League of Legends: As Crônicas de Valoran
55 Capítulo 53 - Zed - Parte 1
Capítulo 53 – parte um:
Zed – Ionia – 1 Ano Depois
Os ventos do inverno davam as caras em Ionia. Sopravam para lá e para cá, ventos frios, ventos que faziam muitos utilizarem seus mantos mais quentes para conseguir sequer andar pelo reino. Neve caía de leve, deixando o chão branco. Muitos monges limpavam as frentes de seus templos com pás, isso por horas, devido ao excesso de neve.
Rios congelavam, árvores davam frutos com cascas de gelo e muitos ionianos preferiam ficar dentro de suas casas, aquecidos. Naquela tarde nevada, apenas uma pessoa andava pela rua. Um jovem alto, esguio, magro e forte, utilizador de uma armadura negra com partes vermelhas e prateadas. Em sua face, uma cicatriz profunda, que atravessava seu rosto.
Ele carregava uma sacola com alguns mantimentos, mantimentos possivelmente roubados, talvez comprados, ou extorquidos. Sua aparência era bastante ameaçadora. As shurikens em suas costas e suas duas manoplas afiadas também eram.
Em sua sacola havia carne, legumes e alguns tipos de sucos, coisas que poderia se encontrar no mercado de Ionia, a alguns quilômetros de onde ele se encontrava.
Duas crianças ionianas, devidamente vestidas para aguentarem o frio, corriam pela rua vazia, brincando de pique-pega. Um deles conseguiu pegar o outro.
– Te peguei! Agora tá com você.
Deram a volta e continuaram a correr, um atrás do outro. Zed viu aquilo, lembrando-se de quando era jovem, de quando brincava de coisas como aquelas durante o inverno, em Kinkou. Foram bons tempos, tempos que jamais voltariam.
– Te peguei, Shen, agora tá com você! – dizia ele, quando brincava com seu atual arqui-inimigo.
Preferiu não pensar naquilo, não pensar no tempo em que era amigo de Shen. Suas vidas tomaram caminhos diferentes, isso era algo certo. Zed havia se tornado o primeiro ninja das sombras em séculos, isso era certo. Ainda tinha dúvidas sobre muitas coisas, principalmente sobre a maldita caixa negra, a que havia lhe dado os poderes. Ela ainda estava lá, em Kinkou, em algum lugar. Se ao menos Haruka tivesse me trazido..., pensou.
Seguiu seu rumo até uma rua escura, vazia, onde recitou uma espécie de feitiço das sombras, invocou runas ao chão com um jutsu e mergulhou nas sombras. Reapareceu em uma casa tipicamente oriental. Retirou os sapatos e abriu a porta de correr do local, andando por um corredor. Depois entrou numa espécie de cozinha. Deixou os mantimentos em cima de uma mesinha, depois seguiu o rumo até outra porta que o deixou no pátio principal, onde encontrou Karina e Dan treinando.
Os dois utilizavam varas de bambu para lutar, eram rápidos e ágeis, atacando um ao outro ao tempo que se defendiam com a própria arma. Tec, tec, tec, tec, faziam os bambus ao toque brusco. Karina vestia um manto branco com um outro preto por baixo, seus longos cabelos alaranjados estavam presos em um rabo de cavalo. Dan não parecia sentir frio, pois usava um tipo de camiseta vermelha, deixando os braços fortes sem cobertura. Também utilizava uma longa calça preta, um cinto cinza e uma bandana vermelha na cabeça.
Zed cruzou os braços enquanto observava os dois lutarem.
– Estão assim há uma hora e meia – Haruka brotou ao seu lado, murmurando em seu ouvido. Estava acostumado, logo não se assustou. – Eu disse que eles deveriam se alimentar, mas só pensam em lutar e treinar mais e mais.
– Pelo menos estou vendo resultado – sorriu Zed. – Aposto que hoje eles venceriam os irmãos Hiten.
– Duvido muito – fez um biquinho. – Eles ainda não utilizam muito das técnicas sombrias como nós dois e como o pequeno Kyrie.
Zed riu.
– Pequeno? Ky já está quase do meu tamanho. Apenas treze anos e já tem aquele tamanho.
– E eu não sei? – Haruka riu. – Trouxe o almoço?
Zed assentiu.
– Até ninjas das sombras precisam comer algo, não?
Haruka sorriu para ele.
[...]
