Laços Inquebráveis
18 Capítulo 18 — Uma Estranha No Ninho
Embora tenha se passado um tempo desde que Makena a acusou de impedir o uso do material de pintura, Rosalie ainda se encontrava desanimada. Luna finalizou com giz de cera o último desenho. Flores de tonalidades variadas e um sol encantador. Depositou o giz de cera amarelo na mesa e destacou a folha que havia acabado de colorir do bloco de desenho com extrema cautela.
Rosalie observou com curiosidade o que fazia.
— Não gostou de como o desenho ficou? Achei tão bonito.
— Luna gostou, sim.
— Por que arrancou a página?
— Esse é seu desenho, Ose. É pala você.
Um leve sorriso desenhou os lábios de Rosalie.
— Para mim?
Luna estendeu a mão, segurando a folha.
— São foles. Ose gosta de foles. E também de dias de sol.
— Desenhou flores para mim? E um lindo sol?
— Uhum.
Recebeu o desenho, emocionada.
— É lindo, Luna. Obrigada! — Segurou a mão da menina, dando um beijo no dorso. — Sabe o que é melhor de ter ganhando esse presente?
Com olhos curiosos, a criança balançou a cabeça negativamente.
— Essas flores nunca murcharão. — Um sorriso mostrou covinhas nas bochechas da pequena.
— Um anjo as desenhou para mim. — Tocou no queixo dela. — Um anjo lindo.
— Luna é o anjo?
— Sim, Luna é o anjo.
A pequena desceu da cadeira devagar sob o seu olhar amoroso. Ao se aproximar, lhe estendeu os braços. Rosalie a pegou no colo e então se abraçaram. Os dedos de Luna se enroscaram nos fios de cabelos louros. Recebeu um beijo no alto da cabeça. Saiu do abraço e seus dedinhos deixaram os cabelos correrem entre os dedos.
— Luna pecisa visitá a cozinha.
— Você está com fome? O papai já deve estar terminando de preparar o nosso jantar.
— Não tá com fome. Luna vai fazê ota coisa.
— Precisa que eu vá com você?
— Não, você tem de espelá aqui.
— Preciso esperar aqui? Tudo bem, então. Mas, se precisar, promete me chamar?
— Luna pomete.
— Então tá. Pode ir à cozinha.
A criança correu até a porta do escritório, parou e olhou para trás. Rosalie acenou com a mão. Luna virou-se, abriu a porta e saiu.
Olhou o desenho, os traços infantis lhe trouxeram um sorriso ao rosto. Uma ideia lhe ocorreu, iria emoldurar as flores em giz de cera, tornar uma lembrança duradoura.
Luna chegou à cozinha sem correr. Observou o pai levando uma assadeira ao forno. Makena, usando avental, recolheu frascos de temperos na bancada, levando para o armário.
— Obrigado por ser minha ajudante hoje.
— Posso parar um pouco agora? Preciso ir ao banheiro.
— Pode ir. Eu termino por aqui.
Luna saiu do caminho assim que a irmã retirou o avental e jogou na banqueta diante da ilha da cozinha. Makena a encarou. A pequena correu para o outro lado da ilha onde estava o pai.
— Meu anjinho — disse ao vê-la. — Você está com fome?
Luna moveu a cabeça, negando. Ofereceu a ele a mão.
— Quer que eu vá com você a algum lugar?
Com a outra mão, mostrou o caminho da lavanderia.
— Quer me mostrar alguma coisa lá?
Ela confirmou ao balançar a cabeça.
— Tudo bem. Vamos ver o que tem lá.
Ele a acompanhou de mãos dadas. Luna parou, mostrando o saco de lixo com a mão.
— O que tem ali? Jogou algo fora sem querer?
— Abe, papai.
— Tudo bem. Você quer que eu veja o que tem no saco? — Ele soltou a mãozinha. Abriu o saco que parecia muito leve. Logo descobriu o porquê. As pinturas que Luna e Rosalie fizeram estavam no saco, misturadas aos tubos de tintas vazios.
— Quer contar para o papai o que aconteceu?
— Kena mentiu.
— Makena fez isso? Ela destruiu, não foi?
