League of Legends: As Crônicas de Valoran
28 Capítulo 27: Ashe
Notas iniciais
Capítulo 27:
Ashe Frozenheart – Rakelstake – Vila dos Praeglacius
Ashe se deitou com Tryndamere em mais uma de suas noites no castelo de Lissandra. Lá fora o inverno havia chegado, para a tristeza de muitos, alegria de poucos.
A brisa fria e brusca zumbia pelo céu, e o vento podia congelar qualquer coisa que quisesse. Isso era preocupante, pois logo as melhores fontes de comida, como as plantações e grãos estariam escassos. Por sorte Ashe plantou e armazenou durante todos os anos de verão, para que ninguém passasse fome.
Ficou pensando em Sejuani e na Garra do Inverno. Será que eles iriam aceitar tal proposta de paz? No fundo ela sabia que não. Sabia que Sejuani era a última pessoa que aceitaria uma proposta de paz, com todo aquele papinho de força, de não se rebaixar à fraqueza dos avarosianos, e etc.
– Não consegue dormir? – sussurrou Tryndamere em seu ouvido. Os dois estavam dormindo “de conchinha”, ele com as mãos em sua barriga. Os dois estavam nus, como um casal geralmente dorme. Estavam cobertos por três camadas de cobertores, pois estava muito frio, e nem mesmo o rei bárbaro e a rainha avarosiana poderiam aguentar o inverno Freljordiano.
Ashe se virou para ele e o beijou. Quando o beijo terminou, ela sorriu.
– Infelizmente, não – ela suspirou. – Não consigo parar de pensar em Sejuani, e se ela aceitará a proposta de paz. Temo que não.
Tryndamere sorriu para ela de forma calma.
– Não tema. A vitória será nossa, lembre-se disso. Você tem a mim, tem à Princesa Lissandra, e nossos exércitos. Nada poderá nos deter.
Ela abriu um longo sorriso.
– Obrigada, amor. Não sei o que seria de mim sem você – e os dois se abraçaram.
...
Na manhã seguinte, Lady Lissandra reuniu toda a sua corte e a de Ashe para um banquete da manhã, onde haviam bastante comida em fartura. Haviam carnes de todos os tipos, grãos, alguns sucos, entre outras coisas.
Ashe vestia uma roupa fresca – mesmo que estivessem frio lá fora –, que consistia em uma saia, botas, luvas, um capuz, capa, e um tipo de camisa, tudo azul. Era a roupa favorita de Ashe, pois fora dada por seu pai, quando ele ainda estava vivo. Em seus cabelos prateados haviam belas tranças que pareciam ser impossíveis de serem feitas, mas estavam ali, belas e armadas. Ao seu lado, Tryndamere vestia sua roupa de combate, com seu saiote, seu capacete com cifres, e seu cabelo longo preso num rabo de cavalo. Ele não parecia se importar com o frio, pois estava sem camisa, como os bárbaros sempre estão.
Nunu usava uma roupa de frio e um capuz fofinho, como sempre. Ele se sentava do lado direito de Ashe, enquanto Trynda sentava no lado esquerdo. Thaynam estava sentado do lado de Nunu, usando um sobretudo azul e branco, com seus cabelos grisalhos cortados curtos, e seu bigode não feito.
Do outro lado da mesa, Lady Lissandra se sentava ao lado de seus conselheiros e de alguns generais. Ela trajava um belo vestido branco, usava uma coroa na cabeça, e seus cabelos loiros estavam com uma bela trança, como as de Ashe.
– Um brinde à nossa aliança – ela sugeriu, erguendo sua taça cheia de vinho.
Todos fizeram brinde, até mesmo Nunu, que mesmo sendo menor de idade, podia beber um pouco.
Thaynam observou Nunu bebendo.
– Você acha seguro deixar o garoto beber, Ashe? – perguntou. – Dizem que não é bom dirigir embriagado, e eu odiaria vê-lo pilotando aquele yeti após ficar bêbado.
– Nunu sabe que só pode beber uma taça por vez – respondeu Ashe.
