Notas iniciais
Katarina se pergunta se Swain realmente conspirou contra Demacia; Sona que lidar com seus sentimentos e esperanças; Quando o comitê de Jarvan III chega em Kalamandra, mal sabem eles do que está por vir.

Capítulo 39:

Katarina Du Couteau – Kalamandra

– Eu não conspirei contra Demacia! – exclamou Jericho Swain, sentado em sua cadeira de rei em sua tenda.

Katarina cruzou os braços.

– Então quer dizer que aquela bomba noxiana não tem nada a ver com você?

Swain levantou-se da cadeira de punhos cerrados. Ele rangia os dentes e parecia enfurecido. Há pouco tempo ele havia sido vaiado por demacianos que só não atacaram-no pelo fato dele ter ajudado no salvamento. Anson Ridley, mesmo estando enfurecido com Noxus, pediu uma investigação para ter certeza se fora ele quem conspirara. Infelizmente aquela foi a gota d’água para um quase protesto demaciano, e vendo isso, Ridley não teve outra opção: excluiu Noxus das escavações e enviou uma carta ao rei demaciano.

– Eu tive as melhores intenções – exclamou Swain –, e é assim que eu sou tratado... por uma das minhas?

– Devo expulsá-la daqui, senhor? – perguntou Darius.

Katarina ficou boquiaberta ao mesmo tempo que ficou irritada. Semicerrou os olhos, encarando os dois.

Swain fez um gesto negativo para Darius.

– Não é necessário.

Não é necessário? – repetiu Kat. – Francamente, vocês dois estão ridículos!

Saiu da tenda sem mais delongas. Estava devidamente irritada com tudo aquilo, não aguentava mais ouvir tantas mentiras. Ele está mentindo, disse à si mesma. Mas uma coisa ainda martelava em sua mente. Ele não parecia mentir. Parecia dizer a verdade. Mas e se aquele plano que ele tinha dito fosse só o de reconciliação? Desde jovem ele quis que as guerras cessassem, embora tenha se tornado um mestre tático, criando táticas de guerra. Contraditório, não?

Katarina pôde ver todos os seus aliados irritados, outros deprimidos. No fundo sabiam que seriam expulsos de lá pelos demacianos, só uma questão de tempo. Aquilo a deixava triste por dentro. Não queria isso para seus homens, queria mais, queria reconhecimento. Sempre eram os vilões, e quando finalmente puderam ser heróis... Droga, Swain!

Viu Riven e alguns homens sentados ao redor de uma fogueira. Estava quase anoitecendo, e ela tostava um marshmallow. Usava metade da armadura, somente o pano, sem toda aquela tralha. Assim como os outros, que bebiam e conversavam, porém, deprimidos.

– Olá – ela acenou com a mão.

Katarina respondeu com outro “olá”; se sentou ao lado de Draythe Darkwill. Ele parecia deprimido, ou só entediado. Sabia que o que aconteceria quando seu pai soubesse do que havia ocorrido, e sabia que não daria nada certo.

– E aí, Kat.

– Fazendo o quê de bom? – Katarina perguntou.

Sir Lyam se ajeitou para se sentar mais perto de Kat. Ele vestia um manto preto com capuz. Katarina estranhou vê-lo ali, já que não o viu desde o incidente no bar.

– Estaríamos escavando se não fosse Swain – ele parecia chateado.

– Meu pai colocou tanta fé nele – disse Draythe, tomando um gole de cerveja –, e ele joga tudo fora.

– Ele é um idiota – xingou Riven.

Katarina se sentia mal a cada vez que os homens falavam mal de Swain. Xingavam de tudo quanto é nome, sem nem querer saber se fora ele mesmo quem fizera aquilo. Katarina sabia, mesmo que no fundo, que ele não tinha nada a ver com isso. Não sabia como, nem por que, mas sabia que a coisa era mais feia que aquilo.

– Olha... – ela disse. – Não acredito que Swain tenha feito isso.

Todos franziram a testa à ela.

– Fala sério – Sion se pronunciou –, quem mais poderia ter feito isso?

– Qualquer um.

Novamente todos franziram a testa, mas dessa vez estavam confusos. Talvez a raiva tivesse cegado cada um, impedindo-os de ver a verdade. Só viam aquilo que queriam ver, e o que queriam ver era que Swain era totalmente culpado. Não queriam culpar uns aos outros, e como Jericho fora muito rígido nos últimos dias, jogaram toda a culpa nele.

