Le parkour: o percurso
8 Capítulo 8
Notas iniciais
No dia seguinte, William foi para o metrô, mas não havia sinal dela. Então, ele foi para o parque. E depois para a praça. E o cinema. E cada lugar em que ele tinha estado com ela. Emily não estava em lugar nenhum. E isso se repetiu nos três dias depois daquele.
No quinto dia, Emily levou o maior susto ao sair do banho e dar de cara com ele.
Will estava parado em pé no meio do quarto, de braços cruzados, olhando para ela. Ele vestia uma camiseta azul, sua jaqueta e calça jeans. Ela estava só de roupão, com os cabelos meio pingando. Ela sentiu-se corar intensamente e puxou a frente do roupão para se cobrir mais.
— Will?!
— A janela estava aberta. — Ele estava muito sério.
— Como você...?
— Descobri onde fica o seu apartamento? Minha mãe é Ordenadora*. Não existem muitas almas chamadas “Emily” em San Francisco.
Ela ficou calada, olhando para ele. Ele suspirou e descruzou os braços. Seus ombros também pareceram cair um pouco, e ele perdeu toda a pose. Quando ele reergueu os olhos para ela, sua testa estava vincada de angústia:
— O que aconteceu, Em? Por que você sumiu?
Pela voz, ele parecia tão triste que ela teve vontade de correr e abraçá-lo. Ela sentia o coração batendo mais forte só de olhar para ele e as palmas de suas mãos estavam geladas. Ela mordeu o lábio com força, de repente sentindo vontade de chorar.
— Em? — Ele deu um passo na direção dela, erguendo a mão como se fosse tocar seu rosto, mas parou. — Foi por causa do beijo? Eu... Eu ofendi você? Eu sinto muito! Eu só... — Ele deixou a mão cair, impotente. — Eu pensei que você se sentia da mesma forma.
— Não é isso! Eu sinto! — Ela atropelou as palavras.
— Sente? — Ele franziu as sobrancelhas.
Ela ficou apenas olhando para ele, e lágrimas surgiram em seus olhos. Quando a primeira delas escorreu, William deu mais um passo na direção dela:
— Por favor, Em... Me explica! Isso está acabando comigo. Seja lá o que for... Só me conta!
Ela correu em direção a ele e atirou os braços em torno de seu pescoço, abraçando-o.
— Em?
Ela soluçou. Ele retribuiu o abraço e a apertou com força contra o peito.
— Por favor, Em... Eu te amo tanto!
Ela o afastou para olhar para ele, arregalando os olhos. Ele sorriu de leve, embora sua testa ainda estivesse vincada de preocupação:
— Eu te amo!
— Ah, não, Will...! — Ela o abraçou de novo.
— “Não”? — Ele pôs a mão na cabeça dela, puxando-a em direção a si. — Por que “não”?
— Isso não podia ter acontecido... — Ela ainda chorava muito.
— Por que não...? Você... Não se sente assim? É por isso?
— Não! — Ela escondeu o rosto no peito dele. — Não, não é isso! Eu... Eu também te amo! Muito!
Ele a afastou gentilmente e puxou o rosto dela para que olhasse para ele:
— Então qual é o problema?
Ela ficou apenas olhando nos olhos dele por um momento, mas as lágrimas não paravam de embaçar sua visão.
— Em?
— Eu estou morrendo, Will.
Ele a soltou, dando um passo para trás com o choque.
— O quê? — Ele sussurrou.
Ela escondeu o rosto nas mãos, soluçando alto. Parecia tão absolutamente infeliz, que William sentiu os olhos ficando marejados também. Ela não estava brincando.
— C... Como assim “morrendo”? O que você quer dizer?