— Ose complô tudo ota vez.
— E Makena tentou destruir novamente — concluiu ele. — Você tentou proteger, por isso chorou.
— Sim. Kena ia machucar Luna.
Emmett se inclinou, fazendo carinho no rosto da filha.
— Ose tá tiste agola.
— Devido às pinturas e do material destruído?
— Papai não deixou Ose falá. Pô isso.
— Acho que devo um pedido de desculpas, não é?
— Uhun. Kena mentiu e fez coisa uim.
— Tem razão. Sua irmã não deveria ter feito isso. Sabe onde Rose está agora?
— No esquitolio.
— No escritório?
— Sim, papai.
Emmett sorriu.
— Pode esperar um pouquinho na sala enquanto converso com ela?
— Pode, sim.
Quando Emmett entrou no escritório, Luna estava de pé no sofá, olhando-o sobre o encosto.
Ele a encontrou de cabeça baixa, rabiscando com lápis de cor uma folha de papel.
Rosalie ergueu a cabeça ao senti-lo se aproximar.
— O jantar já está pronto?
— Quase pronto. Deixei alguns legumes no forno.
— Viu Luna por aí? Ela disse que ia à cozinha, mas ainda não voltou.
— Ela está na sala, esperando.
— Não entendo, disse que eu tinha de esperá-la aqui.
— Não é isso. Ela está esperando nossa conversa terminar.
— Ah… sobre o que quer conversar?
Ele se aproximou, sentando-se na cadeira onde Luna esteve sentada antes. Olhou os desenhos na mesa de trabalho.
— São os desenhos dela?
— Sim. — Mostrou o desenho que ganhou. — Ela fez esse para mim.
A mão dele alcançou a folha com o desenho da filha.
— Luna sabe que gosta de flores — observou. — São tão fofos os desenhos dela.
— Vou emoldurar esse — contou. — Quero que se sinta tão especial quanto me senti com o presente.
Ele colocou o desenho junto aos demais. Os olhou um instante. Alcançou a mão da esposa com a sua sobre a mesa.
— Me desculpe — seu tom de voz beirava o arrependimento e vergonha.
— Por quê?
— Por pensar que negasse a Makena o material de pintura.
— Não é culpa sua. O modo como ela agiu fez parecer que foi dessa forma.
— Ainda assim. — Tocou no rosto dela. — Você tem sido tão paciente e cuidadosa. Sei que não está sendo fácil para você. E nem assim tem deixado de fazer um bom trabalho. É por ser exatamente como é, que te amo tanto.
Rosalie alcançou o rosto dele com a mão livre.
— Eu também te amo.
Emmett ergueu a mão que segurava a dela à altura dos lábios, beijando seus dedos devagar.
— Ainda que esteja sendo difícil, não desista de mim. Não desista da gente.
Rosalie saiu da cadeira onde estava para sentar-se na perna dele.
— Com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo, não consegui perguntar como ficou a correção da pintura do carro?
— Nada a reclamar.
— Ótimo!
A mão dele acariciou suas costas. Ela passou os braços ao redor do pescoço dele. Ele aspirou ao perfume em seu pescoço, em seguida, o calor dos lábios aqueceu a pele onde tocou. Uma troca de olhares. As mãos dela descansaram em sua nuca. Emmett sorriu. A expressão no rosto dela foi de estranheza.
— Olhe na direção da porta.
Ao fazer como sugeriu, Rosalie descobriu que Luna os espiava. Um pouco da franja e um olhinho azul espreitavam no limiar da porta.
— Parece que temos companhia — brincou Emmett. — Uma pequena princesa ou seria uma fada? Ajude-me a decidir.
A risadinha chegou aos ouvidos de ambos.
A expressão de Rosalie ao olhar para o marido dizia querer apertar a criança com abraços e beijos.
— Fada ou princesa? — perguntou ela.
Luna apareceu no limiar da porta, risonha.
— Uma pincesa pequenina.
— Conte para nós — pediu. — Qual sua princesa favorita?
— Banca de neve.
— Um neném Branca de Neve perfeita.
Luna deu dois passos, entrando finalmente no escritório. Makena parou logo atrás dela.
