League of Legends: As Crônicas de Valoran
37 Capítulo 36: Irelia & Zed
Notas iniciais
Capítulo 36:
Irelia – Placidium– Capital de Ionia
Irelia chegou até a capital na carruagem de Karma, podendo ver todos os seus pontos turísticos favoritos da cidade, como as montanhas, templos em cima delas, as cataratas que passavam pela cidade, as estruturas e casas... Tudo belo.
– Eu adoro muito esse lugar – comentou com a anciã.
Karma olhava orgulhosamente para tudo ao seu redor.
– Me orgulho de ter nascido ioniana.
A brisa calma e fresca batia nos ouvidos de Irelia e lhe trazia paz. O sol brilhava no céu e o som das cachoeiras entravam em total sintonia com o local. Ela adorava sentir isso, viver aquilo. Gostava da paz que a capital lhe trazia, mesmo que tivesse que se distanciar de seu pai, que já estava muito debilitado. De toda a forma, ele conseguia se virar sozinho por enquanto.
Irelia se lembrou de uma vez em que seu pai deixou uma fruta cair no chão, e ao tentar apanhá-la, caiu no chão e não conseguiu mais levantar. A sorte foi que Zelos estava no local e o ajudou, por que se não o pai teria ficado ali, no chão, como uma tartaruga de casco virado.
Se preocupava com o pai. A doença o deixou muito debilitado para a idade, tirando todo o vigor que tinha quando jovem. Sentia pena do pai, e por vezes chorou ao seu lado, quando ele quase entrou em depressão por não poder mais fazer o que podia fazer antes.
Ele era o melhor lutador no Placidium, ter criado o Estilo Hiten lhe proporcionou muita honra e respeito, e agora decidiu por morar sozinho com os filhos num local isolado, perto da floresta. Não que tenha perdido a fama, mas com novos estilos, o seu próprio acabou ficando para trás. Nem mesmo Irelia sabia dominá-lo por completo. Era difícil controlar as lâminas com total precisão sem que cortasse algum membro seu. Por vezes Irelia perdeu partes do cabelo durante o treinamento, e Zelos tinha várias cicatrizes.
Quando saiu da carruagem, olhou ao redor. Haviam vários moradores ionianos vivendo normalmente, vendendo, comprando, comendo... As criancinhas brincavam no tempo vaga, enquanto não treinavam. Geralmente começavam a treinar artes marciais aos sete anos, logo as crianças que brincavam deveriam ter de quatro a seis.
– Te levarei até o Jardim Sereno, e depois iremos até o Templo Celestial, onde a jovem Syndra habita – disse Karma. – Devemos ir a pé a partir daqui.
De início, Irelia não gostou nenhum pouco da ideia de ter que andar, mas gostou da ideia de contemplar vários templos ionianos, onde jovens treinavam com armas, meditavam espiritualmente, e amplificavam sua energia mágica interior. Ficou surpresa quando chegaram ao Jardim Sereno, onde encontrou a Grande Árvore. Ela era grande e majestosa. O nome era bastante sugestivo quanto ao seu tamanho. Não era só grande, como era imensa. Ela dava uma sombra refrescante a todos que ficassem à sua espreita, e o vento batendo em suas folhas criava uma sinfonia harmoniosa que fazia qualquer um descansar em paz. Entretanto, aquele imenso local era utilizado para eventos e festas em Ionia.
Irelia percebeu que alguns homens ionianos pareciam fazer preparativos e decorar as ruas de Ionia.
– Haverá um grande festival nesse fim de semana– Karma comentou. – Será o festival anual do fogo.
– Eu sei – respondeu. – Faltei no último, então me esqueci que haveria, de qualquer jeito.
O Festival do Fogo acontecia anualmente em Ionia, no Jardim Sereno. Ionianos de todas as províncias se reuniam sob os ramos floridos da Grande Árvore. É uma tradição que traz consigo o início do verão; este festival é um símbolo da cultura ioniana, celebrando a purificação e renascimento do espírito. As festividades começam no início da manhã, onde os cidadãos saem para o Jardim Sereno, onde rezam e procuram purificação. Os vendedores se estabelecem ao longo das bordas do jardim, na parte do meio-dia, oferendo mercadorias de comidas tradicionais ionianas, trajes e armas antigas. Cidadãos se misturam à sombra da Grande Árvore e escrevem as suas aflições e preocupações em rolos para serem pendurados nos ramos da árvore.
