League of Legends: As Crônicas de Valoran
20 Capítulo 19: Sejuani
Capítulo 19:
Sejuani Winters – Freljord – Acampamento da Garra do Inverno
Os ventos do inverno deram as caras mais cedo, mas Sejuani não se importou. Já sobrevivera a invernos mais gelados e mais ferozes, portanto, não iria se abalar por uma fria geada que vinha de tal forma.
Ela ainda se perguntava como poderia derrotar um exército de avarosianos, um de bárbaros, e um de Lissandra. Mesmo sendo tão orgulhosa e tendo vikings e ursines ao se lado, ela ainda tinha dúvida e medo. Odiava ter medo, ainda mais ter medo de Ashe.
Sejuani fizera uma promessa à sua mãe antes de sua morte: prometeu que acabaria com os avarosianos e tomaria seu trono de direito. Tendo Lissandra apoiando Ashe, ela era a única oponente – já era bom. Agora ela só precisava saber como vencer. Ashe tinha forças poderosas; bárbaros podia lutar mesmo com uma lança no coração, com uma fúria implacável, já os vikings, não. Eles se tornavam Berserkers quando tomavam algo que os deixavam doidões, mas mesmo que não pudessem ser subestimados, pensou ela, bárbaros são um pouco mais fortes.
E mesmo com os Ursine por perto, ela tinha medo. Olhava para o horizonte e tinha medo.
– Não tema, não tema, não tema – recitou ela, de olhos fechados. Ela tinha os ursos, certo? Ursos daqueles poderiam arrancar a cabeça de um homem de Ashe. Então, por que ela ainda temia? Seu coração parecia que ia pular para fora de tanto bater rapidamente.
– Olhando para você, agora – Sejuani se virou para encarar Mestre Reed, que vinha até ela, com seu manto azul cobrindo seus pés e se arrastando pelo chão nevado –, me lembro de sua mãe. Ela era uma boa líder, eu lhe garanto.
Sejuani pôs a mão no peito; seu coração estava acelerado. Ultimamente ela estava muito pensativa. Tanto que se deixou ser surpresa por um simples velho. E se fosse um inimigo? Como ela faria? Enfim, ela só suspirou, e reclamou:
– Quase me matou de susto, mestre!
Ele foi mais até ela.
– Me desculpe, minha rainha. Só queria saber o que faz aqui; nem mesmo amanheceu – era verdade: ao olhar para o horizonte, podia-se ver o escuro de um lado, e a luz solar de outro. A visão do nascer do sol era linda em Freljord; às vezes, à noite, podia se ver a aurora boreal, suas luzes e encantos, tudo ao dispor de quem quiser ver.
Sejuani tornou a olhar para o amanhecer.
– Estou aqui já há um tempo.
– Percebi. Por isso eu vim.
Sejuani tornou a olhar para ele.
– Como vão os recrutas?
Reed fez uma cara feia.
– Bem... Olaf já está treinando duro com alguns jovens filhos dos vikings, Volibear organizou uma caçada com seus aliados ursos, e, bem, os recrutas ainda não acordaram.
Sejuani cerrou os punhos numa expressão furiosa.
– Então quer dizer que o Olaf e o ursão só estão treinando os seus? Francamente – ela atravessou Mestre Reed, empurrando-o levemente para o lado, indo diretamente até a floresta que separava aquele penhasco onde ela pensava na vida, e o seu acampamento. Havia outra montanha que o escondia que ficava de costas pra pequena floresta, o que dava uma boa camuflagem.
Enquanto atravessava a pequena floresta, Mestre Reed tentava correr de encontro à líder.
– Acalme-se, minha rainha – ele gritou. – Os jovens só precisam de um pouco de disciplina!
– Eles precisam de uma surra se quiserem aprender a se portar numa guerra! – trovejou ela.
Saindo da floresta, ela teve a sorte de dar de cara com a barraca dos novatos, que se alistaram em seu exército há pouco tempo. Eles ficavam aglomerados em grandes barracas em camas – colchões – separados.
– Dê um tempo a eles, minha rainha – implorou Reed.
– Um tempo? – perguntou ela. Deu uma risada. – Você realmente não me conhece, mestre.
Abriu rapidamente os panos da tenda, se deparando com uma cena terrível. Todos dormiam, com a exceção de dois, que por algum motivo estava um em cima do outro... se beijando? Os dois se afastaram quando viram Sejuani, que pegou uma trombeta de seu cinto, assoprou nela e pôde se ouvir um estrondo vindo dela. Todos acordaram quase que em um instante, sem hesitação.
– QUERO SABER O POR QUE DE VOCÊS ESTAREM DORMINDO. LEVANTEM-SE AGORA E VÃO SE FORMAR NO CAMPO COM O GENERAL HALLYS!