— Papai, os legumes no forno.
— Esqueci — respondeu.
Rosalie saiu do colo, permitindo-o se levantar.
— Tomara que não tenha queimado.
— Luna não qué legumes queimados. Tem gosto uim.
Emmett e Rosalie não conseguiram disfarçar o sorriso.
Ele saiu apressado, com a filha mais velha o seguindo de perto.
Rosalie segurou na mão de Luna e foram logo atrás.
— Não se preocupe, não vamos comer legumes queimados.
— Pô causa que não é bom.
— Isso mesmo. Legumes queimados não são nada bons.
Luna inclinou o rostinho.
— Ose tá feliz de novo.
Rosalie sorriu para ela.
— Vamos ver o que o papai e a mana aprontaram na cozinha?
Uma corridinha, no ritmo da criança, as levou à cozinha.
Emmett e Makena olhavam os legumes queimados na assadeira em cima da pia.
— Perdemos o nosso jantar, parte dele pelo menos.
— A culpa é sua, papai.
— Era minha ajudante, tecnicamente também é culpada.
— Ajudante no preparo, não responsável pelo processo de cozimento.
Emmett passou a mão na cabeça da filha.
— Tem razão. Isso é culpa minha.
Rosalie chamou a atenção para si ao dizer:
— Posso preparar uma salada para acompanhar nosso jantar.
— Sugestão aceita.
Makena se afastou da pia.
— Luna também pode vê os legumes queimados?
— Pode ver, sim, meu anjo — Rosalie respondeu.
Emmett levantou a menina para ela conseguir ver na assadeira.
— Você também acha que o papai é culpado?
— Acho que foi culpa do fono.
— Do forno?
— Ficou igual a um dagão, cuspindo fogo.
O pai deu risada.
— Viu só, foi tudo culpa do forno dragão.
O sorriso desenhou os lábios de Rosalie outra vez. De canto de olho, ela percebeu Makena rolar os olhos.
— Esme esteve aqui hoje — contou finalmente.
Emmett colocou Luna de volta no chão.
— Ela pediu uma confirmação quanto ao jantar na casa dela na sexta-feira. Disse que daria uma resposta após saber sua opinião. — Relanceou os olhos em Makena.
— Não vejo problema em irmos ao jantar. Pode confirmar o convite.
— Eu não quero ir, papai.
Ele se aproximou da ilha, permitindo Rosalie passar para pegar os ingredientes da salada na geladeira.
— Não será tão ruim quanto imagina.
— Aposto que sim.
— Luna gota de Esme.
— Você gosta até mesmo dessa daí — resmungou Makena.
— Não fale assim, Kena. É Ose, o nome dela.
Com parte dos ingredientes em mãos, Rosalie conteve a vontade de rir.
— Quem se importa.
— Sua irmã tem razão. Não volte a se referir à Rose de maneira depreciativa.
— Tanto faz.
— Luna, você quer me ajudar a preparar a salada?
— Sim, sim, sim.
[…]
A água escorrendo na pia enquanto Kate lavava as mãos. O cheiro da comida no fogo. Esme conferindo uma das panelas. O som da faca na tábua de corte enquanto Rosalie picava alguns legumes. Logo ali, no banco ao lado, Tanya mexia no celular.
— Parece que as crianças estão se entendendo — comentou Esme ao se aproximar da ilha.
Kate fechou a torneira e usou o pano de copa para secar as mãos. Observou o rosto de Rosalie, pensando no silêncio dela, desde que entrou na cozinha.
— Sei que você está sempre preocupada com o como Makena irá reagir ou mesmo dizer. Tente não deixar isso te paralisar. Está tudo bem agora.
— Será mesmo? — Tanya questionou, deixando o celular na bancada.
— Tanya… — Esme pediu.
— Ah, qual é? — continuou mesmo assim. — Sabemos que a vida de Rose não anda nada tranquila desde a chegada das crianças. É tormento atrás de tormento. A mais velha vive em pé de guerra com ela.
— Pare com isso, Tanya — Kate alertou.
— Rose finge que está tudo bem. Sabemos a verdade.
