Leading Hearts

1 Nova York, 2019


Notas iniciais
Olá!! Vocês nem imaginam o quanto em me diverti escrevendo este primeiro capítulo! Claro, foi difícil. Às vezes, vinha aquela vontade de apagar tudo, virar pro outro lado e fingir que eu não sabia de nada. Mas ai eu pensava nos outros capítulos, nas diferentes interações que ainda estavam longe de acontecer e eu sentia que não conseguia simplesmente abandonar uma história tão cativante. E, assim, eu me esforcei, para hoje trazê-los o primeiro capítulo. Espero que apreciem tanto quanto eu o resultado final. Boa leitura!

A cidade estadunidense continuava em sua habitual monotonia, com suas ruas cheias e seus habitantes apressados. O relógio aparentava correr mais rápido, pois não havia alma que não parecesse estar atrasada para seja qual fosse o seu compromisso. Eram todos muito ocupados. Um dos únicos lugares capaz de fugir um pouco à regra era o Central Park, onde pais e filhos andavam de mãos dadas e amantes se escondiam por entre as árvores.

O dia ensolarado banhava-os com sua luz, sorridente de ver que nem todos se esqueceram de aproveitar do tempo limitado que tinham de vida; porque ninguém vivia para sempre, ainda. E era dentre todas aquelas pessoas despreocupadas que se encontrava Alfred F. Jones, aproveitando daquele sábado a tarde, sentado à sombra de uma árvore de nome desimportante.

Ele tinha em mãos um caderno de esboços. Um estojo repousava em seu colo e uma lapiseira rodopiava em seus dedos. Seus olhos se encontravam presos às nuvens, brancas e volumosas. Seus pensamentos iam longe.

Com um suspiro, guardou seus materiais, percebendo que seu súbito surto de inspiração realmente fora bom demais para ser verdade. Agarrou sua mochila e se levantou, caminhando a esmo para onde ele sentisse que deveria ir. Não demorou até que ele se perdesse em meio à multidão.

O Sol começava a baixar quando ele se viu questionar sobre a eficiência da sua decisão, tomada logo após o almoço. Havia uma coisa que não considerara em sua súbita fuga, ocasionada por um ataque de fúria: dinheiro. Como pode esquecer logo hoje sua carteira?! Agora, perambulava pelas ruas cada vez mais escuras e vazias, pesando em uma balança de precisão seu orgulho e seu juízo.

Apertando a alça da mochila que carregava nas costas, continuou em frente. A ideia de simplesmente voltar para casa e abaixar a cabeça para as exigências de seus pais não lhe agradava nem um pouco. Queria ser um desenhista, fazer cartazes e quadrinhos. Queria viver daquilo. Não conseguia se imaginar em outra profissão; não seria feliz, de forma alguma. Médico? Advogado? Nada disso era para ele. Preferia largar sua boa vida a abandonar seus sonhos.

A essa altura, o Sol já havia se deitado e, não fosse pela precária iluminação dos postes da rua, tudo teria sido tomado pelo breu. Alfred ia desconfiado, seguindo pela via que se tornava cada vez menos movimentada. Começava novamente a se preocupar, e seu orgulho começava a se tornar insignificante.

Chacoalhou a cabeça com força, sua teimosia vindo novamente à tona. Dispensando o até então crescente pessimismo, convenceu-se de que tudo daria certo. Podia ir para a casa de algum amigo, pegar um dinheiro emprestado, arrumar um bico em algum lugar… E não morreria por perambular pela rua por uma noite; até porque estava habituado a varar as noites desenhando.

Porém, foi quando seus olhos trilharam para um beco que se estendia a sua esquerda que começou a questionar se não estaria mais cansado do que pensava. Parando por um momento e piscando algumas vezes, encarou as pequenas criaturas que voavam e o chamavam, convidando-o a seguí-las pela rua escura. Piscou mais algumas vezes e prosseguiu seu caminho, ignorando os frutos de sua mente cansada.

Foi dar mais algumas dúzias de passos que veio sua próxima surpresa: chuva. O céu, até então limpo, tomou-se por nuvens carregadas, que despejaram sobre si uma água fria de causar bater de dentes.

Levando as mãos aos braços e esfregando-os a fim de espantar o frio, correu para debaixo de uma pequena cobertura. Imediatamente, abriu a mochila e vestiu o casaco que agradeceu por ter enfiado lá dentro, mesmo na pressa da fuga. Ficou parado por um momento, pouco mais de três minutos, mas não demorou até que o vento mudasse de direção e começasse a molhá-lo novamente.

Não era seu dia de sorte.

Abandonando o refúgio que se tornara inútil, seguiu correndo pela rua. Seus tênis batiam contra as poças de água, deixando-o ainda mais encharcado. Virou em uma esquina, enfiando-se em meio às penumbras em busca de um abrigo que a via principal não seria capaz de oferecer.

A rua que agora percorria a passos corridos era estreita e mal iluminada, porém, foi nela que encontrou refúgio. Adiantou-se sob o telhado de uma padaria fechada e se sentou no chão, junto à parede. Imediatamente, abriu sua mochila e checou se estava tudo bem com seus materiais, suspirando aliviado ao constatar que nada havia molhado. Puxando a mala para seu colo, tentou se aquecer cobrindo-se com ela, o que não deu tão certo quanto gostaria. Alfred podia jurar que começaria a nevar em plena Primavera se isso não fosse tão absurdo.

E demorou mais cinco minutos para o absurdo acontecer.

O primeiro floco de neve passou despercebido, mas então veio o segundo, o terceiro, o quarto… Logo, a neve branca começou a tomar o chão e Alfred se viu perguntar o que havia de errado com o mundo àquela noite. Depois de um espirro que deve ter sido escutado pela rua toda, levantou-se, sabendo que se ficasse ali acabaria morrendo de frio. Procuraria um abrigo, ou ao menos um lugar mais fechado.

Esfregando os braços como sempre fazia quando os sentia gelados, apressou-se em descer a rua estreita, afastando-se ainda mais da via principal. A cada passo, seus arredores de tornavam mais escuros, e por mais que Alfred estivesse com mais medo do que jamais admitiria, reconhecia-se como um ser teimoso – teimoso como uma mula, como dizia sua mãe. Por isso, se via incapaz de simplesmente voltar para casa, mesmo que tremesse por inteiro, tanto pelo medo, quanto pelo frio.

O garoto continuou andando, não sabendo mais onde estava. As luzes dos postes piscavam e, olhando em volta, podia ver janelas quebradas de estabelecimentos abandonados. Porém, o que o fez estagnar e arregalar os olhos não foi nada além das fadas que rodopiavam no céu a sua frente, coloridas e brilhantes. Elas riam e acenavam em sua direção, chamando-o, pedindo para que as seguissem.

Alfred esfregou os olhos repetidas vezes, mas elas não sumiram. Convencido de que não queria ir ao Mundo das Fadas ou servir de alimento para seres aparentemente inofensivos, disparou-se a correr na direção oposta. Porém, não demorou até que mais daquelas criaturas estranhas surgissem e ele se visse obrigado a depender de becos e vias alternativas. Precisava voltar, e rápido, para a via principal. Todavia, é claro que ele escorregou no gelo que cobria o chão. É claro que aquelas malditas fadinhas o encurralaram. Afinal, aquele era certamente o seu dia de sorte! Nunca se sentira tão abençoado!

Recolhendo o corpo e agarrando sua mochila, Alfred se ergueu apenas quando se sentiu pronto para o combate. Balançando a bolsa de um lado para o outro, começou novamente a correr, afastando de si as criaturas de pouco mais de dez centímetros e que agora fugiam de si bastante assustadas.

— Chega, me deixem em paz! – Ele sentia suas mãos tremerem e suas pernas bambas. Até mesmo lágrimas acumulavam-se sob seus olhos; acontecimento que Alfred tentava se convencer ser recorrente do tempo frio. – Qual o problema de vocês?!

— Eu é que pergunto.