– Qualquer um? – perguntou Riven.

– Qualquer um – respondeu Kat.

Sir Lyam bocejou.

– Devíamos falar com Ridley – bocejou novamente.

Logo todos estavam bocejando. A última noite não poupara ninguém, todos trabalharam arduamente para ajudar Demacia, e agora estavam cansados. Porém, cansados demais.

Riven bocejou.

– Não sei – bebeu um gole de cerveja, ignorando o bocejo recente. – Estou tão cansada...

– Amanhã Jarvan III estará aí e nós teremos que começar a arrumar nossas coisas – argumentou Talon, que apareceu do nada, como uma sombra. – Se eu fosse vocês eu iria dormir.

Katarina se virou, assustada.

– Talon! Meu Deus, qual o seu problema?!

Ele não respondeu; tinha uma expressão fria e séria.

– Onde você estava? – Katarina perguntou. – Está sumido desde o incidente do bar...

– Eu estive resolvendo alguns assuntos pessoais – empurrou Sir Lyam e se sentou do lado da pupila.

Katarina olhou para o treinador com uma cara estranha, quase como se tentasse lê-lo. Observava o seu rosto, quase como se procurasse alguma coisa. Observou bem os olhos dele, que pareciam brilhar mais do que o normal. Não deu muita atenção a isso, mas ainda estava desconfiada.

– E que assuntos seriam esses?

Ele hesitou, respirou fundo... Retirou o capuz roxo que sempre usava, balançando os longos e bagunçados cabelos castanhos.

– Recebi um trabalho.

Riven franziu o cenho.

– Trabalho? – ela perguntou.

– É – respondeu Katarina –, antes de servir ao meu pai, Talon era um assassino de aluguel, um mercenário. Quando meu pai o recrutou, ele prometeu nunca mais aceitar trabalhos desse tipo. Só não consigo entender POR QUE ELE ACEITOU DESSA VEZ!

Talon virou-se para a aprendiz com um olhar repreensivo.

– Não recebi a proposta de qualquer um.

– Recebeu de Jericho – suspeitou Sion. – Posso ver em seus olhos.

Pela primeira vez em semanas, meses, anos, ele sorriu. Foi um sorriso macabro, sombrio, algo que Katarina nunca viu no rosto do mestre, nunca. Sentiu uma estranha energia emanar dele, estremeceu, ele não parecia mais o homem que havia conhecido e treinado desde jovem. Estava diferente.

– Acertou na mosca – sorriu novamente, Talon. – Logo vocês entenderão tudo – se levantou e foi embora, deixando todos ali com uma expressão confusa.

– Você os matou? – perguntou Katarina, antes dele ir embora.

Ele se virou para ela lentamente.

– Um ainda vive.

[...]

Sona observava enquanto sua mãe arrumava as bagagens. Passariam um pequeno período de tempo em Kalamandra, mas mesmo assim as Buvelle não poderiam sair sem levar toda as suas roupas chiques e maquiagem. Na verdade, Sona não se importava nenhum pouco com isso. Se sentia linda com ou sem maquiagem, e geralmente nenhum homem olhava para ela mais do que alguns momentos. Esses momentos eram, geralmente, durante os concertos, e nas outras, eles a olhavam rapidamente e os olhos logo desciam, talvez para os seios.

– Você sempre deve se apresentar de forma linda e elegante, Sona – a mãe dissera. – Você pode não ser de meu sangue, mas é minha filha. Não gosto de te ver, digamos...

Feia?, Sona perguntou em libras.

– Não, minha querida. Eu quero muito te casar com um homem incrível, mas se você não pode conversar com ele normalmente, como esperar que ele se interesse em você?

Sona abaixou a cabeça, chateada.

Lestara se sentou do lado da filha, consolando-a.

– Não fica assim, querida. Não quero dizer que você é ruim, ou nem nada. Só quero que saiba que as primeiras impressões podem fazer a diferença.

Sona ficou sem “falar” por algum tempo. Quando falou, deixou Lestara enfurecida.

Jericho Swain reparou em mim.