Ela não respondeu. Ele se aproximou e a abraçou de novo. Ela enterrou o rosto no peito dele, agarrando sua camiseta com força, e continuou a chorar. Ele deixou que ela permanecesse assim por longos minutos, vendo que seria inútil tentar exigir mais dela. Quanto mais tempo se passava, mais as palavras dela iam adentrando em sua mente, e mais o peito dele doía. Quando sentiu que não podia aguentar mais, ele a guiou gentilmente até a cama e fez com que ela se sentasse.
— Emily...? Calma, respire... Por favor, me explica isso direito. O que há de errado com você?
Ela tentou respirar fundo, mas o ar parecia não vir direito. Ela soluçou de novo.
William fez um sinal para que ela esperasse e foi até o banheiro. Ele voltou trazendo uma toalha de rosto e uma caixa de lenços de papel. Ela assoou o nariz e enxugou o rosto e respirou fundo. Depois, olhou para ele, com um pedido de desculpas no olhar:
— Eu estou doente, Will.
Ele afastou uma mecha do cabelo dela de seu rosto e a colocou por trás da orelha.
— Doente como?
Ela soluçou de novo e passou a mão para limpar uma lágrima.
— É difícil de explicar... É uma doença autoimune degenerativa. — Ela fez uma pausa. — Isso quer dizer que este corpo... Meu corpo... Está se destruindo de dentro para fora. Dia após dia.
Ele assentiu gravemente. Ela estranhou a reação dele, quase fria.
— Mas... Você já procurou um Curandeiro? Tenho certeza de que existe uma cura. Como a cura para a lúpus, por exemplo. Ela também é uma doença autoimune... Fico surpreso que eles tenham te dado esse corpo sem...
— Não, Will! — Ela o interrompeu, porque cada palavra dele parecia enfiar uma agulha em seu coração. — Não... Não existe cura.
— Isso é ridículo! É claro que existe cura, Em! A medicina pós-colonial... Nós podemos curar qualquer coisa!
— Você não entende... Não é tão simples assim. Este corpo rejeita todo o tipo de tratamento.
— Como assim?
— Este corpo deseja a morte, Will. É por isso que não há cura. Quando os Curandeiros encontram a solução para um problema, as células de defesa dele começam a atacar outro lugar. E depois outro, e depois outro.
— Eu não entendo.
Ela o encarou. Os olhos dele brilhavam com uma expressão determinada, como quando ele estava pensando em como realizar um salto particularmente difícil. Emily começou, num tom gentil:
— Emily Seinfield tinha acabado de completar vinte anos de idade, e já estava cansada da vida. Seus pais eram ambos humanos.
— “Seinfield”? Ela não seria filha do...
— Brian Seinfield, sim. O famoso astro de Hollywood. Eles tinham os mesmos olhos, não é? O mesmo nariz...
William estendeu a mão para tocar o rosto dela. Agora que ela falava, a semelhança era impressionante.
— Mas a cor dos cabelos, ela puxou da mãe... — Ela continuou.
— Barbra Levigne. A cantora.
Emily assentiu.
— Os pais de Emily nunca lhe deram muita atenção. Eles se divorciaram quando ela ainda era pequena demais para entender o que estava acontecendo. E depois disso, eles viviam brigando. Emily passou boa parte de sua vida em tribunais, com juízes lhe perguntando quem ela amava mais e tudo isso. Do lado de fora, mares de repórteres, todas as vezes. Tudo isso a assustava muito. No fim das contas, a resposta para a pergunta do juiz, se ela fosse ser sincera, seria “nenhum dos dois”.
Ela se calou por um momento, enquanto a enxurrada de memórias da hospedeira oprimia seu peito. William pegou a mão dela entre as suas. Estava gelada.
— Eu nunca me incomodei em acompanhar notícias de famosos... Mas ouvi falar que Emily foi uma adolescente um tanto problemática...
Ela assentiu e tirou a mão da dele. Ela estendeu o braço esquerdo e puxou a manga do roupão para cima. William arregalou os olhos ao ver a grande cicatriz que havia ali.