Uma mão agarrou fortemente o braço de Alfred, paralisando-o de medo. O sotaque britânico do recém chegado era forte e inconfundível. Alfred imediatamente se virou, deparando-se com um jovem que devia ter mais ou menos a sua idade, poucos centímetros mais baixo e com grossas sobrancelhas. Ele o encarava com um par de olhos verdes irritadiços, ou até mesmo enojados.

— O que pensa que está fazendo com elas? Pirralho estúpido.

— E-Elas estavam me perseguindo! Elas começaram! E-Esses monstros!

O outro contraiu as grossas sobrancelhas e, por um momento, Alfred se sentiu intimidar pela figura do menor. Ele, que ainda segurava o seu braço, jogou-o para trás, para que se afastasse de si.

— Verme.

E, com essas palavras ríspidas, Alfred se viu desmaiar. A sensação da neve fria contra a pele quente do seu corpo era agradável. Sua cabeça doía, seus olhos pesavam… Sentia-se fraco e febril. Desde quando estava desse jeito? Sem forças, não pode sequer responder ao garoto loiro que o chamava com um tom de surpresa e aborrecimento.

~#~

Quando acordou, sua primeira dificuldade foi abrir os olhos. Um colchão macio o amparava pelas costas e a temperatura do quarto estava mais do que agradável – estava perfeita. Podia quase imaginar sua escrivaninha e seu armário dispostos em seus devidos lugares, e sua mãe adentrando o quarto irada por ele ainda estar na cama. Porém, foi trazido à realidade pelo som de passos a sua volta. Abriu os olhos lentamente, a luz incomodando-o de início.

— Oh! Acordou!

Alfred sobressaltou-se ao ver o rosto de um jovem de olhos vermelhos próximo ao seu, recuando até bater as costas na cabeceira da cama. Ele tinha um sorriso pontiagudo e os fios de seu cabelo estavam entre o castanho e o loiro, a cor também puxada para um tom avermelhado que combinava com o de seus olhos. Ele vestia um sobretudo vermelho, apesar do quarto não estar nem um pouco frio.

— Quem é você?!

— Quer chá? – O desconhecido ofereceu uma bebida esfumaçante, ignorando a pergunta do americano assustado.

— Onde estou?

— Hum… Acho que americanos gostam mais de café, né?... – Com expressões pensativas, ele pousou a xícara no criado mudo e simplesmente sumiu por um corredor.

Alfred sentia seu coração palpitar com força e velocidade. Estava confuso, e bastante. Ainda por cima, suas perguntas foram todas ignoradas. Decidido a se acalmar, suspirou fundo, não obtendo o resultado que desejava; não foi capaz de se acalmar sequer um pouco.

Já se sentindo desesperar, rodou os olhos pelo cômodo em que se encontrava, tentando descobrir o mínimo que fosse. Além da cama, havia um pequeno armário e um criado mudo. Ergueu-se sem pensar duas vezes e abriu todas as gavetas que encontrou, mas estavam vazias. No armário, encontrou apenas sua mochila e suas roupas, limpas e dobradas como quando as vestira de manhã; só então questionou-se sobre o que vestia. Puxou a blusa e encarou a estampa de leão marinho, erguendo uma sobrancelha para seja lá o que estivesse escrito embaixo do desenho.

Ciente de que as roupas eram o menos importante no momento, continuou a sua exploração, encaminhando-se ao corredor por onde o outro sumira há pouco. Encontrou uma sala de pé direito alto e uma grande estante. A decoração lembrava a da sua casa de férias, onde passava o fim de ano com sua família – exceto pela decoração peculiar, com as estátuas bizarras que ele não fazia ideia do que eram. Caminhou até a mesa e agarrou um pequeno vaso com um cacto, perguntando-se quem achava que aquele era bom lugar para uma planta daquelas. Viu uma porta que julgou ser a saída, mas não foi capaz de abrí-la.

Ao ouvir o som do virar de páginas de um livro, sobressaltou-se e imediatamente buscou a fonte do som repentino. Sentado em uma das poltronas e desfrutando de um livro que jazia deitado em suas pernas cruzadas, encontrava-se um loiro de sobrancelhas grossas, agora vestindo um sobretudo verde.

— Você! – Alfred não pode se conter de elevar o volume de sua voz e apontar, espantado, para a figura que erguera os olhos de sua leitura apenas por um momento, e para o encarar desagradado, provavelmente por causa do barulho.

O americano adiantou-se até o garoto que acreditava ser inglês e, ao se dar conta de que não receberia a atenção desejada, roubou-lhe o livro sem pensar duas vezes.

— Hey!

— Onde estou?

Alfred, a essa altura, já havia perdido a paciência. Já fora ignorado o suficiente e não desejava, agora, nada além de algumas respostas. O outro pareceu compreender isso, pois suspirou e respondeu:

— Umas duas quadras distante de onde você desmaiou.

— Bem, muito obrigado pela ajuda. Mas acho que é melhor eu ir indo agora. Poderia destrancar a porta?

— É impossível destrancar a porta.

— ... Apenas me dê a chave, okay? Eu realmente não pretendo ficar aqui.

— Não há chave.

— Escuta, eu não estou brincando. E vocês não vão ganhar nada me mantendo aqui. Se o que querem é dinheiro, então fiquem sabendo que eu cortei vínculos com a minha família. Vocês realmente não tem nada a ganhar.

— E eu acabei de te dizer que não tem uma chave – o outro repetiu, impaciente.

Alfred sentiu seu sangue ferver. Aquela situação era bizarra e ele não estava nem um pouco contente com ela. Deixando o inglês de lado, adiantou-se de volta à porta e tentou novamente abrí-la. Depois de falhar em todas as repetidas tentativas, apelou para a força, mas nem mesmo seus chutes mais poderosos foram capazes de arrombá-la.

— Isso é inútil – foi tudo o que o outro disse, observando a cena já sem muita paciência. Provavelmente desejava o seu livro de volta, do qual Alfred não havia devolvido até então.

— Veremos se é inútil mesmo.

Alfred se afastou da porta e preparou-se para escancará-la mesmo que se ferisse no processo. Todavia, antes que pudesse disparar com tudo em direção ao obstáculo que o separava de sua almejada liberdade, ela se abriu. O garoto que encontrou quando acordou vinha acompanhado de outro loiro, este vestido com um sobretudo azul; ele trazia uma bandeja com café e tinha parte do cabelo preso com uma presilha em formato de cruz.

Um tanto surpreendido pela repentina aparição de outras duas pessoas, Alfred perdeu sua chance e a porta tornou a se fechar. Quando tentou abrí-la, viu-se novamente falhar. Aparentemente, só podia ser aberta por fora; ou ao menos foi a essa conclusão que Alfred chegou.

— Droga! – Resmungou, batendo o punho contra a madeira que ele começava a crer ser indestrutível.

— Oi, de novo. Eu trouxe café desta vez! – O sorriso inocente do de vermelho foi recebido pelo desânimo do americano. O outro garoto apenas observava a cena, silencioso, suas feições enigmáticas.

Alfred suspirou, sentindo-se de repente bastante cansado. Pelo jeito, não havia jeito além de confiar minimamente naquelas pessoas, que, apesar de tudo, não lhe pareciam ser más; apenas… estranhas.

— Acho que vou aceitar uma xícara de café… – Disse, por fim.

~#~

Já havia se passado mais de cinco minutos e o silêncio ainda reinava imponente. Alfred bebericava de sua xícara não mais esfumaçante, desconfortável e um tanto ansioso. Os outros garotos permaneciam quietos; o inglês voltara a ler seu livro, e os outros dois nada diziam, apesar de o encararem fixamente.

— Bem, hum… Sou Alfred – o americano se apresentou, já não mais aguentando aquela situação.

— Sim – foi a resposta dada pelos três, em uníssono.

— Sabemos bem quem você é – explicou o garoto vampiresco, calmamente. – Nós que o chamamos aqui. Você é nossa responsabilidade.

— Lamentavelmente – complementou o inglês, que não tirara até então os olhos de sua leitura.

