Laços do Inverno
5 Capítulo 5 – Alice no País da Neve
Capítulo 5 – Alice no País da Neve
Papai me levou para sua casa e cuidou de mim muito bem. Deu-me um tapa-olho para este olho vermelho quando saíamos de casa, assim não haveria perguntas indiscretas. Para todo o caso, eu fui ferida na guerra. Meu dom e minha maldição. Papai era doce comigo. Ele era tão novo, não parecia mais que um menino. Em sua casa grande, ao norte da Dinamarca, ele mantinha mais quatro outras garotas como eu. Abandonadas durante a guerra. Ele me disse um dia que aquela casa fora de seus avós e que com a morte de seus pais, era a sua herança.
Por pouco tempo, nós éramos cinco crianças abandonadas.
Havia Abigail, alemã como eu. Diferenciava-nos os cabelos. Meus ruivos contra seus negros e curtos, num belo estilo chanel. Era uma menina tão tímida, tinha um ano a mais que eu, possuindo seus cinco. Tem também aquela outra alemã, a Eva. Ela me parece uma criança estranha, mas quem sou eu para julgar? Não fala com nenhum de nós e mantém-se em seu canto.
E havia Diva, a menina bonita com loiros fios. Seus olhos da cor do meu único azul. Seus sorrisos eram tão belos, e ela sempre sorria para mim. Nós brincávamos com as bonecas que o papai nos deu. Foi a minha primeira amiga. Minha bela Diva. Ela era sempre minha, e eu era sempre dela. Quando ela tinha um pesadelo, ela corria para a minha cama. E então nós corríamos para a cama do papai. Erich era papai agora de quatro abandonadas e mortas pela guerra.
Em seu quarto, com ele no meio da cama e uma de cada lado. Ele nos abraçava ternamente e nos esquentava. O frio daquele lugar era cruel, mas se eu tivesse o papai e Diva, eu teria calor para sempre, não é?
Os meses se passavam lentamente, todos os países europeus tentando se recuperar da guerra. Uma das meninas havia nos deixado. Fugiu de casa enquanto dormíamos. Acabou sendo morta pelos cachorros do meu novo papai. Então sobrou três das quatro iniciais. Pobre Paola... Nós perdemos a menina, seu corpo foi enterrado nos fundos daquela mansão. Todos os dias nós levávamos flores para ela. Eu não havia entendido porque ela morrera e não voltara como eu fizera. Eu morri e voltei da morte para a vida.
No quarto grande em que eu dormia, havia mais duas. Era eu, Diva e Abigail. Nós éramos sempre um contraste. Uma morena, eu ruiva, e Diva sempre loira. Linda e loira. Eu as amava, como numa família. Elas eram a minha família. Minhas irmãs, meu pai, só faltava a mamãe nova para completar a minha nova vida.
Nós tínhamos aulas todos os dias. O papai contratara uma professora particular para nós. Era uma velha senhora, de cabelos grisalhos presos num frouxo coque acima da nuca. Ela não era severa, era doce conosco. Eu a adorava e a chamava de vovó. Ela nos ensinava línguas, apenas isso. E, às vezes, maneiras. Como nos portar diante do papai, como sentar, como tratar os criados daquela enorme casa.
Ela nos fazia o que chamariam de damas.
E o tempo continuava a passar lentamente. Os dias das semanas não importavam para nós, eles não nos faziam diferença. Nós éramos apenas crianças abandonadas pela guerra. E o ano de 1945 estava chegando ao fim. Nós estávamos em dezembro, e já estava nevando... O Natal estava chegando para nós. E a guerra havia acabado.
Papai nos levou individualmente ao centro de Ålborg, para comprar presentes uma para as outras.
Era dia vinte e três de dezembro.
Ele me segurava pela mão enquanto deslizávamos na calçada cheia de neve. Nós estávamos muito bem vestidos, com roupas quentes que nos protegiam do vento frio. Congelante. Ele segurava na outra mão, uma sacola onde as caixas de presentes estavam. Para Diva, eu havia lhe comprado uma linda boneca, que lhe achara semelhante. Ela era a minha melhor amiga ali, minha Diva, minha amada Diva. Abigail ganharia um belo vestido adornado com rendas e tecido extra para o frio.
Eu havia comprado um para a vovó também. Papai que recomendara. Era nada mais que um dicionário russo. Ela adorava línguas, era fluente em várias, e estava planejando ir à Rússia. Talvez o livro lhe fosse útil. E para o papai? O que eu lhe compraria?
- Papa! – eu o puxei pela mão, atraindo a sua atenção. Minha mão coberta por uma luva delicada com o punho rendado, em negro, contrastando com o casaco grosso que me cobria o corpo, o branco casaco. O cachecol dele, o lindo vermelho, estava ao redor do meu pescoço. Eu me sentia a mais amada por ele. Eu sou a única que usa esse cachecol.
Ele voltou o seu olhar para mim, apertando levemente a mão enquanto íamos em direção a um banco do lado de fora de uma loja de comida, doces, na verdade. Nós nos sentamos e ele me colocou em seu colo.
- O que você quer de Natal, papa? – eu lhe perguntei, colocando as minhas mãos nas bochechas dele, apertando-as levemente. Ele sorria para mim, eu sabia que era amada por ele.
- Não precisa, não agora, minha Imperatriz. Quando você for mais velha, me dará o presente apropriado. – ele disse, ao pousar os lábios em minha bochecha. Eu me senti vermelha com o toque quente ali, na minha pele fria. Mas sorri, eu era amada por ele, já me bastava.
No fim, nós entramos naquela doceria e bebemos um maravilho chocolate quente. E então voltamos para a mansão.
A manhã de vinte e cinco de Dezembro nasceu fria, com a neve caindo delicadamente no vasto jardim cercado por negras grades. Era muito bem protegido ali, havia cães de guarda por toda a propriedade, guardando-nos. Papai era conhecido na cidade como um bem feitor, que havia adotado crianças abandonadas da guerra, que finalmente chegara ao fim.
Eu acordei mais cedo que minhas colegas de quarto, então saí da cama rapidamente, vestindo meu pijama quente e corri descalça pelo corredor dos quartos. Era uma mansão de três andares, nós estávamos no terceiro, onde havia seis quartos. Três deles mal eram usados, pois um era uma biblioteca, e os outros viviam trancados, mas serviam também como armários. Um era o quarto pessoal da vovó.
O último quarto no corredor era o de papai. Foi para lá que eu corri. O relógio batia nove da manhã, então ele estaria acordando a essa hora. Então, silenciosamente, eu abri a porta de seu quarto e entrei lá. A cortina pesada mal deixava a luz solar entrar, a pouca luz solar que havia. O quarto estava com o fogo da lareira no fim, e estava quente. Por isso encontrei papai sem camisa, de pé, ao lado da cama, abotoando a calça negra.
Eu sorri, correndo em direção à ele e me jogando em seus braços surpresos.
- Feliz Natal, papai! – eu lhe desejei, apertando-o em meus pequenos braços. Ele sorriu, e então me ergueu do chão, meu rosto na altura do dele.
- Parabéns, minha Kaiserin. – me beijou docemente as bochechas, várias vezes, me fazendo rir com o toque.
Era vinte e cinco de dezembro, Natal.
E meu aniversário de cinco anos.
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