— Quando eles restauraram o corpo para passá-lo para mim, já não havia mais como apagar essa cicatriz, de tão antiga que ela era. Emily começou a se cortar quando tinha doze anos de idade. Diferente da maioria das pessoas, que vai fazendo cortes em toda a extensão do braço, ela cortava apenas o pulso, repetidas vezes... Mas nunca fundo o suficiente para atingir um vaso realmente importante. Apenas o suficiente para que a dor física fosse maior que a dor que ela sentia por dentro.
William passou o dedo de levinho pela cicatriz. Emily sentiu-se arrepiar completamente, uma sensação agourenta.
— Foi com essa idade também que Emily começou a se vestir apenas de preto e a jogar o cabelo na cara, como uma forma de se defender contra o mundo... E também de tentar chamar a atenção. Mas era como se ninguém pudesse vê-la. Ela estava o tempo todo aparecendo na televisão e nos jornais, mas isso só fazia com que se sentisse mais invisível ainda para quem realmente importava. — Ela engoliu em seco.
— O que aconteceu com ela?
— O pai dela só brigava com ela. A mãe passava mais tempo em turnê do que em qualquer lugar a seu alcance, e quando elas se viam, ela só sabia criticá-la. Nada que Emily fosse ou fizesse parecia suficiente para seus pais. E como ela era educada em casa, não tinha amigos da escola... Ou qualquer tipo de amigo com quem pudesse desabafar. Aos poucos, Emily foi percebendo... Foi sentindo que não havia mais motivos para viver. Ela olhava para seu futuro, e não via nada. Não tinha nenhuma perspectiva. Nenhum sonho, nenhum desejo... Ela se sentia completamente vazia.
Ela parou, respirando fundo. Os soluços voltaram, e ela estava começando a chorar de novo. William a abraçou e beijou o alto de sua cabeça. Ela se aninhou nos braços dele.
— Foi então que ela começou a rejeitar a vida com todas as forças. Começou a cortar cada vez mais fundo... Tentou tomar uma overdose de Corta Dor uma vez. Na outra, ela tentou se envenenar com veneno para rato. Foi parar no hospital várias vezes. Ela toda era um grito de socorro, para quem quer que olhasse. Mas o pai dela não queria ver. Ele apenas brigava com ela, mas não fazia nada a respeito. Vários Confortadores se ofereceram para falar com ela, tentar ajudar... Mas Brian dizia que a filha dele não era nenhuma alienígena e não precisava de Confortador nenhum. Até que um dia Emily decidiu tomar uma atitude realmente drástica.
— O que ela fez?
— Ela queria que Brian se sentisse culpado. Queria assombrá-lo para o resto da vida. Então ela decidiu... Brian tem em casa uma piscina bem grande, onde ele nada todas as tardes, mesmo nos dias de neve. É uma piscina bem funda. Na parte mais profunda, chega a ter cinco metros de profundidade. Emily escolheu aquele lugar para morrer. Ela queria que o pai nunca mais fosse capaz de nadar ali. Que vendesse a casa, porque não seria capaz de aguentar as memórias terríveis dela.
“Então ela comprou uma bigorna pequena, mas bem pesada. Com uma corda resistente, ela a amarrou ao calcanhar. E se atirou dentro da piscina.
— Ela tentou se afogar?
— Sim. — Emily estremeceu. — A morte por afogamento é uma coisa terrível. A pressão da água sobre seu corpo fica insuportável depois de um tempo. A sensação da água invadindo seus pulmões, tomando conta, seu corpo se contorcendo para tentar resistir... É como se cada músculo seu se contraísse numa câimbra total, quando o oxigênio deixa de entrar. É uma sensação horrível. Enquanto ainda estava consciente, o último pensamento de Emily foi de arrependimento.
— Mas você... Ela...?
