Capítulo 21:

Ashe Frozenheart – Rakelstake – Vila dos Praeglacius

Ashe acordou com sua barriga doendo demais. Virou a cabeça para o lado, avistando algo que parecia uma enfermaria azulada de Lissandra. Tryndamere sorriu quando viu que ela estava acordada.

– Ashe! – ele exclamou; foi até ela, se ajoelhando do lado de sua maca, segurando-lhe a mão. – Você está bem?

Ela respirou ofegante.

– Um... um pouco. O que aconteceu?

– Fomos atacados por uns trolls malditos. Perdemos cinco soldados, quatro avarosianos e um dos meus bárbaros. Foi uma batalha bastante excitante, se me permite falar – ele sorriu. – Gostei de vê-la usar seu arco. Não errou uma flecha e todas elas foram fatais aos malditos.

Ashe deu um sorriso doído.

– Não é à toa que fui a melhor na escola de arco e flecha de minha mãe. Pelo menos algo no qual ela podia se orgulhar de mim – gemendo, ela tentou se levantar na maca. Conseguiu depois de bastante esforço, mesmo que seu marido não gostasse que ela fizesse tanto esforço. – Onde estão todos?

– Lady Lissandra os acolheu em seu castelo. Como você dormiu por um dia, quase, ela adiou nossa reunião.

Um dia?! – ela gritou. – Não creio. Maldito seja Trundle!

A porta da sala se abriu, e Lady Lissandra entrou, vestindo um vestido branco, e um arco em cima de seu cabelo loiro, e algumas joias azuis. Sua pele era tão pálida quanto antes, e seus olhos, escuros. Ela usava um tipo de batom vermelho que a deixava de forma estranha – pálida e com um forte tom vermelho na boca. Ela era um pouco mais alta que Ashe, e era bastante expressiva, às vezes, até um pouco sarcástica.

– Sim, maldito seja Trundle – ela repetiu, chegando cada vez mais perto dos dois. – Peço perdão por tê-los trazido até aqui, quase que no ninho dos malditos trolls.

Ashe deu uma risadinha que lhe fez doer a barriga.

– Sem problemas. Foi só uma obra do acaso, não?

Lissandra fez uma cara triste.

– Temo que não. Trundle e os seus andam atacando e aterrorizando os cidadãos de minha vila já há alguns meses. Eu deveria ter imaginado que eles iriam ataca-la. Sinto muito.

– Não sinta – disse Ashe, tentando sorrir.

– Temos sorte de que você é forte, minha querida Ashe – disse a princesa. – Odiaria que aquela arma de Gelo tivesse te matado.

Ashe revirou os olhos.

– Imagina só, não passou de uma pancada. Tive sorte de que naquela maça não há espinhos ou pregos como todas as outras.

Lissandra sorriu.

– Fico feliz que se sinta assim – pôs a mão no peito e fez uma cara de preocupação. – Eu fiquei com o coração na mão quando soube isso de você. Vossa Graça, eu me sentiria tão mal se você viesse a morrer.

Tryndamere se levantou, repreendendo-a.

– Esqueça isso, minha lady. Esqueça esses malditos trolls. Minha rainha não morreu, graças aos deuses.

– Sim – disse a Lady Praeglácia. – Eu os recompensarei durante a viagem de volta. Não quero que vão embora pensando que eu sou uma má anfitriã, fora que, ultimamente, a colheita nos nossos campos está péssima graças a esses malditos trolls – ela era bastante expressiva, sempre fazendo um tipo de careta quando falava de coisas diferentes.

– Depois que essa guerra com Sejuani acabar – disse Ashe –, irei enviar muitos avarosianos para que ajudem-na a erradicar esses malditos de seu reino.

– Ah – Lissandra abriu um sorriso imenso –, eu adoraria.

– Mas mesmo assim – disse Tryndamere – você deve tomar cuidado. Esse novo rei troll parece ser bastante, digamos, esperto.

Lissandra fez uma cara que, de primeira, pareceu ser uma cara de fome, mas depois, se viu que ela só queria dar uma ênfase ao que iria dizer.

– Nossa, nem me diga. Ele conseguiu unir todos os trolls do norte, sul, leste e oeste de Freljord, criando um grande exército. Ele, com certeza, é o troll mais organizado de todos os tempos. Temo que ele se rebele contra sua tribo futuramente, Vossa Graça.

Ashe assentiu.

– Mas se eles fizerem isso, irei estar pronta para o que der e vier.

– Espero que sim – disse Lady Lissandra. – Bom, lá em cima temos um jantar exclusivo esperando por nós. Vamos?

Ashe fez que sim com a cabeça.

– Então vamos – Lissandra disse.

O tempo em que Ashe permaneceu em coma foi bem recompensando. Lady Lissandra preparou um belo banquete somente para eles três, numa grande mesa forrada com um manto azul com o símbolo da tribo – um tipo de Y com olhos e feito de Gelo –, enquanto o resto da guarda de Ashe permaneceu em outro local do castelo, comendo o mesmo banquete, só que em mais pessoas.