Pela primeira vez na vida, Lestara se enfureceu com a filha. Cerrou os punhos e emburrou a cara.

– Como você pode pensar naquele noxiano maldito, depois da nossa conversa?

Lestara conversara seriamente com a filha após a ida de Swain ao concerto, há mais ou menos uma semana. Naquele dia, Sona ignorou toda a rixa entre cidades-estado e se concentrou somente em uma coisa: em um fã. Swain adorou sua música, e isso já a fez feliz. O brilho nos olhos do mestre tático deu à ela mais felicidade do que qualquer outra coisa naquele dia, e pela primeira vez um homem não olhava só para o seu corpo, mas para a sua alma.

– Sona Buvelle, espero que você não toque mais no nome daquele noxiano bastardo. Você sabe muito bem do que ele fez à sua amiga Luxanna, quase a matou com um plano terrível, mas foi burro de deixar pistas. Ele se acha o sabichão, mas não passa de um idiota.

Sona levantou sua mão bem devagar, dizendo as seguintes palavras:

E se as pistas não foram deixadas de propósito?

Lestara franziu a testa, confusa.

– Pode repetir, minha querida?

Sona suspirou e repetiu os gestos.

– O que te levou a pensar nisso?

Sona deu de ombros.

Quando nada se fala, muito se pensa.

– Humph... – Lestara ainda parecia confusa. – Coloque sua melhor roupa, tá bom, querida? Se quiser eu peço para sua serva fazer um penteado melhor e novo em seu cabelo.

Sona sorriu.

Eu adoraria soltá-lo, e também... Mas a porta já havia batido às costas de Lestara, deixando Sona sozinha no quarto, sem roupa escolhida ainda. Queria usar uma roupa nova, trocar aquele velho vestido que sempre usava em concertos. De certa forma, queria ficar mais linda do que nunca. Era estranho, ela nunca quisera tal coisa, nunca se importara. Talvez quisesse impressionar Jericho novamente, mas a preço de que?

De toda a forma, guardaria aquele sentimento a sete chaves no fundo da alma, ou talvez do coração.

Os momentos seguintes do dia foram bastante desgastantes, porém, necessários. As servas da casa Buvelle terminaram de arrumar as coisas de Sona, além de arrumá-la. Dessa vez ela decidiu por soltar os longos cabelos e joga-los todos para o lado direito, cobrindo seu ombro. Utilizou maquiagem, batom vermelho, sombra, blush, pó de arroz, tudo que era necessário, em uma dosagem que a deixou irreconhecível. O seu vestido era azul e dourado, sem mangas e com decote. Quando Taric a viu, ficou boquiaberto.

– Lady Sona... – ele estava corado. – Você está maravilhosa!

Sona sorriu e deu uma viradinha, mexendo no vestido. Taric a observava com um certo brilho nos olhos.

Estou tão bela assim?, perguntou em gestos.

– S-Sim, claro. Como já falei, maravilhosa – passou a olhá-la por mais um tempo. Depois disse: – Precisamos nos reunir na sala do trono, de onde sairemos. Depois iremos em carruagens, atrás do rei e do príncipe, que optou por ir a cavalo.

Sona assentiu.

Os dois foram juntos até a sala do trono, onde houve uma pequena cerimônia da saída do rei, algo que sempre ocorria em Demacia antes que ele saísse para uma guerra e afins, e logo após foram todos às carruagens.

O príncipe Jarvan IV era um homem belo, esbelta e forte. Tinha seus vinte e poucos anos, com longos cabelos castanhos, barba feita, musculoso e alto. Trajava uma bela armadura dourada, uma coroa-capacete e tinha uma lança em suas costas. Tal lança era diferente de todas as outras, tendo a capacidade de se esticar até dois metros à frente do punho do príncipe, a preferida dele.

Ao seu lado cavalgava seu guarda-costas, Xin Zhao, um homem oriental, longo e grosso penteado rabo-de-cavalo, armadura amarela e lança. Ele e o príncipe iam à frente de todos, acenando para os cidadãos de Demacia, que pareciam eufóricos com a presença do príncipe. Sona percebeu que de vez em quando os olhos do príncipe brilhavam em amarelo e, às vezes, em roxo. Perguntou se Taric também havia percebido, mas ele tendo negado, percebeu que só ela via. Não deu muita bola.

