Capítulo 22:

Katarina Du Couteau – Kalamandra

Aquele dia de escavações foi longo. Um dia após quase ter matado o sobrinho do prefeito, Katarina foi quase que ignorada pelo mesmo, que ficou na infantilidade de fazer greve de fala com ela. Como Anson Ridley é ridículo, pensou ela. Pelo menos assim ele não fica dando em cima de mim.

Primeiro de tudo, houve outra briga entre um noxiano e um demaciano. O demaciano pegou um cristal que havia encontrado, e o noxiano disse que havia achado primeiro, que o outro era um ladrão. Mas o mesmo disse que não era, então os dois começaram um bate-boca. Kat, de primeira, não percebeu a briga que surgia. Só viu quando um empurrou o outro, e ele revidou. Logo estava na pancadaria, se socando, chutando e tal. Kat e Garen os separaram e tentaram resolver o caso. Obviamente o noxiano havia encontrado primeiro e o demaciano havia roubado, mas ninguém julgou assim.

Noxus já não tinha uma boa fama, assim era difícil que as pessoas acreditassem que um demaciano, um homem de tanta honra e justiça havia roubado um diamante de um noxiano podre, é claro.

Você é um demaciano estúpido, Garen Crownguard! – dissera Katarina quando ele deu o veredicto. O noxiano roubou o diamante, ele dissera, e ficou por isso mesmo: Noxus recebera menos um ponto com Kalamandra, e Demacia, mais um.

A garota ruiva se virou, irritada. Sabia da verdade, mas ninguém acreditava em um noxiano, claro.

Garen foi atrás dela, dizendo:

– Kat, me espera. Você não entende!

Ela se virou, irritada a ponte de chorar de ódio.

Você não entende, seu demaciano estúpido – pôs um dedo na direção do rosto dele. – Não aceita que um dos seus homens honrados e justos tenha roubado algo de um dos meus homens maus e imorais, não é mesmo?

Olhando rapidamente para baixo, ele respondeu:

– Não é assim, Kat...

Não me chame de Kat! – e virou-se para ir para longe dele mas ele segurou o seu braço. – Me larga!

Não! – ele gritou, fazendo com que ela ficasse muda. – Sua droga de garota mimada, vai ficar e me ouvir.

Ele cruzou os braços, fazendo uma cara marrenta.

– Escuta – ele continuou –, mesmo que o seu homem não tivesse roubado...

– Ele não roubou! Eu o conheço, ele é um dos melhores homens que conheço.

– Tudo bem, tudo bem – ele abriu as mãos. – Ele pode não ter roubado. Mas me responda: quem acreditaria? Nem mesmo se eu desse o veredicto de que ele fosse inocente, o povo iria acreditar. Todos estão acostumados com a má imagem de Noxus, lembre-se disso.

Ela fez uma cara feia a ele.

– Não estou nem aí. No contrato dizia claramente que as cidades deveriam escavar o que puderem, dar uma parte à cidade, e outra iria ao próprio banco. Dizia que as cidades não poderia roubar umas das outras, que isso seria um criem terrível! – ele bufou. – Não pense que eu esquecerei disso, Garen Crownguard – ela deu as costas e foi até a sua tenda.

Ele suspirou quando ela foi embora, e decidiu que voltaria ao seu acampamento, e tentaria esquecer daquilo. Se sentia pesado por dentro, como se tivesse cometido um erro terrível. Talvez tivesse condenado um homem inocente à prisão. No contrato dizia claramente que o homem que roubasse algo de outra cidade-estado participante, deveria ser preso por um pequeno tempo.

Seja um homem justo, dissera Evan Crownguard, o pai de Garen, antes que ele ingressasse no exército demaciano. Faça o bem, derrote os infames, acabe com os injustos, e faça um bom mundo para o seu futuro filho, assim como eu fiz, ou tentei fazer para você. Aquelas palavras ecoaram em sua mente. Ele não podia fazer injustiça, não queria ficar com a consciência pesada.

Você sabe o que fazer, ouviu seu pai dizer em sua mente.

Sim, eu sei o que fazer.