Durante a noite, os cidadãos ionianos são brindados com várias apresentações musicais e teatrais referentes à história ioniana ou lendas. O desempenho principal da atração fica por conta de dois ninjas Kinkou, Shen e Akali, que realizam O Conto de Reina, uma lenda na qual um antigo guerreiro ioniano é caçado por um espírito maligno. Akali geralmente toma a parte de Reina, vestindo-se com trajes formais ionianos de batalha vermelho e branco, e Shen se caracteriza como o espírito que a atormentava, adornado de uma máscara assustadora. Como diz a lenda, Reina fugiu do espírito durante anos, mas ele sempre a encontrou e a atormentava. Finalmente, Reina vestiu sua própria máscara para enfrentar o espírito, mas quando ela se virou para enfrenta-lo, ele nunca mais voltou, afugentado por sua força.
Quando o sol se levanta pela manhã e a árvore torna-se totalmente escondida atrás de rolos de papel, um mago ioniano a incinera brevemente em chamas ardentes. Quando a magia se dissipa, o sol brilha poderosamente através dos ramos da Grande Árvore. Master Hana, um juiz ioniano afirmou que esta foi a maior lição do festival: de qualquer escuridão vem a mais poderosa luz.
Irelia sempre foi aos festivais do fogo, e sempre adorou. Gostava mesmo de ir quando seu pai ainda estava com todo o vigor, quando ele a colocava sobre seus ombros, permitindo que ela visse a Grande Árvore queimar, levando todas as trevas de dentro do povo ioniano. Adorava ver que, no final de tudo, os ramos da Grande Árvore continuavam ali, sem mesmo chamuscar. Eles não se queimavam e nem desapareciam, apenas continuavam a balançar com o vento.
Agora, com seu pai debilitado, ela faltava a quase todos os festivais. Se esquecera de como era bom ver seus males sendo queimados. Mesmo que quisesse muito ir, preferia cuidar de seu pai, retribuir o cuidado que ele lhe deu durante a vida, desde que a mãe morrera no parto da mesma.
– Onde fica o monastério da garota Syndra? – Irelia perguntou.
Karma ergueu o dedo e apontou para uma montanha ao nordeste de Placidium. Havia uma escadaria infinita que levava até aquele local. Irelia gemeu, infeliz, vendo que teria de subir tudo aquilo. Mas se confortou na ideia de que auxiliaria uma garota solitária a viver, quem sabe.
As paisagens de Ionia eram lindas de se ver. Haviam belas árvores de cerejeira, rosas e belas, com as pétalas sendo levadas pelo vento e se misturando com a de outras árvores; azuis, amarelas, vermelhas, as cores das flores variavam, mas eram todas lindas. Irelia gostava daquilo.
Via pessoas de todos os estilos: brancas, escuras, pardas... yordles. O local era um paraíso de diversidades étnicas e racistas, havendo muitos yordles bonitos com pelos ou pele. Alguns pareciam humanos anões, enquanto outros pareciam esquilos, e outros até monstrinhos bizarros.
A grande subida até o monastério demorou, ao todo, sete minutos. Quando terminou, quando as duas chegaram ao topo, Karma ainda estava de pé, não demonstrando cansaço, enquanto Irelia estava caída no chão, cansada e ofegante.
– Anos de treinamento: não consigo subir uma escadaria.
Karma sorriu.
– Essa escadaria destrói até mesmo os mais poderosos lutadores de Ionia. Não se sinta mal, não está acostumada a subi-la todos os dias.
E preferia não ter que subi-la todos os dias para se acostumar.
Ergueu a visão para contemplar o templo. Ele era grande e bonito, com vários ornamentos vermelhos e dourados. Como todo templo oriental, ele tinha mais algumas pequenas escadinhas que levavam até ele, onde havia uma porta que abria para os lados. As duas se dirigiram até lá. Irelia olhou para o alto, notando a altura do templo, que quase chegava nas nuvens. E a decoração do local era incrível.
