Era cerca de 4:30 da madrugada, as fortes correntes de ar dificultavam a subida do ex-shinigami ao reino de Takamagahara, o frio também o fazia sentir-se fraco e o deixava lento. O servo de Izanami tinha que correr rápido, ele sabia que Bishamon estava preste a cometer um erro, um erro eu podia envolver a segurança de Emi. E apesar de Yon pouco se importar com o deus, ele sabia que tudo que envolvesse a segurança da recém descoberta filha de Izanami, era de sua responsabilidade.

Yon sabia que Bishamon estava a ponto de surtar, o deus já havia sofrido demais e não estava mais com paciência nem em posição de esperar um milagre. O julgamento de Ryuka foi demorado, Tamonten estava demasiadamente esgotado, se sentia incapaz depois de ver todo aquele teatro de mal gosto feito por Shini-no-Hana. Ele sabia que a Morte não absolveria sua filha, mas não esperava que fosse tão duro com ela, Ryuka teve como sentença ser esquartejada e ter seus restos queimados em plena praça pública, Bishamon já não tinha mais lágrimas para chorar, não aguentaria ver sua filha morrer novamente na sua frente.

Mas ao mesmo tempo ele se via de mãos atadas, tinha duas filhas, uma de sangue e outra de consideração. Se ele ajudasse uma, podia pôr em risco a existência da outra, mas como dizer NÃO para um filho? Bishamon havia tido a experiência de ser mãe e pai ao mesmo tempo, e não importa o que Ryuka tenha feito, ele não podia abandoná-la, então agarrou-se ao seu amor e foi à luta. Na calada da noite Bishamon pegou Tōdai-ji e partiu em direção à Torre das Almas, local onde Ryuka estava aprisionada e a morte literalmente o esperava. Por sorte o servo de Izanami sabia dos planos do deus da guerra e iria intercepta-lo antes de entrar na prisão. Mas Yon havia ficado tempo demais no reino da Terra, e havia perdido muito tempo tentando subir ao reino dos deuses, quando chegou à torre encontrou as sentinelas de pedra que guardavam a estrada despedaçadas, ele não devia estar longe...O que era bom...Mas Yon temia que Shini-Hana o encontrasse primeiro.

Izanami era sua mestra, mas Yon era o mestre de suas decisões fora do submundo, ele poderia fazer o que quisesse, mas já estava tão acostumado a servir a deusa e era difícil ele fazer algo sem pensar no bem da senhora do submundo. Naquele momento, não estava sendo diferente, estava se arriscando desnecessariamente por conta de sua mestra; quando Ryuka foi para o Yomi, há muitas eras passadas, Izanami ficou maravilhada com o potencial da semideusa e lhe ofereceu a liberdade de sua dolorosa sentença em troca e sua servidão. A filha de Bishamon obviamente recusou a proposta da deusa, desrespeitando Izanami, mas ela por sua vez não deixou barato, fez todo o possível para tornar a estadia da semideusa o mais desagradável possível.

Mas Izanami sabia que não era a única que queria a semideusa, ela sabia que Shini-no-Hana já estava de olho na filha de Bishamon, mas ao contrário de Izanami que via potencial na garota, a Flor da Morte apenas queria um trunfo sobre o deus da guerra. Shini-no-Hana nutria um ódio declarado à Bishamon, motivo? Simples, Bishamon era um dos poucos deuses em todo reino de Takamagahara que podia tirar o carma da morte dos humanos, bastava ele querer, e isso era algo que o próprio deus não sabia. A habilidade oculta de Bishamon já havia salvado milhares no decorrer dos séculos, fazendo os ceifadores perderem viajem e deixando a Flor da Morte possessa, Shini-no-Hana odiava ser enganada o deixando como uma criança em busca de vingança.

Prender a alma da filha de seu desafeta era algo que parecia muito racional e justo aos olhos da morte, sem contar que torturá-la seria de imenso agrado ao grande senhor da morte.