Rosalie deixou a faca cair na bancada.
— Não fale assim. Não quero que Emmett escute. Estamos fazendo o nosso melhor pelas meninas e pelo nosso casamento.
— No seu lugar, já teria dado uma boa surra naquela peste. Mostrado a ela quem manda de verdade.
Esme pôs a mão sobre a de Tanya.
— Não está ajudando. A menina precisa de paciência e cuidado. Ela acabou de perder a mãe, toda sua vida mudou rapidamente. Ela está com raiva agora.
— Uma mãozada no pé do ouvido ajudaria.
— Nunca faria nada assim.
— Por isso, a garota não te respeita.
— Respeitar ou ter medo?
— Bobagem. Ontem mesmo, jogou parte de sua maquiagem na lixeira.
O olhar de Rosalie buscou o de Kate.
— Contou para ela? Não era para contar.
— Como assim? Vão ficar de segredos as duas? Ainda sou sua irmã, Rose.
— Não é sobre ter segredos, Tanya. Na maioria das vezes, você age sem pensar e não considera as consequências de seus atos. O que o outro irá sentir.
— Que bom que Kate me contou. Você ama Emmett demais.
— Essa é a razão de ele ser meu marido. Não me casaria com alguém que não amo.
— Esse é o problema. O amor te deixa vulnerável a ponto de permitir uma criança atormentar sua vida.
— Estou tentando fazer com que se sinta acolhida. Não fazer disso uma disputa.
Esme olhou de Rosalie para Tanya.
— Vocês estão brigando?
— Claro que não — Tanya negou.
Rosalie se levantou da banqueta.
— Aonde você vai? — Kate pediu.
— Preciso ficar um pouco sozinha. — Ela se encaminhou à porta dos fundos.
— Rose — Esme chamou.
— Está tudo bem. Volto em alguns minutos.
— Rose… — Kate tentou.
Rosalie respirou o ar fresco do fim de tarde. Sentou-se no sofá de vime na varanda dos fundos, olhando o pôr do sol.
— Vamos deixá-la um pouco sozinha — Esme sugeriu.
— Tanya, por que fala essas coisas? — Kate voltou a falar.
— Rose é uma boba de coração mole, igual a vocês duas. Só que, uma hora, não vai aguentar mais. Todo mundo tem um limite.
[…]
Sentada ao lado de Jonah no sofá da sala de TV, Makena jogava videogame. Luna e Alyson montavam um castelo com blocos de montar. Jonah parou de jogar, mantendo o controle nas mãos.
— Por que não gosta dela? — ele tentou.
— Vai perder o jogo — Makena alertou.
— Não importa. Por que você não gosta de minha irmã?
— Qual delas?
— Você sabe de quem estou falando.
— Ela é culpada de meu pai ter abandonado a gente — respondeu sem deixar de olhar a tela.
— Não acho ter feito o que diz. Rose não é assim.
Makena atirou o joystick no assento do sofá.
— É claro que vai ficar do lado dela, como todos nessa casa.
— Você não precisa me atacar. Não sou seu inimigo.
— Ela quer o papai só para ela. Sua irmã não gosta de mim.
— Acho que é o contrário. Você que não gosta de minha irmã.
— Não preciso de alguém que defenda a centopeia amarela.
— Quero ser seu amigo, Makena. Mas você precisa saber que não gosto que fale de minha irmã dessa maneira. Ela não é uma centopeia.
— Então, não faça perguntas que tenham relação com ela.
— Vocês poderiam ter uma boa relação de respeito e amizade. Minha mãe é madrasta de Rose e elas se dão muito bem.
Makena se levantou, ao dar o primeiro passo, esbarrou no castelo que as meninas montavam com blocos.
— O que você fez? — Alyson lamentou parte do trabalho delas ser derrubado. — Vamos ter de fazer tudo de novo. Estava quase pronto.
Makena percebeu Kate no umbral da porta.
— Está tudo bem, filha — disse. — Ela não fez deliberadamente — percebeu o desconforto em Makena quando essa desviou o olhar.
— Ela nem pediu desculpas, mamãe.
Makena saiu de lá, passando ao lado de Kate sem nem olhar em seu rosto.
