Notas iniciais
Swain volta à Noxus para obter informações sobre o desaparecimento do General Du Couteau, mas talvez consiga muito mais do que isso.

Capítulo 24:

Jericho Swain – Noxus

Acordou em uma maca de hospital. Seu peito doía, assim como sua perna direita, mas ele já havia aprendido a lidar com esse tipo de dor, pois já machucara sua perna uma dezena de vezes. Uma vez ele levara uma flecha de um demaciano durante a guerra, outra vez havia sido perfurado na perna com uma lança por espião de Demacia, outra, tinha caído de uma cascata, batendo a perna com força numa pedra.

Pode até parecer loucura, mas só de ter visto aquele monstro cheio de olhos... eca, pensou Swain. Sentiu uma terrível vontade de vomitar, mas segurou. Odiava esse tipo de nojeira, mesmo que fosse quase que inevitável, pois, só de pensar naquele monstro, ele ficava enojado. Tentou esquecê-lo, mas a imagem sempre voltava a sua mente. O corpo queimado de Deville, as luzes rosas, os lasers se projetando em sua direção... Tudo aquilo lhe parecia fritar a cabeça, que latejava.

Tivera sorte de ter chegado à Noxus rapidamente. Foi uma decisão bastante ousada voltar à cidade-estado, que fica tão longe, sendo que ele estava a poucas milhas de Kalamandra. Mesmo assim, iria ir à cidadela no dia seguinte, quando estivesse melhor de seus ferimentos. Queria ver de perto as escavações, mas também queria entender melhor essa situação sobre o desaparecimento do General Du Couteau. Não ia muito com a cara de Katarina, mas sentia que precisava entender melhor a situação e, quando voltasse à Kalamandra, tivesse algo concreto a dizer para a garota.

Olhou ao redor: lembrou-se de quando era jovem, quando treinava esgrima com Keiran e acabava se machucando feio. Ele sempre ia para a enfermaria, recebia um curativo, e voltava à ativa. Sabia que voltar iria ser mais complicado. Viu que sua camisa havia desaparecido, e, em seu lugar, havia uma grande faixa branca atravessando seu peito, com um pouco de sangue colorindo-a. Se perguntou como sobreviveu a um ferimento desses demorando tanto a chegar à cidade. Primeiramente, Darius foi contra a sua decisão ousada, mas depois confiou nele, levando-o de volta.

Seu joelho também estava enfaixado.

Ele olhou para o lado; havia um espelho: ele estava terrivelmente acabado. Tinha olheiras nos olhos, seus cabelos negros estavam bagunçados e sentia dores pelo corpo. Olhou para a janela e viu Beatrice cutucando o vidro, como sempre. Sorriu para ela, que grasnou e abriu as asas, como sempre fazia.

– Depois eu te conto como foi receber um tiro de laser – disse à passarinha, que o olhou, quase que pensativa.

– Falando sozinho, Jericho Swain? – O “médico”, doutor Stanwick Pididly entrou na sala da enfermaria. Ele era um homem zaunita, vindo da cidade-estado de Zaun, um lugar bastante poluído, feio, fétido e sem regras. Era chamado de Cidade das Pesquisas Livres, pois lá não havia regras quanto às pesquisas. Você podia utilizar cobaias vivas que não era preso, nem nada. Logo, era rival de Piltover, a cidade do progresso. O doutor era um homem alto e esguio, magro e com um rosto seco como o de um esqueleto, pálido quanto um morto. Usava um jaleco branco, óculos preto, tinha cabelos negros bagunçados e olheiras fundas. Também tinha um olhar bastante insano.

Swain fez uma cara séria ao vê-lo.

– Doutor Stanwick. Pensei que estaria em Zaun, agora.

Ele ajeitou os óculos, que estava quebrado e remendado numa ponta.

– Se eu estivesse em Zaun, agora, você estaria morto, possivelmente – e fez um sorriso bizarro. – Sua ferida foi exposta a uma viagem longa, logo ficou, digamos, um pouco infeccionada. Mas eu consegui conter a infecção com uma dose de uma poção que eu criei. A despejei em seus ferimentos, removi a carne podre e queimada... – ele fez uma pausa, encarando Jericho com um olhar esquadrinhador. – Como o senhor conseguiu a proeza de se queimar e se furar ao mesmo tempo?

– Interessa?

– Depende. Eu gostaria de saber que tipo de coisa fizera isso com o senhor. Até por que, encontrei resíduos elétricos em sua perna.