Mas agora voltando à Torre das almas, Yon acabara de entrar e mal pisou na torre, todas as tochas que iluminavam a entrada misteriosamente se apagaram, e logo em seguida os gritos dos prisioneiros começaram a ecoar. O ex-shinimagi não se deixou abater, para quem anda de olhos fechados no submundo, aquilo não era nada e achar Bishamon em meio àquele labirinto foi o mesmo que um passeio turístico. Se bem que a torre das almas acaba sendo um pedacinho do Yomi no reino de Takamagahara, por isso o ex-shinigami conhecia as manhas do sistema de segurança do local.

Falando em manhãs, é aconselhável andar no escuro pelo submundo, pois muitos dos habitantes daquele reino já não vinham a luz há séculos e ser atacado por um demônio é um contratempo chato de resolver, sem contar que gasta muito tempo. Yon sabia disso, mas Bishamon não, nunca havia visitado o submundo pelo visto, então carregava consigo uma tocha para iluminar o caminho, o ex-shinigami o encontrou justamente enquanto lutava com uma besta qualquer.

—Está maluco?!—Yon chegou sem avisar e sugou a chama da tocha para si—Nunca acenda uma luz em um reino de sombras, a luz tem que vir de você se quiser andar neste lugar.

—O que está dizendo? —Respondeu Bishamon assustado.

—Fique quieto e verá.

Como mágica a besta que atacava Bishamon parou, olhou em volta e rapidamente foi embora, isso levou cerca de uma fração de segundos para acontecer.

—O que está fazendo aqui? E como sabia disso? —Perguntou o deus meio sem saber o que havia acabado de acontecer.

—Eles são atraídos pela luz meu caro.

—Ok, mas o que está fazendo aqui? —Yon iria dar uma resposta polida, uma mentira descarada, mas Bishamon viu isso antes do ex-shinigami abrir a boca— E diga a verdade...Toda a verdade.

—Você está pondo em jogo a segurança de mestra Emi, então Izanami me mandou aqui.

—Esqueça, você não vai me fazer voltar.

—Eu sei, por isso ela me mandou te ajudar, ela sabe o quanto deuses da guerra são teimosos.

—Tá, adorei sua suposta “história solidária”, mas agora me diga a verdade.

—Isso é toda a verdade.

—Não...Falta algo, você não me ajudaria se não quisesse algo em troca—Yon deu uma risada um tanto debochada—Eu sabia que estava me escondendo algo, vamos, me conte logo o que planeja fazer!

—Minha mestra irá te ajudar, em troca ela quer que sua filha a sirva.

—Estão querendo fazer um Shinki de um semideus? Isso é impossível, apenas humanos e seres elementais podem ser nomeados.

—Então me diga.... Como pode um ex-shinigami, amaldiçoado à prisão eterna no submundo, andar tranquilamente sobre o céu e a terra?

Bishamon deu uma risada sem graça, não havia parado para pensar naquilo, Yon tinha mais liberdade e conhecia os caminhos de Takamagahara muito melhor que o próprio deus da guerra.

—Minha mestra tem poder Tamonten, é apenas isso que precisa saber. Ela é responsável pela criação das ilhas do Japão, assim como os deuses elementais. Izanami tem a dadiva da criação, e seus poderes são ilimitados quando o assunto é magia.

—Então está me dizendo que Ryuka pode ter uma chance de sobreviver se sua mestra a ajudar?

—Não, eu estou afirmando isso—Yon curvou-se para o deus, que mesmo desconfiado curvou-se de volta.

Yon segurou no braço de Bishamon, fechou os olhos e então puxou o ar, tentando sentir o cheiro de Ryuka, após alguns segundos o servo de Izanami conseguiu o rastro de sua “presa”, seus olhos brilharam em meio àquela escuridão e um sorriso sádico estampou seu rosto. A semideusa estava presa em uma sela que tinha apenas o espaço para dar alguns passos, a semideusa encontrava-se acorrentada de todas as maneiras possíveis: despendurada pelos braços, uma gargantilha com espinhos a arranhava à medida que respirava, havia um peso em seu abdômen e outros em seus pés, todos a puxavam para baixo. A semideusa estava quase inconsciente, nitidamente sofria, mais pela culpa do que pela dor, mas sofria do mesmo jeito.

