Le parkour: o percurso
6 Capítulo 6
Notas iniciais

San Francisco General Hospital
Foi sorte eles terem escolhido aquele dia para treinar no metrô, porque estava chovendo muito quando William saiu de casa. Felizmente, como ele se lembrava, a rampa que dava acesso ao metrô, onde ele queria treinar, era coberta. Quando ele chegou lá, Emily já estava esperando. Ela estava com uma blusa de moletom cinza de mangas compridas e parecia estar com frio.
— Will! Você não se afogou!
— Não, só quase. Que chuva do além é essa, em plena primavera, minha gente?
— Pois é! Está parecendo Washington!
Ele pôs o guarda-chuva no chão, encostado na barra lateral da rampa, e abraçou Emily.
— Tão quentinho...
— Ah! Nossa! É mesmo! — Ela o afastou e tirou a mochila das costas. — Sua jaqueta! Ficou comigo ontem!
— Ah, que ótimo! Passa esse negócio para cá!
Ela estendeu a jaqueta para ele. Estava passada e dobrada.
— Ei, não precisava ter passado! Valeu! — Ele a desdobrou e vestiu.
— Não foi nada. Obrigada por me emprestar.
— Sem problemas. E aí...? Pronta para isto? — Ele bateu de levinho na barra.
— Hnm... A gente não devia fazer um aquecimento primeiro?
Ele bufou, impaciente.
— Eu acho que eu te ensinei bem demais, sabia? Tudo bem. Você tem razão. Vamos dar uma de malucos correndo pelo metrô.
Dizendo isso, ele piscou para ela e começou a correr rampa abaixo, atraindo todos os olhares. Ela sorriu de leve e o seguiu.
~~ ♦ ~~
Alguns minutos depois, já tendo feito os devidos alongamentos, eles pararam de novo no topo da rampa. Emily ficou olhando ansiosa, com medo.
— Tudo bem... Primeiro as damas?
— Eu... Uh... Acho que preciso observar o mestre e aprender primeiro.
William riu.
— Tudo bem. Sensato.
Ele correu e pulou o espaço entre os dois lados da rampa, agarrando-se na barra do outro lado. Depois, ele saltou para o chão, aterrissando de leve, com os dois joelhos dobrados. Ele olhou para cima:
— Vamos lá! É só um metro e quarenta de largura!
Emily respirou fundo e o imitou. Só quando pôs os pés de novo no chão, caindo ao lado de William, foi que ela entendeu o que tinha acabado de fazer. Uma mulher loira de casaco passou olhando para ela de um jeito esquisito.
— Viu? Você conseguiu! Agora vamos fazer coisas realmente legais. — William correu para subir de novo até o ponto mais alto da rampa e saltou de novo, desta vez agarrando a barra com apenas uma mão e fazendo um giro para cair do outro lado, ainda na parte de cima.
Emily correu para lá e começou a tentar alguns saltos artísticos também, embora menos elaborados que os dele.
Durante cerca de meia hora, tudo correu bem. Os dois estavam se divertindo, saltando e rindo dos olhares estranhos que as pessoas lhes lançavam. Até que aconteceu.
Emily decidiu tentar mais uma vez o salto do gato, que ela já tinha feito pelo menos umas dez vezes. Afinal, esse é o princípio do parkour: fazer a mesma coisa mil vezes, até ser capaz de fazê-la perfeitamente. Pensando nisso, ela respirou fundo e correu, preparando-se para saltar. Mas no momento do salto, ela errou a distância e se antecipou. Por causa disso, seu pé se prendeu na barra, e ela despencou os três metros em direção ao subterrâneo, caindo com tudo na rampa.
— Emily!! — William correu até ela, quase caindo ao tentar descer rápido a rampa, que estava molhada em alguns pontos.
Assim que a adrenalina se dissipou, Emily começou a sentir uma dor muito forte no braço direito. Ela tentou se apoiar para levantar, e não conseguiu evitar um urro de dor. Estava quebrado com certeza. Ela ergueu a cabeça devagar, e o que viu fez seu estômago revirar e a dor se tornou ainda mais forte. Parte do osso dela estava exposto, com uma ponta afiada aparecendo em meio ao músculo e ao sangue.
— Abra a boca! — William praticamente gritou. Ela obedeceu, e logo sentiu a dor se dissipando quando ele pôs o quadradinho de Corta Dor em sua língua.