A viagem até Kalamandra foi longa, mas não demorou uma tarde inteira. Como partiram pela manhã, chegariam ao meio-dia.

Na carruagem Buvelle haviam Lestara, Sona e Taric, fora a governanta da casa, uma senhora de meia-idade, tia de Lestara, chamada Iara.

Sona ficou com a cabeça apoiada na janela, observando o caminho. Adorava ver o céu azul, as nuvens passando, o vento soprando... Tudo dava a ela harmonia; conseguia sentir a música naquilo e em outras coisas ao redor. Era tudo muito incrível. Em sua mente, a única coisa que estragava aquela sinfonia de sons e sensações era o galope dos cavalos. Odiava aquele barulho incessante, mas amava os sons. O fato de não falar agravava esse amor.

Ficaram num silêncio a viagem toda. De vez em quando ficava conversando em libras com Taric, para não acordar Tia Iara, que dormia e até roncava. Lestara mesmo caindo no sono, não perdia a compostura e a elegância.

Taric e Sona deram uma risada silenciosa de uma piada que somente os dois entendiam.

[...]

Não demoraram tanto. Quando o sol escaldante brilhava forte no topo do céu, o povo de Kalamandra vibrou com a chegada da cavalaria demaciana, e as mulheres, claro, com o príncipe galante.

Anson Ridley, sua família e conselheiros já esperavam ali, enfileirados, a chegada do rei. Ao seu lado, Ezreal trajava a sua roupa mais bonita, de mãos dadas com Luxanna Crownguard. Jarvan IV passou, de cavalo, à frente do casal, sorrindo para Lux.

– Vejo que Garen aprovou tal união – sorriu.

Lux retribuiu o sorriso.

– Quantas saudades, Jarvie! – era esse o apelido que Lux dera a ele. Lux, Gary, Jarvie...

Lux dissera que estava com saudades pelo simples fato do príncipe ter saído em uma missão desconhecida dias antes do convite de Kalamandra, logo, Lux não o viu faziam dois meses.

Jarvan pôs-se a cavalgar e abrir espaço para a carruagem de seus pais.

A carruagem real era linda, com detalhes feitos de ouro puro, brilhantes e tudo mais. Quando a porta da carruagem se abriu, um imenso tapete vermelho rolou para fora, e o rei saiu por ele, deslizando seu grande manto real pelo chão. Em seguida vinha a rainha Jaynee, ao lado do marido.

Anson parecia animadíssimo com a chegada do rei. Quando os dois líderes deram as mãos, o prefeito parecia que ia desmaiar. Só não desmaiou por que seu sobrinho lhe deu um beliscão.

– É muito bom vê-lo, Vossa Graça – disse Ridley.

– Vossa Graça – disse Ezreal.

Lux sorriu para o rei, que sorriu de volta e acariciou os cabelos loiros da jovem.

– É muito bom estar aqui também, Ridley... – ele respondeu. – Mesmo que eu nunca tenha ouvido falar nesse vilarejo.

Jaynee percebeu a besteira que seu marido havia dito, logo corrigiu-o:

– Na verdade, Senhor Ridley, o que meu marido quis dizer é que Kalamandra é um local não-mapeado.

– Não por muito tempo – cortou-a Jarvan IV –, mamãe. Logo papai fará um decreto de que quem não mapear Kalamandra em seus mapas pessoais, receberá uma multa!

Todos riram.

– E então – continuou o rei –, quando assinarei o contrato de escavações?

– O mais rápido possível – respondeu Ridley.

Isso significava que Noxus não teria vez. Tendo que ficar de fora de tudo e se retirar o mais rápido possível. Isso irritou Katarina, que observava tudo bem de perto, cercada de cidadãos. Ela usava um manto negro com capuz, o mesmo que Sir Lyam usara no dia anterior. Ficou um pouco grande nela, mas foi bom para deixa-la irreconhecível.

Viu muitas coisas acontecerem: os homens do conselho Ridley beijaram a mão da rainha e fizeram uma reverência ao rei. Sua pulsação subiu quando viu Garen, saudando o príncipe, seu amigo, e também o próprio pai, que vinha como guarda do rei. Evan Crownguard era idêntico ao filho, ou talvez o filho fosse idêntico ao pai. Ele usava uma armadura imensa, dourado, e uma capa vermelha. A capa passava pelo pescoço, cobrindo-o como um cachecol.