Swain franziu o cenho.

– Resíduos elétricos... sério?

– Sim – abriu um sorriso cheio de dentes amarelos. – Eu nunca imaginei que encontraria tal coisa, hehe. Quando encostei uma ferramenta em sua ferida, recebi um grande choque, o que foi bem estranho.

Swain esfregou a mão no rosto cansado.

– Por quanto tempo fui seu brinquedinho?

Ele pareceu pensativo.

– Não sei. Talvez uma hora, duas... quatro. Não sei ao certo.

– Não creio.

O doutor deu uma leve risada.

– Mas não vá pensando que poderá sair daqui tão cedo, haha. Sua perna está num estado crítico. Se continuar “machucando-a” acabará tendo que amputá-la.

– Tudo bem. Eu sei dos riscos desde que era jovem.

Stanwick limpou a lente de seus óculos.

– Será mesmo? Não me lembro de ver o senhor tomando mais... cuidado – ele olhou para cima, quase que tentando se lembrar de velhos e bons tempos. – Lembro de quando você foi perfurado na perna por uma lança, e Boram Darkwill me obrigou a sair de Zaun e vir até aqui só para cuidar de seu ferimento. Como sempre, você conseguiu sobreviver ao procedimento, e nem parecia sentir dor.

Swain se lembrou da primeira vez que machucou a perna. Naquela vez ele conseguiu disfarçar a dor, mas a cada vez que se feria, ficava cada vez mais difícil.

Jericho respirava devagar, sua pulsação estava fraca e ele suava em frio.

– Odeio ficar nesse estado – disse ao doutor. – Minha mente não processa nada da forma devida.

– Também, você perdeu muito sangue garoto. Tive que fazer uma transfusão com a única pessoa que parecia ter o mesmo sangue que você: Emília LeBlanc.

Ele arregalou os olhos – por mais que gostasse de LeBlanc e ela tivesse cuidado dele desde pequeno, sempre teve um certo medo dela. Ela era sombria, nunca falava o que realmente estava pensando, e sempre tinha um plano em mente para tudo. Todas as vezes que ele se feria, sempre recebia sangue de Boram, mas... por que não agora?

– M-Mas Boram tem o mesmo tipo sanguíneo que eu – ele disse.

Stanwick franziu a testa.

– Não... o quê? Eu comprovei que ele tinha... ahn... – ele parecia estar fora de si. – Vou dar uma voltinha – e deu meia volta em direção à porta.

LeBlanc entrou quando ele saiu, sorrindo para Swain. Ela usava a mesma roupa de sempre, mesma maquiagem, mesmos acessórios, só que dessa vez ela carregava um grande cajado, o mesmo que usara para concertar a perna de Swain pela primeira vez.

– Fico feliz em ver que voltou, meu querido.

Ele fez uma cara feia.

– Por que o seu sangue? – perguntou.

Ela andou em direção a ele em passos lentos.

– Você precisava de um verdadeiro sangue real, pois a realeza de Boram já está acabando.

Uma sensação bizarra decaiu-se sobre ele, como se algo de ruim fosse acontecer.

– Não sei o que você quer, LeBlanc, mas peço que pare.

– Acho que você deve se lembrar de quando eu te disse que iria te levar ao topo, não é? – relutante, ele fez que sim com a cabeça. – Pois bem. O reinado de Boram está em seu fim. Ele já não mais tem como liderar após duzentos anos, e você não quer ver Keiran no trono negro, já que Draythe decidiu abdicar-se da herança de Noxus para servir ao Alto Comando, não é?

Ele desviou o olhar dela, não querendo acreditar.

Ela riu.

– Acha o que, Swain? Acha que eu irei matá-lo? – ela riu. – Por que matá-lo se eu posso só observar ele se matar? Ele bebe como um condenado, come como um animal, e é tão higiénico quanto um. Só quero que saiba que eu farei de tudo para leva-lo ao trono, meu querido. Pergunto novamente: quer ver Keiran no trono?

– Não – respondeu sem hesitar.

– Pois bem – ela disse. – Stanwick perceberá que teve a mente invadida em alguns minutos. Espero que não esteja por perto quando isso acontecer... Ele é louco! – ela sussurrou, e deu uma gargalhada. Um tipo de brilho surgiu em sua mão esquerda, e de repente Swain se sentiu mais revigorado. – Levante-se, Boram quer vê-lo.

