Le Chant des Sirènes
72 Capítulo LXXI
Notas iniciais
Capítulo LXXI
A primeira coisa que sentiu fora um choque pelo seu corpo, que se iniciava do doce toque da sereia em sua pele até os dedos dos pés, era doloroso e ao mesmo tempo deleitoso. Como se estivesse acostumado aos doces prazeres que uma vida de tortura poderia ofertar.
Sua pele sensível ao toque se inchou quando as mãos dela deslizou pelas suas, em busca de uma notória mudança em sua aparência.
O sangue gelou por seu corpo quando se deu conta de que amaria seus toques até mesmo se estivessem sobre feridas, aquela constatação era o suficiente para que se afastasse de modo brusco.
—Tire suas mãos de mim! — a voz era grossa e baixa, combinando com toda a tensão que seus nervos sentiam. Como se pudesse entrar em combustão a cada minuto.
Observou quando os olhos castanhos brilharam com certa dor ao ser tratada com indiferença, e aquilo lhe causara prazer? Oh sim, muito!
Aquela voz que por muitos anos ele tentou evitar, estava em evidência em seus ouvidos o compadecendo em como ela era linda quando se entristecia e melhor seria ao observar as lágrimas jamais derramadas por sua espécie. Aquilo foi como uma ignição.
—Está tudo bem Natsu? — O amigo questionou ao observar o olhar maligno que seu capitão direcionava a sereia, como um obcecado observando seu objeto de desejo.
O homem direcionou levemente os olhos ao amigo e o observou com a expressão impassível. Antes de se erguer lentamente, esticando a blusa para retirar os vincos.
—Por que não estaria? – a voz fria e calma do jovem fora o suficiente para causar um arrepio na espinha da sereia, sobretudo os olhos que obtinha um mínimo círculo vermelho ao redor da íris verde. Não demorou para aqueles olhos se direcionassem a ela novamente a fazendo ofegar em reposta.
Sua mente estava distorcida desde em que vira o selo se desfazer de vez na mente do rosado, temeu pelo que poderia ocorrer e chegou a pensar que ele explodisse em ódio e magia negra quando o momento chegasse. Todavia, adverso a tudo o que imaginava, ali estava um Natsu inclemente e extremamente calmo.
Se levantou decida a resolver a situação, de alguma forma ela deveria contornar a circunstância e ajudá-lo, jamais se permitiria apenas observar perdê-lo aos poucos. Mesmo que sua mente não se lembrasse dela, estaria ali para encaixar as peças faltantes de sua memória e ajudá-lo a lidar com sua nova realidade.
Contudo, assim que se ergueu, sentiu uma pontada que vinha do calcanhar até o centro da coxa como várias agulhas perfurando sua pele e corroendo seus músculos como brasa, podia sentir o sangue escorrendo antes mesmo de abaixar os olhos.
Ao notar o enfraquecimento da amiga, Gray se aproximou pronto para acudi-la e levá-la até o tanque em seu colo, mas antes que ousasse tocar em sua pele. A sereia fora puxada com brutalidade contra o peitoral extremamente quente do rosado.
Os olhos castanhos se arregalaram de surpresa e observaram a face do homem como um ímã, apenas para notar a expressão vazia e olhar rígido em direção ao moreno. A mão em sua cintura a apertava com força o suficiente para deixar marcas e uma leve sensação de dormência.
—Toca nela, e eu arranco seu braço! — fora quase impossível que Gray se mantivesse impassível após ouvir tais palavras, com olhos e bocas arregalados observou o amigo embasbacado.
—O que? — sua voz fora quase um sussurro esganiçado de choque. A frieza na voz do capitão ainda o estava deixando perplexo. Não era segredo, que mesmo sem memória, Natsu fosse obcecado por Lucy.
—Você ouviu o que eu disse! — se prendeu mais a ela, como se fosse possível unir os corpos em um só. A pele quente do homem queimava a sua de modo que estivesse vermelha sob o toque, porém, ela permaneceu no mesmo lugar ainda traspassada pela sensação de tê-lo consigo. – eu vou tomar contar dessa aberração agora. — Lucy mal tivera tempo de reagir ao insulto, antes dele segurar seu queixo com os dedos e levantar seu rosto a obrigando a olhá-lo nos olhos. – Serei seu algoz agora. — Um sorriso sádico surgiu ao observa-la com satisfação, mesmo que ela não reagisse da maneira amedrontada que ele esperava.