Eles não hesitaram, começaram a se levantar e correr. Sejuani havia obrigado a dormirem com a roupa de treino, pois iriam precisar acordar cedo para treinar duramente, pois só os fortes poderiam prevalecer. Quando todos estavam fora, Sejuani tocou novamente a trombeta, e foi em outra tenda, acordar outros recrutas, e em outra. Ao todo eram quatro tendas de jovens, e o exército de Sejuani estava estipulado em mais de oito mil, muito mais.
Os recrutas se dirigiam para o campo, onde alguns de seus generais iriam treiná-los. Um deles, o mais atrasado, correu para alcança-los, esbarrou em Sejuani, e enquanto ia, quase caiu ao se deparar com Volibear, que pulara à sua frente. O garoto gritou feito uma garotinha, e correu para longe do urso, que preferiu por não ir atrás.
– Não vi a graça – disse Sejuani a ele, ironicamente.
Volibear riu.
– Deveria ver. Esses jovens de hoje em dia não são como os de antigamente. Esses aí são todos maricas, boiolas, e fracotes – ele rugiu alto, e quando falou, seu rugido se misturou com a fala. – Peço ao deus urso que os guerreiros de Ashe sejam assim. Ah, se desejo.
Outros ursines vinham atrás do grande líder, com as mandíbulas ensanguentadas. Alguns, ao fundo, traziam uma carroça a mão cheia de carne fresca; caça abatida na hora, a favorita de todos ali.
Um urso da tribo de Volibear de pelugem levantada, como se estivesse desarrumada, veio até a líder.
– Nossa, Seju, você deveria ter visto o quanto nós caçamos hoje.
– A próxima vez que me chamar de Seju, Raybear – ela disse –, eu te dou de comida ao Bristle.
Ele deu uma risada fraca, mas depois percebeu que aquilo estava mais para ameaça do que piada.
– Bom, minha cara Sejuani – disse Voli –, nós trouxemos comida o suficiente para quase todo o inverno.
– Para todos os oito mil soldados que temos? – perguntou.
Ele hesitou.
– Olha...
– Já vi que não – ela se virou para os ursos que estavam passando por ela com a carroça cheia de animais mortos e carne fresca. – Espero que vocês saibam o que fazer com toda essa carne antes que estrague. Trouxeram água, pelo menos?
Raybear fez que sim com a cabeça.
– Como Voli disse, trouxemos o suficiente...
– Já sei – retrucou Seju –, não preciso que falem de novo.
Volibear deu uma gargalhada.
– Me desculpe, minha rainha – desculpou-se Raybear.
Sejuani se virou para Volibear; ao seu lado, mais ursos apareciam carregando carroças cheias de suprimentos.
– Houve algum imprevisto? Encontraram outro clã Ursine?
Os dois fizeram uma cara feia.
– Não exatamente – disse Voli. – Encontramos outra coisa. Algo mais... perturbador, digamos.
Seju franziu a sobrancelha.
Sejuani cavalgou em cima de Bristle por alguns quilômetros, enquanto Voli e Raybear corriam em quatro patas.
Tiveram sorte de que o tempo estavam ao seu favor, já que como o inverno ainda não tinha chegado, e haviam poucos ventos gelados, não haviam tempestades de neve e nem avalanches.
Foi conduzida pelos ursos por mais alguns quilômetros ao longe do acampamento, atravessando árvores e mais árvores de uma floresta de pinheiros bastante obscura. Começou a notar coisas estranhas nos pinheiros; elas estavam pouco cristalizadas, com partes que pareciam estar ser feitas de Gelo. Isso a preocupou, pois nunca tinha visto coisa parecida.
Quando os ursos pararam, ela deu o comando para que Bristle parasse. Desmontou do imenso javali, e foi em direção aos ursos, que observavam algo que, para eles, era estranho.
Sejuani abriu espaço entre os grandes animais, e se deparou com uma cena terrível: quatro pessoas estavam deitadas no chão, nos respectivos pontos cardeais – norte, sul, leste, oeste –, com as gargantas cortadas, os braços abertos, o sangue, já seco, por todo o local ao redor deles. Ao centro havia o que pareciam vários olhos arrancados. Olhos? Sejuani olhou bem nos olhos das pessoas mortas, percebendo que no local onde eles deveriam estar, e percebeu que tudo o que havia ali era um buraco negro sem vida e ensanguentado. Os olhos estavam no centro, congelados, e pareciam estar numa sequência bizarra que ela não quis decifrar. Os corpos estavam em processo de cristalização, tendo até partes inteiras do corpo congeladas com Gelo Verdadeiro, algo completamente estranho.
