Laços Inquebráveis
11 Capítulo 11 — Decisões
Notas iniciais
A porta do quarto se fechou devagar atrás das costas de Rosalie. Permaneceu por um momento encostada à porta, refletindo sobre tudo o que estava acontecendo. As palavras agressivas de Makena não deixavam de lhe dar a sensação de melancolia. Ela olhou para a frente e viu o porta-retratos, na mesinha de cabeceira, uma linda fotografia de casal, sorrindo. Observou a cama vazia. Um pensamento sobre a ausência de Emmett ali nos últimos dias, lhe ocorreu. Sentia falta da companhia dele, de como era antes.
Se afastou da porta, pensando que não deveria se sentir assim. Emmett estava cuidando das meninas, das coisas delas. Se ao menos pudesse ajudar. Ela saiu pelo corredor. Ao se aproximar do quarto das meninas novamente, percebeu o choro da mais velha. Olhou de forma discreta no vão da porta; a menina segurava o vestido da mãe, a dor da saudade estampada nas feições.
Abaixou a cabeça ao sair de lá, sem chamar atenção. A porta do banheiro, onde o marido auxiliava Luna a escovar os dentes, estava aberta. Conseguiu ouvir a água da torneira caindo, na sequência, ele elogiando os dentinhos de leite da filha. Observou os dois por um instante. Emmett fechou a torneira, a escova de dentes da criança ficou no suporte. Ele se afastou para pegar uma toalha limpa no armário atrás da porta.
Luna notou sua presença com olhos tristes. Emmett se apressou assim que percebeu a criança tentando descer da bancada da pia.
— Espere! Papai vai pegar você. — Secou o rosto e as mãos pequeninas na toalha limpa. — Papai precisa comprar uma escadinha para te auxiliar aqui no banheiro.
Rosalie se afastou, a caminho da escada.
Emmett colocou Luna no chão. A menina correu para perto do vaso sanitário.
— Na verdade, preciso comprar também um adaptador para vaso sanitário e uma cadeira de alimentação adequada para sua idade. — Ajudou a criança sentar no vaso e deixou que fizesse suas necessidades.
Havia roupas sujas de Makena no chão, mesmo o cesto de roupas estando vazio. Não teve dúvidas, foram deixadas ali de propósito. Recolheu as peças pensando nisso.
Luna saiu do banheiro sem ele perceber. Ela olhou os dois lados do corredor e começou andar devagar. Passou direto pelo quarto delas e foi parar diante a porta do quarto do casal. Esticou os braços, forçando a maçaneta, enquanto tentava abrir. Moveu os lábios como pedisse ajuda, mas não emitiu nenhum som. Bateu à porta de forma quase imperceptível. Aguardou com ansiedade.
Emmett saiu atrás dela no instante que notou sua ausência.
— O que aconteceu, meu amor? Você errou de quarto? — Segurou na mão pequena dela. — Papai vai levar você para a cama agora.
Luna não se moveu. Ele se abaixou até estar na altura dos olhos dela.
— Quer falar algo para o papai? — Afagou o peito da criança com carinho. — Vamos, você consegue.
Os olhinhos da menina encheram-se de lágrimas.
— Não, não chore. — Passou a mão no rosto triste. A pegou no colo e ficou de pé. — Não conseguiu falar agora, não tem problema. Em breve irá conseguir. — Ele voltou ao quarto das meninas, carregando Luna nos braços, no entanto, os olhos dela estavam concentrados na porta do quarto dele.
Encontrou Makena com o vestido da mãe sobre a cama. Chegou mais perto; a tristeza nos olhos dela torou-se sua tristeza. Era extremamente difícil assisti-la chorar a ausência de Aurora, sem poder mudar o que aconteceu. Colocou Luna ao lado da irmã, a menina engatinhou para cima do vestido e com a mão pequena acariciou o tecido. Ele sentou na beirada do colchão. Gentilmente, afagou as costas de Makena, que se encolheu.
— Olhe para mim, meu amor — pediu. Luna foi quem olhou. Ele afagou o rostinho e o queixo dela. Depois acariciou os cabelos da mais velha. — Por favor, me deixe ver os seus olhos.