— Não morreu. Realmente. Emily não contava que o jardineiro de Brian estivesse passando por ali para buscar uma tesoura. Ele viu uma agitação estranha na água da piscina e se aproximou para olhar. Quando ele viu o vulto preto lá embaixo, soube que só podia ser Emily. Ele pulou para resgatá-la e quase se afogou também enquanto tentava desfazer o nó da corda. Por fim, ele conseguiu, mas acabou quebrando a perna de Emily no processo. De qualquer forma, eu não tenho lembranças disso.
“Os paramédicos foram chamados imediatamente. Um dos empregados da casa sabia RCP** e fez o possível para reanimar Emily, mas ela havia passado tempo demais debaixo d’água. Eles conseguiram que ela voltasse a respirar debilmente, mas ela não acordou.
“No hospital, Emily sofreu três paradas cardíacas e teve de ser reanimada, até que os Curandeiros conseguiram normalizar os níveis de oxigênio em seu corpo e reavivar plenamente seu coração, além de limpar seus pulmões. Depois disso, eles esperaram por seis meses... Mas Emily jamais saiu do coma.
“Quando eles perguntaram a Brian se ele autorizaria a doação do corpo de Emily para servir de hospedeiro para uma alma... Ele... Ele respondeu ‘eu não tenho filha’.
Emily parou, soluçando. As lágrimas não paravam de escorrer de seus olhos, e elas pertenciam a ambas, ela e a hospedeira.
— E aí eles implantaram você no corpo dela.
Ela assentiu.
— E é claro que você tem mantido a maior distância possível de Brian e Barbra, que fizeram que Emily sofresse tanto.
Ela concordou com a cabeça de novo.
— Eles não fizeram testes com o corpo antes de implantar você? Para saber se era seguro?
— Fizeram, é claro que fizeram... E nos primeiros meses, realmente era seguro. Apesar das lembranças terríveis... — Ela estremeceu. — Este corpo parecia tão bom quanto qualquer outro que eu já tive. Quero dizer, os corpos humanos são difíceis de administrar... As emoções de vocês são muito intensas. Isto... O amor... Não existe nada nem de longe parecido com isto nos planetas em que eu já estive. Existe o amor fraternal, altruísta, típico das Almas... Mas isto... — Ela olhou para ele, e ele sustentou o olhar.
Devagar, para não assustá-la, ele se aproximou e beijou seus lábios suavemente. Ela piscou, surpresa, e sorriu levemente para ele. Ele retribuiu o sorriso e lhe deu um beijo na testa.
— Quando você começou a sentir que estava doente?
— Acho que foi no quarto mês depois de ter sido implantada. Meu corpo parou de obedecer, mas não havia sinais de resistência da hospedeira. Eu nunca ouvi a voz dela em minha mente, como outras almas relatam. Emily nunca falou comigo.
— Por que você manteve o nome dela?
— Uma homenagem. Eu fiquei muito, muito triste quando soube de sua história. Achei que ela merecia ser lembrada de alguma forma.
— Entendi. E o que os Curandeiros disseram quando você os procurou?
— Eles ficaram perplexos. Não era para isso estar acontecendo. Eles fizeram uma série de exames, tentaram um monte de coisas... Foi horrível, Will. A cada dia uma coisa diferente dava pane. Meu rim, depois meu coração, meu pulmão... Um dia, meus cabelos caíram todos. No outro dia, eu não conseguia mover minhas pernas. Eles me restauravam repedidas vezes, mas as células de defesa deste corpo continuavam a atacá-lo... Não a mim. Não é a minha presença que este corpo rejeita. É a própria vida. Acho que o desejo de morrer de Emily era tão forte que... Você está chorando, Will? — Ela estendeu a mão para o rosto dele para aparar uma lágrima.
— Estou... Imaginando... Mas não entendo. Você... Agora... — Ele correu os olhos, olhando-a de alto a baixo. — Você parece tão bem, o quê...?
— Eles encontraram uma droga... Muito forte. Ela consegue ao mesmo tempo restaurar as células danificadas e diminuir meu metabolismo, retardando os novos “ataques”. Foi o melhor que conseguiram fazer. Só assim eu pude deixar o hospital, dois meses atrás... Quando você me encontrou, fazia uma semana que eu estava tomando essa droga.