Zed foi até outra ala da grande casa que havia arranjado, um local único para Kyrie e até mesmo para o próprio Zed, onde eles poderiam treinar arremesso de shurikens.
Desde a batalha contra Shen e os irmãos Hiten, Zed procurou um local para permanecer, junto de seus irmãos das sombras. Encontraram uma mansão-templo de uma espécie de magnata ioniano. Mataram-no e tomaram sua casa. Lá eles encontraram mantimentos e curativos, permitindo assim, a recuperação graças à Haruka, que cuidou de todos ao mesmo tempo.
Desde então eles vivem lá, treinam e treinam, treinam para se tornarem mais fortes e, um dia, revidarem contra os ninjas de Kinkou. Zed ainda queria sua vingança, junto da caixa das sombras, ou caixa negra. Sabia que nela ainda haviam segredos contidos, segredos que deveriam ser mostrados. Toda a noite sonhava com ela, com os sussurros sombrios e às vezes tinha pesadelos, porém, estes eram seus sonhos favoritos.
Encontrou Kyrie atirando shurikens em um alvo... a dez metros de distância. Atirava quantos pudesse em um período pequeno de tempo. Girava enquanto os atirava, fazendo daquilo uma dança.
Realmente ele havia mudado, e muito. Um ano havia feito com que ele crescesse quase trinta centímetros, ficando quase da altura de Zed. No momento usava uma roupa como a de Zed, mas sem mangas e com menos prata, mais vermelho. Seus cabelos negros estavam grandes, bastante cacheados e ondulados. Atirou uma shuriken, acertando o alvo central novamente pela vigésima vez.
Virou-se para Zed e sorriu.
– Estou melhorando.
– Estou vendo.
Kyrie parecia nervoso perto de Zed, isso ultimamente. Estava diferente, isso era certo, talvez, agora, visse-o como algo mais do que um irmão mais velho.
– Como Ionia está? – perguntou. – Cheia de neve?
– Estamos no inverno, é de se esperar – deu uma risada. – Foi fácil conseguir os mantimentos, não tem muita gente nas ruas, é estranho.
Kyrie assentiu.
– Quer tentar atirar um?
Zed fez que sim.
Posicionou-se onde Kyrie estava, com uma de suas shurikens laminadas na mãe, entre dois dedos. Mirou e atirou. Acertou certeiramente, virou-se e sorriu para Kyrie.
– Mesmo só treinando as lâminas, até que não me enferrujei tanto.
[...]
Zed adentrou em seu quarto, à noite, antes do jantar feito por Haruka. Ele se sentia cansado por dentro, talvez cansado de esperar. Treinara durante o último ano só para conseguir se vingar, mas sabia que não era o bastante. Pior mesmo era o fato de que parte dele queria ficar ali, na mansão, com seus amigos, curtindo a paz. A outra, queria causar um banho de sangue em Kinkou. Queria fazer seus sonhos e pesadelos sombrios se tornarem realidade. Toda vez que sonhava com Shen, sonhava com seu pescoço degolado e isso era o suficiente para vê-lo feliz.
Abriu os olhos no escuro, percebendo uma névoa negra que o envolvia. Era como nuvens obscuras de uma noite de eclipse, ou até mesmo nuvens que anunciavam a chuva que chegaria.
– Olá, Escuridão, meu velho amigo – disse Zed às sombras.
Ouviu uma risada maligna.
Posso sentir seu cansaço.
– Estou enfurnado nessa casa durante um ano inteiro, pois deve imaginar minha irritação.
Paciência.
Zed cerrou os punhos.
– Como ousa me pedir paciência? Como ousa...?
Sentiu uma adaga gelada encostar em sua garganta. Pela primeira vez em dois meses viu a face da Escuridão o encarar com aquele brilho vazio nos olhos. Tinha uma espécie de máscara de ferro e sua pele era pura energia odiosa das sombras.
Zed engoliu em seco, Escuridão recuou, guardando suas lâminas.
Não me falte com respeito novamente, ele disse, ou arranjarei outro hospedeiro.
– Tudo bem...
Escuridão se locomoveu pela sala, como uma assombração, uma aparição espectral, o que ele deveria ser. Fazia um ruído assombroso enquanto deslizava pelo ar, como um suspiro forte e sombrio. Riu, gargalhou.
Sinto que a hora de vocês está chegando.
Zed sorriu.
– Sério?