Luna ficou prestando atenção.
— Não quero — murmurou Makena.
— Por favor… — Ele buscou na memória a canção que costumava cantar para ela, logo que nasceu: “Isn't She Lovely”, Stevie Wonder.
Não parou de cantar mesmo quando, finalmente, o olhou nos olhos.
— Papai — murmurou, entre lágrimas, dessa vez, porém, suas lágrimas eram de alívio por estar ao lado dele.
Emmett segurou nas mãos dela, tão pequenas quando junto às suas. Quando a canção chegou ao fim, também tinha lágrimas nos olhos. Limpou as lágrimas no rosto de Makena com uma das mãos.
— Minha filha linda… — murmurou.
— Papai.
— Pode falar, meu amor.
— Por que isso tinha de acontecer? — pediu com a voz embargada. — Por que o vovô e a mamãe tiveram de morrer?
Emmett afagou o rosto dela.
— Eu não sei.
— Deveria ter ido com eles, assim também teria morrido naquele acidente.
— Não diga isso. — Ele olhou Luna, os olhinhos dela cheios de lágrimas. — Não volte a dizer isso, Makena. Sua irmã e eu ficaríamos muito tristes.
— Não é verdade, você ficou muito tempo sem me ver, ainda assim, continuou sorrindo.
— Havia momentos em que meu rosto parecia feliz, mas o meu coração estava triste por não ter você ao meu lado.
— Então, por que não voltou? — Uma lágrima correu a bochecha dela. Emmett limpou no polegar. — Eu te esperei, papai.
— Aconteceram coisas.
— Que tipo de coisas?
— Não importa agora.
Ela desviou o olhar, se mostrando magoada.
— Pensei que estivesse feliz do jeito que estava, filha.
— Não estava. Eu queria ver o meu pai. Queria você ao meu lado.
Ele segurou as mãos de Makena e as beijou.
— Minha menina linda. Meu amor.
— Agora fiquei sem a mamãe. — Um soluço fez o peito dela tremer.
— Por favor, não chore mais.
— Não consigo, doí muito.
Emmett a acolheu nos braços. Beijou no alto da cabeça e a ninou como fazia quando era menor. Luna se encostou a ele. Beijou no alto da cabeça dela também. Seus olhos localizaram o vestido de Aurora sobre a cama.
— Siga em frente, soldadinha. Sei que sente falta de sua mãe. E o quanto ela te amou. Não tenha medo, eu estou aqui. Passaremos por isso juntos. Papai está aqui para te ajudar.
[…]
Rosalie deixou cair junto aos seus pés o pincel sujo de tinta. Nunca chegou fazer curso de pintura em tela, mas tinha muita facilidade em manusear tintas e pinceis. Assim como entrar no mar, a pintura ajudava relaxar a mente.
Recolheu o pincel e voltou avaliar a pintura na tela cujo cavalete a mantinha de pé. Uma floresta noturna estava em andamento. Deixou o pincel e paleta na mesinha de apoio. Usou lenços de papel para limpar os respingos onde o pincel caiu.
Ali mesmo no escritório mantinha alguns dos quadros que pintou, a maioria encostados à parede num canto ao lado da porta, sem um lugar definido ainda.
Após um tempo, ouviu o choro de Luna. Pensou no esforço de Emmett para fazê-la dormir enquanto tentava descobrir como aliviar o medo e angústia que sentia.
Olhou na porta do escritório por duas vezes, pensando em ajudar. Sabia que Makena não permitiria se aproximar. Tentou continuar pintando, mas o barulho no andar de cima chamava a tenção o tempo todo para lá.
Parou com a mão na porta. Ao sair, faltou coragem para subir a escada. Voltou ao escritório. O choro de Luna parecia chamá-la, mas quando pensava em Makena, sabia que tinha de ficar onde estava. Pegou o celular na mesa de trabalho e colocou os fones de ouvido. Deixou a música se sobrepor ao choro da criança de modo a bloquear o desejo de ir vê-la. Ainda assim, os primeiros minutos testaram seu controle.