Quando Karma abriu a porta, Irelia viu que o local estava vazio, sem ninguém.
– Alguns mestres habitam aqui, mas viajam muito. Quem mais fica por aqui são o Master Hana e a jovem Syndra. Hana dá aulas de como controlar os poderes à ela, e também inibe parte dos poderes da garota, para que ela não extrapole, como quando era jovem – Irelia vislumbrava o interior do templo, onde haviam relíquias de um passado distante em cada parte das paredes. Quadros, lâminas, pergaminhos... Eram todos deslumbrantes. – Foco, jovem Irelia!
Irelia se virou para a anciã, como se tivesse sido retirada de um devaneio, de um sonho de olhos abertos.
– Vamos até a garota Syndra, sem enrolações – Karma sugeriu, rígida –, afinal, eu não te trouxe aqui a turismo, certo?
Irelia fez que sim com a cabeça.
As duas seguiram rumo adentrando no local, que era belo, porém, haviam solidão lá dentro. Era um local obscuro onde a escuridão facilmente tomaria posse. Isso dava medo.
Durante a ida reta até o rumo correto, Irelia vislumbrou o pátio interior do templo, onde havia um lago a céu aberto, onde haviam vitórias-régias, flores... Os corredores do templo davam divisa com esse lago belíssimo, criando uma linda paisagem. Irelia adorava paisagens reconfortantes, mas não tinha tempo de deslumbrá-las, pois Karma parecia ter pressa. Sempre a puxava pelo braço quando ela parava para ver o lago.
– Foco! – ela exclamava. – Primeiramente iremos de encontro com os mestres, ver se eles aceitam a sua ajuda na criação de Syndra.
Irelia não sabia se gostava ou não dessa ideia. Queria ajudar Syndra, mas havia algo de errado nisso tudo. Por que chamariam ela? Master Hana já cuidava dela, por que mais uma pessoa? Não entendia. Mas algo fazia com que ela desconfiasse. Havia algo de errado, ela podia sentir isso nos próprios ossos.
Chegaram a um grande portão. As duas tiveram um grande esforço para abrir, e quando abriram, deram de cara com o que parecia ser um mini conselho de mestres. Entretanto, eles não debatiam sobre nada, somente meditavam. Eles ficavam de olhos fechados, pernas cruzadas umas nas outras, flutuando a meio metro do chão com uma energia do equilíbrio. O menor barulho poderia acordá-los de sua meditação e, infelizmente, Irelia usou muita força na hora de abrir as portas, batendo-as. Karma a olhou com repreensão, fez sinal de silêncio e fez um shh, baixinho.
Por sorte eles não acordaram, ficaram por ali, parados.
– Medite – Karma sussurrou à Irelia. – Só meditando poderemos encontra-los.
Irelia seguiu os passos de Karma, se sentando ao seu lado, completando a roda dos mestres. Karma cruzou as pernas umas nas outras, fechou os olhos, e em pouco tempo já flutuava. Seus olhos brilharam por um curto período de tempo, e Irelia engoliu em seco. Aquilo tudo dava um certo medo, mas mesmo assim assentiu. Fez o mesmo que Karma, esvaziou a mente, e procurou por purificação e equilíbrio. Logo viu sua mente se tornando nula, vazia, nenhum pensamento de dúvida ou temor a abalava mais. Ela tinha controle de seus pensamentos.
Foi quando ouviu uma voz em sua mente.
Finalmente você chegou, garota Irelia.
Irelia viu, à sua frente, todos os mestres e Karma, flutuando numa zona nula e escura. Sua mente.
Que demos início a reunião, disse um mestre barbudo ao centro de todos.
...
Zed estava cansado, com fome e com sede. Desde que Zelos havia o atacado, ele andara até a capital por horas e mais horas. Suas pernas já estavam bambas, estava quase caindo, morrendo por conta própria. Ele sabia que não estava completamente sozinho, mas parecia que estava.
Cortaremos o último suspiro deles.
Vagava pela floresta, procurando por algo. Não via mais nada, sua visão estava turva de tanto cansaço. Subir em árvores para obter alimento estava fora de cogitação.