Ele se sentou no leito; a perna ainda doía, mas ele conseguia ignorar a dor – toda a sua força quando machucado teria sido obra de LeBlanc? Ele pegou a bengala que estava mais próxima, se apoiou nela, pegou seu sobretudo preto e o vestiu. Ainda estava com o peito à mostra com sua faixa cobrindo o machucado feito pelo monstro dos olhos, mas não estava tão feio, afinal.

...

As pessoas olhavam Jericho mancar com sua bengala, revirando os olhos, como se dissessem que aquilo não era tão surpreendente.

LeBlanc andava de cabeça erguida, à frente dele, que andava devagar.

Os corredores do castelo estavam como sempre, mas dessa vez a luz do sol penetrava de melhor forma por lá, deixando o lugar menos sombrio. Já eram meio-dia, e Swain partira do acampamento às sete da manhã. Foi um bom tempo de lá até ali, e ele devia ter dormido por algumas horas ou minutos.

Nesse momento Swain só queria saber de uma coisa: o sumiço de Kael Du Couteau, o pai de Katarina.

– O que houve com o general Du Couteau? – perguntou à LeBlanc.

Ela continuou a andar, sem falar nada. Sua pergunta foi totalmente ignorada, mas de soslaio, LeBlanc deu-lhe uma piscadela, continuando a andar. O que teria significado aquilo? Todas as vezes que LeBlanc piscara, era por que tinha feito alguma coisa.

Seguiram até a sala do trono, onde Boram estava sentado, esperando pela chegada de Jericho. Quando o viu, o gordo Alto Comandante se levantou do trono e foi até ele em passos lentos.

– Jericho Swain! – ele disse, abrindo os braços, como se fosse abraça-lo. Preferiu por ficar a uma distância razoável do garoto machucado. – Fico feliz em ver que Stanwick arrumou seus machucados – ao ver o grande machucado em seu peito, perguntou: – Mas que coisa nos sete infernos teria feito isso a você?

Swain engoliu em seco. Olhos. Tentáculos. Luzes. Lasers. Preferia não se lembrar da noite anterior.

– Prefiro não... lembrar de ontem à noite.

– Ah, sim, eu respeito a sua decisão – disse Boram, com uma grossa voz. – Não sei o que diabos possa ter feito isso, mas o que quer que tenha acontecido...

– Jericho! – Keiran entrou na sala, subindo pelas escadinhas ao lado das altas colunas de mármore negro, andando rapidamente até onde seu pai estava. Ele vestia uma armadura negra e verde, como a de todo noxiano, mas ela somente era usada por generais. Um florete pendia de seu cinto, e seus cabelos negros estavam penteados num topete. Ele era muito diferente de seu irmão mais velho, Draythe. – Pelo que vi ainda não chegou em Kalamandra. Algum imprevisto?

Boram cerrou os punhos; parecia irritado.

– Ele foi atacado – disse ao filho, quase que repreendendo.

Keiran riu.

– Ah, sim. Esqueci que ele tem dificuldade em se defender sozinho. Deve ser por isso que ele levou o Darius... mas nem mesmo ele conseguiu te proteger, né, Jericho.

Swain engoliu aquilo. Nunca respondera o garoto, em questão, pois sempre que o fazia, ele ficava de cara feia por vários dias, e Swain odiava o clima ruim que o garoto fazia. Mesmo assim preferia se calar.

– Eu enviei uma carta a ele, Keiran – disse LeBlanc –, contatando-o sobre o sumiço do general Du Couteau. Mas depois, quando estiver melhor, ele voltará, pois recebeu uma missão – ela o encarou com sarcasmo. – Pelo menos ele recebeu uma.

– Eu irei para lá depois, Keiran – disse Swain. – E saiba que o que me atacou matou um soldado, e só de eu estar aqui, vivo, já posso ser considerado um herói.

– O que, você matou um dragão, é?

Cale-se, garoto imprestável!tap!, ouviu-se quando Boram deu um tapa no rosto de Keiran, fazendo-o cambalear para o lado. Swain se sentiu estranho, pois essa foi a primeira vez em que o grande Boram fez algo do tipo. – Diga logo o que quer é vá embora. Tenho assuntos a tratar com Jericho.

Keiran ficou calado por um breve momento, esfregando a mão no rosto, que ardia.

– Desculpe-me, pai. Só queria dar as boas-vindas ao Jericho. Só isso.

Swain se segurou para não rir.