[…]
Emmett sentou na beirada da cama com Luna nos braços. Mesmo muito cansada, não conseguia dormir com facilidade. Deu voltas e voltas pelo quarto, tentando fazê-la pegar no sono.
Fazia um tempo, Makena encobriu os ouvidos com o travesseiro. Ele lamentou, em silêncio, nenhuma delas conseguir dormir.
Decidiu sair do quarto. Quando abriu a porta, a mais velha levantou a cabeça para ver o que estava fazendo.
— Papai?
Ele olhou para ela, uma mão na maçaneta da porta, outra segurando Luna.
— Vou ficar um pouco lá embaixo. Quando Luna dormir, eu a trago para a cama.
— Por quê?
— Vai ser melhor assim.
Makena voltou deitar a cabeça no travesseiro.
— Ela sente falta da mamãe.
— Eu sei. Só tente dormir agora.
Ele saiu para o corredor e fechou a porta. Afagou as costas de Luna, olhando a porta fechada do quarto dele e Rosalie, imaginando se estaria dormindo ou, assim como os outros, também não conseguia.
— Shhhh… — murmurou. — Não chore mais, meu anjinho. — Beijou na bochecha úmida de lágrimas. — Me parte o coração não ser capaz de te ajudar. Queria muito poder ouvir sua voz. — Começou descer a escada, murmurando a canção de ninar “Brilha, brilha, estrelinha”. A noite se tonou madrugada. Finalmente, Luna dormiu, com a cabeça em seu ombro, os braços em volta de seu pescoço. Estava sentado no sofá, encarando o teto. Levantou com cuidado e começou subir a escada a caminho do quarto.
Abriu a porta devagar, tentando não acordar a criança que dormia na cama e a outra em seus braços. O cômodo estava iluminado pela luz tênue do abajur. Com movimentos cuidadosos, colocou Luna na cama, a cobriu e depositou um beijo na testa. Foi ao outro lado, se aproximou da cama de Makena, ajeitou o cobertor em volta dela, sem deixar de reparar no braço pendurado para fora do colchão. Beijou na testa dela, assim como havia feito com Luna. Fechou a porta ao sair.
Não encontrou Rosalie no quarto deles. Voltou ao térreo na esperança de encontrá-la por lá. A encontrou no escritório, dormindo no sofá de dois lugares, próximo à janela com vista para o jardim na lateral da casa.
Se aproximou. Retirou-lhe os fones de ouvido. Pegou o celular dela e deixou no braço do sofá. Cuidadosamente a recolheu nos braços. Ela reconheceu estar sendo carregada no colo enquanto ele subia a escada. Abriu os olhos, sonolenta, com o rosto colado ao peito largo. Inalou o perfume dele com um misto de reconhecimento e saudade. O olhar dele encontrou o seu, mesmo com aparência cansada, ele abriu um sorriso.
— Dormiu no sofá do escritório.
Rosalie passou os braços ao redor do pescoço dele. Emmett encostou os lábios no alto da cabeça dela com um beijo descansado.
— E as meninas? — ela pediu.
— Estão dormindo.
— Ouvi o choro de Luna. Outra vez, ela teve dificuldade para pegar no sono.
Emmett chegou ao patamar da escada.
— Tem sido assim desde que Aurora não voltou para casa. Carmen me contou.
Rosalie afagou o ombro dele com uma das mãos.
— Você pode me pôr no chão.
— Ainda consigo carregar minha esposa nos braços até nosso quarto.
— Não foi isso que quis dizer.
— Eu sei. — Ele olhou para frente ao dizer: — Já estava sentindo falta disso. De nós dois.
Rosalie agradeceu com um beijo no peito dele.
— Eu também.
Abriu a porta do quarto deles, levando-a até a cama. Ela fez que iria levantar, mas ele indicou que ficasse onde estava.
— Pegue um pijama para mim — pediu ela.
— Qual deles?
— O primeiro que encontrar.
Emmett se afastou, desaparecendo no closet dela.
Retornou no momento que o vestido passava pela cabeça dela, de modo que os cabelos descasaram nos ombros nus, em mechas. Rosalie vestiu o pijama branco de cetim; blusa de mangas curtas, gola e fechamento frontal com botões. O short de cintura alta de cós com elástico.