– Me... ajude... – gemeu aos horizontes, pedindo ajuda, exigindo que alguma coisa lhe trouxesse maneiras de continuar a viver. Não queria morrer, queria ajuda. Queria ajuda, queria ajuda. Não queria morrer. Queria viver. Queria se vingar.
Você vai se vingar... em tempo.
– Quero me vingar... agora – Zed exclamou. – Não quero esperar... Urgh! – sentiu uma dor em suas costas e caiu no chão.
– Ele foi por ali! – gritou uma voz ao horizonte.
Eles te perseguem. Querem derramar seu sangue, te veem como uma ameaça.
– Eu só quero viver – sussurrou à sombra.
Você vai viver, em tempo de se vingar. Mas antes precisa sobreviver a isso. Não se preocupe, darei um jeito de te fazer viver.
Tudo o que Zed via era grama e mato. Sua visão foi se tornando cada vez mais turva, até o momento em que adormeceu. Aquele não era o melhor momento para se adormecer. Haviam homens procurando-o para matá-lo. Talvez Zelos ainda estivesse vivo, nunca se sabe. Dormir ali significaria a morte.
Mas Zed iria sobreviver, viver, se vingar.
Mesmo que para isso tenha que esperar anos.
Acordou com uma cantoria aguda e que parecia vir de uma garota. Sentia que alguém o observava, e podia vê-la pelas fissuras de suas pálpebras pesadas. Tentou abrir por várias vezes, mas o cansaço o consumia de dentro para fora.
– Durma mais meu cavaleiro das sombras – disse a garota.
Abriu os olhos por completo para contemplar a jovem garota. Ela tinha longos cabelos prateados, olhos violetas e um sorriso simpático. Vestia um manto branco, parecido com um quimono, e era bastante bonita. Deveria ter a idade de Zed, e a primeira coisa que ele reparou foi que os seus seios eram devidamente grandes para a idade.
– Q-Quem...
– Então você quer acordar, meu cavaleiro? – ela perguntou. – Muito bem.
Zed tentou se levantar, e percebeu que estava sem camisa, com somente um saiote.
– O-Onde está...?
– Onde está o que, meu querido?
Ele avançou nela, colocando-se por cima, agarrando-a pelo pescoço. Sua expressão sombria a aterrorizou por um breve momento. Ele pareceu estar possuído, furioso e a ponto de machuca-la.
– Onde estão minha armadura e armas?! – gritou furiosamente.
Ela estendeu os braços, e por incrível que pareça, os dois se ergueram no ar, deram piruetas, e quando Zed a soltou, caiu de costas no chão. A dor foi imensa, sentiu cada osso de seu corpo dolorido, e uma pressão que o mantinha no chão, impossibilitado de se levantar. Abriu os olhos e reparou que a garota flutuava a três metros do chão, com a mão estendida em sua direção. Percebeu que era ela que o mantinha preso ao chão. Os olhos dela brilhavam.
Ela desceu até o chão, onde se posicionou com as pernas nas laterais das costelas de Zed, olhando-o de cima.
– Não se descontrole de novo, meu querido, senão eu irei ser mais radical com você.
Zed percebeu que ela só queria ajuda-lo, e parecia estranho. Ela o observava o tempo todo, como se ele fosse uma relíquia. Ela deu de comer a ele, deu roupas novas, e nada disse desde então. Zed quis quebrar o silêncio.
– Quem é você e que lugar é este?
– Me chamo Syndra, e este é o Templo Celestial. É um local de Ionia onde os anciões da mais alta classe habitam, meditam e debatem. Eu vivo aqui.
Zed olhou ao redor, para o pequeno quarto onde ela vivia. Parecia uma cela de cadeia, mas com os detalhes e decoração ionianos. Havia uma janela, ao menos, pensou.
– Por que você vive aqui?
Ela pareceu triste.
– Sabe, eu nunca soube quem eram meus pais. Tenho poucas lembranças de meu pai, mas são bem vagas. Só lembro de muitas coisas roxas, um portal dimensional, um mundo vazio... E então vim parar em Ionia. Eu tinha muito poder, e então causei o caos por todo o canto. Meu poder crescia a cada dia, e ainda cresce. Mas aqui, eu aprendo a como controla-los, sem destruir tudo o que toco.
Zed sorriu.