— Em Yosemite? Era... Por isso que... Você ia...?
— Tentar me matar? Não! Eu realmente queria conhecer mais a natureza. Fazer trilha. Já que meu tempo na Terra está acabando, eu queria ver mais deste planeta.
— Acabando? Que quer dizer? Eu pensei que essa droga...
— Ela é muito forte, Will. Quanto mais eu tomo, mais preciso tomar. Vai chegar um momento, pelo que eles me disseram, que ela vai começar a ter o efeito inverso, e só vai me intoxicar mais. Esta manhã, eu precisei tomar cinco pílulas. Quando te conheci, eu tomava apenas uma. O Curandeiro disse que podia ser que os exercícios estivessem acelerando meu metabolismo de novo, mas eu não quis parar... Porque eu não queria ficar longe de você.
— Você podia ter me dito! — Ele praticamente gritou, e mais duas lágrimas escaparam de seu controle.
— Não! O que nós fizemos... William, tudo o que eu mais queria era ter a chance de me sentir humana, de compreender o que significa ser humana, antes de deixar este planeta e... E... — Ela se interrompeu, mordendo o lábio e desviando o olhar. — E você me deu isso. — Concluiu, voltando a olhar para ele. — E eu vou ser eternamente grata.
— Não! Não, eu não... Eu não admito! — Ele se levantou da cama, agitado. — A medicina das almas... Ela é a coisa mais avançada que existe! Ela é perfeita! Tem que existir uma cura! Você já tentou outros Curandeiros? De repente, esse seu Curandeiro não conseguiu, mas...
— Will, eu tentei centenas de Curandeiros! Curandeiros dos Estados Unidos... Não, do mundo inteiro se ofereceram para vir aqui estudar o meu caso! Eles realmente fizeram tudo o que podiam, mas não conseguem lutar contra a determinação...
— Não! Deve haver outros! Deve haver alguém capaz de curar você! Eu... Eu vou atrás dessa pessoa! — Ele tirou a jaqueta e a atirou ao chão como se estivesse disposto a fazer aquilo naquele exato momento. — Não importa onde ela esteja! Vou até a Austrália, até a China, aonde for, eu...
— Fords Águas Profundas veio me ver, William. Não há solução.
O nome teve o efeito que ela sabia que teria. William se deixou cair sentado na cama de novo, olhando para ela com os olhos arregalados em choque. Fords Águas Profundas era considerado por muitos o melhor Curandeiro do mundo. Ele já estava em sua quarta vida humana, e dizia que permaneceria na Terra até o fim de seus dias, ajudando a todos que precisassem dele e fazendo com que a medicina se aprimorasse cada vez mais.
— Eu sinto muito, Will... — Ela se aproximou e o abraçou. — Eu não podia deixar que você se envolvesse tanto comigo. Foi um erro muito grande. Uma coisa é eu me ferir, outra completamente diferente é deixar que você se ferisse também. Eu... — Ela sentia um nó em sua garganta. — Eu fui terrivelmente egoísta. Eu nem sou digna de ser uma alma, eu...
— Mas você não precisa ir embora! — Ele a interrompeu, olhando para ela com olhos desesperados, dos quais lágrimas não paravam de escorrer. — Você... Você pode mudar de corpo. Eles podem implantar você no corpo de uma velhinha, ou... Ou de um cara, ou...
Ela sorriu gentilmente para ele em meio às lágrimas:
— Você não se importaria se eu fosse um cara?
— Não! Quero dizer, seria meio... Muito estranho. Mas eu amo você, Em! Não o seu corpo. Você!
— Ah, Will... — Ela o abraçou, e ele a apertou com força. — Eu não posso.
