Leal a seu senhor
14 Teste de lealdade - Parte 1
Ainda nos jardins de Takamagahara, o deus e o ex-shinigami conversavam enquanto o sol não nascia no outro reino.
—Você quer saber toda a verdade? —Perguntou Yon sentando-se à sombra de uma árvore.
—Claro—Respondeu Bishamon sentando-se também.
—Ótimo —Yon olhou fixamente nos olhos do deus—Como eu disse...Aqui não é seguro, estamos sendo vigiados... Mas eu conheço um lugar cujos os olhares da morte não tem poder algum.
—Certo, diga me aonde é para irmos logo.
As pupilas do ex-shinigami dilataram-se, levando a conversa de ambos para um esconderijo que apenas ele conhecia, sua mente. A conexão era seu olhar, enquanto estivessem se olhando, poderiam conversar sem serem interrompidos ou presos. Enquanto isso, do lado de fora de sua mente, qualquer um veria apenas dois idiotas apostando uma competição de quem fica mais tempo sem piscar.
—Gostou da minha ideia? —Perguntou Yon, sorrindo.
—Há deuses capazes de nos ouvir.
—Não Shini-no-Hana, ele não é tão evoluído a ponto de saber escutar tal coisas... Ham.... É como dizem, a morte apenas vê, mas é tão cega quanto um filhote de rato.
—Fale logo dragão, estamos perdendo tempo, esqueceu que temos apenas um dia?
—Verdade, mas como disse antes pretendo levar Tenon junto a... —Bishamon gritou, interrompendo Yon.
—Foda-se Tenon! Estou preocupado com Emi...E minha filha... Ex-shinigami, você disse que pode ajudá-la, me diga como.
—Já deve ter ouvido a profecia?
—Qual?! —Perguntou o deus se endireitando.
—A do fogo e Izanagi.
—Sei, a origem da lei de Órion. A origem também de todos os meus problemas, o que isso tem a ver com Emi?
—Sua protegida é a criança da profecia.
—E o que te faz ter essa certeza?
—Eu pergunto a você—Disse Yon sorrindo sarcasticamente apontando para o local da ferida cicatrizada de Bishamon —Me diga, o que sentiu quando ela o curou? Sentiu o fogo dela em sua pele, ou ela o queimou por dentro?
Tamonten levantou-se e andou de um lado para o outro, quebrando assim a conexão entre os dois. O deus estava irado, mas ao virar-se, antes de falar qualquer palavra, Bishamon viu uma sombra conhecida, era um dos shinigamis de Hana. O deus rapidamente sentou-se e voltou a olhar nos olhos de Yon.
—Eu disse, eles estão nos observando.
—Isso não importa agora, Como você sabe da Emi? Há quanto tempo está me seguindo?
—Alguns meses.
—O que?! Você está realmente me seguindo e ainda tem coragem de dizer isso na minha cara?
— Sabe, você é muito racional para um cara que perde a paciência facilmente—Comentou Yon —Mas enfim, Emi é a criança da profecia e seu poder é ainda maior que o senhor imagina.
—Tá, mas o que isso tem a ver com Ryuka?
—Não se faça de bobo... O fogo mata, queima, dilacera... Mas também purifica, suas cinzas são a cura para todas as dores.
—Você quer que minha Emi, minha menininha de ouro mate minha filha.
—Não, em primeiro lugar porque ela já está morta, e eu quero que ela queime o barro de Ryuka, quando o vidro se quebrar, ela estará finalmente livre. Você não quer que sua filha seja livre Sr. Bishamon?
Bishamon estava receoso quanto a Yon, mas respirou fundo e decidiu confiar nele. “É apenas um dia” disse o deus para si mesmo.
—Ok, mas fique sabendo que se alguma coisa acontecer a minha garotinha...Eu não vou te matar... Mas vou te torturar tanto que vai querer estar morto—Disse o deus se levantando.
—Não se preocupe, se eu falhar não só você vai fazer isso, como minha mestra vai esfolar meu coro vivo. Visto isso, não pretendo falhar.
—Quer saber, eu não conheço Izanami pessoalmente... Mas só de ouvir isso, já gostei dela.
Yon mudou de forma, e como Dragão desceu com o deus em suas costas para o reino de Ashihara, mas eles ainda estavam sendo seguidos, cerca de 4 ou 5 shinigamis estavam logo atrás. Foi quando Amaterasu resolveu dar uma ajuda aos fugitivos, o sol nasceu quando eles ainda estavam há certa distância do chão, fazendo a penumbra ofuscar os ceifadores, dando chance para eles fugirem.
