Notas iniciais
Sona sonha com o dia em que poderá sair de casa, de sua cidade, e trabalhar na guerra com seus poderes musicais. Com uma nova habilidade descoberta, ela conseguirá ir até onde quiser.

Capítulo 38:

Sona Buvelle – Demacia

Sona observava o movimento nas ruas de Demacia com uma grande ansiedade. Estava esperando por sua mãe, que logo viria busca-la para o castelo, onde ela iria tocar para o Rei Jarvan III. Sona não podia sair de casa sozinha, só com a permissão da mãe é que ela poderia sequer pisar fora da mansão dos Buvelle.

Ela está demorando, pensou Sona. Queria falar em voz alta, mas toda vez que abria a boca, nenhum som se fazia, isso desde que ela se entendia por gente. Tinha a sorte de saber se comunicar por libras, pois não poder falar ou se expressar é uma coisa terrível. Sempre soube disso, sempre sentiu isso. Não tinha como mudar isso em si mesma. Só magia poderia dar-lhe voz, mas nem assim ela poderia conseguir. Magia era algo utilizado na guerra, e ela odiava qualquer coisa sobre guerra.

Ultimamente Sona não avistava muitas pessoas conhecidas pela cidade, já que todas estavam em Kalamandra. Garen, Luxanna, os irmãos Jaime e Daniel, entre outros estavam lá. Podia até sentir uma certa saudade de Fiora Laurent e sua língua afiada. Sona podia odiar o jeito como ela utilizava sua voz, mas gostava do jeito como ela respondia os outros. Todos eram iguais à ela, que era verdadeira, tratando a todos mal. A única pessoa com a qual ela tratava com respeito absoluto era o próprio rei. Sona apreciava isso nela. Laurent não era falsa, não tratava ninguém bem por ter um nome ou ser de uma das Casas Nobres.

Adoraria poder dizer tudo o que penso, como Laurent.

Gostava de ouvir Luxanna falando sobre suas tristezas da vida e de como não conseguia um namorado – não por ser feia ou deselegante (o que ela não é), mas por seu pai ser muito seletivo –, ou quando ela demonstrava seus poderes à ela. Era tudo muito incrível. Gostava daquilo. Gostava de se concentrar nas conquistas dos outros, no mundo daqueles que podiam falar.

O quarto de Sona era grande e bonito, bem decorado, com várias pinturas belas nas paredes, uma cama amarela e azul, um armário, uma penteadeira, e um local onde se colocava o seu instrumento na qual ela usava em todos os seus concertos, o etwahl, uma espécie de harpa em formato de piano com apenas três cordas. Dizem que o talento se Sona ao tocar o instrumento é algo mágico, pois ninguém conseguiu tocá-lo, e dizem que, quando Lestara Buvelle a adotou numa visita à Ionia, ela jogou fora o instrumento de Sona, mas toda vez que ela o fazia, etwahl voltava para as mãos da garota, de um jeito ou de outro. Juntando o útil ao agradável, Lestara começou a apresentar Sona em plateias lotadas de demacianos apreciadores de boa música.

Sona colocou etwahl em seu colo, como sempre fazia. Fechou os olhos e começou a deslizar os dedos pelas cordas, extraindo uma melodia divinal. Podia sentir poder saindo do instrumento toda vez que o tocava, mas era um poder bom, não os poderes mágicos utilizados nas Guerras Rúnicas, que quase levaram Runeterra à ruína, mas um poder de cura há muito tempo perdido, um poder puro.

Deixava se levar pela música do instrumento, deixado todas as suas mágoas e inseguranças serem levadas pelas notadas musicais proferidas. Aquele era seu melhor método de dizer o que sentia, pela música. Talvez somente ela entendesse aquilo tudo, mas gostava disso tudo. Podia dizer o que pensava, ser como Fiora Laurent por pelo menos algum momento de sua vida. Sorriu.

Deslizando os dedos de forma mais radical, conseguiu extrair um som mais forte, como heavy metal. Começou a se animar, tocando rapidamente, o som se tornando mais alto, a pulsação subindo, coração batendo mais forte... BUM! Ficou boquiaberta ao ver que um vaso em cima de uma mesinha agora estava destruído, mas como que ela...? Olhou para etwahl, confusa. Sentiu uma estranha vibração vindo do instrumento, como um sentimento de ira, forte demais para ser contido. Aquele sentimento estaria vindo de dentro do instrumento? Teria ele vida, ou algo parecido? Sona pediu aos céus que estivesse errada.