Sim, riu novamente. Não pense que sua vingança virá por você e por seus amiguinhos. Você precisa de mais. Precisa de muito, muito mais...
– Como assim mais? – parecia confuso.
Recrute mais seguidores, é só o que peço.
– Como?
Escuridão encheu a sala com sua fúria e ódio, fazendo com que Zed recuasse até cair. O tamanho do ser sombrio duplicou e seus olhos brilharam em vermelho.
Não pense que te ajudarei mais que isso. Me traga mais seguidores, só peço isso. Não espere mais dicas como esta, Zed... E não se esqueça que a sua vitória chegar... em tempo.
Escuridão desapareceu como fumaça, deixando Zed ali, pensativo. Se tudo o que ele havia dito fosse verdade, logo iria conseguir sua vingança, mas precisaria, primeiro, de seguidores. Como conseguiria isso era outra história. Precisava pensar em algo, mas não com a barriga vazia. Haruka o esperava com o jantar.
[...]
– O que faremos agora? – perguntou Karina.
Todos os cinco estavam sentados ao redor de uma mesa, sentados no chão e de pernas cruzadas, com lámen em vasilhas brancas de porcelana. Comiam com hashis, levando até a boca e sugando o macarrão, como se geralmente come. Vapor quente subia da comida. Kyrie soprava várias vezes antes de comer, com medo de queimar a boca. Às vezes seu cabelo, de tão grande, caía na vasilha, irritando-o.
Ele se sentava ao lado direito de Zed, Haruka do esquerdo. Do outro lado da mesa ficavam Dan e Karina.
Zed fez um biquinho chateado.
– Não tenho certeza.
Dan bufou.
– Deveríamos dar as caras, não acha? Estamos fortes, podemos arrasá-los de vez!
– E receber uma surra? – perguntou Karina. – Está louco, Dan? Pense melhor, idiota!
Kyrie riu.
– Não pense com os músculos – comentou.
Dan fez uma cara feia para ele, que sorriu.
Zed olhou Dan com repreensão. O mesmo ficou acuado.
– Devemos ter uma ideia do que ele quer – disse Zed.
– Mas o que ele quer? – perguntou Haruka. – Ele deve ter dado uma dica, não?
Zed coçou o queixo.
– Ele disse algo sobre conseguirmos mais seguidores.
– Ele quer um exército? – Karina franziu a testa, mas ao pensar melhor, fez uma cara de surpresa e de admiração. – Realmente... É uma boa ideia, admito. Um exército de ninjas das sombras seria ótimo.
Kyrie animou-se.
– Imagina só vários de nós. Poderíamos ser os professores – ele parecia gostar muito da ideia. – Eu adoraria ensinar atiramento de Shuri...
– Não inventa, Kyrie – repreendeu-lhe Dan.
Zed o retrucou.
– Não, é uma ótima ideia a do Ky – sorriu para o amigo. – Irá demorar, é claro. Vocês chegaram nesse patamar devido à caixa das sombras. Como ainda não a temos, o ensino das artes proibidas será complicado. Mas ele deve nos ajudar, afinal, ele é a personificação das sombras.
Haruka tremeu.
– Chega a dar um calafrio, hehe – deu uma risadinha.
Karina, séria, mexia seu hashi na tigela de lámen enquanto encarava a amiga loira.
– Uma verdadeira ninja das sombras não as teme! – repreendeu.
Haruka a olhou com desdém.
– Nossa, não posso nem brincar.
– Pode ir parando! – exclamou Zed. – Dan fica de implicância com o Kyrie, Karina fica com Haruka... Meus deuses, assim não dá!
Os quatro ficaram com expressões de chateação, como quem recebe uma bronca. Todos ali respeitavam Zed e o tratavam como um mestre, até mesmo Dan, que um ano atrás havia exigido que ele fosse enforcado após explodir Shen em milhares de pedaços. Kyrie sempre o respeitou e o amou, Haruka via nele potencial – ambos sentiam algo por Shen, amor e ódio, porém ela acabou desistindo desse amor para seguir Zed – e Karina nunca gostou dele.
– Vocês precisam se respeitar, digo isso desde o começo do nosso clã – ele completou. – As sombras não pregam selvageria e desrespeito, lembrem-se disto.
Todos continuaram quietos, enquanto Zed continuou.
– Nossos inimigos estão dentro do templo de Kinkou – olhou para o vazio vendo sua vingança e sorriu.