— Releve, os últimos dias têm sido difíceis para ela.
— É porque a mãe dela morreu?
Luna deixou cair um bloco de montar no carpete. Seus olhinhos marejaram.
— Luna — Kate observou.
A criança se levantou, chegando mais perto.
— Você está bem, querida? Posso fazer algo por você?
— Acho que ela ficou triste com o que eu disse — Alyson comentou. — Me desculpe, Luna.
— Quer que te leve até a Rose?
A menina moveu a cabeça, confirmando. Kate ofereceu a mão. Luna observou como pensasse se deveria aceitar. Foram de mãos dadas à sala de estar onde Carlisle, Emmett e Garrett conversavam. Makena também estava lá, sentada ao lado do pai, segurando no braço dele, enquanto descansava a cabeça ali. Não demorou, ele percebeu a chegada de Luna.
— Está tudo bem? — perguntou.
— Vou levá-la até Rose.
Emmett anuiu.
— Vai levar quem até mim? — Rosalie tentou descobrir ao chegar à sala de estar e ouvir parte da conversa.
Luna soltou a mão de Kate, indo encontrá-la do outro lado. Sua mão pequena buscou a mão que sempre a confortava.
— É você, meu amor? — Olhou a criança. — Quer me contar o que aconteceu? — Levou a outra mão sobre a de Luna, fazendo um afago.
— Senti saudade — contou.
— Eu também senti saudade sua — sorriu.
— O que você estava fazendo?
— Luna fez um castelo com blocos de montá.
— E tinha uma princesa nesse castelo?
— Tinha duas.
— Duas? Quais os nomes delas?
— Pincesa Aulola e pincesa Ose.
— A princesa Aurora e a princesa Rose. Eu adorei, sabia?
— Mas a pincesa Aulola sumiu e o eino ficou tiste. Então a pincesa Ose chegou e tudo começou ficá bonito de novo.
Rosalie afagou o rostinho que mostrava confusão e tristeza.
— Vem cá! — Pegou-a no colo. Beijou seu rosto, murmurou ao pé do ouvido: — Você é um presente em minha vida.
Os pequenos braços envolveram seu pescoço; a cabeça descansou em seu ombro, os dedinhos se enroscaram em uma mecha de cabelos louros.
Sentada ao lado do pai, Makena as observou com um misto de tristeza, saudade e ciúmes. Rosalie sentou-se ao lado do marido e Luna ficou em seu colo. A mão encontrou a mão dele e seus dedos se entrelaçaram. Makena os olhou de rabo de olho. E quando a irmã tentou pegar em sua mão, evitou bruscamente o contato.
[…]
O carro parou na entrada de veículos da casa deles. Makena foi a primeira a sair. Emmett soltou o cinto de segurança, seu olhar encontrou o de Rosalie. Ela tocou brevemente sua mão. Olhou Luna na cadeirinha no banco de trás, retirando também o cinto.
— Eu te ajudo — ofereceu, já saindo do carro, se colocando ao lado da porta traseira, na qual abriu e deu a mão à criança.
— Luna conseguiu.
— Sim, você conseguiu. — Um sorriso brincou no rosto de Emmett. — Muito bem, minha princesa. Bate aqui! — Ele colocou a mão para ela bater.
Makena os aguardava na frente da porta. Rosalie seguiu de mãos dadas com Luna, Emmett logo atrás delas.
— Luna pode tomá um pouquinho de leite? Pode, Ose? Pode, papai?
No rosto de Rosalie a sombra de um sorriso.
— Rose vai colocar o leite para você, pode ser?
— Pode sê.
Fez um afago no alto da cabeça dela. Em sua visão periférica, percebeu Makena se aproximando da escada.
— Espere um pouco, filha. Quero conversar com você.
— O que fiz agora?
— Nada, quero somente conversar um pouco.
A menina relanceou os olhos na direção onde Rosalie estava.
— Estou indo para a cozinha com Luna, fiquem à vontade.
— Vamos, Ose.
— Vamos, meu amor.
— Pare de chamá-la assim. Luna não é seu amor.
