eu quisesse mesmo vencer, teria que dar o meu máximo, mas também significava ser controlada pelas minhas emoções e aquilo nunca dava em algo verdadeiramente bom. Se eu me deixasse seguir totalmente minhas emoções, eu não sei ao certo o que poderia acontecer comigo e Mayra, além de estar quebrando uma promessa dos meus Pokémon. No entanto, se eu não tentasse... Eu perderia outra batalha contra ela.
Abri meus olhos, ainda sem decidir, e levei uma mão à cintura, mas então uma ventania repentina me atingiu e eu soltei a Ball, que permaneceu ali, e tentei entender o que estava acontecendo.
Não era uma ventania normal. Por mais que sendo uma cidade até mesmo úmida, Cerulean nunca fora de fortes ventanias. Não desmotivadas. Abri meus olhos com lentidão conforme o vendaval diminuía e olhei para frente.
Um vulto rápido voava na minha frente. Suas asas batiam com certa rapidez e seus olhos demonstravam ansiedade. O passarinho marrom piou, alegre, e voou girando ao meu redor.
— Eu ajudo! — exclamou ele, animado.
Em seguida, pousou no meu ombro, esfregou sua penugem em mim e, enquanto eu ainda processava tudo aquilo, o pequenino se posicionou voando em frente ao Quilava.
Um protesto foi o que me acordou da confusão naquela hora.
— Sr. Fist! Vai permitir que ela use um Pokémon que não é dela?! — Mayra estava revoltada.
O Líder do Ginásio olhou para mim.
— Esse Pidgey não é seu? — questionou-me.
O Pokémon deu mais uma volta ao meu redor, eu estava confusa ao ponto de não saber o que estava acontecendo.
— E-Ele... — gaguejei. Não era todo dia que um Pokémon se apegava a mim daquele jeito.
O pequenino bateu seu bico contra algo no meu quadril e sumiu em um flash vermelho e branco. Tive tempo apenas de ver a Ball capturá-lo.
— Bom... — peguei o objeto pelo qual ele acabara de entrar, dando de ombros e sorrindo logo após. — Agora ele é.
Liberei-o e Pidgey não perdeu tempo, ganhando altitude e se posicionando para lutar. O Líder de Ginásio novamente deu o sinal, dessa vez eu hesitei. Não sabia seus movimentos. Levei a mão à Poké-Dex no bolso. Mayra, que ainda estava furiosa por eu usar um Pokémon recém capturado, ordenou sem temer.
— Cortina de Fumaça! — mandou.
Pidgey, ignorando minha hesitação, atacou mesmo assim. Mesmo com toda a fumaça, ele não pareceu nem um pouco temeroso. Ganhou altitude e desceu com velocidade, suas asas brilhando em um tom branco.
Pude vê-lo apenas entrar na fumaça com rapidez, seus olhos encarando um ponto fixo, suas asas, amarronzadas como o resto da penugem, (exceto a crista e em baixo do corpo) bem próximas a si mesmo. Por mais que pequenino como era, ele lembrava uma ave de rapina. A pergunta era: Como ele sabia onde Quilava estava? E ele realmente sabia. Pude ouvir, vindo do outro lado da nuvem escura, Mayra se assustando.
— Não! Levante-se, Quilava! — ela quase implorava. Quase.
E então, gloriosamente, Pidgey voou acima da fumaça e bateu suas asas rapidamente, causando uma ventania que afastou a fumaça e revelou um fraco Quilava se levantando. Pidgey aproveitou e veio até mim, alegre.
— Viu isso?! É, eu sei, sou incrível! — o passarinho deu uma pirueta no ar e parou, o peito estufado com orgulho.
Eu ri e ele novamente ficou voando ao meu redor.
— Você precisa de um apelido, Pidgey. — eu comentei.
Ele parou na minha frente, ainda voando, e piscou.
— Conversamos sobre isso depois, Meenna. — voou para longe, para o campo de novo.
Esfreguei meus olhos, aquilo só podia ser um sonho! Eu estava pasma. Piscar era um costume humano, não de Pokémon. Ele me chamara de Meenna também... Por que aquele nome me parecia tão familiar? E como assim conversamos depois? Como aquele pequenino sabia que eu compreendia a língua dos Pokémon?!