— Por que não? — Ele a afastou para lhe lançar um olhar suplicante. — Eu tenho certeza de que eles podem arrumar outro corpo para você! Afinal, não é sua culpa eles terem te dado um corpo com problemas, então não é justo...
— E impedir que uma de minhas irmãs tenha a oportunidade de conhecer esse planeta maravilhoso que é o seu, Will? Eu não poderia! Os hospedeiros humanos estão se tornando cada vez mais raros. Exceto por algumas vítimas de acidente, alguns voluntários... Se continuar nesse ritmo, não demorará muito para que a última alma parta daqui. Talvez dentro de um século, este planeta será de novo só de vocês. Então, eu não poderia negar a outra alma a chance de conhecer a Terra... O lugar mais maravilhoso do universo.
— Por que não? Você pode! Você chegou aqui primeiro!
— Isso seria a coisa mais egoísta do mundo! Eu não posso, Will! Eu sou uma alma! Isso vai completamente contra a minha natureza, contra tudo o que eu sou. Eu posso contar uma mentirinha para dois Curandeiros para proteger alguém que eu amo. Mas não posso me forçar a ser egoísta e negar uma dádiva tão grande para uma alma irmã.
William balançou a cabeça e começou a soluçar. Ele vinha se contendo, mas não conseguiu mais. Ele enterrou o rosto nas mãos. Emily o abraçou, sentindo o coração partido ao vê-lo daquela forma.
— Eu sinto muito, muito mesmo, Will...
Ele se virou e a abraçou com tanta força que chegou a doer, mas ela não o afastou.
— Quanto... Quanto tempo nós temos?
Ela precisou engolir em seco três vezes antes de falar:
— Eu vou partir dentro de três dias.
Ele a apertou ainda mais quando a dor apunhalou seu coração.
— Para onde você vai...?
Ela hesitou, e William sentiu quando o corpo dela enrijeceu com a tensão.
— Eu não sei ainda. T-Talvez... O Mundo Cantor, onde eu nasci... — Ela começou a acariciar os cabelos dele, tentando acalmá-lo apesar de ela mesma se sentir a mais infeliz das criaturas. — Quer saber meu nome? O que eu tinha antes, quero dizer?
— Quero...
— Melodia Suave e Harmoniosa. Mais ou menos isso. Apesar de a linguagem humana não ter as palavras exatas.
— Combina com você.
Ela sorriu, um sorriso triste.
— Obrigada.
— Se a vida fosse justa... — Ele soluçou. — Se a vida fosse justa, nós seríamos felizes para sempre... Até o fim da minha vida.
— Ah, Will...!
— Nós iríamos nos casar... Teríamos um monte de filhinhos humanos... E nos finais de semana, eles seriam as crianças mais incríveis do parquinho, porque eu ia ensinar parkour para eles desde o berço.
— Will...! — Ela não sabia se sorria ou se chorava.
— E quando eles fossem maiorzinhos, nós íamos sair por aí saltando nos prédios da cidade. E íamos ficar conhecidos como a família mais insana de San Francisco.
Emily riu de leve. William sorriu entre as lágrimas.
— Pense só... Nós íamos voar por sobre a cidade, e as pessoas lá embaixo iam ficar olhando... E correndo para nos acompanhar. Correndo, correndo...***
Por alguns minutos, os dois ficaram em silêncio, imaginando. E nenhum dos dois conseguiu evitar sorrir por entre as lágrimas. Mas a tristeza logo os atingiu ao perceber que aquilo agora era apenas um sonho distante. William se afastou, já tendo parado de chorar e respirou fundo, fechando os olhos.
— Will?
— Não há nada que eu possa fazer, há? Para te convencer a ficar?
— N... Não.
— E se eu tentar implorar... Só vai ser mais difícil para você.
— Vai.
Ele suspirou, fechando os olhos com força para conter a dor.
— Nesse caso... Eu só tenho uma coisa a te pedir.
— Sim?