Foi até o garoto demaciano inocentado. Ele se chamava Dearie McLean, era loiro dos olhos castanhos, e muito diferente de todos os outros demacianos. Por que? Por que ele era um infame. Ele estava rodeado de outros soldados, contando como foi chato quase ser roubado por um maldito noxiano. Garen podia ver em seus olhos que estava mentindo, e isso o irritava.

– Dearie McLean! – ele gritou. Foi até o garoto, agarrou-lhe pela camisa.

– Ei, quem você pensa que é? – reclamou.

– Você está preso por roubo e por mentir diante de mim!

– O que farão com ele? – perguntou Katarina a Sion, um dos guerreiros da guarda que viera junto com ela. Ele era muito amigo dela, e um guerreiro memorável.

– Não sei, Katy – ele respondeu, tentando não parecer muito trágico. Sabia que Katarina lutava por seus direitos, e odiava quando um noxiano era injustiçado ou morto por um demaciano. Mas a guerra era assim, e nada se podia fazer. – Talvez ele possa ser preso, não sei.

Ela grunhiu.

Os dois estavam na sua velha tenda, onde ela recebera a notícia de que Jericho Swain estava para vir, mas até o momento, ele não tinha chegado. Já estava tarde, e nada de soldados chegando.

Sentou-se em um banco próximo, irritada.

– Odeio isso.

– Eu também – concordou Sion. – Às vezes os outros nem ligam de ouvir se nós falamos ou não a verdade. Só ligam se somos noxianos, pronto, somos julgados. Embora Noxus não seja lá um lugar de justiça louvável, mas sei lá. Não concordo com isso.

Ela apalpou os bolsos, percebendo não estar com suas adagas.

– Quando fico com raiva, gosto de atirar minhas lâminas, mas depois de quase ter degolado o garoto sobrinho do Ridley, ele proibiu que se andasse armado por aqui. Ninguém merece.

– Suas adagas estão aqui. Se quiser, atire em mim.

Ela deu uma gargalhada.

– Por favor, Sion. Não quero esse tipo de coisa.

Ele se levantou, ajeitando a coluna. Estava na meia-idade, quase indo pros quarenta e já tinha dores no corpo. Anos de lutas, anos de glória. Ele já lutara por Noxus dezenas de vezes, e sempre saía com ferimentos mais profundos. Sobrevivera a todos eles, mas isso o deixa cada vez pior. Sabia que se lutasse novamente, não teria jeito: acabaria morrendo.

– Já recebi ferimentos piores – ele falou –, algumas faquinhas não iriam me machucar feio.

– Ah, fala sério – Kat foi até a entrada da tenda, saiu, e olhou ao redor. Alguns homens, tanto dela quanto de Garen estavam indo até uma taberna próxima. Talvez se bebesse um pouco poderia esquecer de tudo isso. Não, ouviu seu pai falar em sua mente. A bebida entorpece a mente, logo, não beba esse tipo de coisa. Seu pai sempre lhe privara de muita coisa, mas sempre com uma lição de moral ou de saúde. Não coma muitas calorias, não queira ficar gorda. Não escale o Castelo Negro, pode cair. Não brinque com fogo, brinque com facas. Sempre fique com Talon por perto, ele pode te salvar. Ela respondia: Não, pai. Eu posso me virar sozinha, já tenho trezes anos! E ele dizia novamente: Fique com Talon, não vou falar novamente. Mas sempre falava, e ela sempre ia contra a sua vontade, mesmo sendo para sua segurança. Ela não sabia o porquê, mas teve um mal pressentimento sobre o seu pai. Sentiu uma estranha saudade e uma preocupação que assolava seu coração. Talvez tivesse ficado sentida com o que aconteceu antes, ou talvez fosse a tensão pré-menstrual, mas se não fosse, então podia ser algo sério.

Sion a seguiu enquanto ela ia até a taberna.

– Vai beber um pouco? – ele perguntou.