— Will...
— Fique parada! Eu vou chamar uma ambulância!
Ele parecia muito transtornado. Suas mãos tremiam enquanto ele pegava o celular e discava o 911. Ele não tirava os olhos do braço dela, franzindo a testa angustiado. Ela evitava olhar para lá, mas estava preocupada com o sangue. Estava sangrando muito. Várias pessoas se juntaram ao redor deles, para ver o que estava acontecendo.
— Sim, na estação! Por favor, venham o mais rápido possível! Obrigado! — Ele desligou o celular.
Uma senhora que se aproximou para ver o motivo da comoção desmaiou, e um homem alto de cabelos escuros que estava ao lado dela a segurou.
— Ah, que ótimo! — William bufou. — Saiam daqui, todos vocês! Deixem ela respirar! Andem! Fora!
— Will!
Ele se ajoelhou ao lado dela, parecendo irritado e ao mesmo tempo muito, muito preocupado.
— Não se mexa. Você precisa ficar quietinha até eles chegarem e imobilizarem esse braço. Me perdoe, Em, por favor! — As sobrancelhas dele se uniram de angústia. Ela teve vontade de abraçá-lo.
— Não há nada que perdoar! Não foi sua culpa! Mas... Precisamos mesmo ir para o hospital? Você não pode... Onde estão os seus remédios? O... O Limpar, e aquele outro...
— Eu não posso curar isso. Você tem uma fratura exposta, Emily! Isso... Eu não podia ter deixado isso acontecer, eu.... Saiam daqui, merda! — Ele gritou quando um casal se aproximou com ar curioso. Eles se afastaram assustados.
— Está tudo bem, Will! Você pode me curar, sim. Os remédios das almas... Aposto que existe um “Remendar”, ou “Colar”, ou qualquer coisa assim...
— Não, Em! Desta vez você se machucou de verdade, eu não posso... Não aqui...
— Então me leve você para o hospital! Por favor, aquela ambulância, eu não quero...
— O quê?
Sem que pudesse evitar, ela começou a chorar, e ela sabia que essas eram as lágrimas daquele corpo, da hospedeira, e não dela.
— Eu não gosto de ambulâncias! Por favor...!
William a encarou por um momento. Ele podia ver claramente o pavor nos olhos dela.
— Tudo... Tudo bem, eu... — Ele puxou a mochila dos ombros com um gesto brusco e pegou a bolsa de primeiro-socorros. Procurando rapidamente, ele tirou de lá um frasquinho de spray e o espirrou sobre a ferida no braço dela. Depois, pegou outro frasco e espirrou no ar, próximo ao rosto dela. Emily inalou, e o líquido tinha cheiro e gosto de menta e pareceu limpar até o próprio sangue dela. William já atirou a mochila de volta ao ombro. — Eu vou pegar o meu carro, está aqui perto! — Ele se virou para uma senhora, que olhava para Emily com olhos arregalados e parecia em dúvida se desmaiava ou se tentava ajudar. — Olhe ela para mim, por favor! Não deixe os paramédicos levarem ela!
A senhora assentiu, dando dois passos lentos em direção a Emily, e William disparou rampa acima. Emily tentou sorrir para a senhora, sentindo o coração batendo acelerado:
— Está tudo bem. Ele me deu Corta Dor. Não dói.
Dois minutos depois, William estava de volta:
— Consegue andar, Em?
Apoiando-se nele, que segurava o braço dela com cuidado, ela tentou se colocar de pé, mas não conseguiu. Talvez tivesse quebrado um dos joelhos também, ou talvez tivesse sido apenas o impacto com o chão, mas ela sentia como se a perna esquerda simplesmente não funcionasse. Por sorte, um rapaz meio ruivo que passava por ali viu o que estava acontecendo e ajudou William a carregá-la para o carro dele. Felizmente, a chuva havia parado. Quando ele prendeu o cinto de segurança, ela se sentia meio tonta.
— Você está bem?
Ela assentiu, mas o gesto só fez o mundo girar ainda mais.
— Não, é claro que não está. Olhe só para essa hemorragia!
Antes que ela pudesse protestar, ele tirou a jaqueta e a atirou no banco de trás, rapidamente puxando a camisa pela cabeça e pousando-a sobre o ferimento no braço dela.