Tentei me recuperar do torpor que toda a confusão causava e me concentrei na luta, colocando meu capuz de volta. Hábitos não mudam.
— Pidgey, Ventania! — mandei, aos poucos memorizando os ataques dele.
— Quilava, Lança-Chamas! Não perca para uma coisa pequena como essa! — Mayra parecia irritada.
Pidgey pareceu tomar fôlego, como se prestes a assoprar bastante, e começou a bater suas asas forte e rapidamente. Quilava abriu sua boca e a rajada de fogo que dali saiu conseguiu ser mais forte que a ventania, subindo com velocidade.
— Cuidado! — alertei e ele desviou se deixando cair e voltando a voar logo após com um rasante.
— Agora me irritei. — ouvi-o piar, raivoso.
Tudo se repetiu. Lança-Chamas e Ventania. Mas quando o fogo quase o atingia, Pidgey bateu as asas com mais força e lentidão. Agora, elas brilhavam azuladas. Quando movimentou seus membros novamente, cruzou suas asas na frente de seu corpo e abriu-as rapidamente, liberando vários X azul luminoso em forma de energia diretamente no fogo a sua frente.
A coluna quente foi partida por aqueles X. Claro que Pidgey não aguentaria separar muito tempo, então mirou diretamente em Quilava, que, surpreso, foi atingido e jogado para trás, caindo já desmaiado. Eu estava pasma. Pidgey não aprendiam aquele movimento. Na verdade, era bem raro aqueles Pokémon terem um Egg move como o Ar Cortante.
Mas por que tudo aquilo me parecia tão familiar? Aquele Pidgey, aquele nome que me chamou tudo. Era como se uma parte da minha memória, aquele grande vazio em minha mente, me fizesse cócegas, tentando me mostrar algo.
Mas eu sabia, com grande pesar, que nunca lembraria.
Forcei um sorriso para Pidgey. Depois de tudo o que ele acabara de fazer, me deixar confusa e depois aliviada, eu me sentia completamente mais calma. Finalmente nós estávamos empatadas de novo, talvez eu não precisasse me preocupar tanto assim com minhas emoções.
Mayra, que já estava impaciente, lançou meu adversário seguinte. Um Pokémon sem membros, semelhante a um caracol, saiu do fulgor branco da Poké-Ball que ela lançou. Ele parecia consistir quase inteiramente de uma substância semelhante a um magma vermelho, brilhante. Seus olhos ovais eram grandes e amarelos com pupilas pequenas, estendiam-se a cima de sua cabeça. Tinha um focinho ligeiramente bulboso e uma boca larga, com duas gotas do magma que balançando de cada lado superior da boca. Quando ele a abriu, pude ver que seu interior era bastante avermelhado também. Havia uma concha cinzenta por cima da parte posterior do seu corpo, era esférica e parecia algo como uma rocha cinzenta. Demorei um tanto para perceber que se tratava de magma endurecido e quebradiço, com placas irregulares e rachaduras entre elas. Revelavam o quão quente era seu interior, pois jorrava fogo esporadicamente.
Minha situação não era das melhores, pelo visto. Peguei minha Poké-Dex apenas para confirmar, mas aquele Pokémon era um Magcargo. E sua tipagem Pedra venceria Pidgey de maneira rápida.
Eu não podia hesitar. Aproveitando que agora segurava a Poké-Agenda, verifiquei os movimentos do Pidgey.
— Ataque de Areia! — ordenei.
Mesmo que o terreno estivesse molhado, Pidgey conseguiu bater suas asas e levantar a terra molhada que havia ali, jogando para cima de Mayra e Magcargo. Ambos se encolheram, tentando proteger os olhos, mas eu podia ver, assim que Pidgey finalizou o ataque, que não conseguiam enxergar direito. Se eu quisesse vencer aquela batalha, Pidgey e eu teríamos que ser rápidos e estratégicos.
Mayra, agora bastante suja, ainda parecendo incomodada com a visão prejudicada, não desistiu.