– Interessante. Já ouvi a sua história no templo onde vivi. Te chamavam de A Transcendente, pois você tinha uma fonte de poder infinita.
Ela sorriu e colocou o cabelo para trás da orelha.
– Como me encontrou? – Zed perguntou.
Ela cerrou os punhos sob as coxas, como garotas geralmente fazem.
– Bem, eu estava observando a paisagem de minha janela, quando senti uma vontade de vasculhar a floresta com minhas esferas.
– Esferas?
– Sim, esferas – ela estendeu a mão, e uma esfera de energia de luz se formou em sua mão, ficando flutuando por alguns segundos. – Eu posso controla-las, fazem o que eu quiser. Até mesmo me permitem ver coisas que quero ver. Elas geralmente nascem brancas, mas depois de um tempo se tornam roxas, não entendo o porquê – a esfera branca em sua mão se tornou negra como a noite, como uma aura roxa. – Viu só? Não entendo – ela parecia chateada.
Zed sorriu para ela.
– Sabe que prefiro assim?
Ela sorriu.
– Bem, durante a minha patrulha pela floresta, eu te vi. Vi uns homens maus te perseguindo, então pedi às esferas que te trouxessem até aqui. Vi que estava machucado e sujo, então te banhei, cuidei de seus ferimentos, troquei a sua roupa...
– TROCOU MINHA ROUPA?! – Zed parecia aterrorizado com a ideia de uma garota ter visto suas partes íntimas, pelo menos por enquanto, quando jovem.
Os dois estavam corados, agora, mas Syndra sorria, enquanto Zed estava boquiaberto.
– Me desculpe, mas foi necessário. Você tinha muitos arranhões e cortes que estavam quase infeccionando. Por isso precisei te lavar. A princípio, você é o primeiro garoto no qual eu tenho contato em anos.
Zed franziu a testa.
– Está de brincadeira comigo, não?
Ela balançou a cabeça, negativamente.
– Juro que digo a verdade. Estou cativa nesse templo há anos, sou uma ameaça para todos que me cercam... menos para meus mestres, principalmente para Master Hana, que cuidou de mim por tanto tempo.
Zed se lembrou da época em que era inocente dessa maneira. Acreditava que o tratamento rude que Shyon lhe dava era para lhe fazer mais forte. Agora sabia que tudo isso não passava de uma raiva pessoal. Syndra ainda era inocente, acreditava que os mestres realmente a amavam e se importavam com ela, quando na verdade só queriam se livrar de mais uma ameaça, a única diferença é que não a baniram e nem tentaram matá-la, mas moldá-la ao jeito deles. Talvez tenha funcionado, quem sabe.
– Entendo – ele disse. – E você gosta desse cativeiro?
A expressão de Syndra era sombria e triste, vazia. Nada havia ali além de um reflexo de uma tristeza que já a assolava há anos. A solidão a fez ficar daquele jeito. A solidão lhe trouxe lágrimas que a marcaram. Era como uma granada que estava prestes a explodir, isso em todos os sentidos.
Zed se levantou.
– Não gosto de vê-la desse jeito. Preciso te mostrar o lado de fora dessa torre, urgente!
Ela ficou chocada com a ideia.
– Mas o Master Hana me proibiu de sair.
– Dane-se o que ele pensa!
Ouviu-se um barulho de alguém batendo na porta.
– Syndra, está falando com quem?
Ela olhou para Zed com desespero nos olhos.
– É Hana! – ela murmurou. – Esconda-se! – com um feitiço, guardou todos os vestígios de Zed em armários próximos e em baixo da cama. Fez o mesmo com Zed, empurrando-o para dentro do armário à força com o próprio poder. Ele bateu as costas na parte de dentro do armário, e tudo ficou escuro quando ela fechou as portas.
Ela abriu a porta, revelando um homem de meia-idade, com barba negra-grisalha e cabelos penteados para trás. Seu rosto era velho, tinha algumas rugas, mas ele era um tanto quanto belo. Vestia um manto vermelho e branco.
– Master Hana – Syndra saudou-o. – Estava conversando comigo mesma.
Hana franziu a testa, desconfiado. Tentou olhar para dentro do quarto ao inclinar a cabeça; não tendo encontrado o que queria, tornou a voltar-se para a pupila.