Um tanto surpreso pelas palavras proclamadas e outro tanto confuso, prosseguiu para sua próxima pergunta, ignorando o comentário do jovem rabugento.

— Um sequestro? Não sabia que serviam café às vítimas. Ou isso é algum modus operandi da gangue de vocês? – Alfred pousou a xícara, só então cogitando uma certa possibilidade e jogando a xícara ao chão. – Droga, não me digam que tinha veneno!

Pela primeira vez desde que chegara ali, Alfred começou enfim a temer os garotos que o encaravam com expressões enigmáticas, e que só então ele percebeu o quão sinistras eram. O que eles pensavam? O que eles pretendiam? Eras bons ou maus? Não conseguia dizer.

Alfred levou a mão à boca, mas, antes que pudesse se forçar a vomitar, o jovem de presilha apareceu ao seu lado e o segurou pelo braço. Enquanto isso, o vampiresco se aproximou com feições cansadas e se agachou de forma a ficar cara a cara com Alfred.

— É claro que não colocamos veneno, idiota. Por que faríamos isso? Você é nossa responsabilidade, lembra? Temos que cuidar de você.

O garoto sorriu para Alfred e afagou sua cabeça, fazendo-o se sentir como uma criança. O americano não esboçou qualquer reação, pois ainda se encontrava apavorado com a situação bizarra. Se não queriam seu mal, o que queriam? Por que protegê-lo? Do quê? Ele não entendia nada.

Depois de um instante de silêncio, soltaram-no, sua respiração levemente acelerada. Seguindo os olhos do garoto de sobretudo azul, mirou a mancha no tapete, que sumira com um mover das mãos do vampiresco, os cacos espalhados se juntando e voltando à sua forma original. Alfred arregalou os olhos e, sem pensar duas vezes, levou a mão ao carpete, sentindo-o limpo e sem qualquer resquício do líquido que havia sido derramado. Apanhando a xícara, novamente inteiriça, não viu qualquer rastro de que o objeto tenha sido um dia danificado.

— Quem são vocês? – A voz do americano tremia por conta do choque.

— Eu sou Vladmir, mas pode me chamar de Vlad, – respondeu o de olhos vermelhos – e estes são Lukas – o garoto de sobretudo azul acenou com a cabeça, em um comprimento silencioso – e Arthur.

Alfred encarou o inglês, que ainda não lhe dava atenção. Nem ter seu nome chamado foi suficiente para afastá-lo de sua leitura. Mas ele tinha coisas demais em suas mãos para se preocupar com ele, por isso, voltou sua atenção novamente a Vlad, que tinha um sorriso pregado na face pálida.

— E o que exatamente foi… Bem, aquilo? – Alfred gesticulou sem jeito para a mancha imaginária no tapete, rodando sua mão em círculos, imitando a ação de Vlad de há pouco.

— Ué, magia! – Ele respondeu, sem pestanejar. Alfred queria poder dizer que havia ouvido errado, mas sabia não ser esse o caso. As palavras não podiam ter sido ditas com maior clareza.

O americano não sabia onde estava, e tampouco compreendia a sua situação, mas isso não o impedia de ter a certeza de que havia se metido em uma grande enrascada. Jogando o corpo de volta à cadeira, suspirou e pediu por mais um pouco de café. Algo o dizia para se manter bem acordado. Não conseguia confiar nessas pessoas.

Os cinco minutos seguintes se arrastaram silenciosos.

— Bem, eu tenho que levar essas xícaras para a cozinha – Vlad anunciou, recolhendo-as e as colocando em uma bandeja prateada.

— E eu vou voltar lá para dentro – foi a vez de Lukas de se pronunciar.

Vendo aquilo como uma oportunidade, Alfred se levantou apressado e seguiu atrás dos garotos, que se direcionavam à única saída do local. Arthur ergueu os olhos do livro e observou a cena, calado. Quando alcançaram a porta, ela se abriu com um simples virar da maçaneta. Alfred observou perplexo eles atravessarem algo que o lembrava um portal interdimencional. Quando ambos sumiram, Alfred engoliu em seco e deu um passo a frente. Era tudo ou nada. Porém, bateu de cara com uma superfície dura e, levando sua mão ao que devia ser sua saída, sentiu-a opaca.

— Eu já te disse que não dá para sair – Arthur falou, do outro lado da sala.

Alfred sentiu uma veia pulsar em sua testa em resposta ao tom prepotente do outro.

— Não – ele girou nos calcanhares, sua irritação para com as atitudes do garoto inglês transpassando os limites – Você tinha dito que não dava para destrancar a droga da porta.

Arthur apenas deu de ombros e voltou a ler, despreocupado. Alfred, por outro lado, espancou a sua falsa saída e, ao ver que novamente sua violência não levaria a nada, caminhou em direção ao único ocupante daquele salão. Ao notar a aproximação do outro, Arthur fechou seu livro e o pousou sobre o colo, já ciente de que ignorar o americano só causaria mais dores de cabeça.

— Você, sabe, não quer me explicar o que raios está acontecendo? – Alfred encurralou o garoto, apoiando-se nos braços da poltrona e curvando seu corpo para frente.

— De verdade?

— Sim!

— Não.

— Não?

— Sim.

Alfred piscou duas vezes, vendo-se ser feito de bobo por um garoto claramente mais novo, mais baixo, mais fraco e que sequer se dava ao trabalho de apresentar outra expressão além daquele maldito poker face. A veia pulsou ainda mais em sua testa. Normalmente, ele era uma pessoa calma, mas Arthur estava conseguindo irritá-lo.

— Escuta aqui – ele agarrou o menor pela gola do sobretudo, mas, antes que pudesse dizer qualquer outra palavra, Arthur arregalou os olhos, desagradado com como estava sendo tratado.

Os olhos verdes do garoto se tornaram ainda mais brilhantes e, no segundo seguinte, Alfred sentiu seu corpo paralisar e então ser arremessado para trás, fazendo-o cair de bunda no chão encarpetado. O americano nada disse, apenas observou o outro se levantar e caminhar em sua direção, seu sobretudo esverdeado se agitando com os movimentos bruscos que seu corpo realizava enquanto ele andava. Alfred foi então lembrado de como o mesmo havia o impedido de bater nas fadas, simplesmente o segurando pelo pulso.

Arthur não se deu ao trabalho de agachar-se, simplesmente parou diante da figura perplexa e assustada do americano e o encarou de cima.

— Escuta aqui você, – ele começou – eu não tenho que ficar te mimando, ou respondendo as suas perguntas. Você vai ficar quieto, fazer o que eu mandar e então você vai poder ir. Okay?

Não! Nada okay!

Alfred se questionava sobre como Arthur podia exigir tal comportamento de alguém que não tinha a menor ideia do que estava acontecendo. Ele estava confuso, queria respostas e queria ir embora. Eram direitos seus! Mas os olhos do garoto ainda não haviam parado de brilhar, o que o assuntava, e não deixava a Alfred alternativa além de anuir a cabeça, aceitando os termos que o eram impostos.

O som de vozes e do fechar da porta chamou a atenção dos dois garotos, que, simultaneamente, direcionaram seus olhares ao único local de onde poderia ter vindo aqueles sons.

— Ei, voltamos. O Lukas – Vlad parou no meio de sua frase ao ver a cena. Ele piscou duas vezes, suspirou e então disse, calmamente. – Arthur, pare de assustá-lo. Não é assim que tratamos nossos clientes, e você sabe disso.

Arthur nada respondeu, se limitou a bufar e a voltar ao seu lugar. Logo, já estava de volta com a cara enfiada no livro e ignorando tudo e todos ao redor. Alfred decidiu que o preferia assim, agora. Era menos assustador.

Só quando se viu longe do outro é que se sentiu seguro o suficiente para dar atenção ao seu salvador, constatando então que ele não vinha sozinho. Havia agora a aparição de um quarto indivíduo. O recém chegado era um loiro – a concentração de loiros por metro quadrado só aumentava – alto e de corpo robusto, o que, além da ausência de um sobretudo, o diferenciava bastante do resto dos habitantes daquele local que Alfred não sabia se devia chamar de casa. Afinal, ainda não sabia exatamente onde estava.