A sala que Lissandra havia preparado era bem grande, tendo alguns guardas nas extremidades da sala – eles vestiam uma armadura azul com armas de Gelo, tinham uma expressão vazia que fez Tryndamere ficar com “a pulga atrás da orelha”, e também não se mexiam, a não ser para respirar. Na sala haviam vários panos com o símbolo da tribo, alguns sofás, um corredor e outro lugar no qual eles não haviam visitado ainda. A mesa estava lotada de comida: carne de carneiro, de boi, de galinho, fora água, algumas frutas como manga, legumes como alfaces, alguns grãos e etc.

Tryndamere encheu o prato, achando que quanto mais, melhor.

Ashe olhou para seu prato cheio com espanto.

– Trynda, não coma tanto assim...

– Comam quanto quiserem – interrompeu Lady Lissandra –, eu preparei bastante comida pois eu sabia que bárbaros tinham um bom estômago e eram bons de garfo... se é que usam garfo, mas isso não importa. Só quero que vocês comam e, depois, iremos debater um pouco sobre o que tenho a dizer.

Sem contestar, Tryndamere comeu até ficar cheio, enquanto Ashe comeu menos de um terço do que ele comia. Ela fora acostumada a comer pouco, pois em épocas dos grandes invernos, a comida era escassa, logo, todos deviam dividir e comer menos da metade do que estavam acostumados. Mesmo com o verão, ela preferia comer pouco e dar mais aos menos afortunados de sua cidade.

Freljord quase se tornou uma legítima cidade-estado de Valoran, mas devido às guerras com Sejuani e ao frio terrível do inverno, Ashe não teve oportunidade. Sua mãe não gostava do Grande Conselho de Valoran, logo, não queria que seu reino se tornasse parte daquilo. Quando morreu, uma porta se abriu para Ashe, que mais do que tudo, queria ver sua cidade e reino mais valorizados, assim como os outros. Mas com essa guerra fria, o verão foi passando e passando, até que a porta ficou prestes a fechar para ela. O último tempo no qual ela podia assinar o contrato era agora, antes do inverno, mas com a guerra quase estourando, não dava.

Antes, com as três tribos separadas, era mais difícil assinar o contrato. Agora, com Lady Lissandra e os Praeglacius ao seu lado, a situação voltava a ficar mais fácil. Talvez o Grande Conselho aceitasse assinar o contrato com duas tribos unidas, e com Sejuani derrotada, a situação ficaria melhor, pensou Ashe.

– E então? – perguntou Lady Lissandra aos líderes de Freljord. – Gostaram do banquete.

Tryndamere, ainda com a boca cheia, assentiu.

Ashe fez que sim com a cabeça.

– Está divino, Lady.

– Enfim – ela disse –, a situação de Rakelstake, como vocês podem ver, está crítica. Temo que os trolls tenham se afiliado a alguma força maior, talvez se afiliado à Sejuani, ou...

– A Bruxa Gélida – sugeriu Ashe.

Lissandra não pareceu gostar. Fez uma careta, mas depois riu.

– Não vá me dizer que vocês acreditam nessa história? Desculpe dizer assim, Vossa Graça, mas essa tal de bruxa não passa de uma história... boatos!

– Tem razão – concordou Ashe. – Essa história de que Lissandra, a primeira de seu nome, ainda vive... realmente não presta.

Lissandra, a segunda de seu nome, sorriu.

– Que bom que pensa assim. Eu odeio quando as pessoas falam coisas desse tipo para a minha antepassada, mesmo que ela tenha recebido tanto poder sombrio dos Observadores. De qualquer jeito, não gosto que falem mal dela. Bruxa? Não, não, não, e não. Mamãe me abençoou com o seu nome por ela ter sido uma poderosa participante na Guerra das Três Irmãs, mesmo tendo perdido para Avarosa e Serylda, que depois continuaram a guerra, e a vencedora...

– Sim – disse Ashe, sorrindo –, eu conheço a história.

Tryndamere terminou de comer numa velocidade inacreditável. Realmente, pensou Lissandra, bárbaros comem bastante.

– Muito bem, milady – disse Trynda –, vamos começar a reunião. O que queria dizer a nós?

Lissandra sorriu.

– Acho que acabei falando demais com vocês antes da hora, por que eu queria relatar sobre os trolls, pedir ajuda a vocês, e também... – ela fez uma pausa. – Ultimamente, tenho encontrado vários dos meus guerreiros completamente cristalizados em Gelo Verdadeiro, não podendo derreter e nem mesmo serem quebrados. – Ashe arregalou os olhos. – Estou tendo que escondê-los nas masmorras, junto de alguns prisioneiros que tenho. Bom, pensando por um lado, é uma boa punição colocar ladrões e assassinos junto de estátuas de pessoas congeladas. De toda forma, estou com medo do que possa ser.

Ashe respirou fundo; seu coração pulsava rápido.

– Eu lembro de algo assim. Na verdade, lembro de ter lido algo sobre isso. Olhe, milady, há muitos anos, no inverno que durou vinte anos, durante o reinado de minha avó e um pouco do da minha mãe, houveram muitos casos de pessoas que tinham Auto Congelamento Espontâneo, que foi dado como uma febre na época. Inclusive, meu pai morreu disso.