Nunu limpou a boca com as costas da mão.
– É verdade, tio Thaynam. Eu sei dos meus limites.
Lady Lissandra sorriu.
– É muito lindo ver como cuida do pequenino, Rainha Ashe.
Ashe sorriu para ela, mas Nunu fez uma cara feia. Se lembrava de quando era um praeglácio, e de como ela o tratava com desgosto. Lembrou-se também de como foi expulso por Mauvole só por amar seu yeti, e isso o irritou muito.
Antes que Ashe pudesse responder, o garoto disse:
– Depois que sua mãe me expulsou, eu realmente precisei de alguém para cuidar de mim – todos ficaram quietos.
Lissandra olhou para baixo, envergonhada.
– Acho que você jamais poderá perdoar isso. Deixar uma criança à deriva foi uma terrível decisão de minha mãe. Peço que possa me perdoar.
Essa não é ela, pensou Nunu. Lissandra era uma garota mimada e chata. Poderia ela ter mudado em tão pouco tempo? Ela sorrira enquanto ele fora expulso. Era sádica e torturava o próprio gato, fora que adorava ver os prisioneiros da mãe sendo torturados. Ela era estranha, e agora estava muito boazinha.
Ashe sorriu para Nunu, que não pareceu entender.
– Perdoar é sempre a melhor escolha, meu querido – ela disse.
– Tudo bem – respondeu. – Eu te perdoo, Lissandra. Ainda mais agora, que nos acolheu dessa forma.
Thaynam sorriu e parecia que iria rir.
– Vejam como ele fala de uma maneira extremamente fofa, meus caros amigos – e deu uma gargalhada.
Lissandra sorriu para Nunu, e ele se perguntou como poderia não perdoá-la. Talvez a morte da mãe tenha mudado seu comportamento, pensou ele. Pelo menos eu espero isso.
...
Após o banquete, Nunu foi levar um pouco de comida para Willump, que o esperava sentado no celeiro onde fora colocado. Ele parecia observar todo o movimento nas ruas de Rakelstake, onde antigamente era a sua cidade natal. Ele via vários cidadãos vestindo roupas de camponeses e andando pra lá e pra cá, vendendo coisas, comprando coisas. Vários outros yetis passavam pela rua, pois a tribo utilizava os grandes homens das neves para ajudar em trabalhos braçais que os outros não conseguiam fazer.
– Olá, amigão – disse ao amigo yeti, que fez um grunhido de contentamento quando ele chegou. Nunu entregou a ele um grande prato cheio de carne, pois ele era carnívoro, assim como todos os outros de sua espécie. – Trouxe um pouco de comida pra você.
Nunu ficou observando Willump comer a carne com as mãos, como se esperasse alguma coisa acontecer. Mas o que? Talvez aquele lugar lhe trouxesse más e boas lembranças. Sim, devia ser isso. Lembrava-se de quando era menor, de quando conhecera Willump. Ele cresceu muito, pensou. Quando o conheceu, o yeti tinha pouco mais de um metro, e agora tinha dois e alguma coisa. Nunu precisava olhar muito para cima para encarar o grande amigo.
Willump quase podia ser confundido com um homem se olhasse só o rosto. Nem tanto. Ele só tinha muito pelo cobrindo todo o corpo, e uma mão capaz de esmagar uma cabeça adulta. Tirando isso parecia um homem normal.
Nunu sempre se sentiu protegido com ele ao seu lado, mesmo tendo uma nova casa e, supostamente, uma nova mãe, ele ainda tinha medo. Freljord era um local muito perigoso para se morar. As pessoas morriam de fome, devido à escassez de comida, morriam pelas mãos de outras, ou seja, bárbaros de outros cantos do mapa, tribos malvadas, homens da montanha, yetis maus, monstros da neve, ursines, entre outros monstros estranhos. Haviam outras cidades-estados melhores para se viver. Nunu já pensou em ir à Demacia quando fora expulso de Rakelstake. Pena que Demacia era um lugar muito longe, assim como Noxus. Não, pensou Nunu, Noxus, não. Havia uma cidade-estado melhor por perto, chamada Piltover. Ficava há uns trocentos quilômetros de Freljord, era um lugar seguro para se viver, moderno... mas longe. Nunu estava bem ao lado dos avarosianos, embora preferisse viver num local mais quente. Sentir frio e quase não tomar banho é terrível. Dizem que em Piltover existem aparelhos que fazem a água cair em cima de você, e descem em um ralo. Chuveiro é como chamam.