– Mas o que diabos... – ela disse.
– Nós os encontramos enquanto procurávamos animais para caçar – disse Volibear. – Ao que parece, foram sacrificados em um bizarro ritual.
Sejuani foi até perto dos corpos. Ela já pesquisara algo sobre um observador com vários olhos nos tomos antigos de Mestre Reed. O monstro tinha vários olhos e uma curiosidade infinda da vida humana. Dizem que ele fora invocado por uma das Três Irmãs, a líder dos Praeglacius, aquela que criou um elo mais forte com os observadores gélidos, e foi a que mais recebeu poderes. Talvez ela ainda estivesse viva, e quisesse trazer de volta à vida os observadores. Mas por que fazer simples rituais na floresta?
Sempre devemos ter um começo, jovem Sejuani, disse uma voz feminina e etérea na mente dela. Olhou para todos os lados procurando saber de onde viera a voz. Os ursos perceberam seu súbito desespero. E para todo começo, há sempre um final. Quero fazer um belo final.
– Vamos embora – disse Sejuani.
Volibear franziu a testa.
– Mas não podemos ir embora assim, tão rápido. Devemos investigar... – ela já estava montando em Bristle e dando meia-volta. Virou-se para Raybear, e disse: – Vamos. Não há como contestar com ela.
Os dois ursos tornaram a ficar de quatro patas, correndo rapidamente atrás da líder e de seu grande javali, saindo de perto daquilo.
...
– Vocês encontraram vestígios de um ritual da Bruxa Gélida? – perguntou Tomen, um arqueiro de vinte e oito anos da Garra do Inverno a Raybear. Ele tinha cabelos escuros, e usava uma grossa roupa de frio-batalha com um capuz. Ele bebia uma caneca de cerveja, e sentava-se em uma mesa na taberna da Garra, um estabelecimento pequeno, onde os guerreiros podiam beber um pouco e esquecerem-se do dever, pelo menos por um tempo.
Raybear atacava um pedaço de carne de carneio, e mesmo sendo um urso grande e pesado, o banco o aguentava.
– Sim – ele respondeu. – Ainda tenho calafrios de olhar para todos aqueles corpos mortos.
– Incrível – continuou Tomen, dando um gole em sua bebida. – Eu sempre ouvi boatos sobre essa bruxa, mas nunca coisas tão verdadeiras. Por que não vamos lá depois?
Ray fez uma cara de raiva, bateu na mesa com o punho, irritado.
– Não podemos – parecia irritado, mas contido –, Sejuani proibiu que qualquer um volte até aquele lado da floresta.
– Por que?
– Ela acha que a Bruxa Gélida soltou algum monstro de vários olhos. Imagina só – e deu uma gargalhada misturada com alto rugido, que chamou a atenção de todos os soldados da taberna suja e fria.
– Ela voltou lá depois do ocorrido? – Tomen pôs a mão no queixo, onde haviam vestígios de uma barba que fora feita há tempos.
Ray deu uma grande mordida em sua carne, mastigou, e enquanto mastigava, respondeu:
– Não – engoliu –, na verdade, ninguém voltou lá depois disso. Já fazem dois dias que aconteceu, e ela age como se nada tivesse acontecido. Olaf continua treinando seus vikings, Voli continua nos treinando, e ela faz estratégias de batalha, além de alimentar aquele javali gordo.
Com a caneca na mão, Tomen apontou para a pança de Ray.
– Não pode falar muito. Você também não está em boa forma.
– Francamente, cara. Eu sou um urso. Na verdade, sou um Ursine da tribo do trovão, não se esqueça.
Tomen riu.
– Tudo bem, não vou esquecer – bebeu o resto da cerveja e limpou a boca com a manga da camisa. – Só quero que você me leve até lá, hoje.
Ray começou a sussurrar.
– Tá maluco, cara? Se a líder nos pegar...
– Relaxa, cara. Vamos pelo anoitecer, quando todos estiverem dormindo.
E assim foi. À noite não havia absolutamente ninguém de fora das barracas. Pelo posicionamento da lua, já passavam da meia-noite, e Tomen não se importava de andar por aí, sozinho sob a luz do luar.
Estava frio, e mesmo estando todo encapotado, Tomen ainda tremeu de frio. Andou até a entrada da floresta, que ficava há dois quilômetros de sua barraca, mas não ligou de andar até lá, afinal, tinha todo o tempo do mundo para fazer isso.
Chegando lá, encontrou Raybear, camuflado na pouca neve que havia no chão.
– Já te vi – revelou Tomen, fazendo o urso se levantar, com cara de quem teve a piada estragada por um engraçadinho. O humano apenas sorriu ironicamente, enquanto o urso se livrava da neve em seu pelo. – Vamos?