Lissandra fez uma cara de preocupada, colocando a mão na boca.

Tryndamere fez uma cara feia.

– Também já houveram casos disso em minha vila, antes de ser dizimada por, bem... – ele pareceu hesitar – inimigos. Alguns curandeiros diziam que era um tipo de febre que era transmitida pelo toque quando as pessoas ainda estavam em processo de cristalização. Alguns guerreiros fortes eram pegos pela doença, mas só ficaram pouco cristalizados, sobrevivendo, apenas tendo perdido algumas partes do corpo, como uma orelha, um dedo... uma perna.

Lissandra parecia desesperada.

– Minha rainha, mas se acontecer como aconteceu no vilarejo do Rei Tryndamere? Temo pela segurança de meus aldeões. Não quero que eles sejam pegos por essa terrível febre de congelamento.

– Terá que tomar cuidado, Lady Lissandra – disse Ashe. – Você se certificou de que os homens congelados não tiveram contato com ninguém antes de... se cristalizarem por completo?

Ela fez que sim com a cabeça, e Ashe suspirou aliviada.

– Ótimo, assim ninguém deve ter se contagiado. Fico imaginando se alguém de minha guarda pegasse essa febre.

Lissandra gemeu.

– Me perdoe, minha rainha. Se você pegasse a febre teria sido completamente a minha culpa. Perdão, perdão.

Ashe sorriu.

– Não fique assim, querida. Tivemos sorte – o sorriso se apagou. – Mas temo que esse inverno traga mais coisas ruins do que uma simples febre.

Os três ficaram em silêncio por um breve tempo. A primeira a falar foi Ashe.

– Lady Lissandra, gostaria de pedir algo, se não for incômodo.

– Peça o que quiser, Vossa Graça.

Ashe respirou fundo, e disse:

– Gostaria de pedir algumas armaduras e armas feitas de Gelo Verdadeiro para meu exército. Sei que sua aldeia é especializada nesse tipo de artefato, tanto que quem os trolls roubaram suas armas e estão fortes, e sua antepassada, a primeira Lissandra, deu o arco de Gelo para Avarosa, que eu uso ultimamente.

Lissandra cruzou os dedos num sorriso estranho.

– Armaduras? Hum... Talvez eu tenha coisas desse tipo em meu arsenal. Sei que não quer guerra, mas a melhor defesa é o ataque, certo? – Ashe e Trynda assentiram. – Eu darei com uma condição: odeio Sejuani, mas não quero que você se envolva numa guerra desse tamanho, pois necessito de sua ajuda para eliminar os trolls. Então, quero que você tente fazer um tratado de paz com Sejuani.

– Mas eu já tentei tantas vezes.

– Mas não tentou esse ano, agora que tens o exército bárbaro e o meu exército. Quero que você envie grãos e mantimentos à tribo dela. Grãos que eu retirarei de minhas terras.

Ashe sorriu.

– Obrigada mesmo, Lissandra. O jeito no qual você pensa do bem estar das pessoas – e sorriu lindamente. – Então nós enviaremos hoje?

– Sim – respondeu Lissandra. – Sei onde é o acampamento de guerra da Garra, portanto, enviaremos dois dos seus soldados e dois dos meus para que ela veja que nós estamos unidas nessa – e sorriu.

As duas deram as mãos, felizes com o trato feito. Tryndamere não parecia muito fiel nesse plano. Ao contrário delas, que estavam super confiantes.

Após o banquete, elas foram visitar o exército de Lissandra, e Ashe entendeu o por que dela pedir sua ajuda e formar uma aliança. Haviam, ao todo, somente trezentos homens, menos até que os trolls que viviam à espreita. Os homens pareciam bem disciplinados e fortes. Usavam armaduras feitas de Gelo, mas tinham muitas aberturas, deixando os fortes braços a mostra, assim como a barriga. Eles usavam lanças e escudos, somente, e tudo feito de Gelo.

– Perdemos mais de mil homens lutando contra os trolls e nunca conseguimos. Sei que você tem mais de nove mil homens em seu esquadrão, junto dos bárbaros, logo, seria uma boa unir os meus aos seus – virou-se para os dois. – Por isso preciso de vocês nessa, O.K?

– O.K – respondeu Ashe.

Lissandra virou-se para o seu pequeno esquadrão.

Praeglacius – ela gritou –, escolherei dois de vocês, hoje, para ajudar a Rainha Ashe a entregar uma oferenda à Sejuani, nossa maior inimiga. Queremos paz, pois assim poderemos derrotar os malditos trolls!

E todos os homens ergueram as lanças, gritando, animados.

– Tate, Daryl! – gritou Lissandra, e dois generais deram um passo à frente. – Vocês, junto de dois avarosianos irão até o acampamento da Garra do Inverno entregar-lhe grãos e mantimentos para que, talvez, possa se ser feita uma aliança de paz.

Os homens assentiram, Lissandra olhou para Tryndamere e Ashe, que sorriram. Mal sabiam eles que algo ruim aconteceria: Daryl, um dos generais escolhidos, tinha algo estranho crescendo em sua nuca. Gelo.