Uma voz familiar removeu Nunu de seu devaneio.
– Perdido em pensamentos? – era Thaynam Frozenheart, o seu “tio”. – Ashe estava preocupada com a sua demora. Disse que não queria que você se perdesse por aqui.
Nunu riu.
– Vivi aqui quase que minha vida inteira – respondeu. – Eu jamais me perderia.
Thaynam cruzou os braços.
– Já que você sabe o caminho todo daqui, gostaria que você me levasse a um lugar.
Nunu franziu a testa.
– Que lugar?
– Howling Abyss, a ponte onde houve A Guerra das Três Irmãs. Se não me engano, ela fica perto de Rakelstake, não fica?
Nunu se levantou.
– Só pode estar doido, tio Thay. Howling Abyss fica há vários quilômetros a leste. O que pensa que fará por lá?
– Gostaria de ir lá por turismo.
O garoto cruzou os braços. Turismo?
– Turismo? Pensa que sou idiota? O que pensa que fará por lá, pergunto novamente.
Thaynam fez um sorriso estranho.
– Se você souber guardar segredo eu te levo até um lugar interessante.
Thaynam levou Nunu até um lugar estranho dentro do castelo de Lissandra. Ficava além das masmorras, depois de uma passagem secreta cheia de teias de aranha, sujeira, poeira, e tudo que há de ruim.
– Aonde está me levando? – perguntou Nunu.
Thaynam ignorou sua pergunta, e abriu uma grande porta velha, cheia de poeira e parecendo ter sido comida por cupins. Tudo ao redor parecia ter sido destruído pelo tempo, e parecia querer não ser encontrado.
A porta abriu com um rangido, e os dois entraram numa bizarra sala cheia de coisas destruídas. Havia um líquido azul, estranho, escorrendo pela parede. Ele parecia cintilar e emitia uma energia fria. Haviam vários móveis na sala. Parecia um grande quarto de garota, mas estava completamente congelado. Tudo ao redor era feito de gelo, talvez, Gelo. Ao centro de tudo havia uma cama, e lá havia um corpo morto de uma garota, usando um longo vestido branco, e com a cabeça arrancada. O corpo estava totalmente congelado.
– Mas o que...
– Eu disse que te mostraria algo interessante – disse Thaynam. – Eu encontrei esse lugar enquanto seguia uma borboleta azul, que emitia uma estranha energia gelada. Era como se ela fosse feita de gelo, ao mesmo tempo que não estivesse congelada, mas viva. Foi quando encontrei essa sala.
– Nada daqui parece fazer sentido – disse Nunu. Ele olhou para o líquido azul escorrendo pela parede. – Você acha que a borboleta pode ter passado por ali.
– É bem provável.
– Só quero saber o porquê de você querer ir até Howling Abyss.
Thaynam foi até o corpo morto da garota na cama, andando com cuidado para não escorregar no chão congelado.
– Em Howling Abyss existem alguns escavadores, procurando artefatos místicos das eras passadas. Eles têm máquinas que podem reconhecer um corpo morto, por mais incrível que pareça. Eu estou bastante intrigado com esse corpo. Quem poderia ser essa garota?
...
Os cidadãos de Rakelstake encontraram um cavalo carregando um homem inconsciente. O cavalo parecia cansado, e carregava um homem da guarda de Lissandra. Ele estava nu, aparentando estar morto por hipotermia. Andar por Freljord daquela maneira era pedir a morte. Em suas costas estava tatuado o símbolo da Garra do Inverno, num azul cintilante.
