Capítulo 12:

Jericho Swain – Noxus ­– Castelo Negro

O Castelo Negro de Noxus fora construído há anos. Não se sabe quem, ou o quê o pôs de pé, mas se sabe que ele é quase que parte de Noxus, não só do castelo, mas como uma montanha que não pode ser retirada. Assim, o legado de Noxus fora feito para ser eterno, não se ajoelhando a ninguém.

A biblioteca do Castelo não é muito frequentada; somente pessoas desinteressadas na arte da guerra frequentam o local, tirando livros para ler, como um passatempo infindo. Sabendo que Noxianos são pessoas fortes e que não ligam para o que livros têm a dizer, somente uns poucos intelectuais ali residem.

Ao olhar para os lados, Jericho percebeu que a biblioteca estava mais movimentada do que antes. Várias pessoas obscuras andavam pra lá e pra cá, com livros nas mãos e lendo-os nas mesas com uma atenção impossível de ser removida. Eles claramente eram Noxianos, que são conhecidos por serem pessoas obscuras, mas tinham algo a mais: tinham sede de conhecimento... talvez mágico.

Haviam muitos necromantes e magos em Noxus, porém, nem todos eram capazes de controlar a magia que reside ao redor, por isso, para fugir da responsabilidade de ingressar cedo demais no Alto Comando, algumas pessoas começavam a estudar livros e mapas para terem funções que não fossem a de empunhar espadas, lanças, machados e nem arco e flecha.

Jericho fora treinado com alguns truques por LeBlanc, sua responsável desde os dezesseis anos. O maegi – professor de magia e de outras coisas importantes – o ensinou a ver mapas, a ler, escrever, fez com que ele conhecesse melhor as armas e patentes do Alto Comando, e várias leis e regras de Noxus – que são poucas.

Ele se tornara um homem intelectual e poderoso em alguns truques, que eram melhor utilizados quando Beatrice, o corvo, estava por perto. Ao olhar para a janela da biblioteca, Swain podia vê-la, bicando o vidro, quase que tentando quebra-lo e ir de encontro ao dono. Mesmo assim ela era paciente e inteligente, capaz de entender a situação e o que ele estava fazendo.

Um livro estava à sua frente. Transformações Mágicas, era o nome do livro. Na capa havia a foto de um Indomável se transformando num puma – Indomáveis eram selvagens que viviam nas selvas e eram especializados em ataque com lanças. Eles sabiam magias de cura e podiam se metamorfosear em um puma ou outro felino, sendo os transformistas mais conhecidos, embora prefiram viver longe dos homens da cidade, que eram vistos como destruidores e idiotas para eles.

Swain sempre gostou de transformistas e pessoas que sabiam a técnica de metamorfose. O Chanceler Malek Hawkmoon podia se transformar numa águia de vez em quando, mas a velhice fez com que ele perdesse o poder.

Estudar estratégias de guerra sempre foi o passatempo favorito de Swain. Ele ganhou a confiança de Boram Darkwill fazendo estratégias que os levaram a vitória em pouco tempo. Várias batalhas travadas por Noxus desde então foram vencidas, ou quase.

LeBlanc estava certa o tempo todo: Swain era inteligente e capaz de subir na vida. Às vezes ele olhava pela janela e lembrava do tempo em que era só mais uma criança de rua em Noxus; uma criança fraca e sem família. Agora, ele tinha tudo.

Voltou-se ao seu livro. Fechou-o; já havia o lido quatro vezes. Foi até a balconista da biblioteca, que era a mulher que alugava os livros. Ela era Elise Darkwidow, uma bela mulher branca de cabelos negros curtos. Era uma velha amiga de LeBlanc, e uma membra do conselho de Boram. Não era a mais importante, mas tinha o seu papel.

Jericho foi até ela e devolveu o livro que havia pego há dois dias. Ultimamente, ele não tinha muito tempo para ler. Muito menos, agora que iria para Kalamandra a serviço do general Du Couteau, que queria um pouco mais de proteção e ajuda à sua filha mais velha e herdeira.

Ele começou a andar para fora da biblioteca, quando uma voz conhecida lhe parou.

– Jericho! – Ele se virou para ver quem era, e se deparou com uma bela jovem de cabelos negros-azulados e curtos, com uma roupa bastante peculiar. Era LeBlanc, só que dessa vez ela não usava sua estranha coroa tripla na cabeça, mas estava de maquiagem, como sempre. Ela sorria bastante, mas de um jeito estranho. Ela não sorria com muita emoção; sorria com um interesse sombrio. – Finalmente te encontrei.

Ele recuou um passo e franziu a testa. Olhou para os dois lados, estranhando algo.

– Como eu não te vi na biblioteca? – perguntou.

Ela riu e agarrou seu braço.

– Ah, Jericho, seu bobinho – seu sorriso se tornou malicioso e um pouco macabro. – As pessoas não me percebem até que eu esteja à frente delas. Aí já é tarde demais.

Os dois começaram a andar juntos, de braços cruzados.

– Você veio até mim para me assustar? – perguntou ele.