– Lux – o guarda foi até a filha –, minha princesinha – abraçou forte a filha. – Fiquei tão preocupado quando soube o que havia ocorrido com você!

Ela sorriu.

– Ezreal também me ajudou, e muito. Sem ele sair de lá seria tão difícil!

Evan virou-se para Ezreal, encarando-o com os olhos semicerrados. Ez começou a tremer de medo do sogro, que parecia ser mais enfurecido que Garen. Katarina lamentou pelo garoto, mas focou-se em outra coisa: na conversa de Garen e Jarvan. Conseguia ouvir melhor do que qualquer outra pessoa.

– O que houve com você, Jarvan? Ficou sumido por tanto tempo – disse Garen.

Jarvan IV cruzou os braços.

– Tive que resolver... – hesitou – alguns assuntos pendentes. Coisas da coroa, sabe? É extremamente sigiloso, até para você.

Garen suspirou.

– Entendo.

– Mas então, agora terei que me assentar ao lado de meu pai na cerimônia do contrato, e o resto você sabe: quero que fique perto de mim, caso eu precise de algo.

Garen deu de ombros.

– Claro.

Algo não cheirava bem. A hesitação de Jarvan chamou a atenção de Katarina e ela nem ao menos sabia o porquê. Sabia que logo teria respostas, mas aquele não era o momento. Queria ver a cerimônia do contrato, queria constatar que aquilo era mesmo verdade. Ainda não acreditava que haviam perdido o direito de escavar depois daquilo. Iria embora de mãos abanando.

Voltou-se para o rei Jarvan III. Ele era extremamente imponente, ao mesmo tempo que abobado. Jaynee era uma rainha exemplar, os dois formavam uma dupla imbatível. Por várias vezes perderam lutas por causa da estratégia dos dois, que só era barrada pela de Swain, de vez em quando. Dizem que Noxus só não havia sido destronada e destruída por Demacia por causa de Swain. Ele mantinha um equilíbrio na guerra, mas não subiam nunca de nível, sempre ficavam naquela briguinha tosca e inacabável. Katarina gostaria de se sentir vitoriosa somente uma vez; sabia como fazer isso.

Podia ver o pescoço nu de Jarvan III, podia sentir sua pulsação, seu sangue. Observou várias rotas de ataque e de fuga. Poderia sacar sua adaga, avançar nele, degolá-lo, e ainda escapar... Mas algo não deixava. Sabia que ele seria de extrema importância futuramente, e também, Garen estava lá. Seu pai estava lá. Sua irmã estava lá. Está louca?, pensou Katarina. Finais felizes não existem. Garen não passa de uma aventura.

Apertou o punho contra a adaga, esperando um bom momento para ataca-lo. Podia escondê-la dentro do manto e ninguém veria sua lâmina, só precisaria escolher o momento certo. Um, dois, três passos, somente esses seriam necessários. Mesmo assim não teve coragem. Pela primeira vez teve medo de matar alguém, e por anos quis assassinar aquele maldito rei... Mas então por que não conseguia?

[...]

Katarina abriu espaço pelas pessoas, tentando um ângulo melhor do rei. Não poderia matá-lo agora, perdera a chance. Queria não se arrepender disso, nem de estar tentando chegar perto. De toda a forma não seria presa por tentar ver melhor a cerimônia. Estava curiosa, era estranho.

Quando teve uma melhor visão, viu que, acima de um degrau havia uma grande mesa retangular. Nela havia um pano vermelho real com três pranchetas em cantos onde estavam sentados os membros da família real. Primeiro nós tínhamos Jaynee Crownguard, a rainha, que deveria assinar o acordo como assistente do rei. No meio, o próprio rei, Jarvan Crownguard III, que assinaria como líder. Em terceiro estava o príncipe Jarvan Crownguard IV, que assinaria como herdeiro do trono. Ao seu lado estava Garen, com a espada encostada no chão, em pé, servindo de guarda real. Atrás do rei estava Xin Zhao e, atrás da rainha, Evan. Pensam que podem proteger seu reizinho, é?, Katarina pensou. Eu poderia matá-lo tão rápido que vocês nem veriam. Mas não matou. Esse dilema estava deixando-a maluca.