—Nem ferrando!- Gray batera o pé indignado com a situação a sua frente e disposto a contradizer o amigo.
Contudo, sentira apenas um vento em seu rosto antes de seu corpo ser empurrado com força contra a estante de livros, derrubando alguns ao chão no processo. A sua frente, Natsu o segurava com o braço apoiado em seu pescoço o impedindo de respirar.
Um arrepio surgiu em sua espinha enquanto observava os olhos verdes do amigo, se tornarem vermelhos feito sangue.
—Você quer morrer porra? — a voz fora baixa, mas firme o suficiente para que sua garganta tremesse. As veias de seus braços visíveis enquanto segurava o corpo do moreno no ar. – eu sou seu capitão, quem você pensa que é, para vir contra mim?
—NATSU!- sem se importar com a dor dilacerante ou o sangue escorrendo de suas pernas, a loira correu em direção aos dois segurando com firmeza o braço do rosado. Tamanha fora sua surpresa quando não conseguira mover um centímetro, o corpo de Natsu estava como uma pedra e o de Gray cada vez mais mole. Aquilo a desesperou. — Natsu, solte ele por favor!- ele podia a ouvir, mas decidiu ignora-la, não se importava o suficiente para lhe dar atenção.- ficarei com você, mas solte-o por favor! – virou a cabeça para observar o desespero em seus olhos, e era como um manjar dos deuses, a sensação que lhe causava era deveras apreciativa. -Natsu!- implorou novamente, antes dele soltar o corpo como se não fosse nada e o moreno cair ao chão tossindo em busca do ar que lhe fora poupado nesse meio tempo. Sua garganta ardia enquanto os olhos se enchiam de lágrimas.
Tentou se aproximar do amigo para socorrê-lo, porém, antes do primeiro passo a mão grande do capitão estava segurando seu cotovelo a puxando contra si e a impedindo.
Pode sentir seu corpo chocar contra o peito forte dele, e o braço rodear a cintura com força a prendendo contra si, aproximou o rosto do pescoço alvo da garota apenas para inalar seu doce cheiro de coco com baunilha, aquilo a causara arrepios.
—Minha!- a voz grossa soou em seus ouvidos arrepiando sua pele, sentia como se um furacão estivesse em seu estômago.- minha para fazer o que quiser! – tentou se soltar dos braços que a prendiam, apenas para se frustrar ao se manter presa. A risada debochada foi a última coisa que ouviu antes de sentir o corpo dele ficar mole e ele desmaiar atrás de si.
Virou apenas para encontrar o corpo do homem desacordado. Ainda estava em choque quando a porta da cabine fora aberta e de lá entrou Erza, juntamente de Porlyusica e Makarov.
—Mas que diabos?- a ruiva correu até o moreno que estava sentado contra a parede tentando recuperar seu ar aos poucos.
A senhora de cabelos róseas se aproximou do capitão, agachando ao lado de seu corpo inerte e tocando-lhe a testa, apenas para afastar logo em seguida ao sentir a quentura. Levantou os olhos e apenas um olhar para sereia, compreendera o que havia acontecido.
—Me parece que Natsu despertou o seu lado escondido. – todos guiaram os olhos para a senhora que o observava com atenção. – não me admira que ele sentisse tanta dor de cabeça, creio que de certa forma, Anfitrite tenha acelerado o processo de desintegração do selo.
—O que?- a voz da sereia era quase um sussurro em meio a seus pensamentos barulhentos.
—O selo já estava se desfazendo, ele apenas se desfez mais quando ela remexeu nas memórias dele.- podia sentir os olhos dos presentes voltados a si em busca de explicações que nem ela poderia ter. -não sabemos como Natsu irá reagir agora, é como uma bomba relógio que pode vir a explodir a qualquer momento.
—Sabemos sim!- a voz esganiçada de Gray atraiu a atenção dela, tossiu um pouco antes de prosseguir ao se levantar com a ajuda de Erza. – a porra de um psicótico fissurado na Lucy! – Porlyusica apertou os olhos olhando a loira, que tamanho era o choque que a impedia de reagir as feridas na perna.