– Uma jovem moça almeja vê-la. Ela se chama Irelia, filha de Master Lito, o criador do Estilo Hiten.
Syndra sorriu, sempre dando uma rápida olhada para o armário, quase como se quisesse confirmar que Zed estaria ali. Olhava de lado, para que Hana não percebesse.
– Ah, que bom – ela disse. – Me dê um minuto para que eu me arrume – tentou por fechar a porta na cara do mestre, mas o mesmo impediu que ela fechasse.
– Algum problema? Parece apressada.
Da pequena brecha deixada pela porta, Syndra disse:
– Apressada? Eu? – ela estava nervosa. – N-Não, imagina – e bateu a porta na cara do mestre.
Pressionou a porta com as duas mãos, como se quisesse se certificar de que o Master não viria atormentá-la novamente. Voltaria ao seu amigo Zed, porém teria de manda-lo embora, ou deixar que ele ficasse? Deixá-lo ficar seria muito arriscado. Master Hana poderia entrar e vê-lo, e isso não seria muito bom. O acesso de garotos ao quarto de Syndra era restrito, ela não poderia ter contato com nenhum. Mas Zed não era qualquer um. Ele era... bem... Syndra não sabia quem ele era, mas não tinha tempo para explicações, precisava que ele fosse embora logo, pois Hana bateu à porta, dizendo:
– Se apresse, Syndra. A anciã Karma também está aí!
Ela foi até o armário onde Zed estava, abriu-o e ele saiu.
– Já estava ficando sufoca... – ela tampou a sua boca, desesperada, fazendo silêncio com o dedo.
– Precisamos fazer silêncio – ela sussurrou. – Master Hana não pode nem sonhar que você está aqui. Você precisa vestir sua armadura e ir embora.
Zed já ia removendo o manto, a roupa, esquecendo-se da existência de Syndra.
Ao ver o peitoral de Zed, Syndra corou.
– Aqui não. Não na minha frente.
– Falando sozinha novamente, Syndra?! – Hana perguntou, do outro lado da porta. Ele rapidamente a abriu, para o desespero de Syndra. Mas para sua sorte, Hana vasculhou o quarto com os olhos e nada encontrou. Ela franziu o cenho, confusa. Olhou pro lado e percebeu que Zed já não mais estava ali, porém, tudo o que restou foi uma sombra que se desfez em pouco tempo.
Aliviada, Syndra pôde despistar o mestre, mas mesmo assim uma dúvida estava mantida em sua mente: quem seria aquele garoto, afinal de contas?
...
Irelia sentiu seu estômago revirar enquanto esteve em reunião com os anciões. De início, tudo girava, mas depois conseguiu se estabilizar. Só de ter atingido o estado de meditação já era um bom sinal, agora, se manter nele era outra história.
Ao seu redor tudo era escuro. Pareciam haver estrelas no horizonte, brilhando como uma noite estrelada. Havia também uma lua, uma imensa lua que cintilava de maneira majestosa. Irelia não entendia onde estavam, mas deixou que fluísse.
Ela passava os olhos de ancião em ancião; alguns eram gordos, outros magros, mas todos eram barbudos, é claro. Todos eles falavam e debatiam algum assunto, até mesmo Karma entrou na discussão, mas Irelia não entendia nada. Era como se estivesse surda, ouvia um zunido bizarro, algo que não a deixava escutar a conversa.
Percebeu que Karma estava irritada com algo, podia sentir sua ira e raiva. Alguma coisa havia retirado seu contentamento. Irelia olhou para o ancião do meio, que deveria ser o ancião-chefe. Ele tinha uma longa barba branca e fina e reta, que descia por seu peito. Era enrugado e velho, com um tipo de chapéu... não, um elmo. O elmo era belo e nele havia vários escritos em uma língua que Irelia não entendia; o elmo lembrava vagamente uma torre. Ele parecia estar sempre de olhos fechados, ou talvez eles fossem puxados demais para parecerem estar abertos. Ele tinha uma aparência calma e serene. Quando ele chamou pelo nome de Irelia, ela finalmente pôde finalmente ouvir.
– Irelia – a voz do ancião soava como um trovão, algo forte e explosivo, porém, serene. – Você sabe onde estamos?