Ouviu uma melodia calma e serena que parecia vir de perto do rei. Sona Buvelle tocava por detrás de seu rei.

– Hoje, meus cidadãos – o rei pronunciou –, eu, o rei de Demacia, juntamente com Anson Ridley, o prefeito de vocês, iremos unir forças para extrair todas as riquezas das minas locais.

– Não tão rápido! – gritou uma voz grossa vinda de dentro da multidão.

Os cidadãos começaram a ser empurrados para abrir-se caminho ao centro da multidão, tudo isso por homens noxianos. Mas o que diabos...?, pensou Katarina. Ouviram-se gritinhos e gemidos de quando se é empurrado com força típica noxiana. Houve um alvoroço tremendo que fez o rei de Demacia levantar-se da cadeira.

Tendo caminho aberto, um general noxiano apareceu: Darius, acompanhado de Riven.

– Nossos assuntos ainda não terminaram – disse Riven, de forma sombria.

Anson Ridley se irritou e colocou-se entre os noxianos e o rei.

– Como ousam aparecerem aqui após quase terem matado tantos homens inocentes?

Riven riu.

– Em momento algum nós matamos alguém, ou tentamos matar – fitou o rei com o olhar –, pelo menos por enquanto.

– Estão dizendo que não são os responsáveis pelo terremoto e soterramento de quase quarenta homens demacianos? – perguntou Jarvan III, de forma calma.

Darius ignorou Ridley à sua frente e disse ao rei:

– Nós não temos nada a ver com isso!

Todos os cidadãos ao redor começaram a vaiá-los. Foi quando os soldados demacianos colocaram-se apostos para atacar os noxianos, preparando somente a ordem do rei.

SILÊNCIO! – o rei urrou tão alto que chamou a atenção de todos. – Se vocês não têm nada a ver com isso, como explicam o ocorrido?

Katarina percebeu que, além de não ter ficado sabendo de absolutamente nada sobre isso, Sona Buvelle era a única coisa que mantinha Jarvan III longe da fúria. Ela acalmava-o de forma poderosíssima.

Nesse momento Riven e Darius se afastaram, abrindo caminho. A trilha aberta pelos noxianos na multidão permitiu a passagem de um homem... na verdade dois. O primeiro se vestia como um lorde, com um sobretudo preto imenso, cabelos negros bem penteados, olhos calculistas... Um corvo repousava sobre seu ombro. Ele puxava um outro, que estava bastante machucado e algemado. Ele usava um capuz e um traje demaciano.

Jericho Swain...! – praguejou Jarvan IV.

– Também estou muito feliz em vê-lo, Quarto – sorriu Swain.

Colocou o prisioneiro à frente; agora eram só os dois no centro, entre os Lightshield e a multidão. Katarina só observava. Puxou Riven pelo braço, levando-a para dentro da multidão.

– Mas o que diabos...??

Shhh...! – fez Katarina.

Riven estreitou os olhos.

– Katy? É você? Por que está escondida?

– Eu que faço as perguntas – fez uma cara feia. – O que Swain pensa estar fazendo? Por que não fui chamada para esse plano?

– Talvez por que você ficou em seu quarto o dia todo.

– Você ainda não me respondeu o que Swain quer fazer!

– Espere e verá, ora!

Katarina largou a amiga e se concentrou no diálogo entre os dois líderes.

– O que você acha que está fazendo, noxiano?! – perguntou o príncipe. – Não pense que irá interromper a assinatura com argumentos mentirosos!

Jarvan III franziu a testa. Não entendeu o que o filho tinha dito, mas prosseguiu dizendo:

– Deixe que ele se pronuncie e termine logo com isso!

Swain sorriu.

– Ótimo! – puxou o prisioneiro, levantando-o. – Este homem confessou o assassinato dos mineiros demacianos presos na mina, e de incriminar Noxus. – Todos os cidadãos ao redor se espantaram com tal afirmação.

Jarvan III se silenciou por um curto período de tempo. Depois perguntou ao prisioneiro:

– Qual o seu nome, jovem?

– Thom Garvin – respondeu.

– As ordens de quem você estava seguindo ao tentar incriminar Noxus, meu caro?

O garoto hesitou.

– Eu obedeci às ordens de seu filho, o príncipe.