— Aperte com força. Eu vou o mais rápido que posso.
— Obrigada. — Ela fechou os olhos e tentou não pensar em nada além do vento frio batendo em seu rosto, vindo da janela.
Cinco minutos depois, o vento parou.
— Em?
Ela abriu os olhos debilmente e olhou para William. Sua voz parecia distante, mas seus olhos azuis ainda eram tão intensos quanto sempre. As sobrancelhas dele estavam unidas firmemente, e ela podia ver com clareza que ele estava sofrendo. Ela queria falar para ele que ele estava exagerando, mas não conseguia encontrar sua voz.
— Eu vou buscar um enfermeiro para me ajudar a levar você, tudo bem? Vou estar de volta em um segundo!
Dizendo isso, ele desapareceu.
Emily tentou erguer a cabeça e olhar ao redor. Estava no estacionamento, sob a sombra de uma árvore. Virando a cabeça levemente para a esquerda, onde William estava antes, ela viu a grande construção branca que era o San Francisco General Hospital. Ela gemeu baixinho, fechando os olhos com força para tentar evitar as lembranças que aquele corpo tinha daquele lugar.
Ainda bem que não me colocaram numa ambulância.
Ela se agitou quando braços fortes, parecendo terem vindo do além, a seguraram, puxando-a para fora do carro,
— Shh! Emily! Calma! Eu estou aqui! — Ela parou de se debater quando ouviu a voz de William. Quanto tempo tinha se passado? — Está tudo bem, vai ficar tudo bem!
Ela pôde sentir quando eles a deitaram sobre uma coisa dura e a ergueram, correndo com ela.
A primeira coisa que ela sentiu foi o cheiro. Aquele odioso, conhecido cheiro de hospital. Ela lutou contra as lembranças que a invadiram.
“Você não pode entrar!”, uma voz estava dizendo. Parecia zangado.
“Por favor! Eu preciso ficar com ela!”
“Não, nada de amigos ou parentes na sala de cirurgia.” A voz era brusca demais, ríspida demais. Devia ser um humano. Emily queria protestar. Quem ele pensa que é para falar com Will desse jeito?
“Você tem que me deixar entrar!”
“Sem exceções.”
Houve um momento de silêncio. Um som estranho, como um farfalhar distante.
“William Blake!” A voz agora não estava mais nervosa. Parecia perplexa.
E então ela começou a se mover de novo. Estavam levando-a para um outro ambiente. Ela sentiu-se arrepiar quando o ar gelado a atingiu. Não gostou daquilo. O frio evocava memórias ruins. Ela queria reclamar, mas não conseguia.
— Eu estou aqui, Emily. Vai acabar logo, agora. — Era a voz de Will. — Vai despertar em trinta segundos.
De fato, meio minuto depois, as coisas começaram a clarear pouco a pouco. Primeiro foram os sons. Havia um barulho estranho, como um motor curiosamente silencioso. Depois, o cheiro. Havia um cheiro forte no ar, mas não era desagradável. Era uma mistura estranha de doce com azedo. Como molho shoyo. E depois, o carinho. Alguém passava os dedos levemente pelos seus cabelos. Era uma sensação tão boa, ela não queria que parasse nunca.
Por fim, ela sentiu que tinha olhos e que podia abri-los. Lentamente, começou a erguer as pálpebras, tentando se acostumar à forte luz branca. Ela franziu as sobrancelhas.
— Eeei... Bem-vinda de volta, Em. — O rosto de William era gentil. Mas ela ainda podia notar a pequena ruga de preocupação entre suas sobrancelhas. Ele continuava fazendo carinho nos cabelos dela. — Não se mexa agora, sim?
— Estará nova em folha em um minuto! Só precisamos dar tempo ao Religar para fazer efeito, e depois vamos fechar essa ferida. Eu sinto tanto, querida! — Uma voz feminina, completamente desconhecida, falou.
— Eu... Desmaiei? — Emily perguntou, com a voz fraca.
— Sim, por alguns minutos. Nada surpreendente, considerando quanto sangue você perdeu. Mas agora vai ficar bem. Eles já repuseram suas hemácias. Vai ficar tudo bem.
— Por quanto tempo eu fiquei inconsciente?
— Uns... Cinco minutos? Dois? Três? — William franziu a testa, olhando para alguém que estava fora do alcance visual de Emily.