— Não, Kena. Não fale assim com Ose.
— Pare de ficar amiguinha dela — acusou a irmã.
Emmett moveu a mão, mostrando o sofá onde sentar.
— Sente-se. Deixe sua irmã fazer o que a deixa feliz.
Um resmungo mostrou o quanto estava aborrecida. Sentou-se unindo ambas as mãos no colo.
— Sobre o que quer conversar, papai?
Emmett sentou-se ao seu lado e segurou sua mão.
— Quero dizer que estou feliz que tenha se comportado na casa do pai de Rose hoje.
— Ah, é isso.
— Você e Jonah parecem que se tornaram amigos.
— Apesar de ser irmão dela, ele até que é legal.
— Ah, qual é! Rose também é legal.
— Não quero falar sobre ela. — Puxou a mão de volta.
— É sobre você que quero falar.
Ele conseguiu sua atenção outra vez.
— Por que não quis andar de bicicleta com Jonah e Alyson quando te convidaram?
— Não estava com vontade.
— Está mentindo para mim.
— Não estou, não.
— Seus olhos ficaram tristes, exatamente como agora. Está lembrando o motivo pelo qual disse não a eles. — Limpou a lágrima no canto do olho dela com o polegar. — Conte para o papai a origem desse sentimento.
Ela encarou as mãos unidas sobre o colo. Mexeu os dedos com impaciência.
— Não sei andar de bicicleta.
— Isso não é um problema, meu amor.
— É, sim — bradou. — Você me enganou.
— Como?
— Disse que me ensinaria a andar de bicicleta e não ensinou.
Ele a acolheu com braços afetuosos.
— Esperei você, papai. O vovô e a mamãe até tentaram me ensinar, mas eu não aceitei. Havíamos planejado fazer isso juntos.
— Me perdoe, filha.
— Não importa mais.
— É claro que importa. Ei! — Tocou o queixo dela. — Importa muito. Olhe para mim.
Havia tristeza nos olhos dela ao fazer isso.
— Vou cumprir essa promessa, mesmo com atraso.
Ela moveu a cabeça, sem muita animação. Ele beijou sua testa.
— Minha menina linda. Aurora te ensinou patinar no gelo. Seu avô te ensinou a andar a cavalo. Andar de bicicleta é meu dever, não é?
Outra vez, ela moveu a cabeça.
— Quer ir comigo amanhã escolher sua bicicleta?
— É sério, papai?
— Muito sério.
Finalmente, o desenhar de um sorriso apareceu no canto dos lábios dela. Ela se levantou, passando os braços ao redor do pescoço do pai.
— Obrigada, papai.
Rosalie e Luna retornaram à sala. A menina trazia numa mão o copo com leite. Ambas aguardaram.
— Agora você pode subir. Escove os dentes e vista o pijama. Logo estarei lá para te dar um beijo de boa-noite.
O abraço foi desfeito.
— Está bem, papai.
Rosalie esperou ela estar subindo a escada para perguntar:
— Está tudo bem? Ela contou o que aconteceu?
— Sim. — Estendeu o braço para Luna. — Venha sentar aqui perto do papai.
Luna subiu no sofá, ficando coladinha a ele.
— Sente também, Ose.
Ele sussurrou ao ouvido da esposa tão logo ela sentou ao lado da criança.
— Luna te guardou no coração.
O olhar de afeto revelou que Luna também estava em seu coração.
[…]
Pai e filha trabalharam juntos na montagem da bicicleta. Emmett parou admirando o trabalho concluído. Observou Makena, cujos cabelos presos no alto da cabeça pareciam bagunçados. Olhou o jardim pela porta da garagem aberta.
— Pronta para inaugurar a bicicleta?
— Acho que sim.
Ele terminou de guardar as ferramentas na caixa, depois no armário da garagem.
— Vamos lá? Ei! — Cutucou no braço dela ao perceber que estava distraída. — Em que está pensando?
O olhar da menina encontrou o seu.
— Parece que estou sonhando, papai.
— Não é sonho, meu bem. — Cutucou no braço dela novamente. — Vamos fazer essa promessa se tornar real. — Recolheu o tripé da bicicleta, modelo retrô vintage, branca com cestinha cor salmão.