Montado em Raybear, Tomen “cavalgou” pela floresta escura e congelante por alguns quilômetros. Um arco e uma aljava pendia de suas costas, como se ele pudesse encontrar algo no qual poderia atirar e matar.
O vento frio soprava-lhe pelo rosto, fazendo com quem ele trincasse os dentes.
– Chegamos – avisou o grande urso, erguendo-se nas duas patas traseiras, jogando Tomen no chão de neve. Os dois avançaram até o local do ritual maligno da bruxa, quando se depararam com absolutamente nada. Haviam sangue seco no chão, fora isso, nada. O urso tremeu, como se estivesse com medo.
– Precisava me jogar no chão, cara? – perguntou Tomen. Levantou-se, olhou para o urso, que parecia paralisado de medo. Ele ergueu uma das patas, apontando para o lugar. Tomen, claro, não entendeu nada. – Era para ter algo aqui? Não vejo nada – e andou até o local onde os corpos deveriam estar. – Corpos sem olhos... – chutou um pouco de neve. – Corpos degolados... – chutou mais neve. – Francamente, né, ursão, poderia... – Raybear já não estava mais ali. Nem mesmo as marcas das patas na neve ficaram, era como se ele tivesse virado fumaça.
Foi quando o coração de Tomen começou a bater mais forte, e o medo tomou conta de seu coração. Onde está ele?, pensou. Ficar sozinho numa floresta escura, à noite, não parecia ser um bom tour.
Ouviu o barulho de passos na neve. Chec, chec, chec, chec, faziam os sons dos passos. Ouviu também um barulho de pessoas gemendo, mas gemendo como se tivessem acordando de um sono profundo.
Haviam quatro caminhos nos quais ele poderia fugir, o no qual viera, o do leste, do oeste, e do sul – eram os únicos caminhos que não estavam obstruídos pelos pinheiros grossos. Correu até o caminho de onde viera, mas se deparou com uma péssima visão: um homem de sua idade, pálido, com partes do corpo cristalizadas, o pescoço degolado, apareceu em sua frente. Ele andava mancando, como se o corpo pesasse, balançando os braços. O pior: seus olhos eram fundos e sem vida; espera, ele não tinha olhos. Eles foram arrancados.
– Droga! – praguejou Tomen. Ele deu meia-volta e correu até o caminho sul, onde encontrou uma mulher no mesmo estado: garganta cortada, olhos arrancados, cristalização por todo o corpo, aparência de zumbi, vindo em sua direção. Ele engoliu em seco. Poderia chorar ali mesmo, mas era muito másculo para fazer tal coisa.
Correu de volta ao centro do ritual, olhou para o leste e oeste, avistando outros dois zumbis daqueles. É o fim, pensou. Tô morto.
Não pense assim, disse uma voz feminina e etérea em sua mente. Não é o fim até que eu diga.
Os zumbis chegaram até ele rápido por demais, e quando chegaram nele, agarraram-lhe pelos braços, puxando-o para todos os lados. Urrou de dor quando um deles lhe mordeu o braço com força capaz de arrancá-lo, e outro, lhe mordeu no pescoço, outro na perna, e outro na coxa. Gritou por ajuda. Socorro!, ele tentou gritar, mas percebeu que sua garganta sangrava, de algum modo.
Não tenha medo, Tomen Fletcher, disse a voz, não irei causar-lhe mais do que a dor... necessária.
Gritou novamente. A dor era incapaz de ser descrita; sentiu uma substância gelada subir pelo seu sangue, congelando-o por dentro. Logo ele estaria morto.
Foi quando avistou uma mulher vindo em sua direção, bem lentamente. Ela vestia um longo vestido azul colado, seus longos cabelos brancos eram presos em uma trança que ficava nas costas, suas mãos eram azuis e finas como puro gelo, e sua pele era de um tom ciano bastante pálido. Em sua cabeça havia um tipo de visor extra grande feito de gelo negro, que parecia a letra Y mais encurvada para os lados. Ela sorria de forma fria, e enquanto andava em sua direção, parecia deslizar, como se não usasse os pés.
Não se prenda ao seu corpo, Tomen, sua dor parou quando ela proferiu tais palavras, torne-se um Glacinata, assim como eu. Ela riu. Pena que não poderá.
Com um dedo afiado como estalactite de gelo, ela tocou em sua testa, e várias linhas brilhantes formaram um tipo de floco de neve ali. Logo seus olhos também se tornaram azuis como Gelo Verdadeiro, e logo ficaram na forma de bolas de gude.
Está feito, disse ela, arrancando os olhos dele, que brilharam tanto quanto qualquer safira que pôde ser encontrada em qualquer mina de Valoran
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