– Não – respondeu logo de cara. – Preciso ficar de olho nos meus soldados, lembra? Estou responsável disso – sua expressão parecia cansada. Ela parecia cansada. Sentia tristeza; odiava tristeza. Sempre que pensava no pai, pensava na mãe, e se pensasse na mãe, caía em tristeza, e às vezes até chorava. Mas é claro, chorava escondida, sozinha, isolada de qualquer um. Gostava de manter essa aparência de malvadinha, marrentinha, violenta... Mas no fundo, tudo não passava de fingimento. Por mais incrível que pareça, a única pessoa do Alto Comando Noxiano que nunca caiu nessa sua máscara de malvada, fora Emília LeBlanc. Pensar naquela estranha mulher fazia Katarina ter ânsia de vômito. Aquele sorriso malicioso, aquela roupa ridícula, aquela voz calma e serene com um pouco de falsidade. Sentia que ela sempre estava observando tudo. Nada passava por ela, como se ela soubesse tudo o que acontece ou deixa de acontecer na cidade inteira. Quando Kat perdeu a virgindade, ela foi a primeira a saber. Sorria maliciosamente para ela como se soubesse de algo importante, que era importante. Disse que ia guardar segredo, mas no dia seguinte, o pai já estava sabendo.

Ao chegar perto da taberna, Kat esqueceu totalmente LeBlanc – ou tentou. Sua risada maligna ainda estava fixada em sua mente.

– Katarina! – virou-se para ver Garen segurando sua mão, com um olhar preocupado. Ele parecia que correra uma maratona só para encontrá-la.

– Diga – respondeu.

– Gostaria que ficasse sabendo que eu...

Largue ela! – gritou Sion para Garen, afastando-o da garota.

Katarina não demonstrou nenhuma emoção, só olhou Garen de cima até em baixo.

– Obrigada, Sion. Vamos entrando.

– Katarina! – gritou Garen novamente. Vendo que ela entraria sem que ele conseguisse contar o que desejava ele gritou: – Eu prendi Dearie McLean!

Ela ficou paralisada na entrada da taberna, que era feita de madeira e lembrava coisas do velho oeste. Bem em cima estava escrito em letras grandes: Hasty Hammer Taberna.

Ela se virou para ele, que ofegava, e parecia preocupado se ela fosse entender.

– Você o que?

– Inocentei Gregory, o seu soldado injustiçado, e prendi o meu soldado ladrão – ele fez uma pausa, e Katarina deu um leve sorriso. Sion não pareceu feliz com aquilo. – Fiz isso pela honra, pela justiça... e por você.

O sorriso no rosto dela simplesmente desapareceu. Fez a sua cara de quem não liga, e disse:

– Não fez mais do que o seu dever – e entrou no estabelecimento com Sion vindo atrás.

Garen entrou na taberna, onde tudo era alegria e animação. Tanto soldados noxianos quanto demacianos bebiam e se divertiam – como sempre. Alguns usavam armadura – de Noxus era verde e preto, e de Demacia era dourada e azul – e outros não usavam, tendo somente roupas normais.

Mesmo que tudo parecesse estar bem, Demacia ficava de um lado do bar, e Noxus, de outro. Mostrando claramente a rivalidade das cidades-estados. Às vezes, um soldado noxiano mandava um olhar irritado para um demaciano, e vice-versa, mas eles continuavam a beber, rir, se divertir, mas Garen não via tanta graça nisso. Não gostava muito de beber, mas talvez tomasse umas, essa noite.

Sentou-se perto de outros soldados demacianos, que logo começaram a falar com ele, conversando sobre coisas legais. Pelo menos ele pôde se sentir animado um pouco com a conversa dos seus, que riam “embriagadamente”.

Uma soldada noxiana entrou rapidamente na taberna, indo até Katarina. Ela era loira e usava a velha armadura verde e preta de Noxus. Ela parecia animada e saltitante; Garen estranhou isso tudo.

– Lady Katarina – ela começou –, os reforços noxianos chegaram... assim como os demacianos. Venha vê-los.

Ao mesmo tempo, um soldado demaciano entrou e foi até Garen, com a notícia de que os reforços demacianos haviam chegado. Por incrível que pareça, eles haviam chegado juntamente dos de Noxus, o que parecia ser uma simples obra do acaso.

Garen e Katarina saíram juntos com seus respectivos guardas, mas não se falaram durante o caminho. Estavam ressentidos um com o outro. Quando se olhavam, em seus olhos estava claro um certo desdém contra o outro.