Ela riu novamente.

– Imagina, meu querido. Vim até você para entender melhor a sua agenda.

– Que agenda?

– Você não vai para Kalamandra hoje?

– Partirei daqui a duas horas. Estou só esperando os meus soldados terem o devido desjejum.

Ela pareceu bocejar.

– Ah, claro. Me esqueci que ainda está cedo. Mas parece que a biblioteca ainda está bastante cheia, não?

Ele assentiu.

– Tendo que trabalhar o dia inteiro, a manhã e noite são os melhores momentos para ir à ela.

– Ah, claro. Mas você não ia ver Boram?

– Sim. Eu ia depois da biblio... – ele franziu o cenho e fez uma pausa. Virou-se para ela, e perguntou: – Como você sabe? Eu só falei isso a um soldado...

Ele bufou, entendendo tudo. LeBlanc deu uma risadinha.

– Já estou com medo de contar segredos aos meus amigos – disse Swain. – Pois nunca posso saber se eles são eles, ou se são você... disfarçada.

– Tudo aquilo não passava de uma ilusão, jovem Jericho. Te conheço há tanto tempo, mas você não aprende.

Ele suspirou. Ao seu lado, cavaleiros e generais andavam pra lá e para cá, pelo corredor que ligava a biblioteca à sala do trono. Se Jericho olhasse para a esquerda, poderia ver janelas, e delas, a cidade sombria de Noxus, que mesmo com o nascer do sol, continuava sombria.

– Se eu aprendesse a reconhece-la quando se disfarçar – comentou. –, eu ficaria louco.

– Claro, não se pode desconfiar de todos. Isso é algo que causa síndrome do pânico.

Eles saíram por uma grande porta, e deram de cara com a sala do trono dos Darkwill. Lá estava o trono, feito de mármore negro e de algumas pedras preciosas que retratavam o quão sombrio era a cidade; pedras vermelhas de Hematita.

Ao redor haviam alguns homens trabalhando em obras para a sala, enquanto sentado no trono estava Boram Darkwill, o grande e gordo grão-geral do Alto Comando Noxiano. Ele usava um manto de couro negro, uma coroa negra feita do mesmo material do trono, e algumas outras joias. Ele observava as obras sendo feitas, e parecia estar descansando, pois sua expressão era de prazer repentino.

Ao avistar Jericho e Emília, ele sorriu largamente.

– Jericho! LeBlanc! Fico feliz em ver que acordaram cedo essa manhã.

LeBlanc se agarrou mais ao braço de Swain, apertando os seios nele.

– Nosso querido Mestre Tático parece até que madrugou esta manhã – ela sorria de forma exagerada, como uma pessoa falsa geralmente faz para agradar pessoas poderosas.

Swain deu um sorrisinho.

Boram se levantou bem lentamente, deixando claro o quão pesado e gordo ele era. Ele foi até os dois amigos e conselheiros, de braços abertos. Ele poderia abraçar os dois de uma vez só, e até matá-los estrangulados dessa forma.

– Estou vendo. Estou vendo – disse ele. – Jericho sempre foi um cabeção. Sempre afundado nos livros e dando trabalho aos mestres que tentavam lhe ensinar alguma coisa. – Swain sorriu orgulhosamente. – Às vezes, você era quem ensinava algo a eles.

Boram respirou fundo, enquanto observava os dois, que estavam calados.

– Por que vem até mim, hoje, jovem Jericho?

– Vim me despedir – respondeu.

Boram engoliu em seco. Não pareceu ter gostado muito da resposta.

– Por que se despedir? Você só irá para Kalamandra por algumas semanas. Não será como guerras em que ficamos em campo de batalha por meses, meu jovem – ele olhou rapidamente para baixo, preocupado. – Falando assim, penso até que você acha que eu iria morrer.

Swain arregalou os olhos.

– Não, imagina. Não estou dizendo isso. Na verdade, todos os homens devem morrer, mas o senhor está vivo até hoje. Aposto que já está em seu terceiro século de reinado.

Segundo século – sussurrou LeBlanc em seu ouvido.

Segundo século de reinado– corrigiu-se.

Boram deu dois tapinhas na grande pança com as duas mãos.

– Bom, se você não se importar, eu gostaria de lhe mostrar um pouco de meu legado nesses dois séculos de reinado. Siga-me.

Jericho foi até ele, e quando LeBlanc deu um passo à frente, Boram gritou:

– Você não! Ele.

Então ela parou ali, um pouco indignada, e esperou.

Boram levou Swain até um corredor estreito e escuro, além da sala do trono. Com a capa de pele do manto arrastando no chão, ele guiou o jovem protegido pelas catacumbas da antiga Noxus, há alguns anos esquecida atrás da sala do trono.

Haviam algumas tochas acesas e acopladas às paredes sujas. O local parecia um típico lugar onde você poderia assassinar uma pessoa e ninguém jamais saberia que você o fez. Sabendo disso, Swain deu graças por ter uma boa relação com Boram, uma relação de quase pai e filho, que poderia ser melhor se ele já não tivesse dois: Draythe, o mais velho, e Keiran, o mais novo. Mesmo assim, ele sempre foi tratado como um filho.