— Quatro minutos e dez segundos. — Uma voz masculina respondeu.
Emily respirou fundo, tentando absorver a informação.
— A medicina das almas é surpreendente, não é? — William ensaiou um sorriso, mas ele não chegou a seus olhos.
Antes que ela pudesse responder, a voz feminina falou:
— Prontinho! Pode se sentar agora.
William se aproximou e pôs gentilmente a mão atrás da cabeça dela, para ajudá-la a se levantar. Quando ela o fez, ainda que bem lentamente, o mundo pareceu rodar um pouco, e ela usou a mão para se apoiar no ombro de William. Só então ela se lembrou do que tinha acontecido e olhou para o braço, arregalando os olhos. O ferimento havia desaparecido, e havia apenas uma cicatriz rosa ali, que parecia estar desaparecendo enquanto ela olhava.
— Respire fundo, querida.
Mas antes de fazer isso, Emily puxou a outra mão para olhar o outro braço. Eles não tinham tirado a munhequeira dela, e não havia sinal de ferimentos. Ela suspirou aliviada.
— Perfeitamente igual ao outro. — William comentou, num tom de brincadeira meio forçado.
Emily sorriu para ele, querendo lhe passar confiança, e se virou para a Curandeira. A mulher era loira e usava óculos com uma armação arredondada que ajudava a valorizar seu rosto fino. Havia um círculo prateado em torno de suas íris castanho-esverdeadas. Ela sorria gentilmente.
— Obrigada... — Emily baixou os olhos para o crachá dela. — Margarida Verdejante!
— Como está se sentindo?
— Muito melhor! Melhor do que antes, na verdade!
O homem no canto, um senhor de meia-idade que estava ficando meio careca riu levemente.
— Ficamos certamente felizes em ouvir isso! A senhorita nos deu um belo de um susto! O que aconteceu com você?
Emily não deixou de notar a forma como William enrijeceu levemente ao ouvir a pergunta.
— Eu... Caí.
— Caiu...? — O homem instigou.
— D... Do telhado.
William pareceu surpreso por um momento, mas disfarçou rapidamente, coçando a barba.
— O que você estava fazendo no telhado? — Margarida Verdejante perguntou.
— Eu... Eu estava pendurando umas decorações... — Emily franziu a testa, como se não conseguisse se lembrar direito.
— Uns enfeites que pareciam folhas. Para deixar a casa com um ar mais verde. — William completou.
— Vocês são casados?
Eles se entreolharam. Emily sentiu-se corando intensamente. William lhe deu um leve sorriso de canto, como se a ideia o divertisse.
— Não, somos só amigos! Vizinhos!
— Ah, mil perdões! — Margarida Verdejante começou a corar também. — Eu só... O jeito como vocês chegaram aqui, eu apenas pensei...
William fez pouco caso do embaraço dela com um gesto da mão.
— Mulheres... Veem romance em todo lugar, não é? — O Assistente de Curandeiro brincou, aproximando-se. Ele e William riram, mas Emily achou que William estava forçando um pouco.
— Bom... Então... Podemos ir agora? — William se virou para Emily. — Tudo bem, Emily?
— Sim! Acho que podemos ir! — Ela sorriu para ele.
— Maravilha! — A Curandeira exclamou, enquanto William ajudava Emily a descer da cama. — A princípio, você deve estar cem por cento restaurada agora, mas não hesite em voltar, caso sinta alguma coisa, querida!
— Pode deixar! Obrigada!
William pôs o braço sobre os ombros de Emily e a guiou para fora da sala de cirurgias. Eles se viram então em um longo corredor branco, que normalmente deixaria a garota ansiosa. Mas de alguma forma, William a fazia se sentir segura. Isso a surpreendeu, mas ela decidiu não questionar e se aninhou a ele.
— Ah! Vejo que ela está bem agora! — Um segurança sorriu para eles. Emily achou sua voz familiar, mas não se lembrava de tê-lo visto antes.
— Está, sim. Obrigado, John.
— Tenha uma boa tarde, Mr. Blake. — O homem o cumprimentou com a cabeça.
William retribuiu o cumprimento e continuou andando até que ele e Emily saíram do prédio e começaram a contorná-lo em direção ao estacionamento.
— Você o conhece?