— E se eu cair?
Emmett colocou o capacete na cabeça dela. E lhe entregou as joelheiras e cotoveleiras.
— Não vai acontecer. Estarei o tempo todo ao seu lado.
— Por que colocar tudo isso, então?
— Só por garantia.
O modo como olhou para ela dizia muito sobre todas as promessas negligenciadas.
— Sei que falhei com você algumas vezes. Mas dessa vez, farei diferente.
O semblante no rosto da menina tornou-se sereno.
— Não me deixe cair.
Emmett levou a bicicleta para a rua, com a menina acompanhando de perto. Se aproximava das quatro da tarde daquele sábado. Algumas nuvens encobriam o sol, uma leve brisa soprava seus rostos e as folhas no jardim.
Makena montou na bicicleta. Segurou firme nos guidões, respirou fundo.
— Não me deixe cair, papai. Não é para soltar.
— Só quando estiver pronta.
Ela moveu a cabeça, concordando. Pôs o pé no pedal e deu o impulso inicial. Pedalou até o final da rua, sempre com o pai segurando na sela da bicicleta. Retornaram ao ponto inicial e refizeram todo o caminho mais uma vez. Em alguns momentos, tremia o guidão como fosse perder o controle, ou punha os pés no chão em vez de usar os freios. Emmett tropeçou por duas vezes enquanto corria tentando acompanhar o ritmo da bicicleta. Na primeira vez que aconteceu, Makena quis saber se estava bem. Na segunda, somente deu risada.
Após aproximadamente uma hora repetindo o mesmo trajeto, ambos estavam cansados. O pai muito mais que a filha. O suor brilhando na testa. Makena desceu da bicicleta.
— Podemos tentar amanhã de novo, papai?
— Podemos, sim. Amanhã posso tentar deixar você ir sem segurar?
Ela pareceu ponderar.
— Acho que sim.
Perceberam o carro de Rosalie chegando. Ainda lembrava do que fez com o veículo, sempre que via o mesmo.
— Vou levar a bicicleta para dentro — Makena avisou. Ela parou, olhou para trás. — Obrigada, papai.
As covinhas brincaram no rosto de Emmett.
O carro estacionou logo atrás do dele na entrada de veículos. Ele se aproximou. Olhou Makena entrando na garagem com a bicicleta. Luna cochilava quando a tirou da cadeirinha. Ambas estavam com os cabelos úmidos e cheiravam a água do mar. Toalhas úmidas encobriam o assento que ocuparam.
— Parece que essa pequena se cansou — comentou num tom de brincadeira. — Como foi lá? — Beijou nos lábios da esposa brevemente. — Vocês se divertiram?
— Luna brincou bastante. Não tem medo algum do mar. — Reparou no suor no rosto do marido. — Correu atrás da bicicleta? — Havia um sorriso se desenhando ao fazer a pergunta.
— Ela pedalou bastante, porém, não o suficiente para ter de ir sozinha ainda.
— Com sua dedicação, não vai demorar acontecer. Makena tem espírito aventureiro, isso facilita. É melhor acordar Luna, ela vai precisar de um banho.
— Todos precisamos de um banho agora.
— Não tenho dúvidas quanto a isso.
Makena os olhava da porta da garagem.
Luna levantou a cabeça do ombro do pai.
— Luna também pecisa de uma bicicletinha — disse.
Ambos riram de sua fala inesperada.
— Papai comprou uma para você.
— Com odinhas?
— Sim, com rodinhas.
— Eu ajudei o papai a escolher — Makena lembrou.
— Posso vê, papai?
— Pode ver, sim.
— Ela é lilás?
Ele a colocou no chão.
— Vá até lá descobrir.
A menina se aproximou da garagem.
— É lilás, Kena?
— Vem ver! — Segurou na mãozinha da irmã, levando-a para dentro.
— Oh, é tão linda. E é lilás. — Admirou a bicicleta pequenina com cestinha. — E tem odinhas.
Emmett e Rosalie trocaram olhares, com um sorriso no rosto, ao ouvi-la comentar quando chegavam à garagem.
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