[...]
Kyrie foi escolhido para vagar pelas ruas à noite, à procura de mais suprimentos. O que Zed havia trago só havia dado para dois dias e logo eles ficariam sem absolutamente nada, já que Karina e Dan comiam por dois.
Vestia-se com um manto preto e capuz, tentando ser discreto, silencioso. As ruas estavam desertas, mas sempre haviam guardas ionianos andando por aí, também haviam samurais e outros ninjas, que vagavam pela noite sem motivo aparente.
Kyrie estava conseguindo andar bem lenta e silenciosamente, quando pisou num monte de neve e fez um leve barulhinho. Fez uma careta, esperando que ninguém tivesse ouvido.
– Tem alguém aí? – perguntou uma voz na escuridão.
Kyrie desesperou-se. Nunca havia sido pego em um ano, não poderia ser agora. Fez algo que odiava: fazer uso das sombras em si mesmo, camuflando-se. Geralmente ele envolvia as shurikens e kunais em pura energia sombria, aumentando a velocidade e dando uma certa propriedade sombria à arma.
– Não tem ninguém, Yone – eram dois samurais, um vestindo um certo manto azul no pescoço até o peito, calças azuis-escura, sandálias, braceletes e uma ombreira grande e um pouco pontiaguda. O outro, aparentemente mais velho que o outro, usava um quimono azul e sandálias de pau. O de quimono tinha uma trança, um coque castanho no cabelo, já o outro tinha um grande cabelo preso, um “rabo-de-cavalo”, mas diferente do de Haruka, ele era grande, chegando a ser cheio. Kyrie quase riu pensando que aquele cabelo parecia um arbusto, porém viu que ambos os dois irmãos tinham katanas embainhadas no cinto. Engoliu em seco.
Yone, o cara de quimono, aparentemente havia sentido algo estranho.
– Sinto uma energia estranha – fungou o ar. – Algo sombrio, creio eu.
O outro com cabelo de arbusto riu.
– Você está ouvindo coisas e cheirando coisas onde não há nada, irmão – ele era alto e forte como um irmão, notou Kyrie, chegando a ter mais músculos que o outro, definitivamente o mais velho. – Também ando sentindo muitas coisas estranhas, entre elas está uma coisa chamada: sono. Não sei pra que estamos fazendo ronda. Devemos voltar ao templo logo senão o pai nos mata.
Yone fez descaso.
– Que nada, Yasuo, ele vai te matar, isso sim. Eu tenho dezessete, você, quatorze, não tem idade para andar sozinho à noite, por isso eu te trouxe.
– Percebe que o que disse não fez sentido, não é?
Yasuo..., pensou Kyrie. Ele tem quase minha idade.
Yone sorriu.
– Eu sei, é que gosto de deixar bem claro a minha imponência de irmão mais velho, haha.
Yasuo cruzou os braços.
– Quer resolver no mano-a-mano? Estou pronto, você sabe disso. Sou um prodígio.
Yone fez uma cara feia.
– Saber dominar a técnica do vento é algo especial, mas não te faz melhor que ninguém, lembre-se bem disso!
Yasuo bufou.
– Tá bem, tá bem, não quis dizer isso. Esqueça o que eu falei, só esqueça – ele ficou em silêncio por um tempo, logo pareceu sentir algo. – Tem razão... Estou sentindo um cheiro diferente. É um cheiro estranho de flores.
Kyrie tremeu; havia catado flores para agradar Haruka antes de sair. O cheiro devia ter impregnado. Recuou um passo, tentando ser o mais discreto possível. Estava invisível, mas ainda podia ser tocado e sentido. Pelo que sabia, samurais daquele nível tinham sentidos apuradíssimos, capazes de lutar de olhos fechados. Se fizesse um movimento errado, iria se dar mal.
Crec!, havia pisado num galho de árvore. Pensou em correr, mas quando percebeu, duas lâminas deixavam-no imóvel, capaz de ser degolado no mínimo movimento. Os dois irmãos o encaravam com olhares repreensivos.
– Quem é você, garoto? – perguntou Yone.
Kyrie hesitou, gaguejando.
– M-meu nome é Kyrie – engoliu em seco, apavorado.
Yasuo deu uma risada fraca.
– Um belo nome.
Kyrie corou e sorriu.
– Obrigado.