— Você deveria entrar na água.- fora a simples frase que a mulher direcionou a sereia que estava absorta em pensamentos. – Lucy!- ergueu os olhos castanhos e a observou. – você precisa se curar!- apontou com o queixo para as feridas que se abriam cada vez mais como rachaduras em uma rocha. O vermelho carmesim se destacava em meio a pele alva e clara, como um rio de dor e lamento escorrendo até seus pés os quais se encontravam em carne viva.
Se levantou como se não sentisse nada, caminhando em passos lentos e mancos até o tanque, para que pudesse voltar a sua verdadeira origem.
Forma essa que jamais deveria se esquecer de quem era, a dor nas pernas e suas feridas, estariam sempre ali para lembrá-la aonde era seu verdadeiro lugar, como uma risada cantada ao universo de que seu futuro jamais poderia ser diferente.
E como em um passo de mágica a dor sumira quando suas pernas deram lugar a calda brilhante e longa, reluzindo contra a luz do ambiente. Apenas escolhera o fundo para se deitar e fechar os olhos, mesmo que sua mente estivesse um caos, seu exterior exalava calma.
Um olhar de Porlyusica em direção ao senhor que observava tudo, fora o suficiente para saber que algo estava ocorrendo. Não era de se estranhar que uma pessoa como a xamã pudesse ver aquilo que era invisíveis aos olhos dos outros.
—Coloque-o na cama!- soou firme observando os outros dois marujos que permaneciam em silêncio observando o que ocorria no local.
Foram preciso apenas dois segundos para que despertassem e habituasse da realidade, carregaram o corpo pesado e quente do homem o depositando no colchão.
—O que vai acontecer agora?- a rouquidão na voz de Erza demonstrava o quão preocupada a garota estava. Parecia que uma nuvem de mau agouro havia se instalado no navio, aonde se sucedia acontecimentos trágicos um atrás do outro. Não houvera um minuto de paz desde então.
—Não a como saber! — fora a resposta de Porlyusica que observava o homem sobre a cama. Como se ao observá-lo por muito tempo, as peças se encaixassem e a resposta aparecesse diante de si. Porém, era impossível quando não havia uma resposta.
O que ocorrera com Natsu se tratava de algo primitivo. Não havia em nenhum outro lugar da terra, alguém como ele, jamais houvera tal união de espécie, ao menos não uma que havia obtido sucesso.
Todos as coisas primárias do mundo possuíam a tensão do que se sucederia após elas. Poderiam muito bem serem ao benéfico da sociedade ou apenas mais uma das muitas tragédias que surgiam no mundo.
A única coisa certeira era que para tudo havia um começo e um fim.
Com apenas um olhar em direção a Makarov, o homem soube que a senhora precisava de um momento a sós. Seguiram em direção a proa do navio aonde apenas a solidão do mar escuro os aguardavam.
-Acredito que os sentimentos de Natsu por Lucy tenham permanecido, porém, sem suas memórias para guia-lo, tenha se perdido. – ergueu uma sobrancelha observando a senhora que parecia reflexiva ao observar o mar. – ele não sabe lidar com as emoções que sente em relação a ela e acaba por agir de maneira violenta. – se virou para o senhor e o olhou de maneira firme. – eu sou descrente a tudo que envolva a humanidade, e para mim, o ser humano sempre vai destruir qualquer coisa que tocar e não possuem salvação, contudo- suspirou antes de prosseguir. – creio que os sentimentos destes dois são fortes demais até para uma deusa destruir, e Natsu pode muito bem se controlar por causa dela – o pequeno senhor sorriu de maneira automática, idealizando que a suposição da mulher se concretizasse. — Como também pode ser sua destruição. – Tão logo o sorriso se desfez.
—O que quer dizer Porlyusica?- questionou de maneira firme, observando a feição contida da senhora que sempre se mantinha impassível.
—Não tenho crenças Makarov, sou uma mulher que acredita no poder da cura que consigo com minhas plantas medicinais, não acredito em benção de deuses ou maldições.- uniu a sobrancelhas observando o nada, como se refletisse sobre uma lembrança que surgia em sua mente. – mas uma coisa é inegável, demônios são atraídos por desgraças ou qualquer coisa ruim que possa existir no mundo- observou os olhos do senhor.- e o que leva mais desgraça e ruindade do que uma maldição de um próprio Deus? – seus olhos se esticaram em choque ao refletir sobre as palavras da mulher.