Ergueu o instrumento, que levitava ao seu bem querer, e se concentrou num ponto certo: a janela. Preferia não quebrar mais nada no seu quarto, e como ele ficava no segundo andar, não destruiria nada de ninguém. Se concentrou e tocou sua nota mais forte, porém, dessa vez utilizou uma mais aguda. Foi quando uma bizarra vibração saiu de suas cordas, tornando-se como um laser, batendo numa grande árvore do lado de fora e cortando várias de suas folhas.

Por sorte ela não explodiu a árvore como fez com seu vaso, mas isso deveria ter algo haver com as notas tocadas. Talvez notas mais graves se tornassem poderosos raios explosivos, enquanto as mais agudas se transformavam em algo como navalha, cortando tudo no caminho.

Talvez eu poderia..., pensou Sona, não, não devo fazer coisas do tipo. Sona sempre sonhou em poder auxiliar seus companheiros em guerras, mas sua mãe nunca deixou, dizendo que ela era muito frágil e fraca para ir até lá. Talvez se usasse seu etwahl como arma em batalhas ela poderia se destacar, e talvez pudesse melhorá-lo para que ele pudesse, talvez, curar os outros. Curar? Restaurar?

Sona se virou para seu vaso quebrado, olhou para etwahl e soube que poderia fazer isso. Tocou-o de leve, calma e serenamente, como sempre fazia, porém, colocou mais emoção e amor em cada nota. Sentiu uma energia positiva saindo de suas cordas, envolvendo o vaso e erguendo cada caco caído no chão ao ar. Logo o vaso estava de pé na mesinha, intacto, sem nenhuma parte rachada. Sona engoliu em seco e se sentiu orgulhosa. Talvez agora ela pudesse finalmente sair de casa e viver.

...

– Então agora você pode atacar com seu etwahl? – Taric perguntou, animado. – Isso é incrível, Sona!

Sona fez que sim com a cabeça, sorridente.

Taric era um cavaleiro de outra dimensão que, por algum motivo, tinha vindo à Runeterra após ser invocado por um feitiço desconhecido. Ele trajava uma armadura azul feita de diamantes e safiras, as suas pedras favoritas. Usava um martelo imenso e um escudo feitos de pedras brilhantes em batalha e utilizava de sua magia para curar os aliados em batalha. Desde que caíra em Runeterra, tem ajudado Demacia em batalhas, e é amigo de Sona desde então. Ele havia aprendido libras com o pai em seu mundo.

Quanto à sua aparência, ele tinha cabelos longos castanho-escuros e sedosos, olhos azuis e pele branca.

Mas evite falar sobre isso com os outros, Sona disse com gestos a ele, que assentiu.

– Entendo... – ele respondeu seriamente. – Não é sempre que descobrimos um poder do tipo.

Os dois estavam sentados em uma mesa bonita na sacada da Mansão Buvelle, com vista para as ruas de Demacia. Haviam flores e plantas ao redor, decorando a sacada, dando um clima mais belo ao local. No céu o sol brilhava sem nuvens, mas sem esquentar muito. O clima estava perfeito em Demacia... outra vez.

– Mas o que pretende fazer com tais poderes destrutivos, minha cara? – perguntou Taric.

Sona pareceu pensar, olhando para cima e para os lados.

Talvez eu possa participar das lutas de Demacia e Noxus.

– Não, mesmo! – ele exclamou. – Eu jamais permitiria que você participasse de uma guerra, é horrível. Pessoas morrem numa guerra.

E eu não sei?, Sona fez gestos rápidos e uma cara irritada. Por isso mesmo que quero estar lá, para impedir que eles morram.

Taric deu uma risada curta.

– Não é assim que funciona a guerra, Sona. Nem sempre se pode evitar a morte dos outros. Eu mesmo, que me considero um defensor e curandeiro, não consigo. É difícil, ainda mais contra noxianos, que utilizam tanto a magia negra.

Ela fez uma cara triste.

– Não fica assim – Taric sorriu para a amiga e pegou em sua mão. – Você pode sim ajudar-nos na guerra, não te proíbo, mas me preocupo. Odiaria vê-la em campo de batalha pelo simples fato de correr perigo.

Sona sorriu.

Muito obrigada.

Lestara Buvelle entrou pela porta mais próxima, vestindo um belo vestido azul decotado. Seus longos cabelos dourados reluziam no sol de verão demaciano e ela parecia radiante.

– Filha – se virou para Taric –, Cavaleiro das Gemas... O Rei Jarvan III quer te ver, minha querida.