Katarina avistou Riven e alguns soldados chegando a cavalo, e foi até eles, correndo.

– Katarina – disse a garota de cabelos brancos. Ela usava uma armadura verde e preta, só que bastante feminina com aberturas em certas partes. Ela usava seu longo cabelo preso num rabo de cavalo, e tinha uma franja. De suas costas pendiam sua imensa espada verde rúnica. – Fico feliz de ver que veio me dar um olá.

Katarina anda disse, apenas olhou ao redor, procurando alguém dentre os dezessete soldados. Mas não eram vinte?, pensou ela.

– Onde está Jericho Swain, Darius e Deville? – perguntou.

Riven fez uma cara feia.

– Alguma coisa nos atacou durante o caminho, e, bem, além de matar Deville, feriu Jericho seriamente. Darius ficou de leva-lo de volta à Noxus.

Katarina franziu a sobrancelha, não entendendo nada do que estava acontecendo.

– Como assim ele voltou para Noxus. Ele é louco? Existem médicos em Kalamandra, por que ele voltaria para lá, onde é mais longe?

– Ele insistiu. Recebeu uma carta de Noxus dizendo algo sobre o seu pai...

Riven! – gritou um soldado perto dela. Ele era um homem bonito de cabelos negros e curtos, com uma armadura verde e preta como a dela, só que mais masculina e reforçada. Ele era forte e lembrava bastante um general conhecido. – Nós combinamos de falar isso para ela com mais calma!

Riven se virou para ele.

– Me desculpe, Draythe – disse, e se virou para Kat. – Katy, sinto muito te falar isso, mas...

Draythe Darkwill não esperou, logo disse:

– Seu pai está desaparecido há dois dias, e já foi dado como morto.

Garen foi até seus soldados recém-chegados. Sorriu ao ver que eram muito amigos seus, mas fez uma cara feia em ver uma mulher que não era lá muito sua amiga.

A mulher tinha um cabelo negro curto e uma longa franja com uma mecha vermelha. Usava uma armadura prateada, diferente dos outros que usavam uma dourada e azul, tinha um florete em seu cinto, olhos escuros e pequenos, e uma pose esnobe. Ela desceu do cavalo e se virou para Garen, sorrindo maliciosamente.

Garen Crownguard – ela disse com um sotaque francês –, está surpreso em me ver?

Ele cruzou os braços.

Fiora Laurent. Estou surpreso em ver que o rei lhe mandou para comandar a Vanguarda Destemida, mesmo sabendo que eu que a lidero.

Um soldado perto de Fiora, usando uma armadura dourada, veio até ele. Ele tinha cabelos castanhos como os de Garen, e uma postura parecida. Era seu primo, irmão de Daniel, Jaime.

– Eu também não gostei muito dela estar no seu lugar não, primo – e deu uma risada.

Fiora olhou para ele de soslaio, e disse:

– Não preciso que você goste, mon cher.

Garen riu e foi até o primo, abraçando-o e dando uns tapinhas em suas costas.

– Como vão as coisas aqui, com a Du Couteau? – perguntou Jaime ao primo.

Garen olhou para o lado, onde, há mais ou menos uns dezessete metros, Katarina recebia seus soldados, e ela parecia preocupada com algo. Mesmo assim, ele percebeu que deveria deixa-la em paz, esquecê-la.

– Não vão tão ruins – Fiora deu uma andada por aí, olhando para o local com um olhar bastante estranho. – Katarina já arrumou algumas tretas com nossos soldados, mas não deram em nada. E até estou gostando daqui, tenho um quarto só pra mim enquanto os outros têm que dividir os quartos, ou simplesmente armar barracas por aqui.

– É – Jaime olhou para os membros da Vanguarda Destemida atrás –, pelo visto, alguns de nós terão que dormir em barracas mesmo. Sorte que nós trouxemos mais alguns suprimentos, algumas barracas... – e deu uma gargalhada, contagiando o primo.

– Como vai Jarvan? – perguntou Garen.

– Qual deles? – e deu uma risada. – Bom, os dois vão bem. O terceiro está com medo de acontecer algumas brigas entre Demacia e Noxus nessa pequena cidadela. Sabe como ele é, odeia brigas, diferente do antigo rei que adorava.