– Para onde vamos? – perguntou ao grão-geral de Noxus.

Eles chegaram até uma sala ampla e redonda, iluminada por tochas e mais tochas. Ao centro dela havia uma grande estátua de um homem com armadura e espada. Ele parecia majestoso e poderoso; Swain estudara bastante livros, e se seu palpite não estivesse errado, aquele deveria ser Devon Darkwill, um antigo da linhagem Darkwill, que havia vivido há muitos anos atrás, reinando em Noxus muito antes do nascimento de Boram. Ao redor, haviam várias outras estátuas.

Ao ver todas elas, Boram suspirou.

– Todo o legado dos Darkwill em apenas uma sala – disse com um pouco de emoção.

Swain deu alguns passos à frente, observando as estátuas com um certo brilho nos olhos.

– É incrível. Nunca tinha visto estátuas tão realistas dos seus antepassados.

– Não são só os meus antepassados. Alguns são membros da Rosa Negra, uma antiga ordem Noxiana. Não se sabe muito sobre ela, só se sabe que ela estava por trás do trono.

Swain franziu a testa.

– Espera... quer dizer que os Darkwill...

– Sim. Nós nunca conquistamos Noxus. Fomos escalados e utilizados como marionetes na mão de homens e mulheres sombrios por muito tempo – ele suspirou com um pouco de tristeza. – A Rosa Negra desapareceu há muitos anos, e não se sabe ao certo se ainda existem membros da ordem vivos. Mas dizem que eles usam magia de imortalidade para continuarem agindo, assim como eles usaram em mim.

Swain ficou sério.

– Então é verdade. Todas as vezes em que te acusaram de ser somente um membro da Rosa Negra...

– Eles diziam a verdade.

Foi como um baque em Swain. As histórias que lia sobre os Darkwill durante a adolescência contavam histórias de como eles conquistaram Noxus e derrotaram Demacianos com poder e determinação. Ele também lia histórias sobre uma sociedade secreta que agia pelas sombras em Noxus, controlando quem subia no trono, e conspirando contra outras cidades-estados. Muitos dos membros da Rosa Negra eram conhecidos por serem os melhores ilusionistas que já se podia ver, ou não ver.

Ele sempre soube quem LeBlanc era. Sabia que ela era uma membra da Rosa Negra, senão a líder deles. Também sabia o por que dela tê-lo recrutado para o Alto Comando. Sabia o que ela estava armando desde o começo, mas não queria ver. Agora, não tinha tempo para impedi-la... ou talvez não quisesse.

– Tudo bem – disse. – Noxus já é uma cidade-estado com a reputação duvidável. Mais um pouco de conspiração não deve ter tanto problema... não é?

Boram deu uma risada fraca.

– Assim que se deve pensar.

Os dois riram juntos. Riram como sempre faziam, mas agora era diferente: Swain era um homem crescido, e não mais aquele adolescente que havia adentrado no Castelo Negro com LeBlanc ao lado, dizendo que ele tinha futuro. Boram podia conhece-la muito bem, e perceber que ela podia estar começando a agir em conjunto com a Rosa Negra, mas confiou nela e no garoto. Talvez ele estivesse ficando louco. LeBlanc era conhecida como ser falsa, mentir para todos, e às vezes, apunhalar homens pelas costas. Quantos conselheiros já haviam sido executados pelas palavras mentirosas de LeBlanc, que de alguma maneira, pareciam verdadeiras aos ouvidos dos homens?

Jericho já vira LeBlanc deitar-se com homens, e dias depois ela descobrir algum crime cometido pelo mesmo, e após isso, ele era executado. Um homem é traído por seus desejos, dizia ela.

Boram parecia seguir tudo o que ela dizia, mas quando o general Du Couteau ia contra, ele pensava melhor no assunto e depois voltava atrás, seguindo o conselho do mesmo. Isso a enfurecia, mas ela não demonstrava nenhuma reação. A revanche está reservada aos que têm paciência, dizia ela. Jericho temia o dia em que ela decidisse dar a revanche ao general, pai de Katarina. Quando isso acontecesse, ela aproveitaria para fazer algo bem maior.

O sorriso de Boram se apagou, e ele pareceu emocionado ao estar ali.

– Sabe, Jericho, eu nunca mostrei esse lugar a ninguém.

O garoto recuou.

– Sério?

– Sim. Nem mesmo ao meu filho mais velho, Draythe, e muito menos Keiran. Eles não entenderiam a complexidade do legado de nossa família. Enquanto você, mesmo não tendo o meu sangue, tem a minha determinação e a sabedoria que há muito me abandonou.

Boram fez uma pausa, colocou a mão direita no ombro de Swain, e continuou:

– Jericho Swain, se por acaso eu morrer futuramente, eu gostaria que você assumisse o trono e posição de grão-geral do Alto Comando Noxiano. Eu quero que você reine.