Emmett entrou no próprio closet e voltou vestido em um short de pijama preto. Se acomodou no lado que costumava dormir na cama. Abriu o braço deixando que Rosalie se aconchegasse ao seu peito nu. Inalou o perfume nos cabelos dela com prazer.
— Cheirosa — elogiou, deslizando os dedos nas costas dela em movimentos circulares. — Tenho que te falar uma coisa — disse.
Rosalie inclinou o queixo ao olhar no rosto dele.
Ele aproveitou para juntar os lábios aos dela com um beijo breve.
— Precisamos encontrar uma casa maior. Com quartos suficientes, onde cada uma das meninas tenha o seu. Makena não ficou contente por ter de dividir o quarto com a irmã. E Luna precisa de um cantinho onde tenha tranquilidade.
— Gosto dessa casa — admitiu Rosalie. — Foi uma boa escolha para o momento que vivíamos. Agora estamos em outra fase e, sim, as meninas precisam de cada uma ter seu próprio espaço.
— Não decidirei nada sem que as três mulheres de minha vida, validem.
— Ainda é estranho para mim.
— O quê?
— Sobre sermos três mulheres em sua vida.
— Como isso te faz sentir?
— Que preciso me acostumar. — Ela voltou inclinar o queixo.
Emmett apertou os braços em volta do corpo dela, enquanto se beijavam com intensidade.
Passado um instante, sem falarem nada, ele comentou:
— Irei reservar todas as fotografias das casas em potencial para apresentar as três. As mais votadas, faremos as visitas.
— Parece bom para mim.
— Obrigado por me apoiar com tudo isso.
Rosalie apertou os braços ao redor do corpo dele.
— Boa noite — murmurou, cansada demais para continuar acordada.
Os lábios dele tocaram os fios dos cabelos dela no alto da cabeça.
— Durma bem.
[…]
Já pela manhã, tomaram banho juntos.
Rosalie aguardou estarem prontos para sair, para então questioná-lo:
— O que pensa fazer hoje, em relação às meninas?
— Levá-las comigo outra vez. Tenho de levar Makena para comprar material escolar, para iniciar na escola nova.
— Posso ficar com Luna, se você quiser. Me ofereceria para ficar com Makena também, mas ela não aceitaria.
— Ela está inflexível quanto a isso. Mas, você não vai à floricultura hoje?
— Posso ir agora pela manhã, não vai me atrapalhar. À tarde, eu volto e ficamos por aqui mesmo, se aceitar que eu fique com Luna. Planejo fazer umas coisas quando voltar.
Emmett chegou mais perto, se inclinou beijando-lhe o canto dos lábios.
— Vai ser bom para Luna ficar algumas horas longe da fúria da irmã.
— Só tem um problema — lembrou Rosalie. — Makena vai rejeitar.
— Então não direi que Luna vai ficar com você até que estejamos no carro. Ela vai ficar brava, mas também ficará irritada se perguntarmos o que pensa sobre isso. Vai me condenar, mas agora, eu também preciso pensar em Luna.
Ambos saíram do quarto. Próximo ao quarto das meninas, Rosalie avisou:
— Vou descer para preparar nosso café da manhã.
Emmett moveu a mão a caminho da porta.
— Vou vê-las.
— Eu sei. — Ela continuou andando a caminho da escada.
Ele bateu à porta, e aguardou um instante para entrar.
Makena já estava acordada. Ela olhava uma fotografia da mãe ao lado do avô. Viu que Luna também estava acordada, ela observava a irmã da caminha ao lado.
— Já estão acordadas — observou. — Bom dia. — Se aproximou da cama de Makena primeiro. Fez um afago nos cabelos dela. — Preciso que se troque. Vou levá-la comigo outra vez.
A expressão de desagrado marcou o rosto da menina.
— Hoje vamos comprar o material escolar. Tentaremos fazer isso no horário do almoço.
— Não quero ir, papai.
— Enquanto não começa na escola, terá de ir comigo para o trabalho. Vamos, levante, querida.