Irelia balançou a cabeça, negativamente. Ainda parecia estar em transe, com a mente cansada. Só de estar ali ela se sentia desgastada.
– Estamos na sua mente, no interior de si mesma. Sabe por que tudo aqui dentro é escuro como o céu estrelado?
– Não – ela conseguiu responder.
Olhou ao redor e percebeu que todos os anciões estavam de olhos fechados, meditando. Até mesmo Karma, ao seu lado, parecia estar adormecida num sono espiritual que só poderia ser despertado com uma forte intervenção.
– A sala espiritual reflete a sua melhor lembrança – disse o ancião. – A sua visão favorita pode ser refletida, logo posso ver que você adora o luar e o céu estrelado de uma noite sem nuvens, estou certo?
– Sim, você está.
Ele deu um sorriso macabro que chegou a dar calafrios na espinha de Irelia.
– Ótimo, fu, fu, fu – ele riu de maneira estranha. – Gostaria que soubesse que a partir de agora você é uma de nós. Quero que aprenda que Syndra é muito mais que uma só garota: ela é uma fonte de poder.
Irelia arregalou os olhos; uma preocupação bateu à sua porta.
O ancião continuou:
– Ela tem o poder para destruir toda Ionia com um feitiço só. O poder dela é ilimitado. Nunca vimos coisa igual. Quando nós a encontramos, ela estava em um estágio alarmante.
– O caso da garota bruxa – Irelia sussurrou, lembrando-se de um boato que surgiu há alguns anos em Ionia, dizendo que uma garota com poderes infinitos estava à solta. Parecia que não passava de um simples boato, mas agora fazia sentido. – Então era ela?
– Sim. Agora preciso que você aceite ajudá-la nessa jornada de bom grado, pois não confiamos no controle da mesma em seus próprios poderes. Ultimamente nós viemos controlando o crescimento desenfreado de seus poderes para o próprio bem, utilizando magia. Infelizmente, Master Hana não consegue mais segurar. Caso ele venha morrer, ela entrará num estágio de autodestruição e de tudo que há ao redor. A runa de controle de Hana pode ser dividida, por isso você está aqui.
Irelia franziu a testa.
– Precisamos de alguém semelhante à ela para utilizar da runa de controle, logo você é a melhor escolha.
– Por que? – perguntou Irelia, intrigada.
– Por que você sabe do Estilo Hiten. Do mesmo jeito que controla as lâminas, poderá controlar a garota – ele esticou a mão em sua direção. – Implantarei a runa de controle em seu braço direito. Trate de mantê-la longe dos olhares de Syndra. E agora o peso de controla-la caíra sobre você, também.
– E-Espere...!
Foi tarde demais. O ancião-chefe começou a falar coisas numa língua estranha, e seus olhos brilharam num verde poderoso. Irelia podia sentir letras mágicas se formando em seu braço direito; runas. Sentiu um poder imenso correndo por suas veias, e então começou a ver Syndra à sua frente, mas era como uma lembrança, não uma, várias. Era como se parte das lembranças da garota vinham junto do poder. Estaria ela recebendo o poder de Syndra? Sentiu escuridão correndo por suas veias. Depois sentiu luz, esperança, os sonhos da garota, os sonhos de toda as garotas. Um príncipe encantado? Talvez. Talvez ela quisesse uma vida de ouro como todas sempre querem, mas não era isso que Irelia viu em seus sonhos. Só viu tristeza e amargura. As pessoas deviam julgá-la por suas habilidades destrutivas. Sentiu pena por ela, mas já era tarde. Ou talvez não fosse. Quem sabe?
Irelia abriu os olhos e se viu num lugar diferente, em frente àquele lago que vira na parte exterior do templo. Ao seu lado estava Karma, olhando justamente à sua direita, onde uma garota bela, adolescente, cabelos brancos-prateados e olhos violeta. Ela vestia-se de um manto belo e brilhante, branco e vermelho, como a sua roupa. Ao seu lado estava um homem, Master Hana. Irelia podia sentir a runa de controle em seu braço esquerdo.
– Olá – disse à garota, que parecia tímida.
– Oi – respondeu Syndra, sorrindo.
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