—Ryuka! —Gritou Bishamon, Ryuka apenas levantou o olhar—Vamos te tirar daí.

Bishamon transformou seu Shinki novamente em um enorme machado, o jogou para atrás de suas costas, buscando velocidade, o deus estava para detonar com as grades da sela, quando de repente...

—Nã... Nã...Não— Ryuka tentava sussurrar.

—Hã?! —Bishamon parou assustado.

Antes que pudesse dar outro passo à frente Bishamon virou o rosto para o lado e quase involuntariamente se esquivou para o lado oposto, uma enorme lâmina vinha em sua direção, quando olhou para trás um ceifador empunhando sua foice vinha em sua direção, era Shini-no-Hana. Peculiarmente Hana parecia mais uma boneca de porcelana que o usual, porem a delicadeza de seus traços entrava em contraste com a enorme foice de traços grotescos e pesados que carregava, Atsuko.

Se você, caro leitor tem boa memória, sabe que Atsuko é o exemplar de Hana, irmão de Yon. E sim, para um dragão que era livre como Yon, ver outro dragão não ter seu poder devidamente usado, era de partir seu coração. Esse foi um dia motivo de indignação para o ex-shinigami, que não aguentava ser o que não era.

—Hana, quanto tempo.... Meu antigo mestre—Yon passou a mão dentro de seu paletó e pegou uma pequena bolinha de vidro, a escondendo na manga rapidamente—E Como anda o cachorrinho preferido de Izanagi?

Hana lançou sua foice bem no peito de Yon, o ex-shinigami se esquivou, mas mesmo assim a lâmina da morte lhe cortou um pouco. Após esquivar, a força da gravidade o fez cair, sujando se todo na lama daquela prisão.

—Vejo que você ainda guarda mágoas—Disse Yon ainda no chão—Que pena, isso te dará rugas terríveis.

—Não vamos deixar vocês libertarem essa.... Aff, pouco me importo com a nomeação dada a essa criatura.

—O nome dela é Ryuka—Disse Bishamon se levantando.

—Hum.... Tanto faz.

Hana chamou sua foice novamente, limpou o sangue de Yon usando seu indicador e levou a pequena amostra vermelha à boca. A morte fechou os olhos e repuxou o lábio superior, mordendo o inferior logo em seguida, o sangue de Yon não lhe agradava.

—Amargo como sempre, vou adorar levar sua alma também Yon—A morte sorriu dissimuladamente.

— Deixe os em paz, seu problema é comigo —Bishamon estava pronto a enfrentar a morte, quando Yon pôs-se na frente.

—Não mestre Tamonten... O problema dele é comigo, Shini-no-Hana segura em suas mãos meu irmão— Yon não conseguiu segurar, deixou uma pequena e fina lágrima caiu face abaixo —Bishamon, vá ver sua filha, eu o seguro por enquanto.

—Mas Yon... —Bishamon tentou falar, mas Yon não lhe deu chance.

—Vá salvar sua filha, estou fazendo isso por mim, por favor entenda...Dragões não podem ser contidos.

Bishamon não entendeu nada, mas sabia que se apressasse ele poderia ajudar sua filha e Yon em sua batalha.

—Vamos, lute comigo! —Gritou Yon.

—Como quiser, se quer tanto morrer.... Eu lhe darei uma morte justa— Shini-no-Hana o jogou novamente no chão, o pressionando pelo pescoço com Atsuko.

—Ham...Vai precisar de mais para conseguir me matar ôh projeto de princesinha!

Yon transformou sua calda e jogou Shini-no-Hana junto com sua foice longe, ele queria muito aquele momento, uma chance de dar uma surra em seu antigo mestre e iria aproveitar ao máximo essa oportunidade. Bishamon por outro lado ouviu o barulho altíssimo que tinham feito mas tentou se concentrar ao máximo em abrir a trava da jaula em que Ryuka se encontrava.