— Conheci hoje mais cedo. — Ele continuou apenas andando olhando rigidamente para frente.
— Will?
Ela esperou até que ele olhasse para ela.
— Você está bravo comigo?
— Com você? É claro que não! Eu estou bravo é comigo!
— Por quê?
— Eu jamais podia ter deixado aquilo acontecer com você!
— Foi um acidente! Não foi sua culpa!
— Foi, Emily! Eu expus você a esse perigo. Se não tivesse me conhecido, você não teria passado por isso.
— Eu passaria por tudo de novo, se precisasse!
— O quê?
— Conhecer você foi a melhor coisa que me aconteceu na Terra, Will!
Ele parou de andar e segurou o pulso dela. Ela evitou os olhos dele.
— Certo... Eu... Obrigado. — Ele voltou a andar, enfiando as duas mãos no bolso e se concentrando no chão de concreto do estacionamento.
Emily sentiu como se algo estivesse se fechando em torno de sua garganta, impedindo-a de respirar direito. Ela se apressou em segui-lo. Os dois chegaram ao carro e entraram em silêncio. Então ela notou as manchas de sangue na porta do carona, no banco e no chão. No canto, estava a camiseta dele, arruinada. Emily olhou de volta para ele. Não tinha notado que ele vestia uma camiseta branca, que alguém devia ter lhe arrumado no hospital.
— Eu sinto muito, Will! Eu conheço um lugar onde eles podem limpar o carro, eu pos...
— Não se preocupe. Não é nada.
— Tá...
Ele ligou o carro e se virou para olhar para dar a ré e sair da vaga:
— Onde você mora, Emily? Eu vou te levar em casa.
Ela hesitou.
— Não precisa... Pode me deixar no metrô.
— Não seja ridícula! Você acabou de se machucar feio, eu não vou deixar você sozinha!
— Você ouviu a Curandeira, eu estou bem! Posso ir sozinha!
— Mas você passou por um trauma muito sério, pode acabar passando mal mesmo assim.
— Eu estou falando sério, Will! Pode me deixar...
— Não seja teimosa! — Ele parecia com raiva de novo.
— Nesse caso, me leve até o meu Confortador! Faz mesmo tempo que eu estou querendo falar com ele!
Ele pensou por um momento, e Emily observou com a mandíbula dele ficou rígida com a tensão, como se ele estivesse cerrando os dentes.
— Tudo bem. — Ele concordou, por fim, mantendo os olhos fixos no trânsito. — Endereço?
— Market Street, 870.
— Certo. — Ele deu sinal e virou para a direita.
Durante longos minutos, nenhum dos dois disse nada, e um silêncio pesado se estabeleceu no carro. Por fim, Emily decidiu que não conseguia suportar mais isso, e decidiu falar:
— Então... Onde, amanhã? No parque? Ou no metrô de novo?
Ele não tirou os olhos do trânsito, mas ela notou que ele apertou o volante com mais força.
— O quê?
— O treino. Onde vamos treinar amanhã?
A reação dele a surpreendeu. Ele soltou o ar ruidosamente, com raiva e encostou o carro sem nem dar sinal. O motorista que vinha atrás buzinou (com certeza era humano), mas William nem ligou. Ele apenas se virou para Emily, com um olhar irritado:
— Ficou maluca, Emily? Não vai ter treino nenhum amanhã!
— Por quê? Eu te falei, eu estou bem...
— Não, você não entendeu.
— O que eu não entendi?
— Acabou, Emily.
— Você... Quer dizer...? — Ela sentiu lágrimas surgindo nos olhos de novo, e essas eram totalmente dela.
A expressão no rosto dele se abrandou um pouco.
— Já chega de parkour.
— Não! — As lágrimas começaram a escorrer, e ela não se importou em tentar pará-las. — Não! Nós tínhamos uma promessa!
— Eu não achei que você ia se machucar... O que você acha que vai acontecer comigo se você cair daquele prédio?
— Eu não vou cair, Will! Nós temos um mês! Eu vou treinar muito, todos os dias, e vou conseguir fazer esse salto!
— E se você cair? Você morreria!
— Eu assino um termo de responsabilidade! Eu vou diante de um juiz e digo para ele que eu estou fazendo isso por conta própria, eu...
— Você acha que é com isso que eu estou preocupado?