Makena resmungou algumas vezes, somente então começou sair da cama.
Emmett foi perto da cama de Luna e fez carinho no rosto dela.
— Bom dia, meu anjinho. Quer vir no colo do papai?
Confirmando a pergunta, Luna lhe estendeu os braços. Ele a pegou no colo com cuidado.
Makena saiu do quarto para entrar no banheiro no outro lado do corredor.
Emmett escolheu uma muda de roupa para Luna vestir essa manhã e também um par de sandálias.
Makena retornou ainda enquanto penteava os cabelos da irmã.
— Posso escovar seus cabelos também — ofereceu.
— Não precisa, papai. Posso fazer isso sozinha.
— Tudo bem. — Ele terminou os cabelos de Luna, colocando o laço combinando com a cor da roupinha dela. — Quando terminar, nos encontre na mesa para o café da manhã. — Antes de descer, levou Luna para lavar o rosto e escovar dentes. Ela aproveitou para usar o banheiro também.
Parou no alto da escada e se abaixou. Segurou nas mãozinhas da filha ao falar:
— Papai vai te fazer uma pergunta. Preciso que confirme como conseguir.
Luna aguardou, olhando no rosto dele.
— Você acha que pode ficar um pouco com a Rose? — Avaliou o rostinho para ver se estava com medo. Ela pareceu tranquila, então continuou: — Papai vai trabalhar no mesmo lugar onde te levei no outro dia. Também levarei Makena para comprar o material escolar. Rose convidou você para ficar com ela hoje. Acha que pode ficar? — aguardou a resposta.
Luna olhou para trás e novamente para ele. Emmett entendeu que procurava a irmã antes de dar a resposta.
— Se você quiser ficar com o papai e a Makena, não tem problema.
Luna balançou a cabeça com um “sim”.
— Sim? Você quer ficar com a Rose e ir à floricultura?
Luna soltou a mão dele para tocar-lhe o rosto. Ela voltou olhar para trás.
— Você quer ficar com o papai, mas não quer fazer isso com a Makena por perto?
Ela voltou balançar a cabeça positivamente. Em seguida, encobriu os ouvidos com as mãos.
— É porque sua irmã grita — ele concluiu. — Tudo bem. — A pegou no colo. — Makena está muito brava, mas isso vai passar.
Luna passou o braço no pescoço dele, deitando a cabeça no ombro largo.
Emmett sorriu, e lhe beijou o rosto.
— Minha garotinha linda. — Começou descer a escada. Nesse momento, viu que Rosalie os esperava. Ela sorriu com ansiedade. — Luna aceitou ficar com você e ir à floricultura — disse ao alcançá-la.
Rosalie alcançou às costas de Luna com a mão, fazendo um afago. A menina levantou a cabeça para olhar para ela.
— Sim? — pediu. — Você disse, sim?
Luna concordou com um sutil movimentar de cabeça. E recebeu um sorriso largo. Com o dedo indicador tocou o sorriso de Rosalie. Ela segurou suas mãozinhas e as beijou.
— Você gosta de waffles?
Luna concordou novamente.
O sorriso voltou aos lábios de Rosalie e seus olhos brilharam ao olhar no rosto do marido. Emmett tocou seu rosto, incapaz de ignorar tão belo sorriso.
Ele acomodou Luna à mesa da sala de jantar. Serviu o pratinho dela com waffles, xarope de bordo, morangos e amoras. E o copinho com leite. Serviu também o prato de Makena, mesmo não tendo se juntado a eles ainda.
— Bom dia — ouviu a esposa dizer, então soube que Makena havia chegado.
A menina não respondeu ao cumprimento. Rosalie voltou olhar a comida no prato.
— Coloquei o mesmo que tem no prato de Luna para você — Emmett comentou. — Sei que gosta. Tem torradas com pasta de amendoim e geleia de morango, caso prefira. Tem ovos mexidos, também.
Makena olhou o prato pronto, isso a fez pensar em quando morava com ele quando menor. Por um instante, o coração aquiesceu. Ela olhou no rosto do pai.
— Está tudo bem? — ele tentou.