Garen bufou.

– É, eu lembro um pouco do segundo. Ele era um bêbado, gordo e insolente. Fora que era marrento e briguento.

– Nem me fale. Espero que quando o quarto assumir o trono, faça um bom reinado.

– E fará – interrompeu Fiora. – Eu o treino desde que era jovem, e posso dizer-lhes que ele é um bom guerreiro.

Jaime franziu a sobrancelha.

– Até hoje me pergunto como que esgrima prepara alguém para a guerra. Francamente, Fiora. Usar floretes em guerra?

Ela pareceu irritada.

– Não consegue entender a filosofia por trás da esgrima, jeune fou! – seu sotaque era tão esnobe e chato, que Jaime quase riu na cara dela. – De qualquer jeito, nosso príncipe é treinado em uso de lanças. Até recebeu um novo protótipo de uma lança que se estica, que será usado na próxima guerra em que ele se envolver.

– Olha – afirmou Garen –, não gosto muito de floretes, são finos, mas eles são rápidos, isso eu tenho que admitir.

Fiora deu um sorrisinho orgulhoso.

– Vejo que, diferente de seu primo, Sir Garen, tens um bom gosto com armas. Sua espada longa é deveras forte. Gosto de seu pulso firme, jeune – e andou até um novato da Vanguarda que tinha problemas com o cavalo. – Francamente, jovem...!

Garen riu com Jaime, e disse:

– Tá vendo? Às vezes devemos puxar um pouco o saco dela. Enfrentá-la, de forma alguma dá certo.

– Ela é muito marrenta – e riu.

Fiora se virou para Garen, perguntando:

– Já escavaram quantos diamantes e ouro, meu querido?

– Não contamos ainda, mas acredito que tenhamos cento e doze moedas de ouro, e doze tipos diferentes de pedras preciosas.

Fiora sorriu de lado.

– Gosto disso – montou no seu cavalo levando-o à frente, junto de todos da Vanguarda.

– Qual é? – perguntou Garen, de testa franzida. – É chato ver vocês a obedecendo.

Todos os homens do grupo riram, enquanto ela só fez uma carinha de desdém a Garen. Jaime riu, subiu no cavalo, e disse ao primo:

– Depois nós nos vemos, Gary.

– Vá à Taberna Hasty Hammer depois, eu estarei lá.

– Sinto muito – disse Draythe à Katarina, que parecia que choraria, mas se conteve. Não poderia demonstrar fraqueza – pelo seu pai.

Ao redor, os soldados noxianos recém-chegados só esperavam uma ordem da capitã Riven e do general Draythe, enquanto Katarina respirava fortemente, irritada e triste ao mesmo tempo. Ela lembrou de ter tido um mal pressentimento no começo daquele dia. Teria sido isso? Mas e agora?

– Tudo bem – disse a Draythe –, não precisa sentir nada por mim.

Darkwill fez uma expressão de empatia.

– Tem certeza? – e a olhou de lado, como se esperasse que ela começasse a chorar em seu peito, procurando um ombro amigo.

– Tenho – sua resposta imediata o surpreendeu. – Eu sei que meu pai está vivo, seja lá onde ele está. Ele é um homem forte. Deve ter ido passear, deu de cara com uma tribo de Indomáveis, e assim terá que provar sua força com, sei lá, atiramento de lanças? Batalha com o xamã-de-batalha? Sei lá, alguma coisa.

Riven franziu a sobrancelha. Ela conhecia Kat melhor que ninguém. Sabia que às vezes ela falava coisas idiotas e fazia coisas idiotas só para não deixar que os outros vejam sua fraqueza interior.

– Bom – ela disse –, já que você está bem e continua fiel na habilidade de seu pai... Então não há o que temer.

– Verdade – concluiu Draythe, que, definitivamente, não tinha nada a ver com seu irmão mais novo, Keiran, que não passava de um mimadinho. – Seu pai pode estar vivo, ele é esperto – e sorriu para Katarina. – Jericho com certeza vai mandar que esquadrinhem a área de Noxus, e até mesmo o Submundo, esperando que o achem.