Ela ficou olhando para ele. Ele se virou bruscamente para soltar o cinto de segurança e estendeu as mãos para segurar o rosto dela, para que ela olhasse para ele:
— Eu não quero que você se machuque de novo. Nunca mais. Eu não suportaria ver você sentindo dor de novo, entendeu? — Ele enxugou uma lágrima dela com o polegar.
— Eu não vou me machucar. Não se você estiver comigo.
— Eu estava lá hoje. E olhe o que aconteceu.
— Você me salvou! Você cuidou de mim! Foi isso o que aconteceu!
— Se não fosse por mim, você não precisaria ser salva.
— Foi um acidente!
— Foi. Mas eu não vou correr esse risco de novo. Fim de papo. — Ele girou a chave, sem se importar em recolocar o cinto de segurança, e o carro vibrou com a partida.
— Will! — Ela segurou o braço dele. Ele olhou para ela. — Eu vou saltar daquele prédio. Com ou sem você!
— O quê? — Ele girou a chave de novo e o carro desligou. — Ficou maluca?
— Não. Eu não fiquei um mês treinando para nada! Eu vou continuar treinando, com ou sem você, e quando completar dois meses, vou saltar de um prédio. Qualquer prédio.
— Você não pode... Você não teria coragem...
— Quer apostar?
Ele franziu as sobrancelhas, olhando fundo nos olhos dela. Olhando diretamente para ela¸ através do círculo prateado nos olhos da hospedeira. Não havia hesitação nenhuma.
— Eu estou falando sério, Will. Eu vou. Com ou sem você. Mas sem você vai ser mais perigoso.
Ele continuou encarando-a por mais alguns segundos. Depois, subitamente, ele a puxou para si, tanto quanto o cinto de segurança permitiu, e a abraçou com força.
— Você é, definitivamente, a alma mais insana que eu já conheci.
Ela riu baixinho e ergueu os braços para corresponder ao abraço. Ele se afastou devagar e sorriu para ela:
— Por que essa necessidade desesperada de tentar se matar?
Ela deu de ombros.
— Eu só estou sendo humana.
— Olha que daqui a pouco você vai ser melhor nisso do que eu, hein?
— Eu ainda tenho muito o que aprender para chegar lá, mestre. — Ela fez uma pausa. — Parque ou metrô?
— Metrô. — Ele respondeu, já religando o motor.
— Não vai colocar o cinto de segurança?
Ele bufou:
— Tem mesmo muito o que aprender. — Ele puxou o cinto bruscamente e o colocou.
Ela sorriu, feliz, e ficou olhando para ele enquanto ele dirigia com uma expressão tranquila. Dez minutos depois, ele desligou o carro, e ela olhou em volta, perplexa. Estavam parados em frente ao grande prédio da Market Street, número 870. Logo adiante, ela podia ver a loja da Gap, com sua fachada azul convidativa.
— É aqui que trabalha o seu Confortador? Tem certeza? — William ergueu uma sobrancelha para ela.
— Sim... Ele trabalha num dos escritórios lá em cima.
— Certo... Tudo bem.
— Então... Eu vejo você amanhã?
— Sim. No metrô. Em? — Ele segurou o pulso dela, quando ela fez menção de abrir a porta do carro para sair.
— Hnm?
— Você mentiu.
— Q... Quê?
— Para os Curandeiros. Você mentiu quando perguntaram o que aconteceu. Por quê?
— Para proteger você. Pensei que se eles soubessem... Sobre o parkour e tudo... Talvez pudesse ser ruim para você.
William sentiu o choque se espalhando pelo próprio rosto, e seu coração batendo mais forte uma única vez. Quando Emily sorriu levemente, corando, foi como se alguma coisa se agitasse dentro dele. Pela primeira vez na vida, ele ficou sem palavras. Ele soltou o braço dela e piscou duas vezes para tentar clarear a mente.
— Ahnm... Hnm... Obrigado.
Emily esperou que ele dissesse mais alguma coisa, e como não parecia que ele ia fazê-lo, ela se inclinou e lhe deu um beijo no rosto.
— Até amanhã, Will!
— Até amanhã... Em?
— Hnm?
— Conhecer você foi a melhor coisa que me aconteceu também. — Ele sorriu para ela e piscou travessamente quando ela pareceu congelar no lugar com a surpresa.
Sem esperar por uma resposta, ele ligou o carro e saiu.
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