—Está dizendo que…
—Que Natsu pode se afeiçoar ao sofrimento de Lucy por que é encadeado a isso, como se seus sentimentos por ela não fossem o suficiente, ele tem o sofrimento de uma sereia, emanando dor e tristeza bem debaixo de seu nariz, a sua natureza jamais vai ignorar isso. – Makarov parecia estático enquanto tentava compreender o que acabara de ouvir. – A obsessão dele por ela, pode acabar a matando.
—Sereias são imortais! – respondeu ágil, como se solucionasse toda a questão.
—Não quando se trata de amor. – cruzou os braços quando um vento frio bateu em sua direção, arrepiando os pelos da nuca como um aviso de um mau agouro penetrando sua derme. – e tenho a impressão de que Anfitrite sabia exatamente disso.
**
Suas botas se afundavam na lama enquanto caminhava por dentro da caverna silenciosa. Podia ouvir o som de uma gota de orvalho caindo em uma poça, ao longe próximo a bifurcação da estrutura rochosa.
Já estava habituado ao cheiro pútrido que invadiu o local, o cheiro da morte sempre o acompanhou como um escudeiro fiel. Podia sentir os ossos se torcendo e quebrando por debaixo de seu solado cada vez que pisava ao chão.
—Tens muita coragem de vir aqui.- ouviu a voz esganiçada como um sibilo próximo ao ouvido.
—Podemos tomar aquilo que já deveria ter nos entregado.- a outra complementou, e então o som do tear se tornou mais nítido e a visão de três mulheres magras de aparência sombria, surgiram a sua frente.
—Homem que não deveria estar vivo. – a terceira soou em um esganiçado sussurro. – Zeref!- as três vozes disseram em uníssono como um sussurro assobiado ao destino.
—Vocês podem tentar! — deu de ombros se encostando na parede, observando cada um dos rolos com os mais brilhantes fios.
—Você não é invencível- a voz disse o observando através dos olhos negros e fundos.
—Tudo o que surge tem um fim.- apertou os punhos quando as outras completaram a frase.
As três mulheres se voltaram ao grande tear se concentrando em tear a linha do destino da vida de algum pobre coitado. Se aquela seria uma vida de fortuna e infortúnio, dependeria somente delas e de seu instrumento.
O irritava saber que sua vida fora recheada de desgraça apenas por que três seres desejaram que assim fossem. Odiava saber que as moiras possuíam o poder de mudar tudo e ainda assim nada faziam, pelo contrário, mantinha a calamidade acontecendo para que a luz se sobrepusesse, pois assim era o equilíbrio.
—Vocês não tem o controle do meu destino mais!- soou firme atraindo a atenção de umas delas que apenas deitou a cabeça de lado o observando. O longo cabelo negro cobriu sua face mostrando apenas os dentes branco finos como garras.
—Seu destino foi selado no momento em que nascera.
—E jamais…
—Poderá ser mudado. — ódio tomou conta de todo seu corpo, e podia sentir seu poder se esgueirando abaixo de si desejando sair. – você nasceu para ser a destruição Zeref
—E seu filho viera para ser o aprimoramento. — o assunto lhe chamou a atenção, e por um segundo se acalmou tentando escutar a explicação.
—O que quer dizer?- se aproximou das mulheres sem temer a aparência cadavéricas e fantasmagóricas.
A mais baixa delas se aproximou elevando o dedo e o tocou delicadamente no rosto com sua unha afiada e então uma linha negra surgiu no lugar, seu corpo parecia anestesiado e uma dor excruciante e gélida caminhava juntamente da pele fria e dura do dedo magro.
—Um outro amor surge…
—Uma nova maldição é criada…
—Dois jovens destinados a morte…- odiava como diziam tudo de forma pausada e contida. – e assim como da primeira vez, vão decidir o destino do mundo. – disseram em uníssono, com as três a sua frente o observando.
Se sentia preso pela escuridão dos orbes escuros, como se sua consciência fosse levada e capturada. O deixando a mercê dos seres que desejavam cortar o seu fio da vida.
—Os filhos são os herdeiros dos pais e devem pagar pelo preço que ficou em aberto.
—Qual o preço? — questionou já sabendo qual seria a resposta, mas ainda assim desejando ouvir o que apenas aquelas mulheres poderiam lhe oferecer.
—A morte.
Fim!
“Haja ou não deuses, deles somos servos.”
—Fernando Pessoa-
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