Katarina esfregou as mãos nos braços, sentindo um vento frio que chegava juntamente com a noite. Ao horizonte podia se ver o sol se pondo, deixando o céu banhado num tom vermelho-alaranjado que ela adorava; lembrava seu pai.

– Ele ainda vem? – perguntou em relação a Jericho Swain.

Riven fez que sim com a cabeça.

– Quando ele estiver melhor, irá voltar.

Katarina franziu a testa.

– Afinal, o que os atacou?

Riven deu de ombros.

– Eu não vi, estava dormindo. Quando acordei Jericho já havia ido com Darius; Draythe ficou de nos contar o que aconteceu – e inclinou a cabeça rapidamente para o grande homem, filho de Boram.

– Swain me disse que era um tipo de animal, mas é claro que ninguém acreditou. Ele até tentou esconder o corpo de Deville, mas o encontramos, e descobrimos que, o que diabos tenha atacado, era alguma coisa capaz de queimar o corpo de um homem de uma vez só.

Katarina fez uma careta.

– Que horror – disse. – Ele não deu mais detalhes?

– Eu vi bizarras luzes vindo da floresta, e depois... eles aparecem, Darius e Swain, um carregando o outro nos ombros. Swain foi atingido no joelho direito e no peito. Pelo visto, a sua velha bengala não vai ser aposentada de uma vez.

– Pois é – disse Riven. – Ele já foi golpeado por uma lança, por uma espada, por uma flecha, caiu de uma ladeira, foi atacado sem querer, e tudo isso na perna esquerda.

Direita – corrigiu Draythe.

– É, direita.

Katarina olhou para o lado e viu que a Vanguarda Destemida de Demacia já estava partindo. Fiora Laurent, Jaime Crownguard, eca! Katarina odiava os dois. Ela era uma duelista esnobe, ele, o primo chato de Garen. Já fora quase morta por ele algumas vezes. Já lutei tanto com Demacia, pensou ela, que esses rostos são quase tão familiares que os de minha cidade.

Virou-se para Riven e para Draythe.

– Vamos entrando? Se quiserem, posso apresentar-lhes a cidade, a estalagem... – olhou para Riven – a taberna.

Ela fez um sorriso largo.

– Estou doida para conhece-la.

– Nem pensar – repreendeu Draythe –, você já bebeu demais, ontem.

Ela fez uma cara feia.

– Nada a ver, Dray – e fez um biquinho. – Você não manda em mim.

Katarina olhou para os homens que, montados em seus cavalos, na guarda, esperavam uma ordem para que prosseguissem.

– Se eu fosse vocês – sugeriu –, eu já ia arrumando o lugar onde dormir. Vocês chegaram tarde, quase que junto com os demacianos. Francamente.

– Tudo bem – disse Riven, subindo no cavalo. Draythe fez o mesmo, e deu uma ordem para que os homens prosseguissem.

Quando todos já tinham passado por Kat, ela teve uma péssima visão. Os demacianos já havia ido, e as únicas pessoas ali, paradas, se entreolhando, eram ela e Garen. Seus olhares não tinham muita emoção, mas havia bastante sentido por trás daquilo. Ela queria parar de olhar para ele, e ele também, mas não conseguiam. Foi quando ela deu as costas a ele e foi marchando até a taberna. Ele fez o mesmo – e por algum motivo, os dois pareciam que estava disputando uma corrida para ver quem chegava primeiro em passos fortes e lentos, que se tornavam mais rápidos a cada momento.

A taberna estava como sempre: movimentada. Os soldados pareciam gastar cada centavo em bebidas, até ficarem totalmente chapados e doidões. Mesmo os demacianos, que têm fama de certinhos, acabaram entrando na brincadeira.

Havia música, risos, barris de cerveja sendo utilizados. O badernista, Gragas, um homem exageradamente gordo, com uma barba imensa e laranja e com careca, servia a todos. Ele tinha três tipos de bebida: cerveja comum, vinho barato, e Graggy Ice, uma bebida feita pelo próprio.

– Bebam a minha Graggy e fiquem de boas – anunciava Gragas, com uma voz tão grogue quanto a dos outros. Mesmo parecendo estar doidão, ele até que administrava bem os lucros recebidos naquela noite, que foram muitos. Tendo demacianos e noxianos juntos em um mesmo lugar, o lucro recebido se tornava cada vez maior.