— Arremesso de Rocha, Magcargo! — a voz de Mayra ecoou em meio ao campo.
Mayra ordenou e eu hesitei. Magcargo brilhou com uma aura amarronzada ao redor do corpo. Uma pedra, seja lá de onde, surgiu de dentro da terra em frente a ele e foi jogada por algo invisível em nossa direção, na direção de Pidgey.
O Pokémon Voador desviou com certa facilidade, Magcargo não sabia onde ele estava, mas a pedra foi mais certeira quanto a mim. Mais pulando do que correndo, joguei-me para a esquerda. A pedra, ao cair no chão, afundou, criando uma cratera. Eu estava prestes a levantar, mas Mayra ordenou outro ataque sem que eu percebesse.
— Meiko! — ouvi Pidgey piar alto e ergui a cabeça.
Mas tudo o que vi, ou senti, foi outra pedra bater contra meu corpo. Não era grande, Magcargo precisava de tempo para conseguir invocar uma maior, mas foi bastante doloroso quando ela bateu contra meu ombro e saiu rolando. Dessa vez eu caí de verdade, sujando minhas costas. Quase não consegui levantar. Eu estava muito dolorida, tinha certeza que aquela última pancada causaria um hematoma. Tudo o que fiz foi ignorar e olhar para frente.
— Ataque de Areia! De novo! — mandei.
Meu novo amigo obedeceu, batendo suas asas de maneira forte de novo e prejudicando ainda mais a visão de nossos adversários, mas eu podia ver que ele já estava um pouco cansado. Não tinha certeza se aguentaria o resto daquela batalha. Ou aguentaria um ataque sequer. Eu não podia permitir que nada o fizesse abrir guarda.
— Ar Cortante! — mandei, ainda com esperanças de ao menos reduzir a saúde do caracol.
O Pokémon Voador repetiu o de antes, com aqueles Xs, mas, ao bater contra Magcargo, mesmo que em alguns momentos acertando partes mais frágeis como a cabeça, não houve muito efeito por conta de sua potente defesa e seu tipo resistente.
Ordenei que ele repetisse o movimento que diminuía a visão do adversário e meu novo Pokémon o fez, mas estávamos percebendo cada vez mais que nenhum ataque funcionava. Ar Cortante, Ventania, nada ultrapassava a forte defesa especial de Magcargo. Eu não podia arriscar um ataque que exigisse certa aproximação, pois tudo o que nos salvava era o Ataque de Areia que não causava dano algum senão à visão de nossos adversários.
Eu começava a me desesperar de novo. Mesmo com ataques consecutivos, nada machucava o Pokémon Lava. Depois de muito tentarmos, Pidgey enfraqueceu. Estava cansado, apesar de seu corpo estar sem qualquer ferimento. Voava baixo e eu podia ver o esforço que fazia transbordando pelos seus olhos. Eu tinha certeza que, mesmo sendo um pássaro, usar tantos movimentos com as asas estava lhe dando dores nos músculos.
Era novamente o turno de Mayra. Ela também não estava com a visão muito boa, mas estava melhor que seu Pokémon. Ela sabia bem que não conseguíamos atacar, e sabia onde eu estava. Pidgey ainda se mantinha em movimento, mas minha exaustão era maior.
— Magcargo, ataque com Arremesso de Pedras! Às onze horas! — gritou ela, seus olhos não totalmente abertos, mas vendo a mim, um possível vulto.
Levei o equivalente a um segundo para calcular a direção que ela ordenara. Aquela era uma estratégia que fora nos ensinado em nossa escola. Quando prejudicado visualmente, aquela era a melhor estratégia, ordenar um Pokémon a atacar de acordo com um relógio, onde o Pokémon é o centro, os ponteiros a linha de tiro e os números os alvos. Pidgey estava às três.
Seu alvo, onze horas, era eu.
A pedra voou na minha direção com uma velocidade incrível. Aquele Pokémon provavelmente gastou toda sua energia acumulada naquele ataque. Seu tamanho também não era dos menores. Eu sabia bem que não daria tempo de fugir, a velocidade daquela pedra era maior que as outras. Apenas me encolhi, esperando pelo impacto e a dor.