— Você está bem? – Vlad perguntou, enquanto se aproximava. Ele parecia um tanto preocupado.

— Acho que sim… Fisicamente, pelo menos.

O garoto que acompanhava Vlad estendeu-lhe uma mão, a qual Alfred aceitou, apesar de um tanto receoso. Não sabia bem o que esperar dessas pessoas.

— Sou Mathias – ele se apresentou, ao que Alfred havia novamente se firmado sobre seus dois pés.

— Prazer.

Mathias sorriu para Alfred e, antes que desse conta, suas expressões relaxaram e o americano se viu corresponder o sorriso. Ele parecia diferente dos outros, apesar de Alfred não saber bem o porquê.

— Humanos são realmente interessantes. Como você fez ele relaxar assim tão rápido? – Perguntou Vlad, curioso, depois de observar a cena sem interferir. Mathias, como resposta, apenas balançou os ombros.

— Humanos? – Foi a vez de Alfred questionar.

— Sim. Mathias é um humano comum, como você. Bem, pensando bem, nem tão comum assim, pois ele vive conosco.

Isso explicava muita coisa, concluiu Alfred. Mas ainda havia dúvidas permeando sua mente.

— E o que vocês são exatamente?

— Nós? Lukas, Arthur e eu? – Alfred acenou que sim com a cabeça, e então Vlad continuou – Bem, nos termos humanos da sua época, acho que bruxos é uma definição adequada. Ou feiticeiros...

— Bruxos...

Os olhos radiantes de Arthur e a maneira com que foi arremessado sem ser sequer tocado voltaram aos pensamentos do americano, causando-o um arrepio. Era melhor não pensar sobre o assunto.

— Por que estou aqui? Quando vou poder ir?

Vlad encarou-o por um momento, suas expressões impassíveis, e então voltou a sorrir, com um tom provocativo.

— Começou a confiar em nós?

— Bem... Não é como se eu tivesse escolha.

— Verdade. – Ele riu brevemente e então se virou em direção a Mathias. – Avise o Lukas para servir o jantar assim que possível.

— Certo!

Mathias se retirou, seus passos apressados. Sem problemas, atravessou o falso vão da porta e sumiu. O americano não pode evitar de sentir certa raiva – Ou seria inveja?— por não poder fazer o mesmo.

— Então, – Alfred voltou sua atenção de volta ao garoto vampiresco, seguindo a origem da voz – poderia me ajudar a arrumar a mesa?

Alfred piscou duas vezes e sorriu, dando de ombros.

— Claro.

~#~

Quando Vlad pediu para ajudá-lo, Alfred realmente não viu problemas. Para ter suas perguntas respondidas, ele até mesmo limparia o carpete com uma escova de dentes. Tudo para ir embora. Porém, aparentemente, o “arrumar a mesa” dos bruxos envolvia cadeiras e pratos voando, não sobrando ao americano função além a de um observador abismado.

A magia até que é legal quando não está sendo usada contra você, pensou enquanto olhava o inglês de relance. Não esqueceria o ocorrido tão cedo, mas aquela experiência apenas o fez perceber que não se julga a magia pelo bruxo, pois ela é muito mais do que um meio de arremessar pessoas voando por aí.

— Bem, tudo pronto – Vlad anunciou, batendo palmas e fazendo todo o brilho escarlate que radiava pelo salão se dissipar.

Alfred se arrependeu por ter perdido o espetáculo, mas sabia que não podia fazer nada a respeito. Estava atento à presença de Arthur e não conseguia desviar os olhos dele. Sabia que tinha motivos mais do que suficientes para estar tão alerta, mas preferia poder simplesmente esquecê-lo e fingir que ele não existia, assim como ele fazia consigo. Era revoltante não ser capaz disso.

Vlad apenas se limitava a observá-los, assistindo à cena com um sorriso nos lábios rosados. Era quase como se ele se divertisse com todo aquele atrito.

— Ah! Parece que a comida está pronta! – Vlad anunciou, girando nos calcanhares. Foi logo depois do seu anúncio que Lukas e Mathias surgiram pela não-porta, atraindo os olhares de Arthur e Alfred. – Por que não nos sentamos de uma vez? – Sugeriu, inclinando a cabeça, ainda sorrindo.

Todos se aproximaram e se reuniram na mesa de seis lugares. Alfred escolheu uma das pontas e Arthur a outra, Mathias e Lukas sentaram lado a lado e Vlad optou pela cadeira mais próxima do garoto humano. Tudo ficou em silêncio por alguns segundos até que Lukas decidiu que era sua vez de mostrar suas habilidades mágicas. Seus olhos brilharam uma luz azulada e tudo que ele precisou fazer foi olhar de relance para as bandejas para que todos os pratos fossem servidos. Dessa vez, Alfred não se distraiu, podendo observar atentamente o quão incrível era aquilo que os bruxos chamavam de magia.

— Isso é realmente incrível! – Alfred disse, não se contendo e atacando a comida que tinha em seu prato; estava com mais fome do que pensava.

— Não é?! – Mathias respondeu à euforia do americano com iguais proporções. – É uma doideira! É como dizem: uma chave de roda! E, acredite, você não viu nada do que esses caras são capazes!

— Acho que você quis dizer "mão na roda" – o americano riu, e o outro garoto humano riu junto.

Alfred e Mathias ficaram naquele assunto por algum tempo, não deixando aos bruxos opção além de ouvir a conversa animada dos dois garotos humanos. Não que eles parecessem incomodados. Arthur os ignorava, não que isso fosse uma surpresa. Lukas os ouvia, mas sem pronunciar qualquer palavra. Vlad também ouvia a conversa, ainda se mostrando um bruxo sorridente. Será que seus lábios não ficavam cansados?

— Pera, você está me dizendo que o Vlad monta toda a decoração do lugar em minutos?

— Sim! É muito incrível!

— Puxa, eu queria muito ver isso!

Alfred olhou para o vampiresco ao seu lado, seus olhos radiando com ansiedade. Vlad apenas inclinou a cabeça e falou:

— Desculpe. Impossível. Não posso mudar nada enquanto você estiver aqui.

— Ehh.

— São as regras. – Ele jogou uma mão para cada lado.

— Regras do quê? Quem faz essas regras é um baita estraga prazer! – Alfred resmungou, deitando a cabeça sobre a mesa, onde seu prato estaria se não tivesse saído voando minutos antes.

— É. Eles são meio chatos sim.

— Mas então, você não queria ouvir sobre o que está acontecendo com, sabe, a sua vida? Eu gostaria que você parasse de gastar nosso tempo com bajulação e encheção de saco. Temos mais o que fazer.

— O que disse?! – Alfred se levantou e bateu as mãos contra a mesa, encarando o inglês que estava sentado do outro lado e que bebia de seu café com a maior tranquilidade do mundo.

— Vamos, vamos. Não comecem. – Vlad disse, abanando uma das mãos. – Por que você não se senta, Alfred?

Alfred obedeceu ao pedido do bruxo e voltou a se sentar, mas sem esconder sua irritação para com o comentário de Arthur. Gostava dele cada vez menos. Com os braços cruzados em frente ao peito e um bico desagradado nos lábios, esperou até que alguém voltasse a se pronunciar, que, o que não foi surpresa, foi Vladmir.

— Certo, Alfred, como eu já disse antes, nós três somos bruxos.

— E o Mathias é humano, certo?

— Sim.

— Então o que ele faz aqui?

— Isso não vem ao caso. – Para a surpresa de Alfred, a resposta veio de Lukas. Suas feições impassíveis tornavam impossível entender o que ele pensava.

— Continuando, – Vlad disse, voltando a ser o principal foco da atenção do americano – nós somos bruxos e trabalhamos em função do conselho para manter a ordem.

— Conselho?

— Conselho da Magia.

— Isso existe? Tipo o Ministério da Magia, de Harry Potter e...

O som de uma pancada trouxe a atenção de todos ao inglês, que tinha feições irritadas.