De vez em quando, mesmo estando rodeado de amigos, Katarina e Garen se entreolhavam, ressentidos um com o outro. Tentavam fingir estarem bem, mas tudo o que conseguiam pensar era um no outro. Isso a irritava, mas tentou desviar o olhar do dele. Ele prendeu um dos seus por mim, pensou ela, e o que eu fiz para retribuir? Nada.

Mesmo querendo retribuir com algo, não conseguia. Por algum motivo sentia uma raiva profunda quando o olhava e pensava nele.

– Está bem, Katy? – perguntou Riven, com uma caneca na mão. – Parece pensativa. Se divirta um pouco.

– Estou tentando – respondeu num tom irritado –, mas não consigo.

Riven olhou para Garen, e depois para ela.

– É sobre ele?

Katarina bufou.

– Claro que não – fez uma pausa, tentando pensar em alguma mentira. – Estou pensando em meu pai.

– Duvido muito. Eu te conheço Katarina. Está me escondendo algo; sei disso – e deu as costas à ela, e pôs-se a dançar com um homem. Definitivamente Riven sabia como se divertir, pensou Kat. Ou fingir que sabe.

Kat viu Sion rindo e se divertindo, Riven, Draythe, até mesmo Talon, seu guarda-costas assassino parecia se divertir. Ele, que era tão sério, parecia um pouquinho mais animado. Só ela estava ali, sem fazer muito. Olhou para Garen, que parecia recusar toda e qualquer bebida que lhe davam – talvez só os dois estivessem sóbrios.

Ao seu lado estava seus primos Daniel e Jaime, fora alguns outros demacianos que ela conhecia de vista. Com certeza sua irmãzinha, Luxanna, não estaria ali, naquele local para adultos. Também viu Fiora Laurent, que vinha carregando a Vanguarda Destemida, que era um tipo de clubinho do Garen, que sempre liderava as tropas Demacianas em campo de batalha.

Ficou pensando em seu pai: o que teria acontecido com ele? Ela queria muito ter voltado para Noxus no lugar de Jericho, mas não pôde. Queria liderar as investigações, consolar Cassiopeia, que deveria estar triste com o sumiço repentino do pai, e dormir em sua cama, que com certeza era mais confortável que a da estalagem local. Sentiu até saudades de Phildora, a governanta da casa, que por mais que fosse uma chata, cuidara dela e da irmã desde que a mãe morrera.

Kat observou enquanto um demaciano e um noxiano iam ao bar pedir mais uma cerveja. Algo naqueles dois chamou a atenção de Katarina. O demaciano: Devon Estranger; o noxiano: Larry Soram. Larry havia matado o irmão de Devon em batalha. Droga, pensou ela. Ela sabia que colocar duas cidades-estados juntas numa escavação, sendo que elas tinham muita roupa suja para lavar, era má ideia.

Ela notou um olhar irritado entre os dois, e sabia que daria treta. Lançou um olhar para Garen, que de primeira não entendeu a situação, mas depois olhou para o bar e viu que, agora, os dois pareciam bater boca, se xingando.

– Ei, vocês! – gritou Crownguard. – Parem de brigar!

Larry lançou um olhar maldoso e grogue a Garen.

– E quem vai me impedir? Um demaciano boiola? – e empurrou Devon com força, fazendo-o cair no chão.

– Ei! – gritou Jaime Crownguard. – Quem você pensa que é?

Os demacianos se levantaram das cadeiras, completamente irritados, e os noxianos fizeram o mesmo. Duas cidades-estados inimigas irritadas num mesmo estabelecimento, somente duas pessoas sóbrias, pensou Kat. Isso não vai dar certo.

De um lado havia xingamentos e agressões, de outro, xingamentos e agressões também, é claro.

Uma pancadaria começou a rolar ali dentro. Demacianos e noxianos se socavam e se chutavam, se xingando e falando coisas sem noção. Katarina não sabia o que fazer, olhava ao redor sem ter reação, enquanto Garen, com sua grande força, separava dois briguentos. Ele olhou para ela.