– Tudo bem, Keiran. Eu não preciso de suas boas-vindas, sendo que eu só parti há um dia. Se eu fosse você, eu iria ver Cassiopeia, sua namorada, que deve estar se sentindo muito mal com o sumiço do pai, não é mesmo?

Keiran o olhou com raiva nos olhos.

– É claro – deu as costas e foi embora, batendo os pés.

...

– Kael era um homem muito honrado – disse Boram –, não acredito que ele possa ter fugido. Amava muito as filhas, principalmente a Cassiopeia, que foi a última coisa, o último presente que sua esposa deixou antes de falecer – suspirou.

O conselho de Boram estava reunido, sendo os conselheiros principais: Jericho Swain, Emília LeBlanc, Malek Hawkmoon, Elise Darkwidow, e uma cadeira sobrando, que deveria ser de Kael Du Couteau.

– Ele foi um dos meus melhores alunos – comentou Malek, um velho de barba branca e vestes negras e verdes. – Sabia de tudo: história, matemática, geografia, conhecimentos gerais... e em combate. Um dos melhores espadachins e lançador de adagas, tanto que Katarina quis seguir pelo mesmo caminho. Ai, ai, como eu temo pelas garotas.

– Sim – disse Elise, que usava um curto vestido negro e vermelho, bem decotado, e seu cabelo era curto e negro –, a garota Cassiopeia está desolada. Katarina já deve saber, mas do jeito que ela é, deve ter alguma esperança pela vida do pai.

Swain olhou para todos os lados. A sala do conselho era bonita, mas escura. As paredes eram negras, havia um lustre com velas acesas acima da mesa do conselho, vários quadros de antigos grãos-gerais, brasões da Casa Darkwill, e algumas prateleiras cheias de livros. Tudo aquilo parecia estranho, mesmo que Swain conhecesse aquela sala mais do que seu próprio quarto.

– Vocês falam como se ele já estivesse morto – disse.

– Mas ele está morto – comentou LeBlanc; todos olharam para ela. – Bom, eu acho, né. Está sumido há quase três dias, e não deixou nem mesmo uma carta e nem bilhete.

Swain bufou.

– Francamente. Ele é forte, não morre por qualquer coisa. Disso eu sei.

– Também queria acreditar nisso, meu caro – disse Malek.

Boram suspirou com pesar.

– Ele era um velho amigo meu. Temo que ele possa estar morto, mas ainda mantenho esperanças.

– E então é isso? – perguntou Swain, aflito. – Irei à Kalamandra ver Katarina com a notícia de que seu pai está morto sem que nem mesmo encontramos o corpo? Me desculpem, mas não farei isso. Katarina é uma... velha conhecida minha. Não posso fazer isso com ela.

Não gostava muito dela, então por que estava fazendo aquilo? Também não queria acreditar na morte de seu pai quando aconteceu, mas o que Swain podia fazer por ele? Tudo o que lembrava dele era dele ser um nobre, fora isso... nada. Ele engravidara a sua mãe, uma prostituta, e depois desaparecera.

Chegou a conhece-lo anos depois, um tempo antes de morrer. Foi tudo muito rápido.

Talvez ele tivesse sentindo empatia por Katarina, ou algo do gênero.

– Katarina é forte – disse Malek Hawkmoon –, mas de toda a forma, não diga que ele está morto. Só comente que ele ainda não foi encontrado e que Boram está fazendo de tudo para encontra-lo.

– E eu estou – confirmou Darkwill.

Swain respirou fundo.

– Tudo bem.

– Você tem algo a ver com isso, não tem? – perguntou Swain à LeBlanc.

Swain esperou até que os dois estivessem sozinhos em seu quarto para que pudesse falar de coisas do gênero. Se ela tivesse algo com o caso do sumiço do general, preferia que Boram não ficasse sabendo. Mas não podia acusa-la de algo que ela não tivesse feito, embora estivesse muito desconfiado.

Ele deitou-se em sua cama, pois a perna doía a cada vez que pisava no chão, e ele tirara seu sobretudo, ficando com o peito de fora.

LeBlanc franziu a sobrancelha.

– Nunca gostei de Kael, mas eu não o mataria – respondeu com os braços cruzados.

Ela era conhecida por ser mentirosa, então Swain não acreditou de primeira.

Tem certeza?

Ela fez uma careta.

– Você realmente acha que eu sou uma assassina? Francamente, Swainzinho.

Ainda não acreditava nela, mas sentiu que fazer mais perguntas não traria nada de bom a ninguém, principalmente a ele.

Fitou-a com um olhar furioso.