—Convenceu Amaterasu a te ajudar dragão? —Perguntou Bishamon vendo os shinigamis ficarem para trás.
—Quem você acha que me deu a permissão para participar do conselho da Triede? — Yon se escondeu por entre as árvores— Sabe, eu não sou um Nora, mas ajudo vários deuses quando possível, ou melhor, várias deusas.
Kodama apareceu do nada, junto a Tsutsuji, seu exemplar, Bishamon não se surpreendeu ao ver a amiga, já que a deusa estava empenhada em parar a matança que Ryuka havia começado entre seus yokais. Mas seu coração sentiu uma pequena pontada, pois das árvores saiu outro Inugami, esse carregava em seus ombros sua protegida, Emi vinha sorridente abraçada ao servo de Kodama.
—Kodama-san—Disse Bishamon calmamente—Por que não me assusta te encontrar aqui?
—Hihihi...Yon me disse da emboscada que haviam planejado, não podia perder isso por nada.
—Ah, então vocês dois são amiguinhos —Bishamon apontou para ambos, Kodama confirmou com um sorriso— Tudo bem, mas não queria que envolvessem Emi nisso.
—Mon-chan, eu não sou mais uma criança —Emi levantou seu Hakama, exibindo com orgulho seu traje de Miko—Viu, eu já sou uma mulher agora, posso me cuidar.... Posso cuidar de você.
Por mais que aquilo não significasse nada a Bishamon, ele achava realmente fofo a inocência e coração puro da criança. O deus não podia fazer nada, Emi já havia decidido por si própria que ajudaria seu mestre, mesmo não soubesse como, a criança dizia-se disposta a morrer por Tamonten. Obviamente isso preocupava Bishamon, que a última coisa que queria era ver a morte de sua estrelinha, mas por fim ele entrou em um consenso com Yon, Emi iria ajudar Kodama a libertar seus yokais enquanto ele e o ex-shinigami iriam atrás de Tenon e sua mestra meio humana.
—Ok Bishamon-sama, protegeremos Emi com nossas vidas, dou minha palavra—Disse Kodama curvando-se em sincronia a seus inugamis— Mas só uma pergunta, onde Tenon está?
—Ham... Faça uma ideia—Disse Yon levantando a sobrancelha e sorrindo para Bishamon—Vai, chuta aonde ele está. Você conhece Tenon melhor que todo mundo, de certa forma ele é parte de você.
—Não é no Japão, certo—Disse Bishamon já fazendo ideia de onde ele estava.
—Diga me Tamonten, você tem lembrança de onde os Yaksas surgiram?
—Monte Kangchenjunga, na Índia, único lugar do mundo capaz de abrigar um monstro daquele tamanho.
—Sim, e o berço de Tenon, segundo as lendas—Disse Yon Rindo.
—E como vamos chegar lá? —Perguntou Emi inocentemente.
—Não se preocupe, eu cuido disso.
Yon se transformou novamente em dragão e pediu que todos subissem em suas longas e delgadas costas. Emi ficou deslumbrada, já que nunca havia visto um dragão em sua curta vida, parecia até que aquilo era um sonho. O ex-shinigami então pegou o olho de raposa que carregava caprichosamente e apontou para o sol, como um passo de mágica, um raio caiu a sua frente, abrindo então um portal para o outro lado do Oceano Índico, rapidamente o dragão pulou no portal, quebrando a barreira do tempo e o espaço, o levando imediatamente ao lugar desejado.
Sobrevoando a área, Bishamon pôde ver a devastação que sua filha havia causado, a montanha, costumava ter temperaturas baixíssimas, mas a presença de Ryuka junto a do Kamikui havia tornado a terra completamente seca, quase um deserto, cercado por um pântano formado do lodo e energias poluídas que Onis e Yokais aliados haviam trazido consigo. Yon desconfiava que o pântano fosse o refúgio dos seguidores de Ryuka, e a julgar pela energia do local, eles visivelmente estavam em desvantagem numérica.
Kodama e Emi desceram na parte mais alta e aberta do pântano, escoltadas por 10 inugamis, os mais robustos que a deusa tinham. Bishamon sentiu-se de mãos atadas ao ver Emi ficar para trás, mas era tarde demais para voltar e deixá-la no templo, ao mesmo tempo não seria seguro levá-la até lá, pois Ryuka sabia que aquela garota era seu ponto franco, para finalizar, era impossível atender ao pedido do dragão e levar a sacerdotisa junto a eles.