– Uma ajudinha cairia bem! – e levou um soco de outro noxiano, mas quando revidou, acabou retirando um dente dele.

Uma vez Katarina dissera que a violência resolvia tudo. O.K., dessa vez a violência não parecia estar resolvendo absolutamente nada. Ela saltou em dois briguentos, separou-os, e em um segundo já estava em outros.

Uma soldada demaciana atirou uma cadeira em um noxiano, e ele revidou atirando uma mesa – ele tinha quase dois metros, logo, conseguiria levantar até mesmo o dono do bar, Gragas, que parecia pesar uns 180 quilos. Ele estava abaixado atrás de sua mesa, seguro dos ataques.

Katarina viu um dos seus pegar uma faca e apunhalar um demaciano. Droga, ela praguejou. Foi até ele.

– O que você pensa que está fazendo?!

O soldado soltou uma cara feia para ela, mas não conseguiu vencer a batalha de caretas com ela, que era mestra nisso.

Rapidamente Garen e Katarina conseguiram separá-los – literalmente –, deixando demacianos de um lado, e noxianos de outro. Garen serviu de barreira humana para seus aliados, que pareciam animais querendo se atracar com os inimigos loucamente. Ouve uma cadeira sendo jogada no lado noxiano, que fez com que eles se irritassem mais ainda. Kat se pôs à frente deles, gritando:

Deem mais um passo e eu juro que faço da vida de vocês um inferno! – e era verdade; todos sabiam que ela não era o tipo de pessoa na qual você iria querer como inimiga, isso era certo. Eles engoliram em seco e recuaram. Ela se virou para o lado de Garen e para o seu lado. – Francamente, gente! Não consigo acreditar que não conseguiram deixar as diferenças de lado por um instante, e agirem como pessoas normais – se virou para os demacianos. – Francamente, né, pessoal. Vocês que ficam com essa fama de bem educados e justiceiros deveriam ser mais do que isso.

Jaime Crownguard pôs-se à frente.

– Nós tentamos, mas vocês não nos deram opção.

Os outros demacianos gritaram coisas como: É isso aí!

Jaime continuou:

– Vocês acham que podem pintar e bordar na nossa cara e nós não podemos fazer nada?

– Não é isso, é que... – Katarina tentou se explicar, mas foi interrompida.

Seu soldado que empurrou o nosso! – gritou Jaime, apontando para ele, que estava atrás de Katarina, fazendo uma careta.

Garen se virou para o primo.

– Jaime... por favor – disse bem baixinho –, não coloque mais lenha na fogueira.

Jaime suspirou, e parou de falar.

De repente, Fiora Laurent entrou no estabelecimento – mas ela já não estava lá? – acompanhada do prefeito Anson Ridley e de sua guarda pessoal. Todos olharam para ela, que sorria e olhava para todos de forma calculista.

– Ora, ora, ora – ela disse. – Saio um pouquinho e isso vira um pandemônio.

Anson olhou para todos os lados, para as cadeiras e mesas destruídas, pessoas feridas e para Gragas, que se escondia atrás da mesa. O grande e gordo badernista saiu de lá e veio correndo até o prefeito, quase tropeçando em tudo.

– Senhor prefeito – ele disse –, me ajude. Esses homens não sabem como se divertir!

Anson olhou para Katarina com um olhar predatório.

– Senhor, não isso que o senhor está...

– Sempre armando confusão, não é, Katarina Du Couteau? Eu deveria saber que colocar Demacia e Noxus juntos não era boa ideia. Vejam só!

Fiora foi até um soldado demaciano que parecia ter sido apunhalado, pois sangrava pelo peito.

Mon Dieu! – ela exclamou, parecendo estar falando em outra língua. – Olhe só o que fizeram com meu querido guerrier – e ajudou o garoto a se levantar. Virou-se para os soldados da guarda de Anson, e pediu para que eles o levassem à enfermagem.

Ridley cerrou os punhos.

– Noxus, vocês desapontaram o meu vilarejo. Não vejo mais motivos pelos quais eu deveria deixá-los escavar minhas minas. De toda forma, não irei desapontar Boram Darkwill. Mas não quero mais brigas por aqui, logo, irei decretar que somente uma cidade possa escavar – deu as costas e foi embora