— Vou comer na ilha da cozinha — disse, pegando o prato e copo com leite.
— Coloquei seu lugar ao meu lado. Fique e nos faça companhia.
Ela olhou para Rosalie.
— Não posso.
Rosalie a olhou de canto de olho. Quando Makena saiu, acrescentou morangos picados ao prato de Luna.
— Você comeu todos os morangos rapidinho — brincou.
— Makena, filha, volte para a mesa.
— Não vou ficar olhando para essa daí.
Rosalie pôs a mão sobre a dele na mesa.
— Não diga nada — pediu. — Vá ficar com ela.
— Se eu fizer isso, essa atitude vai se repetir sempre. Não quero que seja assim.
Após o café da manhã, Makena pareceu estar com pressa para sair de casa.
— Vamos, papai — chamou da porta da frente.
— Me espere no carro. A chave está aí no aparador.
A menina olhou em cima do móvel. Pegou as chaves do carro e da casa.
— Vem logo, papai.
— Estou indo.
Ela saiu para o jardim.
— Papai.
Desativou o alarme e entrou no carro. Sentou no banco de trás, estranhando a ausência da cadeirinha da irmã.
Não demorou para Emmett aparecer. Ele se acomodou atrás do volante.
— Coloque o cinto — pediu.
— Cadê a Luna?
Ele olhou para ela, virando-se de lado no assento. Makena já estava com o cinto.
— Luna vai ficar com Rose.
— Não pode. — Fez menção de soltar o cinto, porém, o pai segurou sua mão.
— Luna quis ficar.
— Luna não pode ficar com ela — levantou o tom de voz. — Você mentiu para mim, papai.
— Não menti para você. Estou falando a verdade. Luna escolheu ficar.
— Ficou enrolando para sair. Me fez vir para o carro antes de você. Me enganou, papai. — Ela chutou o banco da frente.
— Vai ser bom para sua irmã… Você a assusta toda vez que grita assim.
— Com essa mulher, não. — Começou a chorar. — A mamãe não iria querer.
— Rose não vai machucar sua irmã. Se não confiasse nela, não permitiria Luna ficar.
— Ela já machucou, quando roubou você da gente.
— Não existe isso. — Ele segurou o pé dela antes que chutasse o banco outra vez. — Meu amor, não faça isso. Você vai se machucar.
— Não me importo.
— Mas eu, sim, me importo. Não quero ver você machucada.
— Meu coração está machucado. Minha mãe não vai mais voltar. Me deixe sair.
— Eu deixo, se for para ficar em casa com elas.
— Não vou ficar.
— Então vai ficar no carro até chegarmos à imobiliária. — Ele se voltou para frente. — Se Lunar quiser ficar conosco, Rose vai ligar.
Makena forçou a porta do carro, elas estavam travadas.
— Não faça isso. Posso deixar que fique, se for o que você quer.
— Não quero ficar, papai.
— Então pare com isso.
Makena cruzou os braços. Emmett a olhou pelo espelho retrovisor interno. Ela chutou o banco da frente uma última vez.
Ele ligou o som do carro. “Viva La Vida”, de Coldplay, começou a tocar.
Voltou olhar Makena pelo retrovisor. O olhar dela encontrou o seu. Ela soltou um muxoxo de aborrecimento. Ele começou cantar com a música. Fazendo então uma pausa para perguntar:
— Não quer cantar comigo? Gostava de cantar quando estávamos no carro.
— Não lembro — mentiu.
Ele abaixou o volume da música.
— Quer escolher outra?
— Não.
O som foi desligado.
— Tudo bem — murmurou.
Ela olhou pela janela.
— Assim está melhor.
— Te amo, filha.
Makena olhou disfarçadamente as costas dele, sabendo que podia vê-la no retrovisor.
— Minha menina linda — murmurou ele.
— Eu lembro, papai.
Emmett sorriu.
— Eu sabia, meu amor.
— Mas eu não quero ouvir música agora.
Ele anuiu, passando dirigir em silêncio. Por vezes, olhando a menina no retrovisor, imaginando se voltaria vê-la com um sorriso no rosto.
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