— Da para você parar com as perguntas inúteis e se focar nas coisas realmente importantes?!

Vlad suspirou e, antes que Alfred pulasse por cima da mesa e partisse para cima de Arthur, continuou, soando já um tanto impaciente.

— Então, como eu estava dizendo...

Entretanto, antes que ele pudesse prosseguir com a explicação, Alfred o cortou:

— Por que você se acha tão melhor que eu? E não vá pensar que eu esqueci que você me chamou de verme àquela hora, porque eu não esqueci! Quem você pensa que é para me tratar assim?!

— Bem, certamente não sou um humano fraco e inútil.

— Pelo menos eu não sou um bruxo metido a besta!

— Olha, eu nem teria te conhecido se você não fosse trouxa o suficiente para por a sua própria vida em perigo.

— Eu já falei para parar de – Alfred parou de repente de falar e olhou o outro com olhos arregalados. – Vida em perigo? Como assim?

Alfred piscou algumas vezes e então buscou os olhos escarlates para maiores explicações, que agora o encaravam cheios de impaciência. Vlad suspirou e encarou o garoto humano, o sorriso em seus lábios causando-o um arrepio. Era como se suas expressões dissessem: “Me interrompa mais uma vez e veremos quem consegue te arremessar mais longe”. Alfred achava essa experiência desnecessária, por isso, silenciou-se.

— Alfred, por que você fugiu de casa?

— Ah.. Eu meio que briguei com meus pais – respondeu, depois de um tempo. Não entendia o motivo da tão repentina pergunta.

— Você queria escolher seu próprio caminho? Escolher seu futuro?

— Sim...

— Então você acredita que pode controlar esse tipo de coisa?

Alfred contraiu suas sobrancelhas, claramente confuso. Rodou seus olhos pelos integrantes daquela mesa, mas não conseguiu nenhuma resposta. Eram todos muito enigmáticos. Não conseguia ler suas expressões.

— Acho que sim – respondeu, por fim.

— Errado.

Suas sobrancelhas arquearam. Estava cada vez mais confuso. Porém, naquele momento, optou pelo silêncio; o que se mostrou ser a escolha correta, pois Vladmir prosseguiu com seu discurso poucos segundos depois.

— A sua vida, Alfred, está toda escrita. Claro que não posso te dar detalhes, pois isso feriria as regras.

— Então, destino…

— Sim, o destino existe – Vladmir o interrompeu, completando suas palavras como se fossem suas. – Não apenas existe, como também é o responsável pelo equilíbrio no mundo. Todas as pessoas, de todas as épocas, tem suas vidas traçadas desde o início do mundo, e isso tudo está reunido num livro guardado pela Ordem.

Futurum Scriptum — acrescentou Lukas.

— É Futuro Escrito, em latim, caso você não saiba – Arthur explicou, com um sorriso debochado no rosto.

Apesar dele saber que estava sendo menosprezado e não gostar nem um pouco disso, Alfred se limitou a encarar o inglês com um olhar desagradado. Por maior que fosse sua vontade de começar mais uma discussão, deixou sua raiva de lado e voltou sua atenção de volta ao vampiresco, cuja raiva não desejava incitar.

— Você está dizendo que eu fugi de casa à toa? – Perguntou.

— Bem... – Ele deu uma breve pausa. – Sim.

Alfred escondeu o rosto nas mãos, o peso de sua cabeça sendo suportado pelos seus cotovelos, que se apoiavam na mesa. Ele soltou um suspiro exasperado, respirou fundo e então perguntou.

— Então por que estou passando por tudo isso?

— Lembra quando eu disse que humanos eram idiotas? Eu não estava exagerando. – Arthur parecia satisfeito ao provocá-lo. Talvez fosse falta do que fazer. Alfred desejava mais que tudo que dessem a merda de um livro para ele se ocupar, para ver se ele o deixava em paz. Estava cada vez mais difícil de se controlar.

— Arthur, eu já disse que não é assim que os clientes devem ser tratados.

— Clientes, clientes… – Alfred resmungou. – Não é a primeira vez que você diz isso. O que isso sequer significa? – Ele perguntou, já impaciente.

— Ah, é apenas uma maneira que chamamos aqueles que são nossas responsabilidades.

— E qual exatamente é essa tal responsabilidade?

— Nos certificar que você não vai contrariar o seu destino.

— Ou seja, ter certeza que eu estou agindo da forma que esse livro aí disse para eu agir.

— O livro não é tão específico assim. Porém, há certos pontos de checagem, digamos assim, onde você tem que ter obrigatoriamente cumprido certas ações.

— E eu estou deixando de executar alguma dessas ações e indo contra o meu destino, o que acarretaria na minha morte, certo? – Alfred perguntou, juntando as peças como em um quebra-cabeça.

— Errado – Vlad disse, simplesmente, sua face sorridente como sempre.

— Eu disse que ele era um idiota… – Arthur balbuciou, e aquela foi a gota d’água.

— Dá pra você calar a boca?! – Alfred explodiu, batendo as mãos contra a mesa. O azul do seus olhos se mostravam agitados como uma tempestade. – Você tem sequer noção da situação em que eu estou? Você sabe o choque que tudo isso está sendo pra mim? Deixa eu te contar uma coisa: eu não escolhi vir aqui te encher o saco. Vocês me sequestraram! Eu não pedi por nada disso!

Alfred levou suas mãos de volta ao seu rosto, escondendo-se atrás delas. Sentia seu coração bater veloz e sua cabeça doer. Estava confuso, irritado, impaciente e nunca desejara tanto ir para casa. Se teria que ser um médico ou um advogado para sair daquele lugar e dizer tchau para aqueles bruxos, que assim fosse. Não se importava com mais nada. Seu peito se apertou ainda mais e seus ombros começaram a tremer, soluços escapando de seus lábios antes que pudesse os conter.

Vlad olhou de Alfred para Arthur, que também observava o americano com um quê de surpresa.

— Você fez ele chorar...

Arthur sobressaltou-se e então virou o rosto. Havia certa culpa em suas expressões.

— Mathias, vamos embora. – Lukas anunciou e se levantou, puxando a blusa do outro. O dinamarquês seguiu logo atrás, apesar da sua evidente preocupação.

Vlad também se levantou, gesto que trouxe expressões alarmadas ao rosto do inglês.

— Espera! Aonde você vai? Não pode me deixar aqui com ele! – Arthur reclamou, mas silenciou-se imediatamente ao ver as expressões do colega bruxo. Ele estava sério, e isso certamente não era um bom sinal.

— Desculpe, Arthur, eu tentei, juro que tentei. Mas você deixou seus sentimentos te controlarem e, por isso, não posso fazer nada além de o deixar como sua exclusiva responsabilidade.

— Não pode fazer isso!

— Claro que posso – Vlad assegurou, por fim, antes de também sumir de cena.

Por alguns instantes, Arthur encarou, boquiaberto, a porta por onde todos simplesmente partiram. O que eles pensavam que estavam fazendo, deixando-o sozinho com Alfred? Falando nisso… Receoso, o inglês levou seus olhos à figura trêmula que era agora a sua única companhia. O que deveria fazer com aquilo? Com um suspiro, deitou sua cabeça na mesa, odiando mais que nunca terem-no empurrado aquela função estúpida. Afinal, quem diabos ia querer cuidar de meros humanos?

Queria que o fim de tudo aquilo chegasse logo. E rápido.

~#~

Demorou certo tempo até que Alfred pudesse colocar suas emoções em ordem. Todavia, mesmo depois de já ter retornado ao seu estado emocional habitual ele permaneceu com o rosto escondido nos braços, seu corpo deitado sobre a mesa. O motivo? Arthur. Sentia-se observado por um par de olhos verdes e o que menos precisava naquele momento era da atitude irritante do garoto inglês.

— Hey, por quanto tempo mais pretende continuar com isso?

Alfred o ignorou.

— Não podemos, sei lá, resolver isso de uma vez?

Alfred se perguntava quanto tempo teria que ignorá-lo para que ele desistisse.

— Se você falar comigo, a coisa fica mais fácil. Podemos até adiantar nossa despedida.