Ele reabriu os olhos e pegou a mão dela, segurando-a com força entre as suas, e esperou até que ela olhasse para ele:
— Por favor, não se afaste de mim. Por favor... Ainda que seja só durante esses três dias... Me deixe amar você, Em.
— Ah, Will... Não é justo com você. Depois, quando eu partir, só vai... Só vai doer mais, e você... Você não merec... — Ele a calou, pondo o dedo indicador sobre seus lábios.
— Quem vai ter que lidar com o depois sou eu, não você. Eu tenho o direito de escolher. E a minha escolha está feita. Então, a menos que você não ache que eu sou digno de você... Por favor, Em. Me deixe amar você.
Emily sentiu os olhos se enchendo de lágrimas de novo enquanto o coração se acelerava e garras frias pareciam arranhar o interior de seu estômago. William esperou pelo que pareceu uma eternidade, até que finalmente ela assentiu bem devagar. E então ele a beijou avidamente, e ela retribuiu, ou tentou retribuir, embora estivesse meio assustada e não soubesse ao certo o que fazer. Ela sentiu quando William sorriu levemente e diminuiu o ritmo, pressionando os lábios dela mais gentilmente, movendo os dele lentamente, como que para guiá-la. Ela o imitou, acompanhando-o como se estivessem dançando. Foi muito, muito doce, e quando eles precisaram se afastar para respirar, estavam ambos sorrindo. Ele beijou o rosto dela e se levantou.
— Will? — Ela observou enquanto ele se abaixava e pegava sua jaqueta do chão. — Você... Vai embora agora? — Ela perguntou sem pensar, e mordeu o lábio em seguida, percebendo o que ele provavelmente ia pensar. Ela sentiu-se corando levemente, mas não desviou o olhar.
— Eu? — Ele atirou a jaqueta na cadeira que havia em frente à escrivaninha dela, a um canto. Depois, se abaixou e desfez o cadarço do tênis com um puxão. — Eu não vou a lugar algum, pelos próximos três dias. — Ele soltou o outro tênis e se livrou dele com um chute.
Ela começou a sentir um leve tremor, uma mistura de medo e excitação, ao vê-lo se aproximando dela, agora já descalço.
— Mesmo porque... — Ele pôs a mão gentilmente atrás da cabeça dela, puxando-a para trás. — ...ainda há uma coisa ou duas que eu posso te ensinar sobre o corpo humano.
— Há...? — Ela podia sentir o rosto esquentando e sua pulsação se acelerando cada vez mais. Estava começando a respirar mais rápido, como se o controle do oxigênio tivesse deixado de ser automático.
Ele abriu um sorriso torto para ela e seus olhos faiscaram. Ele a beijou de novo, ainda gentilmente, mas um pouco mais intensamente. Sua língua abriu caminho entre os lábios dela, ao mesmo tempo em que ele a empurrava, fazendo com que ela se deitasse na cama. Emily não sabia o que fazer, enquanto uma onda de sensações diferentes tomava conta do corpo dela, sensações que ela nunca havia experimentado antes. Na verdade, aquele corpo parecia reagir quase que independentemente dela, enquanto seus dedos se agarravam aos cabelos da nuca de William, e suas pernas a empurravam mais para perto da cabeceira da cama, dando mais espaço para ele.
Quando os lábios de William deixaram os dela e desceram para seu pescoço, ela sentiu-se arrepiando por completo, mas diferente dos outros que ela havia sentido, aquele arrepio era bom.
— Will?
— Shh... — Ele se aproximou para sussurrar no ouvido dela. — Apenas relaxe... — Ele mordeu de levinho o lóbulo da orelha dela, provocando outro arrepio, enquanto agilmente desfazia o nó que prendia o roupão dela. Ela quis resistir, mas não pôde evitar um gemido baixinho quando a mão dele agilmente percorreu toda a extensão de seu corpo, deslizando para a parte de dentro de sua coxa, enquanto os lábios dele já estavam de volta aos dela, sedentos.
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