Mas não houve dor. E o impacto foi na verdade apenas sonoro, não físico. Abri os olhos a tempo de ver Pidgey e a pedra caindo. Demorei a entender. Ele viera voando e se jogara contra aquele ataque de propósito.
Pidgey... me protegeu.
Corri até ele. Caíra numa posição estranha, parecia ter machucado uma das pernas e suas asas estavam imóveis. Se eu achei que ele cansado parecia péssimo, eu preferia não dar um nível para a dor que ele parecia sentir naquela hora.
— Por que você fez isso?! — tentei pegá-lo sem fazê-lo sentir dor. Consegui, mas ele se encolhia no meu colo, apesar de eu não saber se procurava uma posição melhor ou apenas não queria ver o sangue que havia na minha roupa, resultado de segurar Pichu até que seus machucados coagulassem um pouco.
— De nada, Meenna. — piou ele, baixo, seus olhos demonstrando o que seria um sorriso para os humanos.
Eu ainda estava irritada.
— Responda-me!
— Eu te devo a minha vida. — ele disse, e, depois de tanto tempo naquela batalha, era a primeira vez que ele me olhava com seriedade. — Você não lembra mesmo de mim?
Senti meu peito apertar e balancei a cabeça. Aquele evento com Mewtwo... Havia feito comigo algo além de uma simples fobia, mas eu não admitiria em voz alta em um lugar como aquele ginásio.
Ele fechou os olhos por um momento, a dor o atrapalhando um pouco a conversar.
— Você já salvou minha vida. Duas vezes. — ele fez uma pausa, como se esperasse que eu lembrasse. Depois voltou a contar. — Uma foi me soltando daquela máquina de brinquedos. A outra foi há muito tempo. Eu estava seguindo um homem até que aquelas pessoas chegaram. Eu teria morrido se você não me ajudasse. Você até mesmo me chamou de...
— Pidy. E-Eu não acredito que é você... Você está vivo! — vi-me no impulso de abraçá-lo, mas o mínimo movimento que fiz o provocou dor. Seu piado alto foi longo. — Desculpe...
Ele apenas fechou os olhos, alegre em perceber que eu me lembrava dele, parecia feliz como se estivesse em um sonho bom, e dormiu no meu colo. Retornei-o. Encontrar Pidy era como encontrar uma parte de mim, uma parte esquecida e abandonada, escondida no fundo de tantas barreiras criadas ao longo do tempo e do medo. Depois do acontecido na Caverna de Cerulean, fiquei dias sem olhar para Dan. Minha jornada inteira, eu estava feliz por não lembrar tanto assim do que houve com Mewtwo. Mas... Entrar naquele lugar... Era como se eu tivesse revivido tudo.
Durante toda aquela semana, pelo menos por dez horas por dia, Leaf e Spyke me incentivavam a continuar a jornada. Magi principalmente, pois não só incentivava como também me treinava psicologicamente, mostrava de novo que os Pokémon Psíquicos não eram perversos como aquele que me sequestrara.
Depois daqueles dias me preparando, ela me dissera que era hora de eu continuar. Mas eu não me sentira preparada em momento algum. Minha vontade era apenas me trancar no quarto do hotel que estávamos e lá ficar eternamente.
Mas agora, ao encontrar Pidy, depois de tanto tempo me recusando a continuar, eu finalmente encontrara uma parte de mim mesma e me sentia pronta para continuar. Mesmo tendo vívido em minha memória cada pedaço do que vivi naquela caverna, eu tinha também um pouco do que eu vivi com Pidy, por mais que fosse apenas um dia da minha infância, e era como encontrar a mim mesma.
Peguei a Poké-Ball de Magi para a batalha seguinte, para o final de tudo. Enfim eu me sentia preparada para continuar, e isso incluía usar seus poderes psíquicos. Mesmo que isso quase tivesse o mesmo significado que me aliar a Mewtwo, me aliar a um Pokémon Psíquico, para atacar um humano.
Fale com o autor