Yone pressionou a lâmina mais fundo, fazendo com que o garoto tivesse que recuar pouco para não ser cortado. Tinha shurikens nos bolsos, uma sombra livre para locomoção rápida, tinha tudo para fugir, mas algo o prendia ali. Sabia que conseguiria algo conversando com aqueles samurais, só não sabia o que.
– Diga-nos o que fazia aqui, fedelho! – exclamou o irmão mais velho.
Kyrie tremeu.
– Eu estava... eu estava... eu estava voltando para casa, mas fiquei com medo de ser pego, por isso...
– Por isso se camuflou? – perguntou Yasuo, com calma. – Entendo que existem muitos magos em Ionia, mas nem todos têm habilidades como essas. Acho todo o tipo de habilidade especial bastante interessante.
Kyrie se sentiu calmo com a presença do irmão mais novo, pois de alguma forma ele lhe acalmava, enquanto o outro só lhe trazia pavor. Não sabia como respondê-lo, ele era um tanto quanto assustador. Lembrava a Kyrie o Master Shyon, e todas as vezes em que ele lhe dava uma bronca. Tinha um verdadeiro medo por ele.
– Por que se camuflou? Tem medo de nós? – perguntou Yone.
Fez que sim com a cabeça.
– Acho que até eu sentiria medo de nós dois, irmão – completou Yasuo. – Deixe-o ir, ele não aparenta ser suspeito... Se não pelo manto preto e capuz, mas não imagino um garoto dessa idade ser suspeito de algo, haha.
Por algum motivo as palavras garoto dessa idade causaram um grande estrago para Kyrie. Yasuo ainda por cima riu disso, deixando-o pior, por algum motivo. De certa forma cabisbaixo.
– Tudo bem, fedelho – concluiu o mais velho –, eu o deixarei ir. Mas antes uma pergunta: você viu este cara? – tirou do bolso do quimono um papel com uma pintura de Zed, o rosto idêntico, senão fosse pelas cicatrizes, não presentes na pintura. Assustou-se com aquilo.
Hesitou em responder, mas disse, por fim:
– N-não, não o conheço.
– E nem mesmo este? – Yone lhe mostrou, agora, a sua própria foto. Uma pintura do próprio Kyrie só que havia algo que acalmou-o por completo: a pintura mostrava-o com onze anos, com cabelos curtos e rosto completamente diferente. Teria rido daquela ironia do destino se não estivesse à frente de dois samurais.
Novamente negou.
– Ótimo! – irritou-se Yone, guardando a pintura no bolso, não se importando se ela fosse ou não amassar. – Vamos, Yasuo, temos de voltar ao templo logo.
Yasuo assentiu, voltando-se para Kyrie.
– Então, Kyrie, noto que você tem poderes extraordinários com camuflagem. Seria um bom ninja, mesmo eu sendo um samurai e odiando todos eles – fez uma cara feia, logo depois sorriu e deu uma risada. – Eu recomendaria Kinkou, mas não, recomendarei outro grupo, um grupo menor de ninjas, onde um garoto da sua idade vá se encaixar com melhor facilidade, não pela idade dos outros, mas por união e porque todos de lá têm habilidades como as suas. É o templo que fica na região sul de Ionia, lá em Sho-Xan.
Kyrie finalmente entendeu a pista do Escuridão. Discípulos...
[...]
– Um outro templo de treinamento ninja? – perguntou Zed. – Então os boatos eram verdadeiros, no fim das contas.
Haruka pareceu ter tido uma ideia, ou simplesmente uma descoberta.
– Nós nunca soubemos por que nunca saímos de Kinkou – concluiu. – Só ultimamente que estamos saindo mais.
Estavam todos ajoelhados novamente à pequena mesinha na sala, devorando lámen que era a refeição adorada por todos. Comiam outras coisas, como frutas e peixe, o que não faltava em Ionia, mas o amor verdadeiro de cada um era, na verdade, o macarrão quentinho, aquela coisa deliciosa.
– E o que mais o samurai gatinho disse, Kyrie? – perguntou Haruka.
Kyrie pareceu não ficar muito à vontade com aquela pergunta, mas prosseguiu.
– Bem, Yasuo me disse que existem poucos alunos lá, pelo menos em comparação a Kinkou. Disse que estão na base dos vinte e cinco.
– Tá ótimo! – exclamou Dan. – Trinta ninjas das sombras, contando conosco, dão de dez naquelas dezenas de alguma coisa de ninjas comuns.