—Pegue isso—Disse Yon entregando uma capa para o deus, antes de alçar voo novamente—Você vai precisar.
— Isso é realmente necessário? —Aqueles trapos fediam a carniça, o cheiro do submundo—Eu aguento uma turbulência.
—Hum.... Se fosse só turbulência estaria bom demais.
O caminho até Tenon parecia cada vez mais difícil a cada metro percorrido, a energia do lugar ficava mais densa conforme iam se aproximando, a força exercida pela energia estava tão forte que foi capaz de derrubar Yon. Cair não foi de longe o pior dos problemas, difícil mesmo foi achar no chão, por entre a neblina negra do lugar, uma fenda que os levasse para dentro da montanha.
—Você conhece esse lugar? —Perguntou Bishamon protegendo-se da tempestade.
—Sim, já estive aqui algumas vezes—Yon pegou um galho seco e o levantou acima de sua cabeça—Veja isso Mestre Bishamon.
Usando seu próprio fogo, o ex-shinigami buscou o ar e depois soprou, queimando galho seco, fazendo uma tocha para ajudá-los. Sua chama afastava a energia, abrindo passagem para eles passarem.
—Viu Bishamon, o fogo afasta a energia vinda de sua filha.
—Não tente me fazer mudar de ideia, não vou pôr Emi em perigo à toa.
—Aff... Como é ignorante.
—Cala a boca—Usando apenas um braço, Bishamon levantou Yon pelo pescoço—Já está sendo difícil demais para mim, eu concordo com tudo que me disser, mas não toque no nome de Emi até acabarmos essa missão.
—Como quiser, mas não pode protegê-la para sempre, na verdade ela não precisa de proteção nenhuma... Mas um treinamento não cairia mal, pense nisso depois.
Eles adentraram uma caverna, na verdade um enorme buraco feito pelo Kamikui, seguiram seu rastro até o esconderijo da fera, Ryuka mantinha o animal dormindo ao som de uma Shakuhachi (flauta) e um Shamisen (banjo) encantados.
Tenon parecia-se muito com Orochi, o Oni de oito cabeças e oito caldas que Susanoo, o deus do mar derrotou ao ser expulso para o reino de Ashihara. O Kamikui por sua vez era muito maior, tinha pele albina, e todos seus olhos haviam sido arrancados por Bishamon em sua última batalha, tornando o animal literalmente cego. Outra diferença gritante entre Orochi e Tenon, é que o Kamikui tinha asas e elas funcionavam perfeitamente.
Era um feito realmente grande, ainda mais levando em consideração que o selo de Amaterasu ainda surtia efeito sobre o Kamikui, o prendendo pelos pescoços com coleiras apertadas. Falando em Ryuka, a semideusa parecia estudar do outro lado do salão, vários pergaminhos a rodeavam. Seu tempo estava se acabando naquela terra, na verdade já havia acabado, então manter o corpo com queria era uma tarefa dura e de constante manutenção.
—Se você for rápido, pode leva-lo para o submundo enquanto dorme—Disse Bishamon olhando discretamente a situação.
—E você pretende fazer o que com sua filha?
—Tudo que for necessário, não vou deixar ela escapar dessa vez.
—Ótimo, então temos um trato.
Yon pegou sua pedra e já estava preparado para saltar quando preciso, mas estava fácil demais, ambos sabiam disso. Tenon havia sentido o cheiro do servo de Izanami desde a hora que eles pisaram em seu refúgio, quando o ex-shinigami se aproximou o Kamikui simplesmente o jogou longe usando uma se suas caldas.
—Tenon não gosta de esperar... —O kamikui se virou para Yon e aproximou seus focinhos do ex-shinigami— Então decidiu aparecer? Você não sabe quanto tempo eu esperei para fazer isso.
—Acho que ia se ver livre de mim? —Yon cuspiu sangue na cara de Tenon— Que bom que te fiz feliz, isso nunca mais vai se repetir.
—Ah, é mesmo...
O kamikui iria mordê-lo, mas antes de fechar a boca Bishamon pôs se a frente de Tenon, usando sua lança ele cortou a língua do animal.
—Quem está aqui? —Gritou Tenon tampando sua boca que marejava sangue— Vamos, diga-me.
—Fique quieto Bishamon, ele não pode te ver! —Disse Yon se esquivando do Kamikui.