– Meu Deus – disse uma mulher.
– O que isso significa? – perguntou um outro cidadão.
– Precisamos ajuda-lo, pois ele pode estar vivo – disse um homem forte. Ele foi até o homem o ajudou a descer, segurando-o, para impedir que ele caísse.
Ele realmente estava vivo, mas por um fio. Ele tremia e parecia quase morto. Estava pálido e machucado.
– Precisamos leva-lo até o castelo – disse o homem forte –, onde podem cuidar dele.
Lissandra e Ashe se sentaram em poltronas uma do lado da outra, em uma sala de estar do castelo, que era bastante luxuosa. Elas ficaram de frente para Daryl, aparentemente o único sobrevivente da proposta de paz com Sejuani.
Daryl estava tremendo, ainda pálido, enrolado em uma coberta quentinha. Algumas servas de Lissandra haviam dado um banho quente nele, para salvá-lo da hipotermia.
– E então...? – Ashe perguntou.
– E então o que?! – ele perguntou em alta voz.
Lissandra fitou-o com os olhos, irritada.
Ele pareceu captar a mensagem da mulher, e percebeu que gritar com a Rainha Ashe não era a melhor opção.
– Ela não aceitou – disse, por fim.
Ashe cerrou os punhos.
– Eu sabia. Sejuani nunca iria aceitar uma proposta de paz. Como sou tola.
– Onde estão os outros três?
Daryl estremeceu.
– Ela... ela... – ele parecia traumatizado. – Ela mandou que nos vandalizassem, retirando nossas roupas e tatuando o emblema do grupo deles em nossas costas. Foi horrível – ele parecia que iria chorar. – Depois ela nos mandou de volta pra cá, nus, na tempestade. Os outros três morreram de frio... literalmente. Só estou vivo por um milagre.
– O que ela fez com nosso presente? – perguntou Ashe. – Digo, os grãos.
– Ela queimou tudo. Fez uma imensa fogueira com o seu presente, e aqueceu a todos os seus guerreiros. Foi terrível.
Lissandra e Ashe ficaram boquiabertas.
– E então... ela não aceitou a oferta de paz, queimou o nosso presente, e vandalizou os nossos homens? – perguntou Ashe, irritada. – Se ela queria guerra, então ela terá.
Lissandra ficou quieta. Depois de um breve momento, ela disse a Daryl:
– Peço que descanse por hoje. Se recupere antes de voltar aos seus trabalhos na guarda.
Ele se levantou, fez uma reverência, e disse:
– Obrigado – deu as costas e foi embora.
Aquilo não parecia o suficiente para Ashe. Ela se sentiu mal por ter enviado quatro homens numa missão quase que suicida. Ele tinha sorte de estar vivo, e se estivesse morto, seria culpa dela.
– Daryl, espere – ela se levantou e foi até ele. Ele, de costas, parou, e ela colocou a mão em seu ombro. – Me desculpe por enviá-lo a uma missão suicida...
A pele do homem ficou muito pálida, de repente, e ele ficou gelado ao extremo. Ashe recuou um passo, e percebeu que a nuca dele parecia estar cristalizando. Auto Congelamento Espontâneo. Foi quando o corpo inteiro do homem se auto congelou, e ele se estatelou no chão, fazendo um estrondo, e se quebrando em mil pedaços. Ashe gritou.
– Não...
– Ashe – murmurou Lissandra. – Você tocou nele, e ele estava infectado com a febre do gelo.
Ashe se virou para ela, desesperada. Lissandra recuou um passo, assustada.
Ashe sentiu um líquido azul cintilante descer por uma de suas narinas, como se fosse sangue. Sentiu uma imensa dor no ombro e na coxa, e quase caiu no chão com a dor. Só não caiu por que Lissandra a segurou, mas logo após segurar, ela a largou.
– Droga! – gritou Lissandra.
A dor parecia insuportável, e Ashe sentiu sua perna endurecer, endurecer, endurecer, até a pele se tornar puro gelo.
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