Sona levantou-se, animada. Com certeza o rei queria que ela tocasse para ele, e ela adorava isso. Acalmar o rei lhe trazia uma alegria interior imensa. Ela se sentia mais útil que de costume e, claro, agradar o rei é, com certeza, uma coisa boa.

Ele quer que eu toque para ele?

– Sim, minha querida. Ele tem assuntos muito críticos a tratar e quer você a tiracolo para acalmá-lo.

Sona franziu a testa. Para o rei querê-la o tempo todo por perto, ele devia estar tratando de um assunto terrível. Talvez fosse sobre Kalamandra. Noxus, ela pensou.

Os assuntos do rei... são sobre Kalamandra?

– Não sei – a mãe respondeu. – Ele só pediu que eu a levasse até ele. Vamos?

Sona fez que sim.

Ela se virou para Taric, convidando-o.

– Eu vou também, caso... precaução – disse o Cavaleiro das Gemas.

...

Sona já entrara no castelo de Demacia dezenas de vezes, mas todas eram incríveis. O castelo era totalmente o oposto do noxiano, que era escuro e negro. Esse era bonito, dourado e brilhante, como um castelo divino, dos deuses. Haviam cavaleiros dourados guardando a entrada, e o hall de entrada era mais bonito ainda. Haviam lustres de cristais e quadros pintados de antigos reis de Demacia, e acima de tudo havia um de Jarvan III. Ele tinha longos cabelos castanhos, barba, bigode, uma coroa dourada e uma cicatriz que lhe cortava a face verticalmente e uma coroa dourada com rubis imensa.

Sona não se cansava de olhar para todos os quadros, sentia que precisava estudar a própria história, e mesmo que ela fosse ioniana e não demaciana, sentia como se aquela fosse a sua nacionalidade. Fora tão bem acolhida pelos demacianos que sentia como se aquele fosse seu reino natal.

Juntamente de sua mãe, Lestara, e Taric, subiu as escadas do castelo até a sala do pequeno conselho.

Lestara abriu a grande porta. Dentro da sala o rei debatia com seus conselheiros em uma mesa retangular, ele se sentando na extremidade e os conselheiros nas laterais da mesa. Cada conselheiro representava uma casa nobre de Demacia. Na casa Laurent ficava Ernest Laurent, pai de Fiora e representante da Casa. Ele era um homem esguio, magro, cabelos negros curtos, barba feita, bigode fino e olhos azuis. Ele ostentava um sorriso malicioso e língua afiada, igual à filha. Quando falava, demonstrava toda a arrogância que se fazia um Laurent.

A representante da Casa Vayne se chama Shauna Vayne, uma caçadora de abominações. Ela sempre se vestia com uma roupa colante azul, deixava seu cabelo preso numa trança imensa e carregava bestas e dardos de prata para todos os lados, em missões, mas perante o rei, em uma sala de conselho, ela se vestia com, bem... a roupa colante azul. Ela nunca tira. Ela perdera os pais quando jovem, mortos por uma bruxa noxiana que alterava a própria forma, ficando com o enorme peso de cuidar da Casa Vayne e de todos os servos. Ela treinou, por anos, para erradicar todos os seres das trevas de Valoran, como lobisomens, vampiros, demônios... Ultimamente estava na cola de um noxiano capaz de sugar o sangue das pessoas com feitiços, bebendo-o para saciar sua sede. Ela quase morreu, então teve que dar uma pausa. Ela era séria e centrada, nunca ria, nunca sorria.

O representante da casa Crownguard era Evan Crownguard, pai de Garen e Luxanna, um cavaleiro da guarda. Ele era uma versão de Garen mais velha, mas usando uma armadura feita de ouro e ferro e com o cabelo mais cortado. Ele era muito bem humorado, mas um guardião memorável.

A representante da casa Lightshield era, nada mais nada menos que a Rainha Jaynee. Nos últimos reinados de Demacia, o conselheiro dos Light era o próprio rei, mas Jarvan III preferiu por deixar sua esposa aconselhá-lo assim como seus aliados, pois a amava muito – embora já tenha se apaixonado por outra pessoa há muito tempo atrás. A rainha era lindíssima, como diziam alguns. Longos cabelos castanhos e ondulados, pele branca, olhos dourados como os do filho Jarvan IV e uma aura quase que divinal. Sua coroa era bem menor que a do marido.

– Aqui está ela – anunciou Lestara Buvelle, atraindo a atenção de todos –, meu rei. Como prometido, eu trouxe minha filha e seu instrumento, o etwahl – e apontou para Taric, que tentava trazer o instrumento para perto de Sona.