A capa que Yon havia lhe dado, mascarava o cheiro do deus, deixando o imune o faro de Tenon. Em silencio Shinki e deus trocaram olhares, ambos olharam as pedrinhas espalhadas no chão, calmamente se abaixaram e jogaram as mesmas um pouco a frente.
O som fez Tenon se virar, dando uma forte pancada contra uma pilastra que sustentava o lugar. Com o monstro de costas, Bishamon aproveitou para subir no animal, ele separou Tōdai-ji, o transformando em duas lindas Katanas. Usando todo seu peso ele pulou entre as cabeças centrais, e com um só golpe fincou as espadas em Tenon, o rasgando em dois lugares ao mesmo tempo.
—Ah.... Seu insolente.... Isso não vai ficar assim —Gritou Tenon em desespero.
O Kamikui jogou suas costas sobre outra pilastra, mas o deus foi mais esperto e saltou para seu peito, novamente com sua lança ele abriu um rasgo do peito da besta até sua barriga. Antes que pudesse cair, Tōdai-ji automaticamente mudou de forma sem que seu mestre pedisse, dividiu-se em duas Pagodas e a força de Bishamon fez com que elas se fincassem na carne de Tenon.
Tenon tentou acertar seu próprio joelho em Bishamon, mas ao levantar a perna, Tamonten usou as pagodas para impulsionar seu corpo e escalar novamente o Kamikui. O deus senti-a se muito esperto e disposto, mas estranhou o fato de Yon não fazer nada, o servo de Izanami apenas observava a situação. Quando Bishamon chegou ao topo de uma das cabeças, Tenon começou a se balançar e bater em todos os lados, mas o deus não o soltava.
Aquilo já estava comprometendo a estrutura do lugar, então o Kamikui decidiu fazer o mais óbvio, sair de lá, ele abriu as asas e saiu do buraco no meio da montanha. Yin e yang estavam a metros do chão, Yon observava tudo pacientemente, esperando a hora de agir, mas não demorou muito, Ryuka pôs-se atrás dele e tentou apunhalá-lo. O ex-shinigami esquivou-se para o lado e calmamente disse sem virar-se:
—Está perdendo tempo comigo, vá atrás da criança.
—O que?!
—Sua rival... —Yon virou o rosto deixando transparecer os olhos de dragão— Aquela que Bishamon cria como se fosse sua própria filha, ela está aqui.
—E eu com isso— Gritou Ryuka.
Ela tentou esfaquear Yon de todo jeito, mas o corpo dele era flexível e ágil como uma cobra, mesmo com toda sua experiência a semideusa se quer chegou perto de ferir o ser servo de Izanami. Até que Yon cansou-se daquilo, travou seu braço e tomou sua adaga, que se desfez em barro ao tocar sua pele.
—Você não está fazendo nada para ajudar Tamonten, isso não é normal de você—Disse Ryuka ofegante.
—A briga é dele, não minha—Disse Yon olhando para cima— Nem essa briga é minha, você devia matar Emi antes que ela a mate.
— Que besteira, pare de tentar me controlar Yon, eu conheço bem seus jogos mentais, não vai me enganar. O que uma criancinha poderia fazer contra mim?
— Bishamon a trouxe aqui pois ela não só é capaz de recuperar todo seu estraga.... Assim como pode facilmente te matar —Disse Yon olhando suas unhas sujas de barro.
—Isso é impossível shinigami estúpido.
—Hum.... Se não acredita, veja seu pai.... Quem a senhorita acha que o curou?
—Kodama, quem mais?
—Kodama não conseguiu curar a ferida que seu Hogosha fez a ele, mas a criança, sem qualquer esforço fechou o buraco em seu abdômen.
—Isso não é possível, uma humana não pode fazer tal coisas... —Disse Ryuka rindo.
—Quem disse que ela é humana?
—Hã?! Então o que ela é?
—Será sua perdição se não fizer nada —Yon olhou o horizonte, a julgar pelas nuvens, Tenon estava caindo— Se me dá licença, tenho um Kamikui para cuidar.
Yon jogou-se do buraco de Tonon e transformou-se em dragão, ao subir viu nitidamente a cara de Ryuka, sabia que ela iria atacar a criança. O servo sentia-se realizado, já que Bishamon se recusava a levar Emi até Ryuka, o jeito era levar Ryuka até ela.
—Mestra, está tudo correndo como o planejado—Disse Yon segurando seu amuleto.
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