Silêncio. Tudo que pedia era por um pouco de silêncio. Por que era tão difícil para Arthur entender como ele se sentia? Tudo naquela situação era bizarra, além de indesejável. Magia era legal, incrível, inclusive, mas ela não era suficiente. Todo aquele lance de destino, de morte, de porta não-porta… Era tudo tão doido e sem noção. Nada daquilo o agradava. Não gostava de não ter o controle do que acontecia com ele próprio.

— Acredite, odeio tudo isto tanto quanto você.

Alfred suspirou e bateu os punhos na mesa. Arthur o estava irritando, e mais do que ele provavelmente se dava conta. Suas palavras eram egoístas e não possuíam sequer um pingo de consideração. Alfred se levantou, com claras intenções de se afastar.

— Aonde vai?

— Não sei! Por que não olha no seu livrinho mágico idiota?

Sem dizer qualquer outra palavra, ou receber alguma, Alfred se encaminhou de volta ao quarto. Jogando seu corpo no colchão, só pedia por uma coisa: para dormir e acordar em seu quarto, em sua própria cama. Pedia para que tudo aquilo não passasse de um sonho estranho.

Desejava sua vida monótona de volta.

Quando tornou a abrir os olhos, o que encontrou foi um par de olhos vermelhos o fitando atentamente. Alfred se sentou na beirada da cama, passou a mão pelos fios desgrenhados de seu cabelo loiro e esfregou os olhos com as costas da mão.

— Dormiu bem?

— Não tão bem quanto eu gostaria.

Vlad olhou para o chão. Ele não sorria.

— Desculpa. Eu não devia ter te deixado com o Arthur.

— É, não devia.

— Vocês não se resolveram, né?

Alfred balançou a cabeça de um lado para o outro.

— Quando eu vou poder ir pra casa? E por que eu vou morrer?

O bruxo inclinou um pouco a cabeça, sorrindo tortamente. Alfred logo percebeu o significado daquele silêncio e daquelas expressões. Ele deu uma risada breve e seca.

— Claro que você não pode me dizer. O Ministério da Magia nunca permitiria. Um mero trouxa, um verme…

Um longo e desconfortável silêncio se seguiu. O bruxo se via numa situação complicada e não via como poderia animar o garoto humano que parecia cada vez mais chateado. Além de que, ele sabia que aquilo não era um bom sinal, pois indicava que não estavam fazendo um bom trabalho com Alfred. Mesmo que tivessem todo o tempo do mundo, prolongar as coisas estava longe de ser uma boa ideia. Afinal, mesmo que as chances de que Alfred se lembrasse do que aconteceria fossem escassas, as feridas feitas a um coração são muito mais profundas.

— Alfred, o Lukas disse que ia nos arrumar uns bolos. Vamos voltar pra sala?

— Não estou com fome.

Vlad suspirou. Alfred não estava ajudando.

— São muito gostosos. Tenho certeza de que vai gostar.

— Vlad. – O bruxo olhou na direção do garoto humano, mas seus olhos logo se viraram para um outro lugar qualquer. Não havia necessidade para que Alfred dissesse qualquer outra palavra, pois seus olhos diziam tudo. O bruxo se levantou e deixou o garoto sozinho, realizando o seu desejo.

A situação pedia por medidas desesperadas.

~#~

Alfred se encontrava deitado na cama, agora vestido com sua própria roupa; a outra fora devidamente socada no armário. Ele olhava o teto, perfeito, sem sequer uma mancha. A aparência era de recém pintado. Realmente não tinha como aquele ser um lugar comum, um lugar real. Alfred se perguntava como não havia se dado conta disso antes. Tudo era extremamente impecável, e não eram assim que as coisas eram realmente. Tudo e todos possuíam defeitos, mesmo que estes fossem muito discretos. Ou era assim que as coisas funcionavam com os humanos, pelo menos.

O som de passos chamou sua atenção, mas não foi suficiente para que ele mudasse de posição. Não tinha interesse pelo visitante. Estava cheio das esquisitices. O que menos precisava agora era de bruxo enchendo-o a paciência.

— Alfred...

— Mathias?

O garoto endireitou-se e se pôs sentado o mais rapidamente que conseguiu. Aquela era uma visita inesperada.

— Vlad disse que você não quer bolo. Como alguém pode não querer bolo?

Ele se aproximou e se sentou ao lado do americano na beirada da cama.

— Tudo bem com você?

— Eu queria poder dizer que sim, mas…

— Mas não é o caso, né.

Eles trocaram olhares silenciosos. Alfred não pôde deixar de pensar em como era bom saber que não estava totalmente sozinho naquele lugar. Entretanto, o pensamento que se seguiu era inevitável.

— Como aguenta?

— O quê?

— Isto! Eles! Este lugar! Tudo!

— Oh. – Mathias bagunçou os fios rebeldes de seu cabelo enquanto pensava no que responder. – Sinceramente, admito que foi estranho no início, mas nunca achei uma experiência desagradável. Eles também não são pessoas ruins, como você parece insistir em acreditar. Acho que simplesmente encontrei o lugar ao qual pertenço.

Mathias tinha um sorriso largo na face. Alfred não conseguia não achar aquele discurso de certa forma incrível, apesar de que ele não tivesse dito nada de mais. Por outro lado, a forma como seus olhos brilhavam era surpreendente.

— E você, Alfred? Onde você pertence?

Os seus lábios se abriram, mas nenhuma palavra foi dita. Alfred não sabia o que dizer, isso porque não sabia bem o que queria. Não sabia se se arrependia ou não de fugir de casa, não sabia se tudo aquilo valia a pena.

— Está arrependido?

— Não sei. – Ele fez uma breve pausa. – Talvez? Quero dizer, eu não queria estar aqui.

— Quer ir pra casa?

— Sim, mas não.

— Como assim?

— Sabe, gosto muito de desenhar. Muito mesmo. É algo que vale o esforço, as longas horas de dedicação. A satisfação de ver o trabalho finalizado e impecável é a melhor sensação de todas. E voltar pra casa… Bem, seria desistir disso.

— Ninguém disse que você teria que deixar de fazer o que gosta.

Os dois garotos viraram a cabeça simultaneamente, seguindo até a origem do som. Não que precisassem ver Arthur recostado à parede para saberem que era ele o recém chegado; seu sotaque era inconfundível.

Alfred sentiu-se franzir as sobrancelhas antes mesmo de ser tomado pela irritação que sempre vinha acompanhada da presença do bruxo. Não precisava de motivos, Arthur o incomodava simplesmente por existir.

— Você por acaso acha que tenho direito a opinião naquela casa?

— Você já tentou de verdade ter sua opinião levada em consideração?

Alfred viu-se parado diante do inglês antes de dar-se conta de que havia se levantado. Seu corpo movia-se sozinho, conduzido pela sua crescente irritação.

— Por que acha que estou aqui? O que você acha que fez com que eu decidisse fugir de casa? – Alfred sequer tentou conter o tom da sua voz, que ecoava nas paredes, transmitindo suas palavras para ouvidos distantes.

— Você fugiu de casa porque é uma criança. Uma criança mimada e que não sabe a diferença de brigar e discutir um assunto. Ser ouvido é diferente de se fazer ser ouvido, Alfred.

Alfred trincou os dentes.

— Você me irrita.

— Hey, acalmem-se. – Mathias se posicionou entre eles, com medo de que mais uma briga se iniciasse.

Arthur fechou os olhos e respirou fundo.

— Você percebe que tudo que sabe fazer é brigar? Isto não é uma discussão. Se quer o meu respeito, e de qualquer outra pessoa, deve começar aprendendo a diferença.

Alfred mordeu seus lábios, engolindo as palavras que tanto desejava dizer. Olhou para o lado, sentindo-se péssimo.

— Eu vou poder ir embora quando entender?

— Não sei. Talvez – Não havia certeza nas palavras do inglês, mas nelas não faltava sinceridade.