Ele ofegava. Etwahl era pesadíssimo, somente Sona podia levantá-lo com facilidade, o porquê ninguém sabia.

– Ótimo – o rei parecia cansado. – Comece a tocar a hora que quiser, minha cara. E você, Cavaleiro das Gemas, guarde a porta, somente conselheiros e convidados podem adentrar nessa sala.

Taric fez uma reverência e saiu da sala.

Sona sacou seu etwahl e se sentou em um sofá acolchoado próximo. Sua mãe se sentou em sua respectiva cadeira na mesa e gesticulou para que começasse a tocar. Sona começou a deslizar os dedos pelas cordas e tocar uma melodia que fez o rei suspirar de felicidade.

– Onde paramos? – ele perguntou.

– Paramos na parte sobre Kalamandra – lembrou Vayne, sem demonstrar nenhuma emoção.

– Sim, paramos nessa parte. Como dizem meus informantes, ocorreu um “acidente” em Kalamandra, onde houve um suposto terremoto que prendeu vários homens dentro de uma mina... – olhou para Evan Crownguard. – Infelizmente, meu caro Evan, sua filha estava dentre esses homens.

Evan arregalou os olhos.

– M-Mas como assim? Minha princesinha... – parecia desesperado.

Sona tocou uma nota doce e suave diretamente para Evan, concentrando-se na magia musical. O homem pareceu se confortar e se acalmar, o desespero saindo de dentro de seu coração, sendo preenchido pela esperança. Sona sorriu.

– Não se preocupe, Sir Evan – garantiu a rainha Jaynee. – Luxanna está bem, foi salva por, bem, uma escavadora noxiana, liderada por Jericho Swain.

Sona engoliu em seco. O jeito com o qual a rainha disse o nome demonstrou um ódio profundo que ela nutria pelo homem que quase matou seu filho príncipe há alguns anos. Sona se lembrou de quando encontrou-se com Swain e Darius em seu show, e do jeito como ele olhou para ela e do jeito como ela o abraçou. Não pode dizer que não sentiu nada, ainda mais por ele ser um inimigo e esse poder ser um amor impossível. Mas foi só um abraço, Sona censurou-se. Não abraçava homens todos os dias, então aquele foi especial, até por que não é sempre que uma demaciana abraçava um noxiano.

Ernest Laurent riu; podia se ver Fiora naquele homem.

– Como assim nós precisamos da ajuda do inimigo? – o sotaque era o mesmo da filha.

– De acordo com a carta, Lorde Laurent – respondeu a rainha, que aparentemente falava mais que o próprio rei –, as pedras estavam tão pesadas como se fossem de mil quilos. Somente a escavadora zaunita de Noxus conseguiu levantá-las.

– Sinto cheiro de magia negra – comentou Vayne. – Conheço a magia noxiana tanto quanto a nossa.

– Não se precipite, Lady Shauna – repreendeu o rei. – Ainda não chegamos ao ponto, deixe-nos terminar.

– Pois bem.

– Algumas horas após o resgate foram encontradas bombas zaunitas com a marca de Noxus em um local da mina – continuou o rei. – Estão sendo feitas investigações para saber quem que armou esse terremoto.

Ernest fez uma cara de desdém ao rei.

– Não está mais do que óbvio que os malditos noxianos armaram isso? Aposto que por ordem de Jericho Swain, aquele maldito.

– Tendo eles feito ou não, esse foi o ultimato de Anson Ridley. Após a briga no bar ele havia dito à Katarina Du Couteau que iria removê-los da escavação.

Rainha Jaynee interrompeu seu rei, algo que somente ela tinha coragem de fazer.

– As investigações não terminaram, mas Anson já removeu Noxus das escavações – ela sorriu. – Agora é tudo nosso.

Todos os conselheiros sorriram; Sona tocou uma música mais animada.

– Teremos de ir até Kalamandra em poucos dias em uma caravana para oficializar o acordo – disse o rei. – Noxus irá sair de lá em dois dias, tempo suficiente para recolher seu acampamento. É uma pena que iremos para lá para nos encontrarmos com Jericho, mas o que pode acontecer de tão ruim?

Notas finais
Com a decisão tomada, Jarvan III e sua caravana de cavaleiros e conselheiros irão à Kalamandra para oficializar o acordo e Demacia se tornar a única escavadora e ter os direitos ao ouro e pedras preciosas. Mas, o que de tão ruim pode acontecer?