—Não se preocupe, eu já vou te tirar daqui—Disse Bihamon tentando pensar o mais rápido que podia.

—Não! —Gritou Ryuka o mais alto que conseguia.

—Hã?! E por que não?

—Eu...Eu mereço...Eu quero...Morrer.

—O que?! —Uma lágrima escorreu dos olhos de Bishamon ao ouvir aquelas palavras.

—Eu fiz coisas horríveis.... Mereço.... Preciso.... Morrer.

Yon olhou para Bishamon, o deus estava catatônico, mas haviam chegado longe demais para desistirem agora. Já haviam mandado alguém atrás deles, não podiam voltar, se voltasse Bishamon e ele seriam presos, sem contar que facilitariam para Shini-no-Hana achar Emi. O ex-shinigami ouvindo as palavras de Ryuka, tomou Atsuko das mãos de Shini-no-Hana, o jogou longe, pegou o deus da morte e se enroscou em seu frágil corpo, o apertando o mais forte que podia, certamente quebrando um osso ou outro nessa brincadeira.

—Você não quer morrer, você quer sofrer—Disse Yon, fazendo Ryuka levantar a cabeça—Quer se sentir culpada, mas como eu disse, você só quer, duvido muito que sinta algum remorso de algo que feito.

—Não é verdade...E eu mereço pagar.

—Hã?! Morte não é pagamento, morte é transformação, você mesma devia saber disso.

—O que está tramando Yon? —Perguntou Ryuka custando a manter a cabeça levantada.

—Seguinte, se morrer você vai acabar virando uma serva desse nojento — Shini-no-Hana estava tentando livrar sua mão para chamar novamente Atsuko, mas Yon viu sua intenção e virou-se novamente, prendendo seu braço com o peso de seu corpo— E digo por experiencia própria que ele é um saco, você não vai só sofrer na mão dele, ele vai te fazer odiar sua existência, te enlouquecer, tirar sua humanidade...E isso vai durar para sempre.

—Eu aceito—Ryuka abaixou a cabeça.

—Vai por mim, estar com ele é pior que qualquer inferno.

—E daí eu quero morrer, me deixa!

—Mas eu ainda não terminei de falar... —Shini-no-Hana usou o lodo ao seu redor para prender Yon, o puxando para baixo e deixando o deus escapar.

—Chega! —Gritou Bishamon—Olha, eu não te criei com suor e lágrimas, para ver você dizendo que quer morrer agora. EU SOU SEU PAI, e você aceitando ou não, eu vou te tirar daí.

Com um só golpe seu machado cortou as grades, Bishamon olhou Todai-ji, o transformou em leque e o escondeu em sua manga, com faz usualmente, depois usando as próprias mãos ele abriu caminho para passarem. Bishamon estava irado, segurou-se nas correntes e puxou-se para cima, ficando cara a cara com sua filha, ambos se encararam com cara fechada.

—Você é implicante, teimosa e acha que está sempre certa. Vê se cresce, você já morreu, passaram se quase mil anos desde o período Heian e mesmo assim você continua com esse ódio idiota!!

—Eu...Eu...

—Você me odeia?! Tô pouco me lixando para o que você acha garota —Bishamon puxou as correntes, as arrancando das paredes com um só puxão.

Ryuka desmontou no chão, Bishamon pulou para o lado antes de pisar sobre o corpo fragilizado de sua filha.

— Eu não—Ryuka tossia—Eu não te odeio...

Bishamon levantou Ryuka pelo pescoço, o olhou nos olhos, depois arrancou sua gargantilha, cortando-se um pouco no processo. Antes que a semideusa caísse novamente, ele pôs o pé na frente de forma que não batesse a cabeça diretamente chão.

—Não, me odeia... Bom começo—Disse Bishamon limpando as mãos, depois puxou as correntes em seus pés, arrancando com uma certa brutalidade as tornozeleiras de sua filha — Mas não me importo com isso também.