Alfred apenas voltou a olhar adiante quando uma mão pousou em seu ombro. Mathias tinha um sorriso reconfortante nos lábios. O americano viu-se encher de uma esperança cuja origem desconhecia. Um sorrio veio aos seus lábios e ele então anuiu a cabeça, decidindo que valia a tentativa. Não tinha nada a perder.

~#~

A tensão na sala não era pouca. Alfred encontrava-se sentado à mesa, Arthur na sua frente. Os demais ocupavam o sofá, a fim de deixar os dois a sós, mas sem conseguir ignorar o silêncio que já durava praticamente dez minutos. A ideia era que eles conversassem e resolvessem seus problemas, mas as coisas não iam nada bem.

Mathias já se preparava para levantar quando teve sua mão envolvida por uma menor, de pele branca e gelada. Olhou em direção a Lukas, que balançou a cabeça de um lado ao outro. Mathias sabia que não devia se envolver tanto, mas ainda assim sentia-se frustrado. Alfred, diferente dele, tinha um lugar para onde retornar, e queria ajudá-lo a voltar para casa, para sua família e amigos, o quanto antes. Alfred não sabia o que era perder tudo aquilo; ele não tinha nem ideia.

Lukas apertou sua mão, como se soubesse exatamente o que se passava em sua cabeça. Mathias sorriu e segurou firmemente a mão do jovem bruxo, que então voltou sua atenção de volta aos garotos que continuavam tão silenciosos quanto antes.

Silêncio esse que acabou por se extinguir da maneira menos previsível possível.

— Sabe, Alfred, eu não queria que você me odiasse.

Todos pareciam surpresos pela escolha de palavras do bruxo, que deixaram Alfred sem reação. O que exatamente devia fazer com aquela informação? Não sabia.

— Não acha meio tarde pra isso?

— Eu sei que não fui o melhor anfitrião…

— Acho que você quer dizer babaca – ele o interrompeu. – Você foi um grandíssimo babaca.

Arthur balançou a cabeça de um lado para o outro, uma atitude que Alfred não compreendeu muito bem. Talvez fosse um tique nervoso, mas ele não sabia dizer. Só sabia que ele não parecia muito confortável naquela situação.

— Okay, eu sou um babaca! O maior dos babacas! Mas… – Ele fez uma breve pausa, na qual suspirou profundamente, seus olhos caindo de volta ao chão. – É que você é tão igual a ele...

— Ele? Ele quem? – Alfred franziu as sobrancelhas. – Por que está me comparando com outra pessoa? Eu sou eu, e mais ninguém!

Arthur remexeu os lábios, talvez escolhendo as palavras corretas a se dizer naquele instante, dentre todas as que desejava dizer.

— Humanos são fracos.

— É, você já disse isso. – Alfred resmungou, impaciente. Ficava cada vez mais claro que aquilo não tinha como dar certo; não quando a outra parte era Arthur.

— Não! Me escuta! Vocês são fracos. Vocês se quebram muito fácil. Vocês não aceitam o destino que tem e tentam mudá-lo.

— Não é como se tivéssemos um script, sabe…

— Tem um motivo para isso.

— Claro…

— Alfred! – O bruxo chamou a sua atenção, e Alfred viu em seus olhos que talvez devesse dá-lo uma última chance. – No seu caso, as coisas serão tranquilas. Um futuro radiante te espera atrás daquela porta.

Alfred piscou algumas vezes, não sabendo exatamente a maneira apropriada de reagir. E apesar que quisesse tratar aquilo como um exagero, não via falsidade nos olhos do inglês. Esperou, em silêncio, que ele continuasse a se pronunciar.

— Mas nem todo mundo tem essa sorte. E se eu te dizer que você tem que matar alguém, o seu melhor amigo ou a sua preciosa família? E se eu te dizer que você tem que se atirar na frente de um trem? Você conseguiria viver sua vida em paz ciente do que o aguarda? Conseguiria, no dia, “seguir o script”?

Alfred, de repente, sentia-se muito mal. Respirou fundo, olhando para o chão por alguns momentos. Arthur também fez uma breve pausa, provavelmente ciente de que nada daquilo era muito agradável aos ouvidos, ou à alma. Ele só continuou quando Alfred voltou a olhar na sua direção.

— É pra isso que existimos. É porque vocês são fracos. Fica assim a nosso cargo ter certeza de que tudo vai se manter em ordem.

Eles ficaram alguns instantes em silêncio, dando tempo para que tudo fizesse sentido na cabeça do americano.

— E onde entra o seu amigo na história?

Arthur pareceu não compreender a pergunta, pois franziu as sobrancelhas.

Ele. – Alfred enfatizou, da mesma forma que outro havia feito um pouco antes.

A face normalmente pálida do bruxo se coloriu de uma forma que não deixou duvidas que a relação deles podia ser descrita como tudo menos amizade. Alfred, de repente, sentia uma grande vontade de rir. Mas conteu-se, a fim de ouvir a resposta de Arthur.

— Aconteceram algumas coisas e nós acabamos discutindo, e ele partiu sem mais nem menos. As coisas ficaram meio sem resolução.

— Não foi atrás dele?

— Eu não tive coragem.

— Se arrepende?

— Eu não diria isso. Quero dizer, eu tenho todo o tempo do mundo. É só eu abrir a porta e ir vê-lo. Mas sei que isso só me faria ficar pior, e eu poderia acabar influenciando no destino dele e de outras pessoas. Seria duplamente ruim.

— Hum, acho que sim.

— E você?

— Nah. Não sou do tipo que se apaixona fácil. Eu até sai com uma garota há uns anos atrás, mas não deu certo. Gosto de privacidade.

Arthur cobriu o rosto com uma das mãos, tentando esconder o rosado que se espalhara rapidamente.

— Não! Não, Alfred! Não é esse o ponto! Ninguém aqui esta falando de amor! Ou romance! Ou qualquer coisa do tipo!

— Oh… – Ele faz uma breve pausa. – Sério? Porque parecia o caso e..

— Arrependimentos, Alfred! Arrependimentos!

— Aaah! Sim, claro…

Arthur descobriu o rosto, que agora apresentava feições sérias.

— Você se arrepende?

— De fugir de casa? – Arthur faz um gesto sutil com a cabeça. – Não sei. É como eu disse. É difícil abrir mão de algo que tanto se gosta. Mas, ao mesmo tempo… Bem, digamos que o ensopado de carne nojento da minha mãe cairia bem agora. – Um sorriso torto surgiu em seus lábios.

— Sabe, Alfred, eu acho que você está levando tudo muito ao extremo. Não existem sempre apenas duas opções: “sim” ou “não”. Existe também o “talvez”, o “podemos tentar e ver no que dá”, entre outros. Já pensou que seus pais podem não negar seu desejo de ser um cartunista?

— Tentativas não faltaram. Eles não são tão mente aberta assim.

— Então você tentou falar com eles?

— Claro!

— Tentou mesmo, ou apenas falou o que queria e, quando ouviu um não, virou as costas e tampou os ouvidos?

— O que está querendo dizer?

— Quero dizer que você tem o péssimo hábito de ignorar as opiniões alheias, sobretudo quando elas não te agradam.

— Isso não é verdade…

Arthur ergueu uma de suas sobrancelhas, seus olhos verdes fixados aos do americano.

— Mas não é, ué! – Alfred insistiu, apesar de saber que não era bem assim que as coisas eram.

Sua mãe sempre teve razão: ele era teimoso e não gostava de ser contrariado. Era um aspecto de sua personalidade que nunca conseguiu corrigir, apesar de saber muito bem que aquele tipo de atitude não era nada bom. Por isso, não conseguia não se sentir desconfortável com Arthur cutucando todas as suas feridas abertas, propositalmente. Sabia que elas estavam ali, não precisa que alguém o ficasse lembrando.

Arthur deu uma breve risada, que fez com que o outro tivesse a face colorida por um leve rubor.

— Ah, qual é! Você tá lendo minha mente?

— Como se fosse necessário. – Arthur respondeu, simplesmente. – Você é tão transparente que nem preciso de uma habilidade como essa.