– Tudo bem – disse por fim –, se você diz que não o matou... então eu acredito.

Ela suspirou com alívio.

– Oh, mas a última coisa que eu queria era que você achasse que eu sou uma assassina. Meu deus, até senti uma tristeza profunda em meu coraçã...

– Deixe de fingimento, por favor.

Ela fez uma cara triste.

– Não fique nervoso comigo, meu querido. Odeio ver dúvida em seus olhos. Eu te prometi que te levaria ao topo, e vou fazer de tudo para fazê-lo.

– Por que eu?

– Você jamais entenderia se eu te contasse.

Ele cerrou os punhos; seu peito doía, mas ignorou a dor, como sempre.

– Como posso confiar em alguém que mal conheço? Você nunca me contou a sua história, nem quem realmente é, e eu te contei tudo sobre minha vida. Como fui explorado e abusado fisicamente pelo meu padrasto, como ele e minha mãe morreram, como meu pai morreu. Mas você... – ele parecia um pouco desolado. – Você nunca me contou nada sobre você e quem você é.

Ela deu um sorriso frio, como sempre fazia.

– Eu te prometo Swain – andou até a cama dele, se sentando ao seu lado –, que quando você estiver no topo, eu irei lhe contar tudo. Mas lembre-se que eu sempre serei sua – levou-se lentamente até ele, onde o beijou. Novamente Swain sentiu parte de si sendo sugado por ela, ao mesmo tempo que se sentia revigorado. Algo de estranho estava acontecendo com ele: estava se tornando mais frio, assim como ela.

À noite, Emília LeBlanc se levantou da cama de Swain, onde haviam passado a noite. Ele já dormia, e ela se certificou de que ele iria permanecer ali, dormindo, seguro de todos os perigos, com todas suas cobertas. Ele parecia aquele jovem garoto o qual ela trouxe até o castelo há quase uma década.

Vestiu-se, pegou uma vela e acendeu com uma chama produzida de suas próprias mãos. Andou pelos escuros corredores do castelo, agora vazios, onde não havia ninguém. A luz da lua banhava o corredor, deixando-o um pouco iluminado. Ela estava grande, imponente brilhando no céu, tomando o lugar do sol.

Foi até as masmorras, um local pouco visitado no castelo, escuro como as mais puras trevas de todo o mundo. Desceu as escadas até a escuridão, tendo um pequeno raio de visão com sua forte vela que brilhava num profundo tom flamejante de laranja com amarelo.

As masmorras eram escuras, sujas, cheias de teias de aranha. Lá não havia um ar puro, lá fedia, lá fazia qualquer prisioneiro querer ser morto.

LeBlanc ouviu um grasnado; Beatrice vinha em sua direção. O corvo pousou em seu ombro.

– Ah, olá, Beatrice – cumprimentou LeBlanc. – Quer ver algo muito interessante?

O corvo pareceu fazer que sim com sua cabeça.

– Ótimo.

Desceu por mais algumas escadas, chegando até um corredor cheio de celas nas laterais. Não haviam muitos prisioneiros; aquela ala estava abandonada há anos, mas mesmo assim uma chama brilhava numa tocha, nunca se apagando, e iluminando todo o recinto.

LeBlanc se dirigiu à uma cela qualquer, comum como todas as outras: tinha grades, teias de aranha, uma só janela que dava para a escuridão, e uns insetos que passeavam por ali. Haviam um pratinho de comida intacto, com um tipo de carne que parecia ter apodrecido, assim como as frutas que haviam ali. A única diferença das outras celas? Havia um homem ali. Um homem alto, não tão mais bonito devido ao encarceramento, com curtos cabelos vermelhos, um forte peitoral, não tão forte naquele momento. Seus braços estavam presos e para cima por culpa de correntes que o prendiam. Seus pulsos estavam esfolados de tantas falhas tentativas de fugir. O pior era que ele não tinha boca. Simplesmente não tinha. Era como se nunca houvesse boca ali, tendo somente pele, algo bizarro.

Ao ver LeBlanc, o homem se desesperou. Fazia sons com a boca, quase que tentando falar, mas som nenhum saía. Os olhos dela brilharam num macabro tom vermelho, e um sorriso sádico se abriu em seu rosto.

– Vim fazer uma visitinha, Kael Du Couteau. E adivinha? Trouxe uma amiguinha! – e então Beatrice grasnou, como sempre.

Notas finais
Seria LeBlanc a vilã da história? Por que você acha que ela faria algo do tipo?