Karina estava série, aparentemente não tendo curtido tanto assim a ideia.
– Mas a situação é diferente pois pode ser que eles não aceitem nossa doutrina das sombras – suas palavras pesaram completamente em todos, quase destruindo o plano. – Precisamos de um plano de mestre para converter a todos.
– Como o que? – perguntou Kyrie.
Zed sorriu.
– Acho que sei como. Não podemos simplesmente chegar lá, assassinar os líderes e tomar conta de tudo, não, não podemos. Se o que esse samurai disse, Ky, lá eles seguem a honra com mais disciplina que nós, de Kinkou. Talvez se eu desafiasse o líder de lá, pondo em jogo a liderança.
– Se você ganhar, ganha a liderança, mas e se perder? – Kyrie parecia preocupado com a segurança do amigo.
– Faço um jogo de vida ou morte. Quem perder, é degolado.
Todos ficaram abismados com a decisão de Zed, Dan chegando a cuspir seu lámen na cara de Kyrie, que ficou molhada e irritado. Sorriu de forma envergonhada para o garoto, pegando um paninho e tentando limpar seu rosto. Kyrie recusou, arrancou o pano da mão de Dan e limpou-se sozinho, furioso.
– Não pode simplesmente apostar sua vida, Zed – exclamou Karina.
– Não me subestime, Irmã Karina – ele disse com uma imensa calmaria. – Tenho sempre um truque na manga e um plano em mente. Acredito que o Escuridão possa me ajudar mais após eu ter descoberto a dica.
– Você ter descoberto? – perguntou-lhe Kyrie.
Zed riu.
– Tá legal, após você, Kyrie, ter descoberto. Vou deixar claro a ele que a descoberta foi sua.
– Ótimo – Kyrie sorriu.
[...]
– Olá, Escuridão, meu velho amigo... – novamente Zed encontrava-se com seu velho “amigo”, o ser obscuro feito de pura escuridão e ódio que se materializava como nuvens das trevas por todo o quarto.
Ouviu-se a risada dele, uma risada tão poderosa que pôde ser ouvida no andar de baixo, por todos os outros membros do clã das sombras. Kyrie levou um susto e pulou para o colo de Dan, que automaticamente soltou-o, deixando-o cair no chão. Haruka riu, Karina ficou séria, Dan bufou e a voz altíssima do Escuridão deu calafrio a todos.
Vejo que conseguiu a resposta, Zed... Novamente o ser sombrio gargalhou, uma gargalhada que assustou até mesmo o próprio Zed. O ser parecia alegrar-se com aquilo de uma forma bizarra.
– Não fui eu que a consegui – disse. – Foi o Kyrie.
Ah, a garota dos shurikens...
– O garoto! – corrigiu Zed.
Garota, garoto... Quem se importa? Só sei que finalmente você e seu clubinho poderão avançar um passo e evoluir, o formato do rosto de Escuridão sugeria que ele estava sorrindo, mesmo que utilizasse aquela terrível máscara de ferro.
– Clubinho? Somos um clã em ascensão, você mesmo disse.
Sim, admito ter dito isso. Mas menti... Pelo menos não na parte da ascensão. Realmente estão subindo no patamar de um verdadeiro clã, mas não existem clãs de cinco membros. E você já sabe aonde encontrar um clã maior, não sabe?
Zed assentiu.
– Sim, eu sei.
Daqui há duas semanas, na região de Sho-Xan, neste mesmo templo, ocorrerá um campeonato de armas, como o que o eliminou de Kinkou. Será bem maior que um simples campeonatozinho de merda, tendo uma festa e um evento.
– Já sei o que fazer, Escuridão – retrucou Zed. Automaticamente a mão escura, pontiaguda e lisa do ser projetou-se na direção de Zed, agarrando-o pelo pescoço. Não me interrompa, ele exigiu. Zed, porém, tentou continuar: – C-Como você pró-próprio di-disse... Não preciso mais de dicas suas.
Escuridão o soltou, fazendo com que ele caísse no chão com um baque surdo. Zed, então, percebeu que ele o havia elevado a três metros do chão. Sentiu falta de ar e massageou o pescoço, que doía.
Se não precisa de dicas, aposto que não precisará de meu poder na hora da batalha, desafiou.
– Aposto que vencerei o Chanceler do templo com minhas próprias habilidades, sem precisar de sua intervenção.
Ótimo...
– Ótimo...
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