Ainda mais envergonhado que antes, Alfred virou o rosto. Não gostava de como Arthur conseguia lê-lo como se fosse um livro aberto. Sentia-se exposto. Mas ele não teve muito mais tempo para se sentir embaraçado, pois logo ele voltou a se pronunciar, e o seu tom era o mais sério até então.

— Você é um jovem bondoso e esperto, Alfred.

— Eh. Certo… Bajulação não vai te levar a lugar nenhum. – O americano resmungou, sentindo-se desconfortável novamente. Aquilo era um pouco… embaraçoso, mas de uma maneira diferente.

— Estou falando sério.

Alfred piscou algumas vezes. Arthur tinha o dom de deixá-lo sem reação.

— É por isso que sei que você vai ficar bem.

— Então… Posso ir embora?

— Quanta pressa.

— Bem, um pouco.

— Quer tanto assim esquecer deste lugar? Da gente?

As sobrancelhas do americano franziram, como se aquela pergunta não fizesse o menor sentido.

— O quê? Esquecer tudo? – Demorou um tempo até que as palavras fizessem sentindo na cabeça de Alfred. – É porque vocês me contaram tudo? Porque eu sei da magia?

— Se fosse esse o problema teríamos simplesmente dito nada.

— Então por quê?

Ele balançou os ombros.

— Isso não é a gente que controla.

— Como assim? Não são vocês que apagam nossas memórias? Ou isso tem algo a ver com o Ministério?

— É um efeito colateral. Sabe, não estamos exatamente onde eu disse que estávamos...

— Então onde estamos? No mundo dos bruxos?

Ele negou com um movimento da cabeça.

— Numa zona neutra, e atemporal em relação ao mundo humano.

— Atemporal?

— Sim. Você pode ficar o tempo que quiser aqui e nenhum segundo terá passado no seu mundo.

— Oh… Isso é bom. Acho. Mas... Esquecer? Tipo, poxa! Vou esquecer das nossas brigas? Que decepção! – Alfred tentou disfarçar, mas sua decepção era grande demais para ser ocultadas por simples piadas. O sorriso que ele tentava segurar nos lábios mal se mantinha em pé. No fundo, ele não queria esquecer.

Arthur deu um discreto sorriso.

— Você é realmente muito parecido com ele.

— De novo falando desse cara? Quem é ele, afinal?

Arthur balançou a cabeça de um lado ao outro, um sorriso pertinente em seus lábios.

— Não vai me dizer, hum. – Alfred fez um bico, um sinal de seu desagradado. – Pode ao menos me dizer o motivo de tantas comparações?

O inglês cobriu os lábios com as costas da mão, dando uma baixa risada. Alfred sentiu-se de repente bastante constrangido.

— Dá pra falar de uma vez?! – Perguntou, em um tom irritadiço que sequer serviu para esconder o seu constrangimento.

Em resposta, ele afastou a mão do rosto e a colocou no bolso do sobretudo verde.

— Sabe o que é, vocês são iguais. Totalmente iguais. – Ele falava, sua voz firme, um tanto nostálgica. – Dois humanos completamente insistentes. Nenhum dos dois sabe quando desistir. Teimosos, e atê um tanto arrogantes.

— Não sou arrogante…

Arthur ergueu uma das sobrancelhas e cruzou os braços.

— Sério?

— Sério!

— Fugir de casa e achar que tudo daria certo, como chama isso?

— Otimismo – Alfred respondeu, com um sorriso.

Arthur balançou a cabeça de um lado ao outro e começou novamente a rir. Alfred não sabia que grande piada ele tinha contado, mas estava ocupado demais observando as feições alegres do bruxo para se importar se deveria ou não se sentir ofendido. Antes que percebesse, viu-se contaminado pelas risadas do outro.

Arthur se levantou e se pôs ao seu lado, estendendo uma mão em direção ao garoto humano. Alfred a segurou e se pôs em pé, seguindo atrás do bruxo que o guiava. Tudo que os demais podiam fazer era observar os garotos atravessarem o salão e se dirigirem em direção à porta. Sentiam que deviam deixá-los a sós naquele momento, afinal nenhum deles tinha um vínculo tão forte com Alfred quanto Arthur – apesar de que grande parte do tempo eles mais discutiram que qualquer outra coisa. Aquele momento era deles e de mais ninguém.

Quando finalmente pararam, Arthur colocou-sr de frente a si e, ainda sem largar da mão de Alfred, pronunciou sua despedida:

— Adeus, Alfred. – O sorriso desenhado nos lábios do inglês era sincero.

Depois de largar a mão do jovem, o bruxo afastou-se alguns passos. Alfred,confuso, rodou os olhos pelo salão, recebendo um distante e silencioso adeus dos demais, que ocupavam o sofá. Percebendo então o significado de tudo aquilo, perguntou, um tanto exasperado:

— Mas se eu vou esquecer de tudo, como vou voltar pra casa?

— O seu coração vai te guiar.

— Mas!...

— Vai dar tudo certo, Alfred.

O americano piscou algumas vezes, seus olhos ainda fixos nos do bruxo que o encarava com feições gentis. Não tinha opção além de acreditar nele, apesar de suas palavras não fazerem nenhum sentido na cabeça de Alfred.

Ele rodou nos calcanhares. Seu coração batia acelerado devido à sua ansiedade. Sua mão pousou na madeira maciça e fria, e então foi descendo até alcançar a maçaneta. O som da porta finalmente abrindo trouxe um alívio imensurável ao coração do jovem. Ele respirou fundo e deu um passo a frente, e depois mais um, até que se viu entrar em contato com o portal, que dessa vez o recebeu de braços abertos. Respirando fundo uma última vez, deu mais um passo a frente, sem olhar para trás. Aquele era o momento do adeus.

Sentia-se entranho, como se seu corpo atravessasse um longo e espesso véu. Era bom, uma sensação agradável. Sua consciência foi diminuindo aos poucos até sumir, como se caísse em sono profundo. Ou seria melhor dizer: Acordar de um longo sonho?


~#~

Alfred olhou em volta, não sabendo bem onde estava. Atrás de si, estendiam-se incontáveis fachadas de lojas abandonadas, os vidros quebrados e o estado pior impossível. Estava frio. Olhando para o céu, viu a Lua olhar para si. Sentia esse estranho vazio no peito, apesar de não saber o porquê. Era uma sensação ruim e que desejava não possuir, como se tivesse esquecido de alguma coisa importante.

Caminhando alguns passos pela rua escura, Alfred se viu percorrer becos mais escuros que a noite. A cada mínimo ruído, agarrava sua mochila contra o peito. Por que mesmo estava fazendo aquilo?

Estava frio e seu corpo implorava por uma cama macia e uma boa noite de sono. Seu cansaço o abalava. A sensação que ele tinha era de que o dia havia sido muito maior do que normalmente. Talvez fosse por causa do estresse, cogitou.

Continuou andando, perdido naquelas ruas que o assustavam cada vez mais. Não sentia fome, mas, por algum motivo, queria comer a comida normalmente horrenda de sua mãe. Abraçou a sua mala e continuou andando, sorrindo um pouco.

— Casa…

Não demorou muito mais até que ele avistasse uma luz brilhante no caminho a sua frente, ao longe. Civilização. O sorriso em seus lábios se alargou. Ele suspirou profundamente antes de acelerar os passos.

Estava na hora de ir para casa. Sentia que a noite também seria longa, e se possível gostaria de ter uma boa conversa com seus pais.

Ainda não havia desistido de seus sonhos, mas, quem sabe… Talvez ouvir o que eles tinham a dizer não fosse uma ideia tão ruim assim.

Notas finais
Muito obrigada por terem dedicado um pequeno momento do seu dia com esta minha fanfic. Espero, sinceramente, que tenham gostado. Quem tiver algo a dizer, reviews me fazem feliz, inclusive críticas (críticas construtivas, claro!). E, Hikaru Yukina, espero que tudo esteja de acordo com o seu desafio. Não sei se era algo assim que você esperava, mas espero que tenha agradado. :) Boas festas a todos! BJJS~ ♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.