—Não, você não está me entendendo...

—Quer saber, você que não entende... —Por último Bishamon esmagou os cadeados do cinturão de ferro que segurava Ryuka, abaixou-se e olhou bem no fundo dos olhos de sua filha—Eu sempre, mas Sempre mesmo, cuidei de você, te protegi, e cumpri com minhas funções de pai. O problema é que eu sou um troglodita e você sempre foi pequena demais, por isso eu assume outra forma—Bishamon transformou-se em Yuka— Você nunca me viu como pai, porque eu fui sua mãe. Desculpa nunca ter te contado isso.

— EU SEI! —Gritou Ryuka já não conseguindo mais segurar suas lágrimas

—Sabe?!

— A sacerdotisa me mostrou, eu sei! Eu sei! Por isso mesmo eu mereço sofrer, eu errei, matei pessoas, quis matar meu pai, fiz coisas horríveis.

Bishamon deu um passo para trás, ao mesmo tempo que estava feliz, sentia-se impotente, sempre quis escutar aquilo de sua filha e agora que escutou, não sabia como lidar com aquilo.

—Bishamooon—Gritou Yon, já todo cortado e com várias camadas de piche seca sobre as costas. O servo de Izanami estava se cansando—Ajuuudaaa!

—Não, espera, me perdoa...Pai! —Disse Ryuka segurando o pé de Bishamon.

—Não estaria aqui.... Se não tivesse te perdoado —Bishamon sorriu e saiu de perto, indo ajudar Yon.

“Graças as estrelas alguém me chamou”, pensava Bishamon, pois sabia que choraria se continuasse aquela conversa e isso era algo que o deus não queria fazer naquele momento. Shini-no-Hana havia prendido Yon numa poça de piche e estava sentando esperando pacientemente que Bishamon aparecesse para lutar, o servo de Izanami estava errado, o problema não era dele e sim de Tamonten e o senhor da morte não queria se cansar à toa com qualquer um antes de enfrentá-lo. Por isso ele nem se deu ao trabalho de acabar com Yon, seria uma alma à mais para se preocupar e preocupação era algo que ele não queria naquele momento.

—Shini-Hana, pare de brincar e venha lutar com um deus de verdade.

—Um deus de verdade?

—Sim, não está me reconhecendo por acaso?

—Bishamon... Não me importa seus problemas de gênero, mas digo que... Eu vou adorar mais ainda te dar uma surra vendo o quão ridículo você se tornou por “amor” a essa sua filha ingrata.

Hana deu o primeiro ataque com certa raiva do deus, Bishamon defendeu usando sua lança, empurrando a Morte para trás. Ambos se encararam momentaneamente até que deus da guerra abriu sua guarda, como se chamasse a Flor da Morte para atacá-lo, Hana apenas sorriu e lhe retribuiu a gentileza passando-lhe uma rasteira na base mal posta.

Bishamon caiu no chão, mas apoiando-se em Todai-ji rapidamente levantou-se, dando um chute na boca do estomago de Shini-Hana. Depois virou-se, tomou equilíbrio e segurou devidamente sua lança. A morte estava irada com o deus da guerra e tentava acertá-lo a qualquer custo, mas o Bishamon não ia deixar isso acontecer, estava equilibrado, com seus objetivos em mente. A delicada forma do deus da guerra parecia dançar em meio ao combate, fazendo Hana ficar mais descontrolado ainda.

O deus da morte em acesso de raiva girou sua foice e lançou sobre a cabeça de Bishamon com toda sua força, Bishamon simplesmente se abaixou, fazendo a lâmina de Atsuko prender na parede. O deus da guerra rapidamente foi de encontro a seu oponente, travou o braço e iria o forçar para baixo, mas Bishamon usou sua flexibilidade passou por trás da flor da morte e o enforcou, com o próprio braço que o deus havia travado. Ao ver a posição que Bishamon estava, a morte pôs a mão na cara do deus, espalhando todo piche que podia, tirando sua visão temporariamente.

Bishamon se desorientou, Hana pegou o cabo de sua foice e em um giro rápido conseguiu tirar a lâmina da foice da parede, dando um belo golpe no ar. Pois Bishamon já não estava mais lá. O deus da guerra era mais rápido que a Morte e podia prever seus movimentos, mesmo sem enxergar ele podia se movimentar tranquilamente pela audição; talvez essa fosse a principal brincadeira do criador quanto aos olhos de Bishamon, o deus nunca precisou enxergar com os olhos para ver o mundo, sua visão transparecia e seus outros sentidos.

Ao se virar, Bishamon segurou a cintura de Shini-no-Hana e deu uma cotovelada na coluna do deus da morte, ferindo uma de suas vertebras. Qual vertebra o deus da guerra não foi capaz de sentir, mas fez Hana cair no chão.

—Aiiiiiiiii... —Hana se contorcia de dor.

—Ah, pare de reclamar, você provavelmente me deixou cego e eu não estou reclamando— Bishamon limpou seus olhos—Esquece, estou vendo bem.

—Seu desgraçado, você me paga Bishamon eu vou, eu vou... —Hana desmaiou sem que Bishamon fizesse nada.

—Ué, ele apagou? —Perguntou Bishamon dando pequenos pontapés em Shini-Hana.

—Shini-no-Hana pode ser um deus poderoso, mas é fisicamente fraco—Disse Yon se soltava do piche onda a morte havia o prendido.

— Precisa de ajuda aí? —Perguntou Bishamon, mas Yon pareceu nem escutar, estava ocupado demais pondo fogo em suas pernas para ver se deixava aquela gosma preta mais liquida

Ainda como yuka, Bishamon ajoelhou-se novamente e abraçou sua filha, Ryuka estava tão fraca, tão desnutrida, mal conseguia levantar os braços.

— Filha, eu sei que eu não fui um exemplo de pai, eu menti para você.... Várias vezes...Mas eu juro, do fundo do meu coração que foi pra te proteger dele—Bishamon olhou para Shini-no-Hana.

—Eu entendo, mas.... —Ryuka deitou sua cabeça no ombro de Bishamon— Bishamon, eu tenho tantas perguntas, tudo me parece meio confuso ainda, mas não tenho mais tempo. Quando o sol nascer eu estarei morta e você novamente de luto, perdão por isso.

—Não, eu vou te tirar daqui, há uma maneira de te salvar.

—Está se arriscando demais por mim —Uma lágrima escorreu rosto abaixo— Você vai acabar sendo morto também se continuar a tentar me ajudar, e essa é a última coisa que eu quero nesse momento.

—Confie em mim, Yon disse que pode te dar uma segunda chance, anda, vamos sair daqui .

Bishamon voltou a sua forma original e pegou sua filha em seus braços, depois passou por Yon, segurou em seu terno e com um só arranco tirou o ex-shinigami da armadilha negra deixada por Shini-no-Hana. Falando no deus da morte, ele ainda estava inconsciente e não parecia que ia acordar tão cedo, ao seu lado estava Atsuko, ainda em forma de lâmina.

Aquilo era a prova que Yon precisava para se convencer de uma tese que a muito tempo tinha em sua mente, Atsuko era o exemplar de Hana, mas o odiava. Não voltar a forma humana e não socorrer seu mestre ferido depois que ferido em batalha, nem tentar lutar pela “honra” de seu mestre era a prova disso. Nenhum Shinki que ama seu mestre o deixa na mão quando ele precisa, muito um exemplar de tanta confiança como Atsuko.

—Vamos deixá-lo aqui? —Perguntou Bishamon apontando para Hana.

—Não se preocupe, ele não vai morrer por isso— Disse Yon, rindo secamente, enquanto encarava a foice suja de lama no chão.

Antes de saírem do local, Yon sussurrou bem baixo

—Se quiser conversar, me encontre na divisa dos reinos daqui sete dias, há meia noite.